Todos os ingredientes de um clssico romntico: um amor frustrado, cenrios exticos e a vida dos ricos e famosos.
Daily Mail

Santa Montefiore

A RVORE DOS SEGREDOS


BERTRAND EDITORA


Santa Montefiore

Nasceu em Inglaterra em 1970. Cresceu numa quinta em Hampshire e passou grande parte dos anos 90 na Argentina. Licenciou-se em Estudos Espanhis e Italianos pela
universidade de Exeter e fez carreira na rea das Relaes Pblicas. Converteu-se ao Judasmo em 1998 e casou com o clebre historiador Simon Sebag-Montefiore, com
quem vive em Londres, juntamente com os dois filhos de ambos.
www .santamontefiore.co.uk

A RVORE DOS SEGREDOS
#SANTA MONTEFIORE
A RVORE DOS SEGREDOS
Traduo de Carmo Romo
Graa Pinho
BERTRAND EDITORA
Lisboa 2009
#Ttulo original: Meet Me Under the Ombu Tree
Autor: Santa Montefiore
 2001 by Santa Montefiore
Todos os direitos para a publicao desta obra em lngua portuguesa, excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda.
Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1
1500-499 Lisboa
Telefone: 21 762 61 00
Fax: 21 762 61 50
Correio electrnico: editora@bertrand.pt
Design da capa: Vera Braga
Reviso: Fernanda Alves

Pr-impresso: Fotocompogrfica, Lda.
Impresso e acabamento: Tipografia Peres
Depsito Legal n. 286 740/08
Acabou de imprimir-se em Janeiro de 2009
ISBN: 978-972-25-1837-6
#RVORE GENEALGICA DA FAMLIA SOLANAS
HECTOR SOLANA + MARIA ELENA

MIGUEL + CHIQUITA        NICO + VALERIA     PACO + ANNA ALEJANDRO + MALENA
RAFAEL       AGUSTIN SOFIA
NIQUITO    SABRINA      LETICIA       TOMAS
FERNANDO    SANTIAGO     MARIA    PANCHITO
ANGEL     SEBASTIAN      MARTINA      VANESA     HORACIO



Publicada em 2001 esta emocionante histria de amor, desiluso e segundas oportunidades foi a obra de lanamento da escritora inglesa Santa Montefiore.
A protagonista, Sofia Solanas, filha de um argentino de nome Paco e de uma irlandesa, Anne Melody, cresce num magnfico rancho nas pampas argentinas, pas onde 
tambm
cresceu a me da escritora. Enquanto criana Sofia brinca com os primos Maria e Santiago e encontra o seu esconderijo favorito na sombra de um ombu, a nica rvore
nativa das pampas.
Jovem determinada e orgulhosa  amada por todos os que a rodeiam, mas no tem um bom relacionamento com a sua me. Enquanto Anne Melody tenta, com dificuldade, 
adaptar-se
 terra do marido a filha sente-se plenamente enraizada naquela terra que sempre amou. Porm, no dia em que a sua me descobre que ela vive um trrido romance com
a pessoa errada Sofia  obrigada a partir para a Europa e s vinte anos mais tarde voltar ao rancho onde cresceu.

Fonte: http://pt.shvoong.com/books/1808805-%C3%A1rvore-dos-segredos/#ixzz1XhFkoBzb



#AGRADECIMENTOS
Gostaria de estender os meus mais profundos agradecimentos  minha famlia argentina, que me recebeu no seu mundo. Partilharam comigo a sua casa e o seu pas e ensinaram-me
a amar ambos. Sem eles este livro nunca teria sido escrito.
Gostaria tambm de agradecer  minha amiga Katie Rock,  minha agente Jo Frank, ao meu editor Kirsty Fowkes, pelos seus valiosos conselhos, e  minha me, pelas
suas recordaes.

CAPTULO UM
Quando fecho os olhos, vejo as plancies lisas e frteis da pampa argentina.  diferente de todos os outros locais do mundo. Os vastos horizontes estendem-se por
muitos quilmetros - costumvamos sentar-nos no cimo do ombu para ver o sol desaparecer por detrs dele, inundando de mel as plancies.
Em pequena, no TINHA conscincia do caos poltico que me rodeava. Eram os tempos do exlio do general Pron; os anos turbulentos entre 1955 e 1973, em que os militares
governaram o pas, como incompetentes meninos de escola, a brincar ao poder poltico no ptio do recreio. Foram os tempos terrveis da guerrilha e do terrorismo.
Mas Santa Catalina, o nosso rancho, era um pequeno osis de paz, longe da opresso e das escaramuas que tinham lugar na capital. Do cimo da nossa rvore mgica,
olhvamos amorosamente para um mundo de valores antiquados e para uma vida de famlia tradicional, pontificada pela equitao, pelo plo e pelos longos e langorosos
churrascos ao sol ofuscante do Vero. Os guarda-costas eram a nica indicao dos problemas que fervilhavam nas nossas fronteiras.
O meu av, Dermot O'Dwyer, nunca acreditou na magia do ombu. No quer dizer que no fosse supersticioso; todas as noites escondia as suas garrafas de bebida em stios
diferentes, por causa dos duendes. Mas no percebia como uma rvore podia possuir qualquer tipo de poderes. Uma rvore  uma rvore, dizia com a sua rolada pronncia
irlandesa, e mais nada. Mas ele no era feito de terra argentina; tal como a filha - a minha me -, era um estranho e nunca se adaptou. Tambm no queria ser sepultado
no tmulo da nossa
12
famlia. Vim da terra e  terra hei-de voltar, gostava muito de dizer. Por isso foi enterrado na plancie com uma garrafa de bebida - julgo que ainda continuava
ansioso para que os duendes no o enganassem.
No consigo pensar na Argentina sem a imagem escarpada daquela rvore, sbia e omnisciente como um orculo, erguendo-se da superfcie dos meus pensamentos. Sei agora
que ningum pode recuperar o passado, mas essa velha rvore contm dentro da prpria essncia dos seus ramos todas as memrias de ontem e as esperanas investidas
no amanh. Como uma pedra no meio de um rio, o ombu manteve-se igual, enquanto tudo em seu redor se alterou.
Sa da Argentina no Vero de 1976, mas, enquanto o meu corao bater, a sua ressonncia vibrar atravs dessas plancies cobertas de erva, apesar de tudo o que desde
a aconteceu. Cresci no rancho da famlia, ou campo, como se diz em espanhol. O Santa Catalina estava situado no meio dessa plancie que faz parte da vasta regio
oriental a que chamam pampa. Plana como uma bolacha de gengibre, podem divisar-se quilmetros em todas as direces. Estradas longas e rectas atravessam a terra
que  rida de Vero e verdejante de Inverno, mas, nos meus tempos, essas estradas pouco mais eram do que caminhos de terra batida.
A entrada do nosso rancho parecia-se com a entrada das cidades daqueles velhos filmes de cowboy, tinha uma placa enorme, que balanava ao vento do Outono, onde estava
escrito Santa Catalina em enormes letras pretas. O caminho era comprido e poeirento, ladeado por altos ceres plantados pelo meu bisav, Hector Solanas, que nos
finais do sculo xix construiu aquela casa, a casa em que eu cresci. Tipicamente colonial, foi construda em redor de um ptio e estava pintada de branco, com o
telhado em terrao. Nas duas esquinas da fachada havia duas torres; numa ficava o quarto dos meus pais, na outra, o do meu irmo Rafael. Como era o mais velho, tinha
o melhor aposento.
O meu av, que tambm se chamava Hector, s para tornar a vida mais complicada aos outros, teve quatro filhos - Miguel, Nico, Paco (o meu pai) e Alejandro - e todos
eles construram a sua pr-
13
pria casa quando cresceram e se casaram. Todos tiveram descendncia, mas eu passava a maior parte do tempo em casa de Miguel e Chiquita, com Santi e Maria, dois
dos seus filhos. Era deles que eu gostava mais. A casa de Nico e Valeria e a de Alejandro e Malena tambm estavam sempre abertas para ns e passvamos l tanto tempo
como na nossa prpria casa.
Em Santa Catalina, as casas eram construdas no meio da plancie, separadas apenas por rvores enormes - pinheiros, eucaliptos, lamos e, principalmente, pltanos,
plantados equidistantes uns dos outros de modo a assemelharem-se a parques. Diante de cada casa havia grandes terraos onde nos sentvamos a olhar para os campos
ininterruptos que se estendiam  nossa frente. Quando cheguei pela primeira vez a Inglaterra, recordo-me de como fiquei encantada com as casas de campo com as suas
sebes e jardins to bem arranjados e tratados. A minha tia Chiquita adorava os jardins ingleses e tentava imit-los, coisa que realmente no era possvel em Santa
Catalina; os canteiros de flores pareciam deslocados, devido  vastido da terra. A minha me preferia plantar buganvlias e hidrngeas e pendurar vasos de gernios
por todo o lado.
Santa Catalina estava rodeada por campos cheios de pneis; o meu tio Alejandro criava-os e vendia-os para todo o mundo. Havia uma grande piscina colocada numa colina
artificial, protegida por arbustos e rvores, e um campo de tnis de que todos nos servamos. Jos chefiava os gachos que tratavam dos pneis e viviam em casas
da quinta chamadas ranchos. As mulheres e as filhas deles trabalhavam como empregadas domsticas nas nossas casas, cozinhando, limpando e tomando conta das crianas.
Dantes desejava as frias grandes do Vero que duravam desde meados de Dezembro at meados de Maro. Durante esses meses, no saamos de Santa Catalina. As minhas
recordaes mais queridas datam dessa poca.
A Argentina  um pas extremamente catlico. Mas ningum abraou o catolicismo com tanto fervor como a minha me, Anna Melody O'Dwyer. O av O'Dwyer era religioso
de uma maneira sensata - no como a minha me cuja vida era inibida pela necessidade de manter as aparncias. Manipulava a religio conforme as suas convenincias.
Os seus argumentos sobre a Vontade de Deus divertiam-
14
-nos a ns, crianas, durante horas. A me acreditava que tudo dependia da Vontade de Deus - se estava deprimida, Deus estava a castig-la por qualquer coisa, se
estava feliz, era uma recompensa. Se eu lhe dava problemas, coisa que conseguia fazer a maior parte do tempo, Deus estava a castig-la por no me ter educado como
devia ser.
O av o'Dwyer dizia que ela queria apenas fugir s responsabilidades. L porque ests maldisposta esta manh, no deites as culpas para o bom Deus;  a maneira
como vs o mundo, Anna Melody, que faz com que o queiras mudar.
Ele costumava dizer que a sade era uma ddiva de Deus, enquanto ns ramos responsveis pela felicidade. Para ele, era a maneira como vamos as coisas: um copo
de vinho podia estar meio cheio ou meio vazio, dependendo do modo como olhssemos para ele. Tratava-se de ter uma atitude mental positiva. A minha me considerava
aquilo uma blasfmia e ficava muito afogueada quando ele falava do assunto, coisa que ele fazia constantemente pois gostava de a atormentar.
- Diz o que quiseres, Anna Melody, mas quanto mais depressa deixares de pr palavras na boca de Deus e tomares a responsabilidade das tuas ms disposies, mais
feliz vais ser.
- Deus lhe perdoe, paizinho - gaguejava ela, as faces colidindo com o seu cabelo ruivo da cor do pr do Sol.
A minha me tinha um cabelo lindo. Caracis compridos como os da Vnus de Boticelli, mas nunca parecia serena ou potica como a deusa. Tinha uma expresso muito
estudada ou muito aborrecida. J fora uma pessoa natural - o av disse-me que, em Glengariff, a sua terra natal na Irlanda do Sul, ela costumava correr descala,
como um animal selvagem com uma tempestade no olhar. O av dizia que os olhos dela eram azuis, mas que, por vezes, ficavam cinzentos como um dia irlands enevoado,
quando o sol queria penetrar  fora por entre as nuvens. Aquilo parecia-me muito potico. O av contava-me que ela estava sempre a fugir para as montanhas.
- Numa aldeia daquele tamanho, nada se podia perder e muito menos uma pessoa to cheia de vida como Anna Melody o'Dwyer. Mas uma vez desapareceu durante muitas horas.
Revistmos os mon-
15
tes, lanando gritos ao cu. Quando a encontrmos, estava debaixo de uma rvore, junto a um ribeiro, brincando com meia dzia de filhotes de raposa que encontrara.
Sabia que andvamos  procura dela, mas no conseguia separar-se dos raposinhos. Tinham perdido a me e ela estava a chorar.
Quando perguntei ao av por que razo ela tinha mudado, este respondeu-me que a vida tinha sido uma desiluso. A tempestade ainda l est, mas j no vejo o sol
a querer atravessar as nuvens. Eu perguntava a mim prpria por que razo a vida a desiludira tanto.
J o meu pai era uma figura romntica. Tinha os olhos azuis como miostis e os lbios erguiam-se-lhe nos cantos, mesmo quando no estava a sorrir. Era o Seor Paco
e todos na quinta o respeitavam. Era alto, magro e peludo. No tanto como o irmo Miguel - Miguel parecia um urso, e era to moreno que lhe chamavam El ndio. O
pai era mais claro, saa  me, e era to bonito, que Soledad, a nossa criada, corava muitas vezes, quando servia  mesa. Confessou-me uma vez que era incapaz de
o olhar de frente. Para o meu pai aquilo era sinal de humildade. Eu no lhe podia dizer que ela gostava dele, ou ela nunca mo perdoaria. Soledad no tinha muito
contacto com o meu pai, isso eram contas da minha me, mas, a ela, nada lhe escapava.
Para compreender a Argentina atravs dos olhos de um estrangeiro, tenho de ir buscar as minhas recordaes de quando era criana e andava numa carroa puxada a cavalos
chamada carro, com o av O'Dwyer comentando as coisas que para mim eram vulgares e do dia-a-dia. Em primeiro lugar, a natureza das pessoas. A Argentina fora conquistada
pelos Espanhis no sculo xvi e governada por vice-reis que representavam a coroa de Espanha. A independncia foi conseguida em dois dias diferentes - 25 de Maio
e 9 de Julho de 1816, o av costumava dizer que ter duas datas para celebrar era mesmo tpico dos Argentinos. Tm sempre de fazer coisas maiores e melhores do que
todos os outros, resmungava. Creio que tinha razo; afinal, a Avenida 9 de Julio em Buenos Aires  a mais larga do mundo. Quando ramos pequenos, tnhamos muito
orgulho nisso.
Nos finais do sculo xix, como reaco  revoluo agrcola, milhares de europeus, principalmente do Norte de Itlia e de Espanha,
16
emigraram para a Argentina para explorar a terra frtil das pampas. Foi ento que chegaram os meus antepassados. Hector Solanas era o chefe de famlia e um homem
fantstico; se no fosse por ele, nunca teramos visto um ombu nem a plancie de gengibre.
Quando penso nessas plancies perfumadas, so os rostos morenos dos gachos que surgem das brumas da minha memria com toda a sua extravagncia e me obrigam a suspirar
no mais profundo do meu ser, porque o gacho  o smbolo romntico de toda a Argentina. Historicamente, eram violentos e indomveis mestios (pessoas com mistura
de sangue ndio e espanhol) - foras-da-lei que viviam das enormes manadas de vacas e cavalos que inundavam as pampas. Capturavam os cavalos e usavam-nos para rodear
as manadas das vacas. Vendiam depois as peles e o sebo, que era muito lucrativo, em troca de mate e tabaco. Claro que isto foi antes de a carne se transformar em
mercadoria para exportao. Quanto ao mate (pronuncia-se matap>),  um tradicional ch de ervas que eles sorvem de uma cabaa por meio de uma palhinha de prata
enfeitada chamada bombil-la. Vicia e, segundo as nossas criadas, tambm era bom para perder peso.
A vida de um gacho  passada a cavalo - a sua habilidade para montar  talvez inigualvel em qualquer outra parte do mundo. Em Santa Catalina, os gachos eram uma
parte colorida do cenrio. O traje do gacho  vistoso e tambm prtico. Usam bombachas, calas largas abotoadas nos tornozelos e metidas dentro de botas de couro;
a faj, uma faixa de l que enrolam  cintura e que depois cobrem com uma rastra, um cinto rgido de couro decorado com moedas de prata. A rastra tambm lhes serve
de apoio s costas durante os longos dias a cavalo. Tradicionalmente, andam com um facn, uma faca usada para castrar e esfolar, bem como para autodefesa e para
comer. O av o'Dwyer disse uma vez, a brincar, que Jos, o chefe dos nossos gachos, devia ter estado no circo. O meu pai ficou furioso e grato por o sogro no falar
uma palavra de espanhol.
Os gachos so to orgulhosos como capazes. A nvel romntico, fazem parte da cultura nacional da Argentina e h muitos romances, canes e poemas escritos sobre
eles. O poema pico El Gacho, de Martin Ferro,  o melhor exemplo disso - sei, porque
17
ramos obrigados a decorar trechos dele, na escola. De vez em quando, quando os meus pais recebiam visitas em Santa Catalina, os gachos apresentavam espectculos
fantsticos, que incluam um rodeo, o domar de cavalos e muitas cavalgadas a uma terrvel velocidade, com os laos a estalar no ar como serpentes demonacas.
Jos ensinou-me a praticar plo, o que, nesses tempos, era raro para uma rapariga. Os rapazes no gostavam que eu participasse porque era melhor do que alguns deles
e, certamente, melhor do que seria de esperar numa rapariga.
O meu pai sempre teve grande orgulho no facto de os Argentinos serem, sem dvida, os melhores jogadores de plo do mundo, embora o desporto tenha comeado na ndia
e sido trazido para a Argentina pelos ingleses. A minha famlia ia assistir aos torneios principais disputados em Buenos Aires, nos meses de Vero, de Outubro a
Novembro, no campo de plo de Palermo. Lembro-me de os meus irmos e primos usarem esses torneios para namoriscar as raparigas, tal como o faziam na missa, onde
ningum tomava muita ateno ao padre, pois preferiam olhar uns para os outros. Mas em Santa Catalina praticava-se plo durante quase todo o ano. Os petiseros, moos
de estrebaria, treinavam e cuidavam dos pneis. Ns tnhamos apenas de telefonar para opuesto, avisando-os de quando amos jogar e os pneis que queramos mandar
selar para que estes estivessem prontos, resfolegando  sombra dos eucaliptos,  espera de serem montados.
Nesses tempos, a Argentina dos anos 60 estava a ser assolada pelo desemprego e pela inflao, pelo crime, pela inquietao social e pela represso, mas nem sempre
tinha sido assim. Durante a primeira parte do sculo xx, a Argentina fora um pas de grande riqueza devido  exportao de carne e trigo e fora com isto que a minha
famlia fizera a sua fortuna. A Argentina era o pas mais rico da Amrica do Sul. Foi uma poca dourada de abundncia e elegncia. O meu av, Hector Solanas, culpava
a impiedosa ditadura do presidente Juan Domingo Pern pelo declnio, que resultou no exlio de Pern, em 1955, quando da interveno militar. Hoje, Pern continua
a ser um tema quente de conversa, tal como o era nos anos em que foi ditador. Inspira amor ou dio, mas nunca indiferena.
18
Pern, que subiu ao poder com a ajuda dos militares e se tornou presidente em 1946, era bem-parecido, carismtico e inteligente. Com a mulher, a bela mas inflexivelmente
ambiciosa Eva Duarte, formavam uma equipa brilhante e carismtica, contrariando a teoria de que para se tornar algum em Buenos Aires era preciso pertencer a uma
famlia antiga. Ele era de uma pequena cidade e ela era filha ilegtima, criada na pobreza rural - uma Cinderela moderna.
Hector dizia que o poder de Pern fora forjado na lealdade das classes trabalhadoras, que to cuidadosamente cultivava. Queixava-se de que Pern e a mulher, Evita,
encorajavam os trabalhadores a confiar nas ajudas em vez de trabalhar. Retiravam aos ricos para dar aos pobres, esgotando assim a riqueza do pas. Ficou famosa a
encomenda que Evita fez de milhares de pares de alpargatas (o calado tradicional da classe trabalhadora), para oferecer aos pobres, e que depois se recusou a pagar,
agradecendo ao infeliz fabricante a sua generosa oferta feita ao povo.
Evita tornou-se um cone da classe trabalhadora. Era literalmente adorada pelos pobres e oprimidos. A minha av, Maria Elena Solanas, contou-nos uma histria fascinante
dos tempos em que ia ao cinema com a sua prima Susana. O rosto de Evita aparecia sempre no ecr, antes do filme, e Susana segredou  minha av que era evidente que
Evita pintava o cabelo de louro. Assim que o filme acabou, Susana foi arrastada para a toilette por uma multido de mulheres furiosas que lhe cortaram brutalmente
o cabelo. Tal era o poder de Eva Pern; levava as pessoas  mais completa loucura.
Mesmo assim, apesar do seu poder e do seu prestgio, as classes superiores consideravam-na pouco mais do que uma prostituta vulgar, que se tinha servido da cama
para sair da pobreza e se tornar a mulher mais rica e famosa do mundo. Mas eram uma minoria; quando morreu, em 1952, com trinta e trs anos, dois milhes de pessoas
assistiram ao seu funeral, e os trabalhadores pediram ao Papa que a santificasse. O corpo foi embalsamado para sempre como uma figura de cera por um especialista
espanhol, chamado Dr. Pedro Ara, e depois de ter sido enterrada em vrios locais secretos por todo o mundo, com medo de que inspirasse um culto, acabou por ir descansar
em 1976 no elegante cemitrio de La Recoleta, em Buenos Aires, ao lado dos oligarcas que odiava.
19
Depois de Pern ter partido para o exlio, o Governo mudou inmeras vezes, devido  interveno dos militares. Se o Governo actual no fosse satisfatrio, avanavam
os militares. O meu pai dizia que eles expulsavam os polticos antes mesmo de lhes darem uma oportunidade. De facto, a nica vez que ficou satisfeito com a interferncia
militar foi em 1976, quando o general Videla destituiu a incompetente Isabelita, a segunda mulher de Pern, que havia ocupado a presidncia quando o marido morreu,
aps o seu regresso em 1973.
Quando perguntei ao meu pai porque tinham os militares tanto controlo, ele respondeu-me que, em parte, devia-se ao facto de terem sido os militares espanhis a conquistar
a Amrica Latina, no sculo xvi. Pensa nos militares como directores de escola, mas com armas, disse-me uma vez e aquilo fez sentido para mim, que era criana.
Quero dizer, quem pode ser mais poderoso do que isso? No sei como se arranjavam com todas aquelas mudanas, mas a minha famlia era sempre suficientemente prudente
para ficar do lado do Governo que estava no poder.
Durante esses tempos perigosos, os raptos eram uma verdadeira ameaa para uma famlia como a minha. Santa Catalina estava cheia de seguranas. Mas para ns, crianas,
os homens contratados para nossa proteco faziam apenas parte do lugar, tal como Jos e Pablo, e nunca questionmos a sua existncia. Andavam pela quinta com as
suas grandes barrigas a sair das calas de caqui e os seus bigodes far-falhudos estremecendo no calor. Santi imitava-os a andar - uma mo nas armas, a outra coando
as partes baixas ou limpando as testas suadas com um pauelo sujo. Se no fossem to gordos, teriam um ar ameaador, mas para ns estavam ali para nos rirmos deles
ou para fazerem parte das nossas brincadeiras; era sempre um desafio conseguir engan-los.
Tambm nos acompanhavam  escola. O av Solanas tinha sobrevivido a uma tentativa de rapto, por isso o meu pai assegurava-se de que, na cidade, fssemos sempre acompanhados
por guarda-costas. A minha me ficaria encantada se tivessem raptado o av O'Dwyer em vez do abuelo Solanas. Duvido que tivessem pago o resgate para o ter de volta.
Mas, cuidado, que Deus protegesse o raptor que fosse suficientemente tolo para levar o av O'Dwyer!
20
Na escola da cidade era natural que as crianas aparecessem com guarda-costas. Eu costumava namorisc-los  hora do lanche. Andavam junto aos portes, no calor do
meio-dia, rindo e contando histrias sobre raparigas e armas. Se alguma vez houvesse uma tentativa de rapto, aqueles preguiosos seriam os ltimos a reparar. Mas
gostavam de falar comigo. Maria, irm de Santi, sempre cautelosa, pedia-me ansiosamente que voltasse para o ptio da escola. Quanto mais ela se afligia, mais ousado
o meu comportamento se tornava. Uma vez, a minha me veio buscar-me, porque Jacinto, o motorista, tinha adoecido, e quase desmaiou porque todos me tratavam pelo
nome. Quando Carlito Blanco me piscou o olho, pensei que ela rebentasse de fria, tinha o rosto mais vermelho que os tomates de Antonio. Depois disso, o intervalo
do lanche deixou de ter graa. A me falou com a Miss Sarah e eu fui proibida de ficar perto dos portes da escola. Disse que os guardas eram gente vulgar e que
eu no deveria falar com quem no pertencesse  minha classe. Quando cresci o suficiente para compreender, o av O'Dwyer contou-me histrias que me fizeram entender
como aquilo era ridculo, vindo da parte dela.
No compreendia o medo da guerra suja, nome que se deu ao tempo em que os militares se dispuseram a destruir qualquer pessoa que se lhes opusesse, em meados dos
anos 70, depois da morte de Pern. Foi uma coisa que s soube quando regressei, depois de muitos anos, para descobrir que essa guerra tinha entrado pelos portes
de Santa Catalina para reclamar um dos dela. No estava l quando os que me eram mais prximos foram separados e a nossa casa foi violada por estranhos.
E que estranha  a vida e que inesperada. Eu, Sofia Solanas Harrison, recordo as vrias aventuras em que participei e penso em como estou longe da fazenda argentina
da minha infncia. A terra plana da pampa foi substituda pelos montes ondulantes do campo ingls e, apesar de toda a sua beleza, continuo a desejar que esses montes
se abram, para que eu veja a plancie erguer-se dos campos e estender-se debaixo do sol da Argentina.

CAPTULO DOIS
Santa Catalina, Janeiro de 1972
- Sofia, Sofia, por Dios!Onde  que ela se meteu agora?
Anna Melody Solanas de O'Dwyer andava de um lado para o outro no terrao, olhando para a rida plancie com irritao e cansao. Uma mulher elegante com um vestido
de Vero branco e comprido, o cabelo ruivo apanhado num rabo-de-cavalo em desalinho, recortava a sua figura fresca contra o pr do Sol argentino. As longas frias
de Vero, que se estendiam de Dezembro a Maro, tinham-lhe esgotado a pacincia. Sofia era como um animal selvagem, desaparecia durante horas, revoltando-se contra
a me, o que para Anna se tornava difcil. Sentia-se emocionalmente esgotada, usada. Desejava que os dias quentes se transformassem em Outono, para que a escola
recomeasse. Pelo menos, em Buenos Aires, as crianas eram seguidas pela segurana e graas a Deus que estavam na escola, pensou. A professora seria responsvel
pela disciplina.
-Jesus, Maria, Jos, mulher, d rdeas  mida. Se as encurtares demasiado, foge na primeira oportunidade - resmungou o av O'Dwyer, arrastando os ps em direco
ao terrao, com uma tesoura de podar.
- O que vai fazer com isso, paizinho? - perguntou ela desconfiada, semicerrando os brilhantes olhos azuis e vendo-o atravessar a relva hesitante.
- Descansa que no te vou cortar a cabea, se  isso que te preocupa, Anna Melody - disse ele a rir, abrindo e fechando a tesoura.
22
- J esteve outra vez a beber, pai.
- Um copinho nunca fez mal a ningum.
- Pai, o Antonio trata do jardim, no precisa de fazer nada - abanava a cabea exasperada.
- A tua querida me adorava o jardim. Os delfnios esto a pedir para ser cortados, diria ela. Ningum gostava mais de delfnios do que a tua me.
Dermot O'Dwyer nascera e fora criado em Glengariff, na Irlanda do Sul. Casara com a sua primeira namorada, Emer Melody, quando mal tinha idade para ganhar a vida.
Mas Dermot O'Dwyer sempre soubera o que queria e nem nada nem ningum o conseguiu convencer de outra coisa. Grande parte do seu namoro tivera lugar numa abadia em
runas no sop dos montes Glengariff e fora a que os dois se casaram. A abadia perdera grande parte do telhado, e pelas aberturas enrolavam-se os dedos vidos das
trepadeiras, dispostas a reclamar o que ainda no tinha sido destrudo.
Choveu tanto no dia do casamento, que a jovem noiva calou botas de borracha para percorrer a nave, puxando o vestido branco de chifom acima dos joelhos, seguida
por Dorothy Melody, a sua anafada irm que apertava uma sombrinha branca com as mos pouco firmes. Emer e Dorothy tinham oito irmos e irms; e teriam sido dez,
se os gmeos no tivessem morrido antes de terem feito um ano. O padre O'Reilly abrigava-se da chuva com um enorme guarda-chuva preto e disse  enorme reunio de
famlia e amigos que a chuva era sinal de boa sorte e que Deus abenoava a unio enviando gua benta dos cus.
Tinha razo. Dermot e Emer amaram-se at que ela lhe foi roubada num triste dia de Fevereiro de 1958. Ele no gostava de a recordar deitada plida e fria, no cho
da cozinha, e, por isso, recordava-a como ela fora no dia do casamento, trinta e dois anos antes, com madressilva no longo cabelo ruivo, a sua boca generosa e trocista
e os pequenos olhos sorridentes que brilhavam s para ele. Depois da sua morte, tudo em Glengariff lhe recordava a presena da mulher. Por isso, emalou os seus parcos
haveres - um lbum de fotografias, o cesto de costura de Emer, a Bblia do pai e um mao de cartas antigas - e gastou tudo o que tinha num bilhete de ida para a
Argentina.
23
A princpio, a filha acreditou, quando ele disse que apenas ficaria com ela umas semanas, mas,  medida que essas semanas se transformavam em meses, apercebeu-se
de que ele viera para sempre. Anna Melody chamava-se assim em honra da me, Emer Melody. Dermot gostava tanto daquele nome musical, que queria que a filha se chamasse
simplesmente Melody O'Dwyer, mas Emer era da opinio que Melody, sem mais nada, parecia mais prprio para um gato e, assim, deu  criana o nome da av Anna.
Depois de Anna Melody ter nascido, Emer achou que Deus decidira que no precisavam de mais filhos. Dizia que Anna Melody era to bonita, que Deus no lhe quereria
dar outro filho para viver  sombra dela. O deus de Emer era bondoso e sabia o que era melhor para Emer e para a sua famlia, mas ela desejava mais filhos. Via as
irms e os irmos criarem os seus, em nmero suficiente para povoar uma cidade inteira, mas a me sempre a ensinara a agradecer a Deus por aquilo que Ele achava
que lhe devia dar. Tinha sorte por ter uma filha a quem amar. Por isso despejava o amor que tinha dentro de si, e que era suficiente para uma famlia de doze pessoas,
para a sua famlia de duas, e escondia a incmoda inveja que sentia no corao sempre que levava Anna Melody a visitar os primos.
Anna Melody gozou uma infncia despreocupada. Mimada pelos pais, nunca teve de dividir os brinquedos ou de esperar pela sua vez e, quando estava com os primos, bastava-lhe
choramingar, se no conseguia o que queria, e a me vinha imediatamente a correr para fazer o que fosse necessrio para a pr de novo a sorrir. Isto fazia com que
os primos desconfiassem dela. Afirmavam que ela lhes estragava as brincadeiras. Imploravam aos pais para que ela no fosse a casa deles. Quando aparecia, fingiam
no a ver, diziam-lhe que se fosse embora, porque no a queriam. Assim, Anna Melody foi excluda dos seus divertimentos. No que se importasse muito. Tambm no
gostava deles. Era uma criana desajeitada, mais feliz nos montes do que num grupo claustrofbico de jovens mal vestidos correndo pelas ruas de Glengariff como gatos
vadios. Nesses montes, podia ser quem quisesse e sonhava viver a boa vida das actrizes dos filmes que via no cinema, todas elas maravilhosas e bem vestidas, com
longas pestanas cintilantes. Katharine Hepburn, Lauren Bacall, Deborah
24
Kerr. Olhava com desprezo para a cidade e dizia que, um dia, seria melhor do que todas elas. Deixaria os seus horrveis primos e nunca mais voltaria.
Quando Anna Melody se casou com Paco e saiu para sempre de Glengariff, mal pensou nos pais que, de repente, se viram sozinhos numa casa, apenas com a sua recordao
para os consolar. A casa tornou-se fria e escura, sem a sua querida Anna Melody para a aquecer com o seu riso e o seu amor. Emer nunca mais foi a mesma. Os dez anos
que sofreu sem a filha foram vazios e tristes. As cartas frequentes que Anna Melody escrevia para casa estavam cheias de garantias de que lhes viria fazer uma visita
e essas promessas mantiveram viva a esperana dos pais, at que estes acabaram por sentir nos seus coraes de que se tratava de palavras ocas, escritas sem qualquer
sinceridade ou inteno.
Quando Emer morreu, em 1958, Dermot percebeu que essa morte se devera ao facto de, por fim, o seu corao j seco se ter quebrado. Sabia que era assim. Mas ele era
mais forte e mais corajoso do que a mulher. Quando partiu para Buenos Aires, perguntou a si prprio porque diabo no o teria feito anos antes; se assim fosse, talvez
hoje a sua querida mulher ainda estivesse na sua companhia.
Anna (apenas Dermot O'Dwyer chamava  filha Anna Melody) via o pai andar por entre os canteiros de flores e desejava que ele fosse como os avs das outras crianas.
O pai de Paco chamava-se Hector Solanas em honra do seu av e andava sempre bem vestido e com a barba impecavelmente feita, at nos fins-de-semana. As camisolas
dele eram sempre de caxemira, as camisas de Savile Row, em Londres, e possua a grande dignidade do rei Jorge de Inglaterra. Para Anna era a coisa mais parecida
que havia com a realeza e nunca cara do seu pedestal. At depois da morte continuava a pairar sobre ela, que continuava a desejar a sua aprovao. Depois de tantos
anos, ainda desejava a sensao de pertencer que, apesar de todos os seus esforos, lhe tinha escapado. Por vezes, sentia-se a ver o mundo em seu redor por trs
de um vidro invisvel - um local onde mais ningum conseguisse chegar-lhe.
- Seora Anna, a Seora Chiquita est ao telefone.
Anna foi abruptamente trazida para o presente e para o pai que, como um botnico louco, arrancava qualquer coisa verde.
25
- Gracias, Soledad. No vamos esperar pela Seorita Sofia e comemos s nove, como de costume - replicou e desapareceu no interior, para falar com a cunhada.
- Como quiera, Seora Anna - replicou humildemente Soledad, sorrindo para consigo enquanto se dirigia com passos pesados para a cozinha quente. Dos trs filhos da
Seora Anna, Sofia era a preferida de Soledad.
Soledad trabalhava para o Seor Paco desde os dezassete anos. A recm-casada sobrinha de Encarnacin, a criada de Chiquita, fora contratada para cozinhar e fazer
limpezas, enquanto o marido, Antonio, tomava conta da propriedade. Antonio e Soledad no tinham filhos, embora tentassem, mas em vo. Lembrava-se dos tempos em que
Antonio entrava nela onde quer que fosse, junto ao fogo, atrs de um arbusto ou de uma rvore - sempre que havia oportunidade, Antonio no perdia tempo. Que par
de amantes haviam sido, pensava orgulhosa. Mas, para espanto de ambos, nunca tinham concebido. Assim, Soledad consolava-se considerando Sofia como sua.
Enquanto a Seora Anna tinha dedicado todo o tempo aos seus filhos homens, Soledad raramente estivera sem a pequena Sofia enrolada no avental, aninhada nos seus
seios macios. Levava mesmo a criana para a cama - parecia dormir melhor assim, envolvida no perfume feminino e na carne macia da criada. Ansiosa por a menina no
receber amor suficiente da me, Soledad invadia o quarto da criana para substituir a Seora Anna, que no parecia importar-se. Pelo contrrio, parecia quase grata.
Nunca esteve muito interessada na filha. Mas Soledad no estava ali para endireitar o mundo. No era da sua conta. A tenso entre o Seor Paco e a Seora Anna no
a preocupava e apenas a discutia com as outras criadas para justificar porque passava tanto tempo com Sofia. No havia outra razo. No gostava de bisbilhotar. Por
isso, cuidava da menina com feroz devoo, como se o anjinho lhe pertencesse.
Olhava agora para o relgio. Era tarde - mais uma vez, Sofia estava metida em sarilhos. Parecia procur-los. Pobrezinha, pensava Soledad enquanto mexia o molho de
atum e cozinhava a vitela. Precisava de ateno. Qualquer um podia ver.
Anna foi para a sala abanando a cabea, furiosa, e pegou no auscultador.
26
- Hola, Chiquita - disse em tom seco, encostando-se  pesada cmoda de madeira.
- Lamento, Anna, mas a Sofia saiu outra vez com o Santiago e a Maria. Devem estar a chegar a qualquer momento...
- Outra vez! - explodiu, apanhando uma revista de cima da mesa e abanando-se violentamente com ela. - O Santiago devia ser mais responsvel, vai fazer dezoito anos
em Maro. J  um homem. No percebo porque quer andar por a com uma mida de quinze anos. De qualquer modo, sabes que no  a primeira vez. No lhe disseste nada
da ltima?
- Claro - replicou a outra, com pacincia. Detestava ver a cunhada perder as estribeiras.
- Por Dios, Chiquita, no percebes que h raptores  procura de midos como os nossos filhos?
- Acalma-te um pouco, Anna. Isto aqui  seguro, no foram longe... - mas Anna no a ouvia.
- O Santiago  uma m influncia para a Sofia - insistiu. - Ela  jovem e impressionvel e acha-o uma maravilha. Quanto a Maria,  uma menina sensata e deveria saber
o que faz.
- J sei. Vou falar com eles - acedeu Chiquita, em voz cansada.
- Ainda bem.
Houve um silncio breve e incmodo antes que Chiquita tentasse mudar de assunto.
- O asado de amanh antes do jogo, posso ajudar nalguma coisa? - perguntou um pouco tensa. -  s dizeres.
- No. No  preciso nada, obrigada - respondeu Anna, acal-mando-se um pouco. - Desculpa, Chiquita. Por vezes, no sei o que fazer com a Sofia.  to teimosa e inconsciente!
Os rapazes no me do qualquer problema. No sei a quem ela sai!
- Nem eu - respondeu Chiquita, secamente.
- Esta  a noite mais bonita do Vero - suspirou Sofia de um dos ramos mais altos do ombu.
No h no mundo uma rvore como o ombu.  gigantesca, com ramos baixos e horizontais e a sua enorme circunferncia excede por
27
vezes os quinze metros. As grossas razes saem da terra e irradiam em enormes tentculos carnudos, como se a prpria rvore se quisesse comear a derreter, espalhando-se
na terra como cera. Para alm da sua forma peculiar, o ombu  a nica rvore indgena naquelas plancies secas. A nica rvore que, de facto, pertence ali. Os ndios
nativos viram nos ramos os seus deuses e, mesmo no tempo de Sofia, dizia-se que nenhum gacho dormiria debaixo dela. Para as crianas criadas em Santa Catalina,
era uma rvore mgica. Realizava os seus desejos quando achava que eram justos e, sendo to alta, era a perfeita torre de observao que lhes permitia avistar tudo,
quilmetros em redor. Mas, sobretudo, o ombu tinha uma atraco misteriosa que ningum conseguia explicar, uma atraco que chamara geraes de crianas a procurar
aventuras por entre os seus ramos.
- Estou a ver o Jos e o Pablo. Despachem-se! No sejam chatos - dizia ela, impaciente.
- J vou, tem calma - gritava Santi para a prima, enquanto, atarefado, cuidava dos pneis.
- Santi, ds-me uma ajuda? - pediu Maria ao irmo, na sua voz suave e rouca, vendo Sofia subir mais alto no emaranhado dos ramos grossos.
Maria sempre admirara Sofia, que era corajosa, ousada e segura de si. Toda a vida tinham sido amigas ntimas e feito tudo juntas - esquemas, conspiraes, brincadeiras,
segredos. De facto, Chiquita, a me de Maria, costumava chamar-lhes Las dos Sombras quando eram pequenas, porque uma era sempre a sombra da outra.
O resto das meninas da quinta eram mais velhas ou mais novas, por isso, Sofia e Maria, sendo da mesma idade, eram aliadas naturais numa famlia dominada por rapazes.
Nenhuma delas tinha irms, por isso havia muitos anos que tinham decidido tornar-se irms de sangue, picando os dedos com um alfinete e juntando-os, para unir
os sangues. A partir da tinham partilhado um segredo especial que ningum sabia. Tinham o mesmo sangue e portanto eram irms. Sentiam ambas orgulho e respeito pela
sua ligao clandestina.
Do cimo da rvore, Sofia via o mundo inteiro - e, se no era o mundo inteiro, era pelo menos o seu, que se estendia sob um cu admirvel. O horizonte era um vasto
caldeiro de cor, agora com
28
o Sol quase no ocaso, inundando os cus com salpicos cor-de-rosa e dourados. O ar estava pegajoso e os mosquitos pairavam ameaadores por entre as folhas.
- J fui picada outra vez - gemeu Maria, coando a perna.
- Pronto - disse Santi, inclinando-se para que a irm mais nova apoiasse o p nas suas mos. Ergueu-a com um movimento rpido para que ela pudesse apoiar o estmago
no ramo mais baixo. Depois, conseguia subir sozinha.
A seguir, Santi trepou tambm  rvore, com uma ligeireza que no parava de espantar aqueles que o conheciam bem. Quando era pequeno, sofrera um acidente a praticar
plo, que o deixara a coxear um pouco. Os pais, desesperados, pensando que aquela deficincia o pudesse afectar na vida adulta, levaram-no para os Estados Unidos
onde consultaram todos os especialistas possveis. Mas nem precisavam de o ter feito. Santi desafiara as previses dos mdicos e arranjara maneira de as contornar.
Em pequeno, conseguira correr mais do que todos os outros primos, at daqueles que eram uns anos mais velhos, apesar de correr de um modo um pouco estranho, com
um p metido para dentro. J mais crescido, tornou-se o melhor jogador de plo do rancho. No h dvida, dizia o pai, orgulhoso. O jovem Santiago tem uma coragem
rara que pouco se v hoje em dia. H-de ir longe. E conquistou cada passo do seu caminho.
- Fantstico, no achas? - sorriu uma Sofia triunfante, quando a prima se lhe juntou. - Tens um canivete? Quero pedir um desejo.
- O que vais desejar desta vez? No vai acontecer - declarou Santi, sentando-se e balanando as pernas no ar. - No sei porque te incomodas - fungou. Mas a mo de
Sofia j passava pelo tronco, procurando na casca vestgios do passado.
- Ai isso  que vai. Talvez no seja este ano, mas um dia, quando for realmente importante. Sabes que a rvore sabe quais os desejos que h-de realizar e os que
h-de ignorar. - E deu umas pancadinhas amistosas no tronco.
- Agora vais dizer-me que a maldita rvore pensa e sente - troou ele, afastando o cabelo louro da testa com a mo suada.
- s um idiota ignorante, Santi, mas um dia vais aprender. Espera. Um dia precisars mesmo que um desejo se torne realidade
29
e depois, quando ningum estiver a olhar, escapas-te para aqui, no escuro, para gravares a tua marca neste tronco - disse ela a rir.
- Preferia ir  cidade ver la Bruja Vieja. A velha bruxa tem mais possibilidades de guiar o meu futuro do que esta rvore idiota.
- Vai l visit-la se quiseres... se conseguires suster a respirao tempo suficiente para no lhe sentires o cheiro. Oh, c est um - exclamou ela, encontrando
um dos seus ltimos desejos na madeira. Como uma velha ferida, tinha deixado uma cicatriz branca e perfeita.
Maria foi ter com eles, corada e afogueada do esforo. O cabelo castanho caa-lhe nos ombros em caracis crespos, colando-se ao de leve s suas faces redondas e
luminosas.
- Olhem para a paisagem,  magnfica! - disse, ofegante, olhando em volta. Mas a prima perdera o interesse pela paisagem e estava ocupada em procurar as suas marcas
artsticas na casca da rvore.
- Acho que esta  minha - disse ela, passando para o ramo acima de Santi, de modo a poder observ-la um pouco mais de perto.
- Sim, no h dvida de que  minha...  o meu smbolo, vs?
- Pode ter sido um smbolo h seis meses, mas agora  uma mancha - disse Santi, subindo mais e instalando-se noutro ramo nodoso da rvore.
- Desenhei uma estrela... desenho muito bem estrelas - replicou orgulhosa. - Ei, Maria, onde est a tua?
Maria subiu ao seu ramo com passos hesitantes. Depois de se orientar por uns momentos, passou pela frente de Santi e sentou-se mais abaixo, perto do tronco. Quando
encontrou a sua marca, acariciou-a, nostlgica.
- O meu smbolo era um pssaro - disse ela e sorriu com a recordao.
- Para que foi? - perguntou Sofia, saltando confiante para ir ter com ela.
- Se eu te disser, vais rir-te - replicou a medo.
- No nos rimos - disse Santi. - Realizou-se?
- Claro que no, e nunca se realizar, mas vale a pena desej-lo
- disse ela.
- Ento? - insistiu Sofia intrigada, agora que a prima parecia relutante em lhes contar.
30
- Est bem. Desejei ter uma voz bonita para poder cantar com a viola da minha me - disse, erguendo depois os belos olhos cor de avel para ver que os outros dois
se estavam a rir.
- Ento o pssaro simboliza a cano - disse Santi com um enorme sorriso.
- Acho que sim, embora no fosse exactamente por isso que eu o desenhei.
- Ento porque foi, tonta?
- Porque eu gosto de pssaros e porque havia um na rvore enquanto eu estava a formular o desejo. Estava muito perto. Era adorvel. Sabem, o pai sempre disse que
o smbolo no precisava de ter a ver com o nosso desejo. Basta fazermos a nossa marca. De qualquer forma, o meu pssaro no  assim to engraado... e j passou
um ano. Nessa altura s tinha catorze anos. Se o meu  to engraado, qual era o teu desejo, Sofia?
- Queria que o pai me deixasse participar na Copa Santa Catalina - replicou, altiva, aguardando a reaco de Santi. Conforme esperava, este explodiu numa gargalhada
exagerada.
- A Taa de Santa Catalina? No ests a falar a srio! - exclamou espantado, semicerrando, arrogante, os olhos verde-claros e fazendo uma careta para mostrar a sua
incredulidade.
- Estou a falar a srio - replicou ela em tom de desafio.
- Ento para que serve a estrela? - perguntou Maria, sacudin-do-lhe do ombro um pouco de musgo que lhe tinha sujado a camisa.
- Quero ser uma estrela de plo - disse Sofia, com tanta naturalidade como se lhes tivesse acabado de dizer que queria ser enfermeira.
- Mentirosa! Chofi, provavelmente  a nica coisa que sabes desenhar. A Maria  a nica artista desta famlia - e encostou-se ao ramo, a rir. - La Copa de Santa
Catalina. No passas de uma mida.
- No passo de uma mida, seu peneirento arrogante - retorquiu, fingindo estar zangada. - Vou fazer dezasseis anos em Abril. S faltam trs meses e depois serei
uma mulher.
- Nunca vais ser uma mulher, Chofi, porque nunca foste uma rapariga - disse ele, referindo-se ao facto de a prima ser uma maria-rapaz. - As raparigas so como a
Maria. No, Chofi, tu no s uma rapariga.
31
Sofia viu-o estender-se no ramo da rvore. Vestia umas calas de ganga largas e gastas, penduradas nas ancas. A T-shirt subira-lhe no peito revelando um estmago
liso e moreno e ancas cujos ossos se espetavam como se passasse fome. Mas ningum comia mais do que Santi. Devorava os alimentos com a urgncia de quem no come
h muito tempo. Sofia queria passar os dedos pela pele dele e fazer-lhe ccegas. Qualquer desculpa para lhe tocar. Andavam juntos a maior parte do tempo e o contacto
fsico excitava-a. Mas havia uma ou duas horas que no o fazia, e por isso o desejo era irresistvel.
- Ento onde est o teu? - perguntou, exigindo de novo a ateno dele.
- Oh, no sei e no me importo... de qualquer modo, tudo isso  um disparate.
- No  no - insistiram as raparigas em unssono.
- O pai costumava dizer-nos para gravarmos os nossos desejos todos os Veres, lembram-se? - perguntou Sofia, ansiosa.
- Tambm eles o faziam quando eram crianas. Tenho a certeza de que ainda encontramos essas marcas, se as procurarmos - acrescentou Maria, entusiasticamente.
- J devem ter desaparecido h muito, Maria. Desaparecem num ano ou dois - disse Santi com ar conhecedor. - De qualquer forma, vai ser necessria muita magia para
que o Paco deixe a Sofia jogar na Copa Santa Catalina. - E comeou a rir, com as mos na barriga, para mostrar como eram ridculas para ele aquelas ambies. Sofia
saltou agilmente do seu ramo para o dele e passou-lhe a mo pelo ventre at ele gritar de dor e de prazer.
- Chofi, no faas isso aqui em cima. Podemos cair os dois e morrer! - disse sufocado entre ondas de riso, enquanto os dedos dela saltavam sobre a linha que separava
o bronzeado da pele branca e secreta escondida do sol por baixo das cuecas. Santi agarrou-a pelo pulso e apertou com tanta fora que ela estremeceu. Santi tinha
dezassete anos, mais dois do que a prima e a irm. Sofia ficava excitada quando ele usava a sua fora superior para a dominar, mas fingir que no gostava fazia parte
do jogo.
- No vejo que seja assim to difcil - afirmou ela, esfregando o pulso contra o peito.
32
- Vai ser mesmo muito difcil, Chof - replicou ele, sorrindo, trocista.
- Porqu?
- Porque as raparigas no participam nos jogos.
- Ora, h sempre uma primeira vez - disse-lhe ela, em tom de desafio. - Acho que o pai acabar por me deixar jogar.
- No na Copa Santa Catalina. H muito brio em jogo nesta taa, Chof... e de qualquer forma o Agustin  o quarto.
- Sabes que jogo to bem como o Agustin.
- No, no sei... mas se acabares por jogar, nada ter a ver com a magia. Aldrabice, manipulao... so mais o teu estilo. Pobre Paco, ds-lhe a volta e ele nem
sequer se apercebe.
- A Sofia d a volta a toda a gente, Santi - disse Maria a rir sem a menor sugesto de inveja.
- Excepto  me.
- Ests a perder o jeito, Chofi.
- A Sofia nunca teve muito jeito com a Anna.
A Taa de Santa Catalina era o jogo de plo anual, realizado contra La Paz, a estncia vizinha. As duas geraes eram rivais havia muitos anos, vrias geraes at,
e, no ano anterior, Santa Catalina fora derrotada apenas por um golo. Os primos em Santa Catalina, e eram muitos, jogavam plo na maior parte das tardes, durante
os meses de Vero, do mesmo modo que os primos de Anna jogavam hquei irlands em Glengariff. Paco, o pai de Sofia, e o irmo mais velho, Miguel, eram muito persistentes
e insistiam asperamente com os rapazes para que refinassem o trabalho. Santi j tinha um handicap de seis golos, o que era excelente, pois o melhor era dez e era
preciso ser-se mesmo muito aplicado para conseguir um handicap. Miguel estava ferozmente orgulhoso do filho e pouco ou nada fazia para esconder o seu favoritismo.
Fernando, o irmo mais velho de Santi, tinha apenas um handicap de quatro golos. Ficava irritado porque o irmo o derrotava em tudo. O mais humilhante no era ele
ser um atleta superior, mas sim superior e coxo. No pudera deixar de reparar que Santi era muito mais do que a menina-dos-olhos dos pais. Por isso, todas as noites,
rangia os dentes, desejando que o irmo falhasse, mas, mesmo assim, Santi
33
parecia invencvel. Agora, o maldito dentista arranjara-lhe um aparelho horrvel, para usar  noite e no desgastar os dentes - mais um prego que Santi, alegremente,
lhe pregara no caixo.
Por outro lado, Sofia tinha dois irmos mais velhos, Rafael e Agustin, que completavam os quatro elementos da equipa. Rafael tinha um handicap de quatro golos e
Agustin de dois. Sofia, para sua grande fria, no era considerada.
Sofia desejava ter nascido rapaz. Odiava brincadeiras de menina e crescera atrs dos rapazes, desejando ser includa. Santi sempre a deixara participar. Muitas vezes,
dispunha-se a ajud-la no plo e insistia para que ela praticasse com os rapazes, mesmo quando tinha de suportar a feroz oposio dos irmos e dos primos, que odiavam
jogar plo com uma rapariga, principalmente se ela jogasse melhor do que eles. Santi afirmava que s a deixava jogar para que houvesse paz. Sabias ser extremamente
exigente e era mais fcil ceder, dizia ele. Santi era o primo favorito de Sofia. Sempre a defendera. De facto, era mesmo melhor irmo do que Rafael e o infeliz
Agustin alguma vez tinham podido ser.
Santi atirou ento o canivete a Sofia.
- V, faz l os teus desejos - disse, com ar ocioso, retirando um mao de cigarros do bolso de cima. - Queres um, Chofi?
- Claro. Porque no?
Ele retirou um, acendeu-o e depois de uma longa fumaa passou-o  prima. Sofia subiu ao ramo mais alto com a agilidade de um macaco venezuelano e sentou-se de pernas
cruzadas revelando os joelhos morenos atravs dos rasges das calas de ganga.
- Bom, vamos l ver o que hei-de desejar desta vez? - suspirou ela, abrindo o canivete.
- Procura que seja possvel de obter - avisou Santi, olhando para o local onde a irm estava calmamente sentada, fitando a prima com indisfarvel admirao. Sofia
chupava o cigarro antes de soprar o fumo com ar de desagrado.
- Olha l, d-me o cigarro se no o vais fumar como deve ser. No o desperdices - disse ele, irritado. - Nem imaginas o difcil que  arranj-los.
- No sejas mentiroso, a Encarnacin arranja-tos - respondeu Sofia com naturalidade, enquanto comeava a gravar na casca. A ma-
34
deira macia saiu facilmente depois de cortada a primeira inicial e as pequenas lascas caam como chocolate.
- Quem te disse isso? - perguntou ele, com ar acusador.
- A Maria.
- Eu no queria... - comeou Maria em tom culpado.
- Olha, mas quem  que se importa, Santi? Ningum. De qualquer forma, guardamos o teu segredo - disse Sofia, j mais interessada no seu desejo do que na discusso
que tinha ateado entre os dois irmos.
Santi inalou profundamente o fumo, segurando o cigarro entre o polegar e o indicador, ao mesmo tempo que via Sofia desenhar na casca. Tinha crescido com ela e sempre
a considerara uma irm, como Maria. Fernando no concordava; sempre considerara Sofia um desafio. O rosto dela estava fixo numa expresso de intensa concentrao.
Santi descobrira que a pele dela era muito bonita, tal como a musse de chocolate de leite que Encarnacin fazia. O seu perfil revelava uma certa arrogncia, talvez
fosse da maneira como o nariz se arrebitava na ponta, ou seria a fora do queixo? Gostava do carcter dela; era provocante e difcil. Os seus olhos amendoados podiam
mudar de um momento para o outro, de suaves para imperiosos e, quando estava zangada, escureciam de um castanho mais claro para um castanho-avermelhado que ele nunca
vira nos olhos de outra pessoa. Ningum poderia dizer que era uma adversria fcil. Ele admirava essa qualidade; a prima tinha um carisma que atraa as pessoas,
embora por vezes estas se dessem mal quando se chegavam a ela. Da posio privilegiada do seu estatuto especial, ele gostava de as ver afastar-se. Estava l sempre,
para a apoiar, quando as outras amizades partiam.
Algum tempo depois, Sofia recostou-se e sorriu orgulhosa do seu trabalho artstico.
- Ora bem, ento o que ? - perguntou Maria, inclinando-se na rvore, para ver melhor.
- No sabes? - replicou Sofia, indignada.
- Desculpa, Sofia, mas no - respondeu.
-  um corao apaixonado - olhou de frente para Maria, que franziu a testa com ar inquisidor.
35
- Oh!
- Parece-me um chavo, no  verdade? Quem  o felizardo? - perguntou Santi que voltara a subir para o ramo e abanava os braos e as pernas letrgicamente no ar.
- No te vou dizer, porque  um desejo - replicou ela, baixando os olhos envergonhada.
Sofia raramente corava, mas, nos ltimos meses, comeara a sentir coisas diferentes pelo primo. Quando este a olhava nos olhos daquele modo intenso, o rosto afogueava-se-lhe
e o seu corao saltava como um grilo. Admirava-o, respeitava-o, adorava-o. Estranhamente, comeara a corar. No tinha nada a ver com ela, no fora consultada, acontecera.
Quando se queixou a Soledad de que o seu rosto ficava vermelho quando falava com rapazes, a criada riu-se e disse que tudo isso fazia parte do crescimento. Sofia
esperava crescer rapidamente para que aquilo deixasse de acontecer. Reflectia nessas novas sensaes com curiosidade e satisfao, mas Santi estava a quilmetros
de distncia, expelindo fumo como um pele-vermelha. Maria pegou no canivete e gravou um pequeno sol.
- Que eu seja abenoada com uma vida longa e feliz - disse.
- Que coisa to estranha para se desejar - troou Sofia, torcendo o nariz.
- Nunca deves tomar nada como certo, Sofia - disse Maria, muito sria.
- Meu Deus! Deves ter estado a ouvir a conversa da minha me. Vais beijar o crucifixo?
Maria riu-se, enquanto Sofia fazia uma careta de piedade e se benzia irreverente.
- No vais pedir um desejo, Santi? V l,  tradio! - insistiu.
- No, so coisas de midas - respondeu ele.
- Como queiras - disse Sofia, encostando-se ao tronco. - Ah... no sentem o cheiro do eucalipto? - Uma brisa acetinada acariciou-lhe ao de leve as faces quentes,
trazendo consigo o inconfundvel perfume medicinal do eucalipto. - Sabem, de todos os cheiros do campo, este  o que eu mais gosto. Se estivesse perdida no mar e
sentisse este cheiro, chorava com saudades de casa - e suspirou melodramticamente.
36
Santi inalou profundamente e soprou o fumo pela boca em anis.
- Concordo. Faz-me sempre lembrar o Vero.
- No sinto o cheiro do eucalipto. O nico que aqui chega  o do Marlboro do Santi - queixou-se Maria, abanando a mo.
- Bueno, no te sentes na direco do vento.
- No, Santi, no atires o fumo para cima de mim.
- Mujeres! - suspirou ele, com o cabelo louro a cair-lhe em redor da cabea como uma das auras misteriosas de que La Bruja vieja falava por toda a aldeia. Parecia
que toda a gente tinha uma, excepto as pessoas muito ms. Os trs deitaram-se como gatos sobre os ramos, procurando em silncio as primeiras estrelas da tarde.
Debaixo do ombu, os pneis resfolegavam, cansados, batendo com as patas, para mudar o peso do corpo de umas para as outras. Abanando as cabeas, enxotavam a nuvem
de moscas e mosquitos que se juntara em volta deles. Por fim, Maria sugeriu que voltassem para casa.
- Daqui a pouco vai ser noite escura - disse ansiosa, montando o pnei.
- A minha me vai matar-me - suspirou Sofia, imaginando j a fria de Anna.
- Acho que vou ser eu a ficar de novo com as culpas - resmungou Santi.
- Ora essa, Santiago, tu s o adulto, devias tomar conta de ns.
- Com a tua me em p de guerra, Chofi, acho que no quero essa responsabilidade. - Anna era conhecida pelo seu mau gnio.
Sofia saltou para o pnei e com mo experiente guiou-o por entre a escurido.
De volta ao rancho, entregaram os pneis ao velho Jos, o gacho mais antigo, que estava encostado  sebe, bebendo mate por uma bombilla de prata ornamentada, aguardando
com a pacincia de quem pouco se importa com o tempo. Abanou a cabea grisalha, com um leve ar de reprovao.
- Seorita Sofia, a sua me tem-nos chamado toda a noite - censurou. - Estamos em tempos perigosos, nia, tem de ter cuidado.
- Ora, querido Jos, no te devias preocupar tanto, sabes que eu c me arranjo. - E, a rir, seguiu a correr atrs de Maria e de Santi que se dirigiam j para a parte
iluminada.
37
Como era previsvel, Anna estava furiosa. Como um boneco que salta de uma caixa, ergueu-se assim que viu a filha, agitando os braos como se no os conseguisse controlar.
- Onde diabo estiveste? - perguntou, o rosto afogueado, colidindo horrivelmente com a sua cabeleira.
- Fomos andar a cavalo e esquecemo-nos das horas, desculpa. Agustin e Rafael, os irmos mais velhos, ambos estendidos nos
sofs, sorriam irnicos.
- De que se esto a rir? Agustin, no te ponhas  escuta! Isto no  nada contigo.
- Sofia, s um sapo mentiroso - disse ele do seu sof.
- Rafael, Agustin, isto no tem graa nenhuma - disse rispidamente a me, j exasperada.
- J para o quarto, Seorita Sofia - acrescentou Agustin em surdina. Anna no estava com disposio para graas e olhou para o marido, Paco, em busca de apoio,
mas este voltara-se para os filhos e para a Copa Santa Catalina. O av O'Dwyer, que tambm no teria ajudado, ressonava ruidosamente num cadeiro, a um canto. Por
isso, como sempre, Anna teve de fazer de autcrata. Voltou-se para a filha e, com o suspiro de uma mrtir bem treinada, mandou-a para o quarto sem jantar.
Sofia deixou a sala sem se desconcertar e dirigiu-se  cozinha. Tal como esperava, Soledad estava preparada com empanadas e uma tigela de sopa de Capallo.
- Paco, porque no me apoias? - perguntou Anna ao marido. - Porque tomas sempre o partido dela? No posso fazer isto sozinha.
- Mi amor, ests cansada. Porque no te vais deitar cedo? - Paco olhou-lhe para o rosto triste. Procurou-lhe nas feies a imagem da jovem suave com quem se tinha
casado e perguntou a si prprio por que razo ela tinha medo de sair e de se mostrar. Algures, ao longo do caminho, ela retrara-se e ele perguntava a si prprio
se alguma vez a conseguiria reconquistar.
O jantar foi desagradvel. Num acto de desafio, Anna mantinha uma expresso contrada. Rafael e Agustin continuaram a falar com o pai sobre o jogo de plo do dia
seguinte como se ela ali no estivesse. Esqueceram-se de que Sofia estava ausente. O seu lugar vazio  mesa do jantar estava rapidamente a tornar-se uma ocorrncia
regular.
38
- Temos de ter cuidado com o Roberto e o Francisco Lobito - disse Rafael, falando com a boca cheia. Anna olhava-o, circunspecta, mas, aos vinte e trs anos, estava
crescido de mais para que a me ralhasse com ele.
- Vo marcar sempre o Santi - disse Paco, erguendo os olhos srios. -  o melhor jogador da nossa equipa... isto significa que vocs, rapazes, tero mais responsabilidade.
Entendem? Agustin, vais ter de te concentrar. Concentrar mesmo.
- No te preocupes, pai - replicou Agustin, olhando para o pai e depois para o irmo, tentando mostrar a sua sinceridade. - No vou desiludir-te.
- Ser melhor que no o faas, ou a tua irm vai jogar no teu lugar - disse Paco e viu Agustin fazer uma expresso zangada, baixando o rosto para a carne que tinha
no prato. Anna suspirou profundamente e abanou a cabea, mas Paco no reparou. Apertou os lbios e continuou a comer em silncio. Aceitara que Sofia jogasse plo
com os primos, mas era uma coisa privada, dentro da famlia. S por cima do meu cadver  que ela jogaria diante da famlia Lobito de La Paz, pensou, zangada.
Entretanto, Sofia deliciava-se com um banho quente cheio de bolhas de espuma cintilantes. Deitou-se de costas e permitiu que o seu esprito se concentrasse em Santi.
Sabia que no deveria pensar assim a respeito do primo. O padre Jlio mand-la-ia rezar vinte ave-marias se soubesse os pensamentos lascivos que lhe apertavam de
desejo o baixo-ventre. A me benzer-se-ia e diria que um sentimento assim no era natural. Mas para Sofia era a coisa mais natural deste mundo.
Imaginava-o a beij-la e desejava saber como seria. Nunca beijara ningum. Bom, beijara Nacho Estrada no ptio da escola, porque tinha perdido uma aposta, mas no
fora um beijo propriamente dito. Fechou os olhos e imaginou o rosto dele, clido e moreno, a poucos centmetros do seu, os lbios dele, cheios e sorridentes, abrindo-se
levemente antes de poisarem nos seus. Imaginou-lhe os olhos, cor de turmalina, fixando amorosamente os dela. Quando no podia avanar mais do que isso, porque no
tinha a certeza do que poderia acontecer a seguir, rebobinava a fita e recomeava at a gua do banho arrefecer e ter a pele da ponta dos dedos to engelhada como
a de uma velha iguana.

CAPTULO TRS
Sofia acordou com a luz suave da manh brilhando por entre a abertura das cortinas. Deixou-se ficar deitada,  escuta dos primeiros sons da manh. O canto dos gorriones
e dos tordos eram um alegre preldio para o dia, saltitando de ramo em ramo nos altos pltanos e lamos. No precisava de olhar para o relgio para saber que eram
seis horas; no Vero, levantava-se sempre a essa hora. Preferia as primeiras horas da manh, enquanto o resto da casa ainda estava a dormir. Vestiu as calas de
ganga e a T-shirt, atou a longa trana escura com uma fita vermelha e enfiou as alpargatas.
L fora, o cu tinha um brilho enevoado, erguendo-se suavemente de entre a bruma da madrugada. Saltitou por entre as rvores com alegre disposio, em direco ao
puesto e ao campo de plo. Os seus ps mal tocavam o cho. Jos j se levantara e estava  espera dela, envergando as tradicionais bombachas, as botas de couro castanho
e a sua pesada rastra decorada com enormes moedas de prata. Com Pablo, filho de Jos, Sofia praticava batendo a bola com o taco durante algumas horas antes do pequeno-almoo,
sob a experimentada orientao do velho gacho. Sofia era a jovem mais feliz do mundo quando montava um pnei; sentia uma liberdade impossvel de atingir de outra
forma, cavalgando para c e para l, no campo, enquanto o resto da famlia estava longe e a descansar.
As oito entregou a gua a Jos e regressou a casa por entre as rvores. Enquanto caminhava, deitou um olhar para a casa de Santi, meio escondida por trs de um carvalho.
Rosa e Encarnacin, as criadas, vestindo impecveis uniformes brancos e azul-claros, esta-
40
vam no terrao a pr silenciosamente a mesa para o pequeno-almoo, mas Santi no estava em parte alguma. Gostava de dormir e raramente se levantava antes das onze.
A casa de Chiquita no era como a de Anna; era de um cor-de-rosa apagado, com telhas acinzentadas, manchadas do sol, e tinha apenas um andar. Mas Sofia preferia
a sua prpria casa, com paredes brancas e brilhantes, portadas verde-escuras, sombreadas por trepadeiras e enormes vasos de barro com gernios e jasmim-azul.
Em casa, Paco e Anna j se tinham levantado e bebiam caf no terrao, abrigados sob um enorme guarda-sol. O av O'Dwyer praticava truques com cartas sobre um dos
ces magros que, desejoso dos restos da mesa, se mostrava invulgarmente obediente. Paco, envergando um plo cor-de-rosa e calas de ganga, estava recostado na cadeira
a ler os jornais, com um par de culos na ponta do nariz. Quando Sofia se aproximou, poisou o jornal e serviu-se de mais caf.
- Paizinho... - comeou ela.
- No.
- O qu? Ainda nem sequer te pedi - disse ela a rir, curvndole para lhe dar um beijo.
- J sei o que me vais pedir, Sofia, e a resposta  no.
Ela sentou-se e pegou numa ma, mas, reparando que a boca do pai se curvava num leve sorriso, fitou-o com os seus olhos castanhos e devolveu-lhe o sorriso aberto,
infantil e malicioso, mas simplesmente encantador, que guardava apenas para ele ou para o av.
- Dale, paizinho, nunca tenho oportunidade de jogar.  to injusto! Afinal,papito, foste tu que me ensinaste a jogar.
- J chega, Sofia - exclamou a me, exasperada. No conseguia compreender por que razo o marido cedia sempre. - O teu pai disse que no, agora deixa-o em paz e
toma o pequeno-almoo... e usa a faca!
Irritada, Sofia picou furiosamente a ma. Anna fingiu no ver e folheou uma revista. Sentia que a filha a observava pelo canto do olho, e a sua expresso endureceu-se,
cada vez mais resoluta.
- Porque no me deixas jogar plo, me? - perguntou, em ingls.
- Porque no  prprio de uma senhora, Sofia. s uma menina, no uma maria-rapaz - replicou em tom firme.
41
- S porque no gostas de cavalos... - resmungou Sofia, petulante.
- No tem nada a ver com o assunto.
- Tem, pois. Queres que eu seja como tu, mas eu no sou. Sou como o pai... no es cierto, pap?
- De que estavam vocs a falar? - perguntou Paco, que no estava a ouvir a conversa. Geralmente, perdia o interesse quando elas falavam em ingls. Nesse momento,
Rafael e Agustin surgiram com passos trpegos, como dois vampiros, semicerrando os olhos  luz do sol. Tinham passado grande parte da madrugada num clube nocturno
da cidade. Anna poisou a revista e olhou-os ternamente enquanto os dois se aproximavam.
- Tanta luz - gemeu Agustin. - Tenho uma dor de cabea de morte.
- A que horas voltaram ontem  noite? - perguntou, condoda.
- Eram quase cinco, me. Podia ter dormido a manh inteira - respondeu Rafael, beijando-a pouco firme. - Que se passa, Sofia?
- Nada - disse ela bruscamente, semicerrando os olhos. - Vou para a piscina. - E partiu a correr.
Assim que a filha desapareceu, Anna pegou mais uma vez na revista e esboou um sorriso cansado, bem conhecido dos dois filhos.
- Hoje vai ser um mau dia - suspirou. - A Sofia est muito perturbada por no poder participar no jogo.
- Por Dios, pai... ela no pode jogar de maneira nenhuma!
- No ests a pensar nisso, pois no, pai? - perguntou Agustin, sufocado.
Anna estava encantada porque, pela primeira vez, a sua caprichosa filha no tinha conseguido manipular o pai. Sorriu-lhe grata, colocando brevemente a mo sobre
a dele.
- Neste momento, estou apenas a pensar se vou pr manteiga na minha media luna, comer uma torrada com membrillo ou beber s caf.  a nica deciso que me apetece
tomar esta manh - respondeu, erguendo o jornal e desaparecendo de novo por trs deste.
- O que  que se passa, Anna Melody? - perguntou o av O'Dwyer que no entendia uma palavra de espanhol. Pertencia  ge-
42
rao que esperava que todos falassem ingls. Vivia na Argentina havia j dezasseis anos e nunca se esforara por aprender a lngua. Em vez de tentar apanhar as
frases essenciais, obrigava o pessoal de Santa Catalina a ter de interpretar os seus gestos ou as poucas palavras de espanhol que dizia em voz lenta e muito alta.
Quando eles erguiam as mos e encolhiam os ombros, desesperados, ele resmungava irritado: Seria de esperar que nesta altura j compreendessem!, e saa, furioso,
em busca de algum que lhe servisse de tradutor.
- Ela quer participar no jogo de plo - respondeu Anna, para no o aborrecer.
- Caramba, que boa ideia. Ensinava umas coisas a aos rapazes!
Sofia sentia o frio na pele enquanto cortava a superfcie da gua. Traou furiosamente o caminho de um lado para o outro da piscina, at que se sentiu observada.
Erguendo-se  superfcie, deu pela presena de Maria.
- Ho/a!- disse, cuspindo gua para retomar o flego.
- Que se passa contigo?
- No me perguntes. Estou completamente loca de irritao!
- Por causa do jogo? O teu pai no te deixa participar? - perguntou a prima, despindo os cales brancos de algodo e estendendo-se na espreguiadeira.
- Como adivinhaste?
- Chama-lhe intuio...  fcil ler em ti, Sofia.
- Por vezes, Maria, apetecia-me estrangular a minha me.
- E no acontece o mesmo com toda a gente? - replicou Maria, retirando os cremes do seu bonito saco s flores.
- Oh, no, no fazes ideia. A tua me  uma santa... uma deusa do Cu. Chiquita  a pessoa mais doce deste mundo. Quem me dera que ela fosse minha me.
- Bem sei. Tenho muita sorte - admitiu Maria, que era a primeira a apreciar a boa relao que tinha com a me.
- Quem me dera que a minha me me deixasse em paz. E s porque sou a mais nova e a nica rapariga - queixou-se Sofia, subindo os degraus e estendendo-se ao lado
da prima, noutra espreguiadeira.
43
- Acho que por causa do Panchito, a minha me no tem tempo para mais nada.
- Quem me dera ter um irmo mais novo em vez daqueles dois idiotas. O Agustin  um pesadelo, est sempre a implicar comigo. Olha sempre para mim com ar de superioridade.
- O Rafa  bom para ti.
- O Rafa, sim. Mas o Agustin devia ir-se embora. Quem me dera que fosse estudar para o estrangeiro. Adorava v-lo pelas costas, de verdade!
- Nunca se sabe. Pode ser que o teu desejo se cumpra.
- Se ests a falar da rvore, tenho desejos mais importantes a pedir - disse-lhe Sofia e sorriu para consigo prpria. No queria gastar um com Agustin.
- Ento o que vais fazer com o jogo? - perguntou Maria, passando leo de bronzear nas coxas voluptuosas. -Quemada, no?
- Sim. Ests muito preta, pareces uma ndia! D-me um bocadinho. Graas a Deus que no herdei o cabelo ruivo e a pele clara da minha me... Pobre Rafa, fica to
vermelho como o rabo de um macaco.
- Ento, diz l. O que vais fazer? Sofia suspirou fundo.
- Rendo-me - disse, erguendo dramaticamente os braos.
- Nem parece teu, Sofia. - Maria parecia um pouco desiludida.
- Bom, ainda no tracei um plano... de qualquer forma, nem sei se vale a pena incomodar-me. Embora fosse bom ver a cara da minha me e a do Agustin.
Neste momento, foi erguida da espreguiadeira por dois braos fortes e, antes de perceber o que se estava a passar, deu por si no ar e depois na gua, de culos
escuros e tudo, esforando-se por se libertar.
- Santi - disse, alegre e ofegante, vindo ao de cima em busca de ar. - Boludo! - Atirando-se a ele, meteu-lhe a cabea, de rosto sorridente, debaixo de gua. Para
sua satisfao, ele agarrou-lhe as ancas num forte abrao e puxou-a para o fundo onde lutaram juntos at se verem obrigados a vir  superfcie em busca de ar. Sofia
tinha vontade de continuar aquela luta, mas acabou por segui-lo, relutante, at  borda da piscina.
44
- Obrigada. Logo agora que eu tinha comeado a bronzear-me - disse, quando conseguiu recuperar o flego.
- A mim, pareces-me torrada de mais, como as salsichas do Jos. S te fiz um favor - respondeu ele.
- Belo favor.
- Ento, Chofi, no vais jogar esta tarde? - picou-a. - Puseste os teus dois irmos mais nervosos do que ratos de corda.
- Ainda bem. Precisavam que eu lhes abanasse a gaiola.
- No pensavas que o Paco te ia mesmo deixar jogar, pois no?
- Se queres saber... pensava que sim. Pensava que conseguia dar a volta ao meu pai.
Santi sorriu divertido, franzindo as linhas em redor dos olhos e da boca, de um modo que lhe era muito particular.  to bonito quando se ri, pensou Sofia para
consigo.
- Se algum consegue dar a volta ao Paco, esse algum s tu. O que foi que correu mal?
- Deixa que eu soletre: a m-i-n-h-a m--e.
- Ah, j percebo. Ento, no h esperana.
- Nenhuma.
Santi saiu da gua e sentou-se no cho quente; j tinha o corpo e os braos cobertos de plos louros e macios que a jovem Sofia achava curiosamente intrigantes.
- Chofi, tens de provar ao teu pai que sabes jogar to bem como o Agustin - sugeriu ele, afastando dos olhos o cabelo molhado.
- Sabes bem que eu sei jogar to bem como o Agustin. E o Jos tambm sabe... pergunta-lhe.
- Pouco importa o que eu penso, ou o que o Jos pensa... a nica pessoa que tens de impressionar  o teu pai... ou o meu.
Por uns instantes, Sofia semicerrou os olhos, pensativa.
- O que ests a tramar agora? - perguntou ele, divertido.
- Nada - respondeu Sofia timidamente.
- Eu conheo-te, Chofi...
- Olha, vamos ser invadidos - disse Maria, quando Chiquita e o seu Panchito de trs anos se aproximaram da piscina, rodeados por cinco ou seis outros primos.
45
- Anda, Santi - disse Sofia, dirigindo-se aos degraus. - Vamos sair daqui. - Depois, pareceu lembrar-se da prima e voltou-se. - No vens, Maria?
Esta abanou a cabea e acenou  me para que se sentasse ao seu lado.
Ao meio-dia, o rico cheiro do asado no carvo flutuava ao sabor da brisa e pairava sobre o rancho, fazendo com que as matilhas de ces magros andassem, esfomeadas,
junto ao churrasco. Jos estava a tomar conta das brasas desde as dez da manh, para que a carne estivesse bem passada  hora do almoo. Soledad, Rosa, Encarnacin
e as criadas das outras casas punham as mesas para a tradicional reunio de sbado. As toalhas brancas e os cristais brilhavam ao sol.
De vez em quando, a Seora Anna poisava a revista e, de chapu de palha e longo vestido branco, andava por entre as mesas para ver se estava tudo em ordem. Era uma
curiosidade para as criadas, com o seu cabelo ruivo flamejante e pele branca - tal como a austera virgem Nuestra Seora de la Asuncin, na pequena igreja da cidade.
Era firme, directa, e tinha pouca pacincia para o que no era do seu agrado. O seu domnio da lngua espanhola, surpreendentemente descuidado para quem passara
tantos anos de vida na Argentina, era sujeito a uma brutal imitao nos aposentos das criadas.
Porm, o Seor Paco era adorado por todos em Santa Catalina. Hector Francisco Solanas, o falecido pai de Paco, fora um homem de vontade forte, que acreditava que
a famlia estava primeiro do que os negcios e a poltica. Acreditava que no havia nada mais importante do que a casa de um homem. A mulher, Maria Elena, era a
me dos seus filhos e, como tal, tida por ele em alta estima. Respeitava-a, admirava-a e amava-a  sua maneira. Mas nunca tinham estado apaixonados. Os pais de ambos,
que eram grandes amigos, haviam-nos escolhido um para o outro, acreditando que o casamento seria benfico para ambas as partes. E foi, at certo ponto. Maria Elena
era muito bela e bem preparada, e Hector era moreno e fogoso com uma intuio arguta para os negcios. Eram clebres em Buenos Aires e muito procurados. Recebiam
com elegncia extraordinria, sendo estimados por todos. Talvez fosse pela qumica, mas no se amavam como os
46
amantes se devem amar. Contudo, na escurido das horas nocturnas, faziam amor com tal paixo, como se se tivessem esquecido de si prprios ou um do outro, mas para
acordarem formais como de costume, descobrindo que a intimidade da noite anterior se tinha evaporado com a madrugada.
Maria Elena tinha conscincia de que Hector tinha uma amante na cidade. Todos sabiam. Alm do mais, era vulgar os maridos terem amantes, por isso aceitou o facto
e nunca falou do caso a ningum. Para encher o vazio da sua vida, entregou-se completamente aos filhos, at  chegada de Alexei Shahovskoi. Alexei Shahovskoi fugira
da Rssia para escapar  Revoluo de 1905. Brilhante, sonhador, entrou na vida dela como professor de piano. Alm do piano, ensinou-a a apreciar pera, a arte e
a paixo de um homem para quem o amor estava de acordo com a msica que ensinava. Se Maria Elena alguma vez correspondeu aos sentimentos evidenciados em cada nota
que ele tocava e revelava, no modo silencioso com que a fitava com olhos lquidos, nunca se traiu a si prpria nem ao marido. Enquanto desfrutava da sua companhia
e dos seus ensinamentos, recusava os seus avanos com a dignidade de uma mulher honrada que tinha feito a sua escolha nesta vida. Ele no lhe satisfazia a necessidade
de amor, mas dava-lhe o dom da msica. Em cada partitura havia um pas para desejar, um pr do Sol para chorar, um horizonte para onde voar... A msica dava-lhe
a oportunidade de viver outras vidas na sua imaginao e trazia-lhe no s uma fuga aos sufocantes constrangimentos do seu mundo, mas uma enorme felicidade. Paco
recordava sobremaneira o amor da me pela msica e as suas belas mos danando sobre as teclas do piano.
 uma hora, o gongo soou na torre para chamar toda a gente para o almoo. De todos os cantos da estncia, a famlia dirigiu-se a casa de Paco e Anna, atrada pelo
forte aroma do lomo e do
chorizo assado. A famlia Solanas era grande. Miguel e Paco tinham mais dois irmos, Nico e Alejandro. Nico e Valeria tinham quatro filhos, Niquito, Sabrina, Leticia
e Tomas, e Alejandro e Malena tinham cinco, Angel, Sebastian, Martina, Vanesa e Horcio. O almoo foi o habitual acontecimento ruidoso; a comida era boa e abundante
como num espln-

47
dido banquete. Porm, faltava uma pessoa e, assim que todos acabaram de se servir do churrasco e se sentaram, a ausncia tornou-se evidente.
- Onde est a Sofia? - murmurou Anna para Soledad, enquanto passava a tigela da salada.
- No s, Seora, no la vi. - Depois voltou subitamente os olhos para o campo de plo e exclamou: -Qu horror! Ah est.
Nesse momento, toda a famlia se voltou para olhar e um silncio horrorizado instalou-se entre eles. Uma Sofia confiante e despudorada galopava em direco a eles,
com o taco no ar, impelindo a bola  sua frente. Tinha o rosto fixo e contrado de determinao. Anna ps-se de p de um salto, corada de fria e desespero.
- Sofia, como podes fazer uma coisa destas! - gritou, horrorizada, atirando com o guardanapo. - Que o Senhor Deus te perdoe - acrescentou, em voz baixa, em ingls.
Santi afundou-se na cadeira com ar culpado, enquanto a restante famlia olhava boquiaberta. Apenas Paco e o av O'Dwyer, que estava sempre sentado numa ponta da
mesa a olhar para a comida, porque ningum se preocupava em falar com ele, sorriam para consigo, orgulhosos ao ver Sofia galopar com grande atrevimento em direco
a eles.
- Vou mostrar-vos que sei jogar plo melhor que o Agustin - sussurrou Sofia por entre os dentes cerrados. - Olha para mim, pai. Devias orgulhar-te... foste tu que
me ensinaste.
Enquanto cavalgava pela relva, agitava destramente o taco, firmemente sentada na sela, controlando a bola e o pnei enquanto sorria feliz e sem qualquer embarao.
Sentia sobre si vinte pares de olhos, satisfeita por ser o alvo das atenes.
Segundos antes de esbarrar com a mesa, puxou as rdeas obrigando o pnei, que resfolegava, a uma poeirenta paragem, e apresentou-se diante do pai com ar de desafio.
- Viste, paizinho? - anunciou, triunfante. Todos os que estavam  mesa voltaram as suas atenes para Paco, curiosos do que este iria fazer. Para surpresa de todos,
o pai de Sofia encostou-se plcidamente na cadeira, pegou no copo de vinho e ergueu-o.
- Bien, Sofia. Agora vem para a mesa... ests a perder a festa - disse ele, calmamente, e um sorriso divertido surgiu-lhe vagamente
48
no rosto curtido. Entusiasmada, Sofia desmontou e conduziu o seu pnei suado a todo o comprimento da mesa.
- Desculpa chegar tarde para o almoo, mezinha - disse, ao passar por Anna, que se sentara de novo, pois as pernas j no conseguiam sust-la.
- Nunca na minha vida vi uma exibio to descarada para chamar a ateno - disse bruscamente em ingls, quase sem conseguir pronunciar as palavras, de tanto que
tremia.
Sofia atou as rdeas a uma rvore, depois escovou as calas de ganga e aproximou-se vagarosamente da mesa.
- Sofia, vai lavar as mos e mudar de roupa antes de vires para a mesa - disse Anna, aborrecida, fitando envergonhada a famlia do marido. Sofia mostrou-se abertamente
ofendida, antes de se dirigir a casa para fazer o que a me lhe ordenara.
Assim que ela se foi, o almoo recomeou no ponto onde ficara, excepto que o tpico das conversas passou a ser la sin vergenza Sofia. Anna deixou-se ficar em silncio,
com os lbios apertados, humilhada, escondendo o rosto por baixo do chapu. Porque teria Sofia de a deixar sempre ficar mal diante de toda a famlia? Agradeceu a
Deus por Hector j no estar vivo e ter de testemunhar o descarado comportamento da neta. Teria ficado assombrado com a sua falta de controlo. Ergueu os olhos para
o pai, que resmungava qualquer coisa para um grupo de ces que salivavam, esperanosos, aos seus ps; sabia que quanto pior Sofia se comportava, mais ele a admirava.
Maria escondeu uma gargalhada com a mo e observou a reaco de todos para, mais tarde, quando estivessem sozinhas, fazer a Sofia um detalhado relato.
Agustin voltou-se para se queixar a Rafael e a Fernando.
- Ela no passa de uma exibicionista - murmurou para que o pai no o pudesse ouvir. - O pai  que tem a culpa. Deixa-a sempre levar a melhor.
- No te preocupes - disse Fernando com presuno. - Ela no vai participar no jogo. O meu pai nunca o permitir.
-  muito exibicionista - declarou Sabrina  prima Martina. Eram ambas um pouco mais velhas do que Sofia. - Eu nunca faria uma coisa dessas em frente de toda a gente.
49
- Pois , a Sofia nunca sabe quando deve parar. Aquilo de querer jogar plo... porque  que ela no admite que  uma rapariga e deixa de ser to infantil?
- Olhem para a Anna - disse Chiquita a Malena. - Est to envergonhada. Estou cheia de pena dela.
- Eu no - disse Malena, bruscamente. - A culpa  dela. Esteve sempre muito ocupada a admirar os filhos. Devia ter-se preocupado mais com a Sofia do que t-la entregue,
sem mais nem menos,  jovem Soledad. Afinal, a Soledad no passava, tambm ela, de uma criana quando a Sofia nasceu.
- Bem sei. Mas ela esfora-se. A Sofia no  fcil - insistiu Chiquita, olhando com pena para Anna, que estava do outro lado da mesa, tentando agir com naturalidade,
a falar com Miguel e Alejandra. Lia-se o nervosismo nas suas feies, principalmente na garganta que estava tensa como se tentasse no chorar.
Quando Sofia voltou para a mesa, tinha vestido outro par de calas de ganga e uma T-shirt branca. Depois de se servir, sentou-se entre Santi e Sebastian.
- Para que raio foi aquilo tudo? - murmurou-lhe Santi ao ouvido.
- Tu  que me deste a ideia - disse ela a rir.
- Eu?
- Disseste que eu tinha de impressionar o meu pai ou o teu. Assim, impressionei os dois - disse em tom triunfante.
- No me parece que tenhas impressionado o meu pai - disse Santi, olhando para Miguel que, sentado  mesa, conversava com Anna e com o irmo Alejandro.
Miguel deu com os olhos no filho e abanou a cabea. Santi encolheu os ombros, como que para dizer a ideia no foi minha.
- Pensas ento que, devido ao que fizeste, esta tarde vais participar no jogo? - perguntou, olhando para a prima que devorava a comida para apanhar os outros.
- Claro.
- Muito me espanta se o conseguires.
- No te espantes. Bem o mereo - disse ela, raspando com a faca no fundo do prato para arrepiar toda a gente.
50
Assim que o almoo acabou, Maria e Sofia desapareceram atrs da casa para poderem rir  gargalhada. Tentavam falar, mas de tanto rir tiveram ambas de apertar o estmago
e de se concentrar na respirao. Sofia estava muito contente consigo prpria.
- Pensas que deu resultado? - perguntou ofegante a Maria, sabendo perfeitamente que a resposta era afirmativa.
- Claro que sim - Maria acenou com a cabea. - O tio Paco ficou muito impressionado.
- E a minha me?
- Furiosa.
- O Dios!
- No finjas que te importas com isso.
- Que me importo? Estou encantada! O melhor  no fazermos muito barulho ou ela vai encontrar-me. Chiu! - disse, encostando o dedo  boca. - Nem um pio, est bem?
- Nem um pio - murmurou Maria, obediente.
- Ento o meu pai ficou impressionado? Achas? - Os olhos de Sofia estavam brilhantes de satisfao.
- Tem de te deixar jogar.  injusto que no te deixe s por seres rapariga!
- Porque no envenenamos o Agustin? - perguntou maliciosamente Sofia.
- Com qu?
- A Soledad podia arranjar uma poo naquela bruxa da cidade. Ou podamos faz-la ns.
- No precisamos de uma poo, precisamos de um feitio.
- Pois . Acho que  a nica maneira. Para o ombu - anunciou Sofia, decidida.
- Para o ombu! - repetiu Maria, fazendo continncia. Sofia fez o mesmo. Depois, as duas jovens atravessaram os campos a correr, as suas vozes ecoando atravs da
plancie, enquanto urdiam o seu plano.
Anna sentia-se mortificada. Logo que o almoo terminou, fingiu ter uma dor de cabea e correu para o quarto, onde se atirou para cima da cama, comeando a abanar-se
com um livro. Pegando na aus-
51
tera cruz de madeira que estava sobre a mesa-de-cabeceira, levou-a aos lbios e murmurou uma curta orao, pedindo a Deus que a orientasse.
- Que fiz eu para merecer uma filha to difcil? - perguntou em voz alta. - Porque deixo que ela me irrite? S faz isto por despeito. Porque ser que o Paco e o
pai so cegos aos seus caprichos? No tero olhos? Ou s eu conseguirei ver o monstro que ela consegue ser? Sei que deve ser uma espcie de castigo por no me ter
casado com o Sean O'Mara. No fui j castigada por isso, Senhor? J no sofri o suficiente? Dai-me foras, meu Deus. Nunca precisei delas tanto como agora. E, j
agora, no a deixeis participar naquele maldito jogo. Ela no merece.
La Copa Santa Catalina comeou a horas, o que  raro na Argentina. Eram cinco da tarde. Ainda estava calor quando os rapazes, de calas brancas e brilhantes botas
castanhas, comearam a galopar no campo, num frenesim de competitividade. Os quatro jovens robustos de La Paz envergavam camisas negras, os de Santa Catalina vestiam
de cor-de-rosa. Dos quatro rapazes de La Paz, Roberto e Francisco Lobito eram os melhores jogadores; os seus dois primos, Marco e Davico, eram do mesmo calibre de
Rafael e Agustin. Roberto Lobito era o melhor amigo de Fernando, mas durante um jogo assim no havia espao para a amizade; durante o jogo, seriam os piores inimigos.
Fernando, Santi, Rafael e Agustin, todos eles, jogavam desde pequenos. Estavam todos em forma - excepto Agustin, que ainda tinha a ressaca da noite anterior. Santi
jogava com brilho, lanando-se para fora da sela, numa calma exibio de habilidade. Contudo, o trabalho de equipa, pelo qual Santa Catalina era to famosa, estava
prejudicado pelo quarto elemento, Agustin, cujas reaces eram invulgarmente lentas, como se andasse sempre um tempo atrs dos outros. Jogavam seis chukkas - seis
perodos de sete minutos.
- Tens mais cinco chukkas para te recompor, Agustin - disse Paco, irritado, durante o intervalo no final do primeiro tempo. - Se no andasses a chafurdar no meio
do campo, o Roberto Lobito no teria tido possibilidades de marcar... duas vezes - disse as palavras
52
duas vezes acentuando-as bem, como se Agustin tivesse tido a culpa de tudo. Enquanto trocavam os pneis exaustos e espumando por outros frescos, Agustin olhou
pouco  vontade em redor do campo em busca da irm.
- Bem podes sentir-te ansioso, filho. Se no melhorares o jogo, a Sofia vai substituir-te - acrescentou Paco antes de atravessar o campo. Foi ameaa suficiente para
conseguir que Agustin aguentasse o segundo chukka, embora Santa Catalina ainda continuasse a perder por dois golos.
Toda a gente de Santa Catalina e de La Paz tinha vindo assistir. Geralmente, sentavam-se todos juntos, mas hoje era diferente; a importncia do jogo significava
que se sentassem em grupos, observando, desconfiados, o campo adversrio. Os rapazes estavam todos juntos, como alcateias de lobos, arrastando nervosamente os ps,
um olho no jogo, o outro nas raparigas. As raparigas de La Paz inclinavam-se sobre os caps dos jipes, de saias curtas e lenos na cabea, falando de rapazes e da
moda, com culos de sol que lhes obscureciam sensualmente os olhos colados num ou noutro rapaz de Santa Catalina. Entretanto, as meninas de Santa Catalina, Sabrina,
Martina, Pia, Leticia e Vanesa, observavam o belo Roberto Lobito, montando o pnei, como se fosse um maravilhoso cavaleiro percorrendo o campo sobre um alazo, com
o cabelo loiro batendo-lhe no belo rosto, cada vez que baixava a cabea para tocar na bola. Sofia e Maria mantinham-se  distncia, preferindo ficar sentadas junto
de Chiquita e do pequeno Panchito, que brincava por ali com um pequeno taco e uma bola, para que elas no se distrassem da exibio dos irmos e primos.
- No podem perder - protestava apaixonadamente Sofia, observando Santi que galopava em direco ao golo, passando depois a bola a Agustin que falhava constantemente.
- Choto Agustin! - gritou ela, frustrada. Maria mordeu o lbio, ansiosa.
- Sofia, no uses essa palavra, no  educado - disse Chiquita em voz baixa, sem afastar os olhos do filho.
- No consigo olhar para o idiota do meu irmo.  uma vergonha.
53
- Chopo, chopo - riu-se Panchito, atirando a bola na direco de um co distrado.
- No, Panchito - disse Chiquita, acudindo. - No  uma palavra bonita, mesmo que no a digas bem.
- No te preocupes, Sofia. Sinto ventos de mudana - disse Maria, olhando para a prima.
- Espero que tenhas razo. Se o Agustin continua a jogar assim, de certeza que vamos perder - replicou, e depois piscou o olho a Maria nas costas de Chiquita.
No quarto chukka, apesar de Santi e Fernando terem marcado um golo cada, Santa Catalina ainda perdia por dois golos. Os de La Paz, confiando na vitria, sentavam-se
complacentes nas suas selas. De sbito, Agustin apareceu no se sabe de onde, tomou posse da bola e atirou-se contra a baliza vazia. Com um forte entusiasmo das
bancadas, marcou.
- Valha-me Deus! - gritou Sofia, alegrando-se. - O Agustin marcou.
Ergueu-se uma ovao na claque de Santa Catalina, que quase caiu dos caps de to aliviada. Contudo, o pnei no se deteve na baliza e galopou vitoriosamente antes
de se deter, lanando pelos ares um delirante Agustin. Este aterrou com um gemido e ficou estendido, inerte sobre a relva. Miguel e Paco correram para ele. Passaram
uns terrveis momentos que pareceram uma eternidade a Anna, que ficou muito perturbada. Depois, Paco anunciou que ele nada mais tinha do que um galo na cabea e
uma enorme ressaca e, para grande surpresa de todos, gritou para Sofia.
- Vem jogar.
A filha olhou para ele, siderada. Anna ia protestar, mas um gemido de Agustin desviou-lhe a ateno.
- Como?
- Mexe-te, vem jogar. E  melhor que ganhes - acrescentou em tom grave.
- Maria, Maria! - exclamou Sofia, abismada. - Resultou! Maria abanou a cabea incrdula e espantada. Afinal, a rvore era
de facto mgica.
Sofia no podia acreditar na sua sorte, enquanto enfiava rapidamente a camisa cor-de-rosa e montava o pnei. Reparou que os rapa-
54
zes de La Paz se riam, incrdulos, quando entrou em campo. Roberto Lobito gritou qualquer coisa para o irmo Francisco e ambos soltaram uma gargalhadinha de desprezo.
Prometeu a si prpria que se vingaria. Haveria de lhes mostrar do que era capaz. No tinha tempo de falar com Santi ou com os outros. O jogo recomeara rapidamente.
Em poucos segundos passaram-lhe a bola, mas foi empurrada por Marco que lanou o seu pnei contra o dela, para a pr fora de jogo; nada pde fazer seno ver a bola
passar a zumbir por entre as pernas do seu pnei e sair pelo outro lado. Furiosa, lanou-se contra ele e depois, para se precaver, contra Francisco, antes de partir
a galope. Apercebeu-se de que Rafael e Fernando pareciam relutantes em lhe passar a bola; apenas Santi a utilizava sempre que podia, mas estava a ser fortemente
marcado por um sarcstico Roberto Lobito. De facto, Roberto e Santi pareciam travar uma espcie de batalha particular, como se fossem os dois nicos jogadores em
campo, esbarrando um no outro, enganchando os tacos e gritando obscenidades.
- A esquerda, Fercho - gritou Sofia a Fernando, logo que surgiu uma oportunidade. Ele olhou para ela, hesitou, preferiu passar a bola a Rafael que foi, por sua vez,
afastado por Marco e Davico ao mesmo tempo. - Para a prxima, passa-a para mim, Fercho. Eu tinha o campo livre para marcar! - gritou ela, furiosa.
- Claro que tinhas - replicou ele, com desprezo, e afastou-se. Ela reparou que Roberto Lobito quebrava a sua regra de silncio e abanava a cabea num gesto de solidariedade
para com Fernando.
Sabrina e Martina estavam horrorizadas por Sofia ter sido autorizada a participar no jogo.
- Vai estragar tudo - disse Sabrina, irritada.
- Por amor de Deus, ela tem s quinze anos - declarou Martina, aborrecida. - No a deviam deixar jogar com os rapazes mais velhos.
- A culpa  do Santi, que a incentiva - disse Pia, com desprezo.
- Ele tem um fraquinho por ela... s Deus sabe porqu. Est estragada com mimos. Olhem, anda por ali, sem fazer nada. Ningum a usa - queixou-se Sabrina, vendo a
prima mais nova de um lado para o outro no campo.
55
No final do quinto chukka, continuavam a perder por um golo.
- Usem a Sofia, por amor de Deus! Somos uma equipa e a nica maneira de ganhar  com trabalho de equipa - explodiu Santi, desmontando.
- Se a usarmos, vamos perder de certeza - replicou Fernando, tirando o bon e sacudindo o cabelo escuro e suado.
- V l, Fercho, no sejas criana - disse Rafael. - Ela veio jogar e no podes fazer nada contra isso. No esperam que a usemos, por isso vamos aproveitar.
- No vamos ganhar com uma equipa de trs pessoas - gritou Santi, exasperado. - Por isso, incluam-na, raios!
Fernando fez um ar zangado, furioso com o irmo.
- Vou-vos mostrar, seus chauvinistas, que sei jogar melhor do que o idiota do Agustin. Engulam o orgulho e joguem comigo... no contra mim. O inimigo  o La Paz,
lembram-se? - Sofia voltou para o campo a galope e com ar confiante. Fernando manteve o silncio, enquanto Rafael erguia os olhos ao cu e Santi ria, admirado.
A tenso era quase palpvel quando voltaram a entrar em campo para o ltimo chukka. Quando o jogo comeou, desceu sobre os espectadores um silncio pesado. O ltimo
chukka estava a ser uma agressiva exibio de arrogncia,  medida que cada uma das equipas tentava desesperadamente ultrapassar a outra. Santi, sem dvida o melhor
jogador da equipa, era fortemente marcado, mas Sofia, que ningum pensava ir ser aproveitada, praticamente no sofria qualquer marcao. O tempo passava. Apesar
da discusso anterior, mal lhe passavam a bola e pouco mais faziam do que cobrir-se uns aos outros. Por fim, Santi conseguiu marcar o empate.
Os espectadores estavam agora de p, incapazes de se manterem sentados, enquanto a batalha se intensificava nos ltimos minutos do jogo. Todos sabiam que, se o jogo
no tivesse um vencedor durante o tempo previsto, teria de ser resolvido com morte sbita. O campo ecoava com gritos furiosos e ordens impacientes de Roberto que
tentava controlar a sua equipa, e de Santi que queria convencer o irmo a jogar com Sofia. Maria, agitada, corria de um lado para o outro, incapaz de estar quieta,
desejando que Sofia marcasse. Miguel e Paco andavam para trs e para a frente, sem tirar os olhos do jogo.
56
Paco olhava para o relgio - faltava um minuto. Talvez tivesse sido um erro ter deixado Sofia jogar, pensava tristemente.
De sbito, Rafael tomou posse da bola, passou-a a Fernando que lha devolveu. Santi serpenteou por entre Roberto e Marco que galoparam em sua perseguio. Seguiram-se
gritos febris, mas Rafael conseguiu passar a Santi e este correu pelo campo sem ser marcado. Apenas Sofia e o seu oponente Francisco estavam entre ele e o golo.
Santi tinha uma possibilidade, podia atrever-se a passar por Francisco e tentar marcar, ou poderia arriscar atirar a bola para Sofia. Decerto que Santi no passaria
a Sofia. Francisco saiu do lado dela para interceptar a bola. Santi ergueu os olhos verdes para a prima que compreendeu imediatamente e se posicionou. Antes de Francisco
chocar com ele, Santi lanou a bola a Sofia.
- Marca, Chofi - gritou.
Sem querer perder aquela oportunidade, Sofia cavalgou atrs da bola, apertando os dentes com resoluo. Bateu nela uma vez, duas, depois, balanando o taco com o
brao no ar, pensou em Jos, no pai e, por fim, em Santi e desferiu um golpe que fez entrar a bola na baliza. Segundos depois, o apito soou. Tinham ganho o jogo.
- No acredito! - exclamou Sabrina, sufocada.
- Meu Deus, ela conseguiu. A Sofia marcou - gritou Martina, saltando e batendo as palmas. - Boa, Sofia! Idola!
- Mesmo a tempo! - sorriu Miguel, batendo nas costas de Paco. - Sorte tua, ou serias assado juntamente com o lomo.
- Ela jogou bem. Apesar de a equipa a abandonar... mas no h dvida de que tem jeito - disse ele, orgulhoso.
Rafael cavalgou at junto de Sofia e deu-lhe umas palmadas nas costas.
- Bien hecho, gorda!- riu-se. - Es uma estrela!
Fernando acenou sem sorrir. Estava satisfeito por terem ganho, mas no era capaz de felicitar Sofia. Santi quase a derrubou do pnei quando a agarrou pela nuca e
a puxou para si para lhe beijar o rosto coberto de poeira.
- Eu sabia que conseguias, Chofi. No me ias deixar ficar mal - riu-se, tirou o bon e coou a cabea suada.
Roberto Lobito dirigiu-se a ela quando a viu desmontar.
57
- Jogas bem, para rapariga - disse ele, sorrindo-lhe.
- E tu jogas bem, para rapaz - replicou ela, arrogante. Roberto riu-se.
- Ento vou ver-te mais vezes no campo? - perguntou-lhe, interessado, percorrendo-lhe as feies com os olhos castanhos.
- Talvez.
- Pois bem, fico  espera - acrescentou, piscando-lhe o olho. Sofia torceu o nariz, antes de lhe virar as costas com um riso rouco e de partir a correr para se juntar
 equipa.
Mais tarde, nessa noite, quando as primeiras estrelas salpicaram de prata o crepsculo, Santi e Sofia sentaram-se por baixo dos ramos nodosos do escarpado ombu,
olhando para o horizonte.
- Jogaste bem hoje, Chofi.
- Graas a ti, Santi. Acreditaste em mim. Fui eu quem se riu por ltimo, no  verdade? - E soltou uma gargalhada, ao lembrar-se de Agustin a cair do pnei. - Aqueles
meus irmos...
- Ignora-os. S te repelem porque te revoltas.
- No o posso evitar. So to mimados... principalmente o Agustin.
- As mes so assim para com os filhos. Espera e vers.
- Por muito tempo, espero eu.
- Talvez menos do que pensas. A vida nunca  o que esperamos.
- A minha h-de ser. De qualquer forma, obrigada por teres confiado hoje em mim e por me teres defendido. Eles no se ficaram a rir, pois no? - disse, orgulhosa.
Ele olhou para aquele rosto sincero atravs da penumbra e colocou-lhe afectuosamente a mo na nuca.
- Sabia que tu conseguias. Nunca vi uma pessoa to determinada como tu. Nunca. - Ficou depois em silncio, como se estivesse perdido nos seus pensamentos.
- Em que pensas? - perguntou ela.
- No s como as outras raparigas, Chofi.
- No? - replicou ela, satisfeita.
- No. s mais divertida, mais... como hei-de dizer? Es una per-sonaje.
58
- Pois bem, se sou uma personagem, Santi, tu para mim, s um dolo! Sabias?
- No me ponhas num pedestal... posso cair dele abaixo - disse a rir.
- Tenho sorte em ter um amigo como tu - respondeu ela, acanhada, sentindo o corao acelerar. - No h dvida de que s o meu primo preferido.
- Primo. - Santi suspirou fundo e com alguma tristeza. - Tambm tu s a minha prima favorita.

CAPTULO QUATRO
- As raparigas so to boas como os rapazes a praticar desporto - declarou Sofia, folheando distraidamente uma das revistas de Chiquita.
- Que disparate! - respondeu Agustin, interrompendo a conversa com Fernando e Rafael para morder a isca como uma truta esfomeada.
- Finge que no a ouves - aconselhou Fernando de mau humor. - Callate, Sofia. Porque no vais  procura da Maria e nos deixas em paz? - Sofia tinha quatro anos e
meio menos do que o primo, e este mostrava pouca pacincia para aturar crianas.
- Estou aborrecida - resmungou ela do sof, agitando os dedos dos ps morenos, que estendera na sua frente. Estava a chover. Grossas gotas de Vero tocavam ruidosamente
nos vidros. Chovera todo o dia, uma chuva constante que no dava sinais de querer parar. Santi fora  cidade com os primos Sebastian, Angel e Niquito. Maria estava
em casa de Anna com Chiquita, Panchito e a tia Malena com Horcio, o filho pequenino. Sofia no partilhava com Maria o gosto por brincar com as criancinhas, por
isso viera-se embora e deixara-a l. Espreguiou-se. No havia nada para fazer, nem ningum com quem estar. Olhou em redor da sala e suspirou. Os rapazes estavam
concentrados na conversa.
- Sou to boa no plo como o Agustin e o pai sabe disso - insistiu,  espera da reaco do irmo. - Afinal, deixou-me jogar na Copa Santa Catalina.
- Cala-te, Sofia - disse Fernando.
60
- Sofia, ests a ser aborrecida - disse Rafael.
- S estou a dizer a verdade. A esto vocs, a discutir desporto, como se s o vosso sexo o praticasse como deve ser. As raparigas seriam to boas como os rapazes
se tivessem oportunidade para isso. Sou a prova viva.
- No me vou aborrecer, Sofia - disse Agustin, j aborrecido -, mas digo-te que tenho mais fora do que tu alguma vez poders demonstrar. Por isso, no faas comparaes.
- No estou a falar de fora. Estou a falar de esprito e de capacidade. Claro que sei que os homens so mais fortes do que as mulheres... no  essa a questo -
riu-se desdenhosa, satisfeita por ele ter reagido.
- Sofia, se no te calas j, vou mesmo pr-te l fora  chuva, e depois logo se v quem chora como uma menina - vociferou Fernando, exasperado.
Nesse momento, Santi entrou como um co molhado, seguido de Sebastian, Angel e Niquito. Todos se queixavam amargamente do tempo, limpando as gotas de chuva da cara.
- Quase nem conseguamos subir o atalho - disse sem flego. - A lama  incrvel.
- Foi um milagre no termos ficado atascados - disse Sebastian, sacudindo o cabelo escuro para o cho de azulejo.
- O que est o teu av a fazer l fora, com este tempo? - perguntou Santi, voltando-se para Sofia.
- No sei. O que est ele a fazer?
- Anda a passear como se houvesse sol.
-  mesmo do av - riu Sofia. - Olha, Santi, as raparigas no so to boas como os rapazes nos desportos?
- Tem sido uma chata toda a manh, Santi. Faz-nos um favor, leva-a daqui - pediu Rafael.
- No vou tomar partido, se  disso que andas  procura, Chofi.
- No estou a falar da fora, nem de nada disso. Habilidade, sagacidade...
- Tu s mais sagaz do que a maior parte dos rapazes - concordou ele, puxando-lhe as pernas, para se poder sentar no sof, junto dela.
61
- S disse que era to capaz como o Agustin - explicou ela. Viu que os ombros do irmo se encolhiam, irritado, e que resmungava qualquer coisa entre dentes para
Fernando e Rafael.
- Pois ento prova - Santi encolheu os ombros. - Podes continuar a falar do assunto durante horas. No h dvida de que ests a ser chata.
- Est bem, Agustin, queres que te vena ao gamo? - desafiou-o.
- Joga com o Santi. A mim, no me apetece - respondeu ele, zangado.
- No quero jogar com o Santi.
- Porque sabes que vais perder - disse Santi, presunoso.
- No  isso. No estou a dizer que sou melhor do que o Santi, o Rafa ou o Fercho. Estou a dizer que sou melhor que o Agustin.
De sbito, o irmo ps-se de p num salto e olhou para ela.
- Muito bem, Sofia, queres que eu te vena? Vai l buscar o tabuleiro e j veremos quem joga melhor.
- Deixa isso, Agustin - disse Rafael, cansado das constantes discusses entre os irmos. Fernando abanou a cabea com ar reprovador. A maior parte das vezes, Sofia
era difcil, mas quando estava aborrecida sabia ser insuportvel.
- No. Eu jogo, mas com uma condio - disse Agustin.
- Qual ? - perguntou ela, retirando o tabuleiro da gaveta onde Miguel guardava os jogos.
- Se eu vencer, concordas que eu sou melhor do que tu em tudo.
- Est bem.
- Arranja as coisas e chama-me quando estiver tudo pronto. Vou buscar qualquer coisa que se beba - disse, enquanto saa da sala.
- Ests mesmo disposta a concordar com isso? - perguntou Santi, vendo-a abrir o tabuleiro.
- No vou perder.
- No tenhas tantas certezas. A sorte tambm tem a ver com isto, sabes bem. E tu podes ter azar.
- Vou ganhar, com sorte ou sem ela - replicou com ostentao.
62
Quando Agustin e Sofia rolaram os dados para dar incio ao jogo, todos, excepto Fernando, se juntaram como um bando de corvos para assistir. Fernando sentou-se 
mesa de jogo do pai, acendeu um cigarro e tratou de continuar a juntar as peas do puzzle que l estava, j comeado.
- Santi, no podes ajudar a Sofia. Ela tem de jogar sozinha - disse Rafael muito srio. Santi lanou a Sofia um sorriso trocista, quando esta tirou um doble de seis.
- No acredito, estpida felizarda - disse Agustin em tom brusco e competitivo, vendo a irm construir um pesado muro, bloqueando duas das peas dele. Sofia sentia-se
to competitiva como o irmo, mas tentava no o dar a perceber. Lanava naturalmente os dados, fazia comentrios ridculos e colou no rosto um sorriso trocista e
arrogante, que sabia irritar o irmo.
Sofia venceu a primeira partida - mas no foi o bastante. Estava decidido,  partida, que qualquer jogo, fosse ele tnis ou o jogo da pulga, tinha de ser  melhor
de trs. Ao vencer o primeiro, ela no pde deixar de se exibir.
- Esto a ver? Coitado do Agustin! Como ser ser vencido por uma rapariga? - vangloriou-se. - E eu sou mais nova do que tu!
- A melhor de trs. Tenho muito tempo para te ganhar - disse ele com calma forada.
Sofia olhou para Santi e piscou-lhe o olho. Este abanou-lhe lentamente a cabea com ar de reprovao. Sabia que todo aquele alarde s iria fazer com que a queda
da prima fosse pior.
Comeou o segundo jogo. Sofia deixou de fazer comentrios ao ver que apenas conseguia lanar nmeros baixos, enquanto Agustin lanava cincos e seis. O sorriso abandonou-lhe
o rosto, deixando nele uma expresso pouco atraente. Santi olhava-a, divertido. Apercebeu-se mesmo de uma ou duas jogadas desfavorveis e tentou, de qualquer forma,
chamar-lhe a ateno, mas ela no levantou os olhos do tabuleiro. Sentia que o jogo se lhe escapava. Corou at  raiz dos cabelos quando Agustin lhe comeu uma das
peas e depois lanou de novo os dados, pois no havia uma casa livre para ela poder ocupar. O sorriso de satisfao que sentia no rosto dele enfiara-se-lhe por
baixo da pele e fazia-a estrebuchar.
63
- Despacha-te - ordenou ela, petulante. - Ests a arrastar as coisas s para me aborrecer.
- Olha quem mudou de cantiga - picou-a o irmo. - Agora j no fazes troa, pois no? Pronto! - anunciou triunfante. - Pronta para a desforra, querida irm?
Fernando no estivera a ouvir. De facto, fizera um esforo enorme para no os escutar. O puzzle interessara-o durante alguns minutos e o cigarro fizera-lhe bem.
Pegou no mao e acendeu outro. Quando ouviu Sofia choramingar na outra ponta da sala, pensou que as coisas pareciam mais interessantes. Lanando o fsforo para a
lareira vazia, dirigiu-se para l, a ver o que se passava.
- Com que ento a Sofia est a ser derrotada por um rapaz? - riu-se e lanou um olhar ao estado do jogo.
A prima no respondeu e baixou a cabea. Inclinado como um enorme morcego, Fernando lanava a sua sombra sobre o tabuleiro. Sebastian, Niquito e Angel diziam piadas
de cada vez que Sofia lanava os dados; Agustin, que j estava a ganhar, ria com vontade. Rafael, que a princpio queria que o irmo vencesse, mudou de ideias, como
de costume, para apoiar a vtima. Compadecia-se sempre quando via Sofia aflita. Santi queria, sem dvida, que Sofia ganhasse, j que, quando se tratava da prima,
sentia-se sempre um irmo mais velho e protector. Percebia que ela se sentia infeliz por estar a perder e que, certamente, j desejava no ter sido to confiante.
Viu-a erguer timidamente os olhos para ele. Provavelmente, apenas quisera provocar Agustin para chamar a ateno e porque estava a chover e no tinha nada melhor
com que se entreter.
- Ganhei - declarou orgulhosamente Agustin, colocando as ltimas peas na calha de couro ao lado do tabuleiro.
- Fizeste batota! - exclamou Sofia, zangada. Santi riu-se e revirou os olhos.
- Cala-te! - replicou Agustin. - Ganhei com toda a honestidade e tenho cinco testemunhas.
- Mesmo assim, fizeste batota - disse ela, impertinente.
- Chofi, admite a derrota com elegncia - disse Santi, gravemente, saindo da sala.
- No. Nunca da parte do Agustin. Isso nunca! - exclamou ela, saindo atrs dele.
64
- Muito bem, Agustin - aplaudiu Fernando, batendo com fora nas costas do primo. - Isto calou-a. Agora vamos poder passar a tarde em paz.
- Vocs tero uma tarde em paz - suspirou Rafael. - Ns vamos ter uma noite horrvel. Vai ficar amuada durante dias.
- Ningum amua to bem como a Sofia - concordou Agustin.
- Mas as birras dela vo valer a pena. Gostei. Algum mais quer jogar?
Sofia seguiu Santi pelo corredor.
- Onde vais? - perguntou, passando a mo pela parede.
- Devias ser mais elegante quando perdes.
- No me importo.
- Mas devias... um mau perdedor  muito pouco atraente. - Sabia que aquilo teria alguma reaco da parte dela. Sofia era muito vaidosa.
- No fui assim to pouco elegante. S com o Agustin. Sabes como ele me irrita.
- Acho que tu foste a primeira a implicar com ele.
Nesse momento, a porta abriu-se e Chiquita, Maria e Panchito entraram de rompante, abrigados por um enorme guarda-chuva.
- Est um tempo horrvel l fora - disse Chiquita, ofegante.
- Ah, Santiago, por favor, meu querido, ajuda o Panchito a despir-se. Est completamente encharcado. Encarnacin! - gritou.
- O que anda o Dermot a fazer  chuva? - perguntou Maria, torcendo o cabelo com as mos.
- Vou ver o que est o meu av a fazer - declarou Sofia, passando por eles. - At logo.
-  to estranho chover assim no Vero. No parou durante todo o dia - disse Chiquita, abanando a cabea.
Sofia correu por entre as rvores, gritando pelo av. Estava de facto a chover muito e ela no imaginava o que lhe teria passado pela cabea para sair com aquele
dilvio. Para seu divertimento, avistou-o a lanar as bolas de croque na direco dos arcos, vigiado por dois ces infelizes e encharcados, com as caudas metidas
entre as pernas.
- Av, o que ests aqui a fazer? - perguntou, aproximando-se.
65
- O sol est quase a sair, Sofia Melody - respondeu ele. - Boa pontaria, Dermot! Bem disse que ias conseguir - acrescentou, olhando para os ces, enquanto a bola
azul deslizava com toda a facilidade por baixo do arco.
- Mas ests encharcado.
- E tu tambm.
- Tens estado aqui toda a tarde. Toda a gente fala disso.
- Daqui a pouco j deixa de chover. O sol vai aparecer, j o sinto nas costas.
Sofia sentia as frias gotas de chuva deslizarem pelas suas e estremeceu. Ergueu os olhos ao cu, esperando no ver l nada seno uma nvoa cinzenta. Mas, para surpresa
sua, apercebeu-se de um raio resplandecente que tentava atravessar a nuvem. Semicerrando os olhos para impedir a chuva de os molhar, sentia j o calor no rosto.
- Tens razo, av. O sol vai aparecer.
- Claro que tenho, menina. Toma l um taco. Vamos l ver se consegues fazer passar a amarela ali por aquele arco.
- No estou com disposio para jogos. O Agustin acaba de me vencer ao gamo.
- Valha-te Deus! Aposto que no perdeste l muito bem. - Soltou uma gargalhada.
- No foi assim to mau.
- Se bem te conheo, Sofia Melody, saste de l como uma princesa estragada com mimos.
- Pois . No fiquei muito satisfeita - declarou com honestidade, limpando com as costas da mo um pingo de chuva que lhe caiu na ponta do nariz.
- O encanto no  uma das tuas qualidades - disse ele, sensato, antes de se pr rapidamente a caminho de casa.
- Onde vais? O sol vai aparecer.
- So horas de beber um copo.
- Av, so s quatro horas.
- Exactamente. - Depois voltou-se para ela e piscou-lhe o olho. - No digas nada  tua me. Anda comigo.
Dermot deu a mo  neta e entraram pela porta da cozinha para no esbarrarem em Anna. Caminharam furtivamente pelo corredor
66
de mosaicos, deixando atrs um rasto brilhante. Lanando um olhar em redor, o av abriu cuidadosamente o armrio da roupa de casa.
-  ento aqui que escondes isso, av - sussurrou Sofia, ao ver a mo dele desaparecer por entre as toalhas e retirar de l uma garrafa de usque. - No tens medo
que a Soledad a encontre?
- A Soledad  minha cmplice neste crime. E uma ptima mulher para guardar segredos - disse ele, passando a lngua pelos lbios. - Vem comigo, se tambm quiseres
ser minha cmplice.
Sofia seguiu-o de volta pelo corredor, atravessando a cozinha e o ptio em direco s rvores.
- Onde vamos?
- Ao meu local secreto.
- Ao teu local secreto? - repetiu Sofia, que adorava enigmas.
- Eu tambm tenho um local secreto. - Mas o av no a ouvia. Apertava contra o peito aquela garrafa de usque, com o cuidado de uma me que leva o filho ao colo.
-  o ombu - disse ela.
- Claro que sim, claro que sim - resmungava ele, caminhando rapidamente, quase correndo de tanta impacincia. Por fim, chegaram a um pequeno abrigo de madeira. Sofia
devia ter passado por ele centenas de vezes sem nunca reparar.
Dermot abriu a porta e deixou-a entrar. O interior estava escuro e bafiento. O vidro da janela que impedia a chuva de entrar era pequeno e estava coberto de musgo,
mal permitindo a passagem da luz. O tecto mais parecia uma gigantesca peneira, deixando passar as pesadas gotas de chuva, que batiam no cho e nos mveis. No que
os mveis justificassem cuidados - a mesa estava completamente podre e as prateleiras estavam a desabar, mal se mantendo na parede.
- Era o abrigo do Antonio - disse Dermot, sentando-se num banco. - No faas cerimnia, Sofia Melody. Senta-te no teu lugar.
- Sofia sentou-se e estremeceu. - Esta  a cura do Dr. Dermot para as constipaes - acrescentou, passando-lhe a garrafa de onde j tinha bebido um grande gole.
- Ah, at aquece o estmago - arrulhou feliz. Sofia levou-a ao nariz e cheirou. - No cheires isso, menina, bebe!
-  forte, av - disse ela, antes de beber tambm um grande gole. Quando a bola de fogo lhe desceu pela garganta, o seu corpo
67
estremeceu e a boca abriu-se como a de um drago, deixando sair um silvo longo e agonizante.
- Assim  que , menina - disse ele, acenando com ar aprovador, dando-lhe pancadinhas nas costas; mas depois o fogo entrou-lhe nas veias e percorreu-lhe o corpo,
fazendo com que a dor se transformasse num estranho prazer, obrigando-a a inspirar de um modo extravagante. Voltando-se para o av, com as faces a escaldar, esboou
um sorriso um pouco vago, antes de pegar na garrafa para repetir a dose.
- Que segredo tens aqui, av, que grande segredo - disse ela com uma gargalhadinha, levando de novo a garrafa aos lbios.
Mais uns goles e j no se sentia nem molhada, nem zangada com Agustin. De facto, pensou, adoro o Agustin, a me e o Rafa. Adoro-os a todos. Sentia-se tonta
e feliz, delirantemente feliz, como se nada importasse neste mundo e tudo fosse engraado. Riu-se sem razo. De repente, tudo era hilariante. Dermot comeou a contar-lhe
histrias descoordenadas dos tempos da Irlanda, mas Sofia quase nem o ouvia com um sorriso que estremecia no seu rosto cintilante. Depois, o av resolveu ensinar-lhe
umas canes irlandesas.
- Conheci-a no jardim onde crescem as batatas... - comeou ele. No seu estado de embriaguez, Sofia achava que o av tinha a voz mais bela que alguma vez ouvira.
- s um anjo, avozinho. Um anjo! - disse ela, j pouco firme, com os olhos hmidos.
Nenhum deles sabia ou se importava h quanto tempo estava ali, no abrigo, mas, assim que Dermot esgotou a ltima gota da garrafa, ambos concluram que deveriam voltar
para casa.
- Chiu! - sussurrou Sofia, tentando encostar o dedo  boca, mas mal conseguindo chegar ao nariz. - Oh... - exclamou, surpreendida e trmula, encolhendo o dedo.
- No faas barulho - disse Dermot em voz alta. - Nada de barulho. - A seguir soltou uma enorme gargalhada. - Valha-me Deus, menina, s bebeste uns golinhos e olha
para o teu estado.
- Chiu - sussurrou ela, mais uma vez, agarrando-se ao av para se aguentar. - Bebeste a garrafa toda. A garrafa toda. Nem acredito como ainda consegues estar de
p - exclamou enquanto percorriam precariamente o caminho atravs da escurido.
68
- Encontrei-a no jardim onde crescem as batatas... - cantou ele e Sofia acompanhou-o, desafinada, repetindo as palavras que ele dizia.
Quando tentaram girar a maaneta da porta, esta abriu-se de repente.
- Abre-te, Ssamo! - disse Dermot em voz arrastada, erguendo os braos.
- Por Dios, Seor Dermot! - disse Soledad, sufocada. - Seorita Sofia! - Recuou ao ver Sofia de faces vermelhas e com um sorriso estpido no rosto.
F-los entrar e empurrou apressadamente Sofia pelo corredor at ao quarto. Dermot seguiu noutra direco. Quando ele chegou  sala, Soledad ouviu um grito de terror
da Seora Anna.
- Deus do Cu, pai! - gritou ela. Ouviu-se um barulho, provavelmente de uma garrafa vazia a partir-se nos mosaicos. Soledad no ficou  escuta, fechou silenciosamente
a porta dos seus aposentos.
- Minha querida menina, o que andou a fazer? - lamentou-se, quando se viram as duas sozinhas dentro do quarto. Sofia sorriu-lhe com ar abstracto.
- Encontrei-a no jardim onde crescem as batatas... - cantarolou.
Soledad ajudou-a a despir-se e preparou-lhe um banho quente. Depois obrigou-a a beber um copo de gua com uma forte dose de sal. Sofia meteu imediatamente a cabea
na sanita e vomitou o fogo que fizera com que nada mais tivesse importncia para ela. Tudo parecera maravilhoso, mas agora sentia-se enjoada e cheia de remorsos.
Depois de um banho quente e de um copo de leite, Soledad meteu-a na cama.
- Mas o que  que lhe passou pela cabea? - perguntou, franzindo a testa gorducha.
- No sei. Aconteceu - gemeu Sofia.
- A sorte foi que bastaram uns golinhos para a embriagar. Pobre Seor O'Dwyer, vai levar a noite inteira para ficar sbrio - disse Soledad cheia de pena. - Vou dizer
 Seora Anna que a menina no se sente bem. Pode ser?
- Achas que ela vai acreditar em mim?
69
- Porque no? A menina j no cheira a lcool. J imaginou o sarilho em que se metia se a sua me descobrisse?
- Obrigada, Soledad - disse Sofia, enquanto a empregada se dirigia  porta.
- Estou habituada a esconder o seu av, mas nunca pensei ter de a esconder a si - e soltou uma gargalhada que lhe fez estremecer os pesados seios sob o uniforme.
Sofia estava quase imersa num sono profundo quando a porta se abriu e Anna entrou.
- Sofia - disse a me em voz baixa. - Que tens? - Depois aproximou-se e colocou a mo sobre a testa da filha. - Hummm, um pouco de febre. Pobrezinha.
- Amanh de manh j estou melhor - murmurou Sofia, espreitando com ar culpado por baixo do cobertor.
- Ao contrrio do teu av que, amanh de manh, se vai sentir mais doente que um co - disse ela, severamente.
- O av tambm est doente?
- Doente? Aposto que ele bem gostaria de estar doente. No - disse ela, pondo as mos nas ancas e soltando um suspiro cansado. - Voltou a beber.
- Oh!
- No sei onde ele esconde essas malditas garrafas. Descubro uma e ele esconde outra. Um dia vai morrer por causa disso.
- Onde est ele?
- Estiraado numa cadeira, a ressonar como um porco.
- Me! - disse Sofia, sufocada. Bem gostaria que Soledad tivesse tratado dele como fizera consigo.
- Bom, a culpa  dele. J lho disse tantas vezes. No me ouve, por isso nem vale a pena pregar.
- Vais deix-lo l?
- Vou deix-lo, sim - declarou ela, bruscamente. - Porqu? O que querias tu que eu fizesse?
- No sei. Met-lo na cama com um copo de leite quente - disse Sofia esperanosa, mas a me limitou-se a rir.
- Seria uma sorte ele conseguir tomar alguma coisa. Olha l - disse Anna, mudando de tom. Sofia estremeceu por baixo dos lenis. - O Agustin disse-me que hoje no
foste muito bem-educada.
70
- Bem-educada? Jogmos uma partida de gamo e ele ganhou. Devia ter ficado satisfeito.
- No tem nada a ver com isso, sabes muito bem - disse Anna com simplicidade. - No h nada menos digno do que um mau perdedor, Sofia. Ele disse-me que tu te tinhas
ido embora depois de ter criado mau ambiente. No quero que isso acontea outra vez, percebes?
- O Agustin exagerou. O que disse o Rafa?
- No quero ir por a, Sofia. Trata para que isso no acontea outra vez. No quero que as pessoas pensem que no te eduquei como deve ser, est bem?
- Est - respondeu ela, automaticamente. Agustin era um queixinhas e um batoteiro, pensou, zangada. Mas estava com muito sono para discutir. Viu a me sair do quarto
e suspirou de alvio por no ter sido apanhada. Pensou no av, molhado e bbado, descon-fortavelmente sentado, e desejou poder ir tomar conta dele. Mas sentia-se
muito indisposta para se levantar. Mais tarde, quando Soledad entrou no quarto para ver como ela estava, j sonhava que andava a passear com Santi por entre as nuvens.

 CAPTULO CINCO
Londres, 1947
Era uma manh fria e nublada, mas, mesmo assim, tudo em Londres encantava a jovem Anna Melody O'Dwyer. Abriu as enormes janelas do quarto de hotel em South Kensington
e saiu para a pequena varanda. Abrigou-se bem no roupo e imaginou que era uma princesa inglesa e que aquele hotel era o seu palcio. Olhou para a rua enevoada,
para as rvores nuas que a ladeavam, torcidas e encurvadas ao frio, e desejou poder trocar Glengariff pelo romantismo de Londres. O alcatro cintilava como alcauz
 luz amarela dos candeeiros da rua quando alguns carros passavam, como fantasmas cinzentos desaparecendo no smog. Era cedo, mas Anna estava to excitada que no
conseguia dormir. Voltou para dentro na ponta dos ps e fechou silenciosamente a janela para no acordar a me e a sua anafada tia Dorothy que, no quarto ao lado,
dava voltas como um leo-marinho chegado  praia.
Foi at  mesa de mrmore e retirou uma ma da fruteira. Nunca tinha visto tanto luxo na vida, embora muitas vezes sonhasse com uma vida assim. Era em hotis como
aquele que viviam as estrelas de Hollywood. A me alugara uma sute. Uma sala, um quarto e uma casa de banho. O quarto era apenas duplo, mas quando o porteiro soube
que se tratava de um fim-de-semana muito especial, mandou pr uma cama de campanha para poderem dormir as trs juntas. A me ia dizer que no podiam pagar uma sute
maior e que a famlia toda tinha contribudo para que pudesse dar  filha um fim-de-semana
72
magnfico, mas Anna impedira-a. Era o fim-de-semana da sua vida, ia poder viver como uma princesa e no queria que um porteiro ranhoso a desconsiderasse.
Anna Melody O'Dwyer ia casar-se. Toda a vida conhecera Sean O'Mara e parecia natural que ele viesse a ser o seu marido. Os pais ficaram satisfeitos, mas ela no
o amava. Pelo menos, no o amava como julgava que se devia amar um noivo. No era um gal. O corao dela no disparava quando o via e tambm no desejava a noite
de npcias; de facto, previa que seria uma enorme desiluso e a ideia fazia-a estremecer. Adiou o casamento o mais que pde. Mas era o que os pais queriam; assim,
fez-lhes a vontade, embora a ideia no fosse do seu agrado. No havia mais ningum em Glengariff com quem se pudesse casar, por isso Sean O'Mara teria de servir.
Sean e Anna estavam prometidos desde o nascimento. No parecia haver maneira de fugir, nem a isso nem a Glengariff. Iriam viver com os pais dela e a tia Dorothy,
at Sean ganhar o suficiente para comprar casa prpria. Desejava que demorasse muito tempo. A me criara um lar to acolhedor, que no sentia pressa em se mudar.
A ideia de cozinhar para o marido todas as noites fazia-lhe chegar as lgrimas aos olhos. A vida deveria ser mais do que isso.
Pois bem, agora estava instalada no Hotel De Vere, rodeada por coisas de tanta beleza e elegncia que no pde deixar de pensar em como seria a sua vida, se se casasse
com um conde ou um prncipe. Preparou um banho e despejou l para dentro metade do frasco de leo de banho Floris, que o hotel oferecia aos hspedes. A casa de banho
ficou impregnada de um maravilhoso perfume a rosas; depois, meteu-se na gua quente at o espelho ficar igual ao smog que havia na rua e sentir dificuldade em respirar
devido ao vapor. Deixou-se levar pelas suas fantasias preferidas, rodeada por mrmore e dourados, enormes frascos de sais de banho e perfume. Quando saiu da banheira,
passou no corpo uma loo a condizer com o leo de banho e penteou o longo cabelo ruivo antes de o prender num carrapito, na longa e plida nuca. Sentia-se bela
e sofisticada. Nunca na vida se tinha sentido to bonita e o corao danava-lhe literalmente no peito. Quando a me e a tia acordaram, Anna j estava vestida com
as suas melhores roupas e pintara as unhas de vermelho.
73
Emer no gostava de unhas pintadas; quando viu a filha arranjada como uma estrela de cinema, esteve quase a dizer-lhe que retirasse aquilo tudo. Mas aquele era o
fim-de-semana especial de Anna Melody e no o queria estragar, por isso no disse nada. Mais tarde, quando Anna estava num gabinete de prova do importante armazm
Marshall & Snelgrove, na clebre Oxford Street, Emer garantiu em voz baixa  irm que a filha voltaria ao normal assim que regressasse a Glengariff.
Era o seu fim-de-semana de noivado e podia fazer aquilo que quisesse.
- Francamente, Dorothy - disse. - A vida vai ser bastante diferente para ela quando estiver casada e com filhos. O menos que podemos fazer  mim-la enquanto for
possvel.
- Mim-la, Emer Melody? - sibilou, abismada, a tia Dorothy. - Tu e o Dermot deram um significado completamente novo a essa palavra.
Emer e a tia Dorothy tinham-se vestido com elegncia para a viagem. Ambas percorriam as ruas molhadas com sapatos de saltos prticos, fatos grossos e luvas. Dorothy
embelezara o seu trajo com uma raposa, um pouco sarnenta, com patas e cabea, que arranjara em Dublin, numa loja de roupa em segunda mo. Lanara a pele sobre os
seus ombros enormes, o focinho descansando sobre os montes que eram os seus seios, miraculosamente contidos pelos botes repuxados do fato que vestira. Na cabea,
ambas equilibravam chapelinhos, presos por muitos ganchos, e tinham puxado os vus para os olhos.
- No podemos desiludir a Anna Melody - disse Emer, enquanto se vestiam naquela manh.
A tia Dorothy pintara os lbios com batom vermelho-sangue e perguntou a si prpria quantas vezes j ouvira a irm dizer aquilo. Mas no discordou. Afinal, era o
fim-de-semana especial de Anna Melody e no era o momento oportuno para dizer o que pensava. Mas um dia havia de o fazer. Que diabo, um daqueles dias teria mesmo
de dizer o que pensava.
Cansada das compras, mas ainda estimulada pelo entusiasmo da sua primeira visita a Londres, Anna esperava no trio do Brown's
74
Hotel que a me e a tia acabassem de empoar o nariz na toilette, antes de irem tomar ch no famoso salo. Foi a que conheceu Paco Solanas. Ela estava sentada, 
espera, com os sacos das compras junto aos ps, quando ele entrou. Era carismtico e fez voltar todas as cabeas na sala. Tinha cabelo louro, muito curto, e uns
olhos to vivos que Anna pensou que a poderiam cortar ao meio se a fitasse, o que, evidentemente, ele fez.
Depois de olhar em volta, o seu olhar poisou finalmente na bela jovem que, a um canto, lia uma revista. Observou-a por um momento. Ela teve conscincia daquele olhar
e sentiu que corava; apesar da maquilhagem cuidadosamente aplicada, o rosto e pescoo ficaram vermelhos e manchados. Mesmo assim, ele achou-a estranhamente enigmtica.
Parecia uma menina a brincar s mulheres. A maquilhagem no era adequada, nem sequer o vestido. Porm, estava sentada com a elegncia de uma aristocrata inglesa.
Dirigiu-se para o canto onde ela estava sentada e deixou-se cair no cadeiro a seu lado. Ela sentiu-o e as mos tremeram-lhe. A presena dele era to forte que a
confundia e o perfume picante da sua gua-de-colnia entontecia-a. Ele reparou que a revista estremecia e deu por si a apaixonar-se por aquela plida jovem, que
lhe era completamente desconhecida. Disse qualquer coisa numa lngua estrangeira, com uma voz profunda e dominadora. Anna tomou flego e baixou a revista. Estaria
a falar consigo? Quando o olhou de frente, ele reparou que ela tinha olhos cinzento-azulados, em cuja expresso havia qualquer coisa de selvagem, e sentiu uma sbita
necessidade de lutar com ela para a domar, como a um dos pneis de Santa Catalina. Anna pestanejou apreensiva.
- A menina  demasiado bonita para estar aqui sozinha - disse-lhe ele com um sotaque carregado. - Estava  espera de me encontrar aqui com uma pessoa que est atrasada
e ainda bem. Espero que nem venha. Tambm espera algum? - Ela olhou para aquele rosto esperanoso e respondeu que estava  espera da me e da tia e que iam tomar
ch. Ele pareceu aliviado.
- Ento, no est  espera do seu marido? - perguntou, e Anna notou-lhe um brilho malicioso no olhar. Observou-lhe a mo esquerda e acrescentou: - No, a menina
no  casada. Muito me alegra.
75
Ela riu-se e baixou de novo os olhos. Sabia que no deveria falar com um desconhecido, mas na expresso dele lia-se honestidade, ou pelo menos ela pensou l-la e,
de qualquer forma, estava em Londres, a cidade do amor. Esperava que a me e a tia se demorassem bastante para lhe darem mais uns minutos. Nunca na vida vira um
homem to bem-parecido na sua vida.
- Vive c? - perguntou ele.
- No. Vim apenas passar o fim-de-semana. Para fazer compras e ... - ficou a pensar que mais fariam em Londres as raparigas ricas -... ver os museus e as igrejas
- acrescentou. Ele pareceu impressionado.
- De onde ?
- Da Irlanda. Sou irlandesa.
- Eu tambm estou longe de casa.
- De onde ? - O rosto dela brilhou, quando ele lhe disse.
- Sou do pas de Deus. Da Argentina. Onde o Sol  do tamanho de uma laranja gigante e o cu  to grande que mais parece um reflexo do Paraso. - Ela sorriu com
aquela descrio potica. Ele mergulhou os olhos nos dela, de tal forma que Anna se sentiu impotente para os evitar. De sbito entrou em pnico. Ele poder-se-ia
ir embora e ela nunca mais o veria.
- Ento, o que est aqui a fazer? - perguntou, sentindo a garganta apertada de emoo. Meu Deus, implorou, ele que no se v embora, d-nos mais tempo.
- Estou a estudar. Estou aqui h dois anos e durante todo este tempo no voltei a casa. Imaginte! Adoro Londres - disse, mas a voz dele vacilou. Olhou para ela,
antes de acrescentar em tom impulsivo: - Quero que veja o meu pas.
Ela riu, nervosa, e desviou o olhar, mas, quando se voltou de novo para ele, viu que continuava a fit-la.
A me e a tia chegaram ao vestbulo e procuraram Anna Melody. Depois, a tia Dorothy viu-a, sentada a um canto, distrada a conversar com um jovem desconhecido.
- Jesus, Maria, Jos, Emer, o que est ela agora a fazer? O que diria o pobre Sean O'Mara se a visse a conversar assim com um desconhecido? Olha para a cara dela.
No a devamos ter deixado sozinha.
76
- Valha-me Deus, Dorothy! - exclamou Emer, afogueada. - Vai l busc-la antes que ela se comprometa.
Anna viu a tia aproximar-se, atravessando o trio como um panzer, e voltou-se desesperada para o seu novo amigo. Ele pegou-lhe na mo e apertou-lha.
- Venha ter comigo aqui  meia-noite - disse ele, com uma urgncia na voz que fez estremecer o estmago de Anna. Ela acenou ansiosamente antes de ele se levantar,
inclinar-se educadamente diante da tia Dorothy e se retirar apressadamente.
- Em nome de Deus, Anna Melody ODwyer, que pensas que ests a fazer aqui, a falar com um desconhecido, por muito bem-parecido que ele seja? - ofegou, ao v-lo sair
pela porta giratria. Anna, emocionada, sentiu-se corar e perder a fora nas pernas.
- No se preocupe, tia Dorothy. Estamos em Londres. Aqui no h nenhuma lei que impea uma pessoa de fazer companhia a uma jovem sozinha - replicou confiante, mas
sentindo os nervos a zumbir dentro de si, como se fossem percorridos por electricidade.
Durante o lanche, Anna manteve a sua expresso sonhadora, mexendo distraidamente o ch com a colher de prata. A tia Dorothy barrava manteiga no seu terceiro scone.
- So bons, mesmo muito bons. Anna Melody, ser preciso fazeres esse barulho?  extremamente desagradvel para os meus tmpanos. - Anna suspirou e encostou-se na
cadeira. - Que se passa? Fizeste compras a mais?
- Estou cansada. Mais nada - respondeu, olhando pela janela, na esperana de que ele talvez pudesse passar por ali. Talvez. Imaginou-lhe o rosto e tentou fix-lo
na mente, receando que, se o tentasse afastar da ideia, ele se afundasse e o perdesse para sempre.
- Pronto, pronto, minha querida. Voltamos para o hotel logo depois do ch. Porque no tentas um destes bolinhos de manteiga que ainda esto quentes? So deliciosos
- sugeriu-lhe delicadamente a me.
- Esta noite no quero ir ao teatro - disse Anna com ar petulante, olhando para o ch com ar aborrecido. - Estou muito cansada.
- No queres ver o Oklahoma!? Valha-me Deus, Anna, a maior parte das raparigas da tua idade no vem a Londres e muito menos
77
vai ao teatro - disse bruscamente a tia Dorothy, compondo a raposa que parecia escorregar-lhe pelo peito abaixo. - Os bilhetes foram muito caros.
- Dorothy, se a Anna Melody no quer ir ao teatro, ento no precisa de ir. O fim-de-semana pertence-lhe, lembras-te? - disse Emer, poisando a mo no brao da filha.
A tia Dorothy apertou os lbios e resfolegou como um touro zangado.
- Oh, e calculo que tu queiras ficar com ela - disse ofendida.
- No posso deix-la sozinha numa cidade desconhecida. No  justo.
- No  justo, Emer? Gastmos tanto dinheiro nesses bilhetes. H que tempos que desejo ver o Oklahoma1.
- Olhem, vamos voltar para o hotel e descansar um pouco. Talvez depois te sintas melhor - disse Emer, acenando na direco da filha.
- Desculpa, Emer. Eu aguento muito, mas quando se trata de dinheiro no vou deixar que a Anna Melody o desperdice, s porque no se quer incomodar. No passa de
um simples capricho, Emer. Tu e o Dermot sempre a deixaram fazer tudo. No vai ser nada bom para ela, estou a avisar-te.
Sem se importar com o aborrecimento da tia, Anna Melody cruzou os braos e voltou-se de novo para a janela. No queria ir ao teatro. No queria ir a parte alguma.
Queria ficar sentada no trio  espera dele.
Anna foi ao teatro. Teve de ir. A tia Dorothy ameaara mand-la imediatamente de volta para Glengariff se no fosse. Afinal, metade do dinheiro era dela. Por isso,
Anna assistiu ao musical, fingindo no ouvir as melodias que a me e a tia iriam cantar pelos passeios nos dois dias seguintes, imaginando como haveria de chegar
ao Brown's Hotel, saindo de South Kensington a meio da noite sem ter dinheiro. Era bvio que ele ficara com a impresso de que ela estava hospedada no Brown's, que
tinha de l estar.
No passou muito tempo, antes que a me e a tia dormissem pesadamente no regresso ao hotel. A tia Dorothy comeou a ressonar ruidosamente, deitada de costas. Uma
ou duas vezes, um ronco espe-
78
cialmente forte quase a acordou; durante um segundo vacilou entre a conscincia e a inconscincia, antes de voltar para o seu secreto mundo de sonhos. Emer, mais
delicada do que a irm em tamanho e em som, dormia calmamente enrolada como um novelo.
Anna vestiu-se em silncio, encheu a cama de almofadas para dar impresso de que estava deitada, no fosse o caso de um daqueles roncos acordar a me ou a tia, e
foi  carteira desta ltima  procura de dinheiro. O porteiro mostrou-se muito prestvel; demasiado educado para erguer sequer as sobrancelhas, fez o que ela lhe
pedia e chamou um txi. Agradecendo-lhe o incmodo, como se no houvesse nada de estranho na sua sada a meio da noite, sentou-se no banco de trs do carro, como
uma fugitiva, a ver passar pela janela as brilhantes luzes da cidade.
Faltava um quarto para a meia-noite. Anna estava sentada no cadeiro ao canto do trio. Por baixo do casaco, trazia o vestido novo que a me lhe tinha comprado no
Harrods e continuava com o cabelo apanhado na nuca. O hotel estava muito movimentado para aquela hora da noite. Um grupo de jovens elegantes entrou numa exploso
de gargalhadas. Deviam ter andado a passear pela cidade, pensou ela, invejando-os. Ningum parecia reparar que ela ali estava. Colocou a mo na cadeira a seu lado
e passou os dedos sobre o couro, imagi-nando-o ainda quente de quando ele ali se sentara junto a si. Fora to refinado, um verdadeiro cavalheiro. Cheirava a gua-de-colnia
cara e vinha de uma terra longnqua e extica. Era culto, educado, bem-parecido e, obviamente, rico. Era o prncipe com quem ela sonhara. Sabia que a vida era mais
do que a horrvel Glengariff e Sean O'Mara.
Anna sentou-se a olhar nervosamente a porta. Deveria parecer ansiosa ou descuidada? Chegou  concluso de que seria ridculo se tentasse parecer natural; afinal,
que mais estaria ela a fazer  meia-noite no trio de um hotel? Depois perguntou a si prpria o que haveria de fazer se ele no aparecesse. Talvez lhe tivesse pregado
uma partida. Talvez afinal no tivesse intenes de ir ter consigo. Provavelmente, teria sado com amigos para fazer troa dela. Teriam todos feito troa dela, como
os primos, em Glengariff.
Quando o relgio bateu as doze badaladas, Paco Solanas entrou pelas pesadas portas do hotel. Viu Anna imediatamente e o seu rosto
79
abriu-se num enorme sorriso. Dirigiu-se a ela, no seu casaco azul-escuro de caxemira, e pegou-lhe na mo.
- Estou muito feliz por ter vindo - disse ele, os olhos a brilhar por baixo da aba do chapu.
- Tambm eu - respondeu Anna, sentindo a mo estremecer dentro da dele.
- Venha comigo - e depois hesitou. - Por Dios! Nem sequer sei o seu nome.
- Anna Melody O'Dwyer - replicou, a sorrir. Ele achou aquele sorriso simplesmente fascinante. Aquecia-o por dentro.
- Ana Melodia... qu lindo. Que lindo nome, parece-se consigo.
- Obrigada. Como se chama?
- Paco Solanas.
- Paco, muito prazer em conhec-lo - replicou ela, timidamente. Ele deu-lhe a mo e saram para a noite.
O tempo melhorara para o fim do dia, por isso acabaram por passear pelas ruas sob um cu brilhante e estrelado. Estava muito frio; a respirao saa-lhes numa nuvem
de vapor para o ar gelado. Andaram pelas ruas secundrias, onde no se via ningum, em direco ao Soho, rindo e conversando como dois velhos amigos, e, depois,
encaminharam-se para Leicester Square, pelos passeios cintilantes, ainda molhados da chuva miudinha e gelada.
Paco nunca lhe largou a mo, o que pouco depois deixou de lhe parecer estranho. Pelo contrrio, parecia mais natural do que a mo de Sean O'Mara. Ele falou-lhe da
Argentina, pintando-lhe na imaginao um quadro muito belo com o entusiasmo e a naturalidade de um contador de histrias. Ela pouco lhe disse sobre a Irlanda. Sentia
que, se ele soubesse que no era rica, poderia perder o interesse e no estava disposta a isso. Tinha de fingir que vinha de uma vida privilegiada. Mas Paco adorou
a maneira como ela era diferente das outras jovens que conhecia no seu pas e de todas as elegantes que encontrara nas vrias cidades por onde viajara. Era mais
despreocupada do que requintada. Quando ele a beijou, f-lo com a inteno de lhe retirar todo o horrvel batom.
Anna nunca fora beijada assim. Os lbios dele eram quentes e hmidos, o rosto frio do ar da noite. Apertou-a junto a si e encos-
80
tou a boca  dela com uma paixo que Anna nem sequer vira nos filmes. Quando se afastou para a fitar, viu que lhe limpara a maquilhagem com beijos. Gostava mais
dela assim.
Sentaram-se na beira de uma das fontes de Trafalgar Square e ele beijou-a de novo. Retirou-lhe os ganchos e, com as mos, puxou-lhe o cabelo sobre os ombros e pelas
costas, em caracis rebeldes e ondulados.
- Porque prendes o cabelo? - perguntou-lhe, mas antes de ela poder responder-lhe a boca dele estava sobre a sua. Explorava-a suavemente com a lngua com uma sensualidade
fluida. Anna sentia o estmago estremecer, como se as asas de um colibri se agitassem l dentro.
- Por favor, desculpa o meu ingls - disse ele algum tempo depois, segurando-lhe o rosto com uma mo e com a outra acarician-do-lhe o cabelo que lhe caa para a
testa. - Se eu pudesse dizer isto em Castellano, iria soar mais potico.
- Falas muito bem ingls, Paco - respondeu, corando por ter pronunciado o nome dele.
- No sei, mas sei que te amo. St, te quiero - disse, passando-lhe os dedos pela face fria e olhando para as feies dela com olhos incrdulos, como se tentasse
descobrir a natureza do feitio que tanto o cativara. - Quando voltas para a Irlanda? - perguntou. Anna nem queria pensar em tal. No queria imaginar sequer que
no o voltaria a ver.
- Depois de amanh. Segunda-feira - respondeu tristemente, aconchegando o rosto na mo dele e sorrindo-lhe com pesar.
- J! - exclamou ele, horrorizado. - Poderei voltar a ver-te?
- No sei - disse, na esperana de que ele se lembrasse de alguma coisa.
- Vens muitas vezes a Londres?
- No. - Abanou a cabea. Paco afastou-se dela e sentou-se com os cotovelos nos joelhos, esfregando ansiosamente a cara com as mos. Anna receou imediatamente que
ele lhe fosse dizer que o romance entre ambos no teria razo de ser. Viu o corpo dele erguer-se debaixo do casaco com um profundo suspiro. No brilho amarelado das
luzes da cidade, o rosto de Paco tinha uma expresso
81
melanclica e abatida; ela queria tom-lo nos braos, mas teve medo de que a rejeitasse, por isso deixou-se ficar onde estava, sem se atrever a fazer qualquer movimento.
- Ento, casa-te comigo - disse ele de sbito. - No aguento a vida sem ti.
Anna ficou abismada e incrdula. Mal tinham passado umas horas juntos.
- Casar-me contigo? - gaguejou.
- Sim, Anna. Casa-te comigo - disse-lhe ele, em tom srio. Tomou a mo dela nas suas e apertou-a fervorosamente.
- Mas no sabes nada a meu respeito - protestou ela.
- Logo que te vi no hotel, soube que me queria casar contigo. Nunca me senti assim com outra pessoa. Namorei centenas de raparigas. Tu s diferente de todas as que
conheci. No sei explicar-te. Como posso explicar-te o que me vai no corao? - disse com os olhos brilhantes. - No quero perder-te.
- Ests a ouvir a msica? - perguntou-lhe Anna erguendo-se, sem querer pensar em Sean O'Mara e na promessa que em breve fariam um ao outro. Escutaram a msica que
ecoava do outro lado da praa, vinda algures de um clube qualquer.
- Ti voglio bene - murmurou ele, repetindo a letra da cano.
- O que significa isso? - perguntou Anna, enquanto ele a tomava nos braos e comeava a danar com ela em redor da fonte.
- Significa amo-te. Significa amo-te, Ana Melodia, e quero que sejas minha mulher. - Danaram em silncio, escutando a msica sonolenta que os embalava. Anna no
conseguia pensar com clareza. Tinha as ideias to emaranhadas como as ls de tricotar da tia Mary. Ele t-la-ia mesmo pedido em casamento?
- Vou levar-te para Santa Catalina - disse Paco em voz baixa. - Vais viver numa linda casa branca com janelas verdes e passar o dia ao sol a olhar para as pampas.
Todos te vo adorar, tal como eu.
- Mas, Paco, eu no te conheo. Os meus pais nunca o permitiro - disse ela, imaginando a reaco da tia Dorothy, com uma incmoda sensao no estmago.
82
- Vou falar com eles. Vou dizer-lhes o que sinto - respondeu ele. E depois, ao ver-lhe a expresso assustada nos olhos, acrescentou: - No gostas de mim? Nem sequer
unpoquito?
Anna hesitou porque no o amava... adorava-o, ele arrasava-a com uma emoo que dava vida a todos os seus sentimentos, mas a me sempre lhe dissera que o amor crescia.
O amor urgente de duas pessoas que se sentiam atradas uma para a outra era uma coisa completamente diferente.
- Amo-te muito - disse com um tremor na voz que a surpreendeu. Nunca dissera aquelas palavras a ningum, nem mesmo a Sean O'Mara. - Sinto-me como se sempre te tivesse
conhecido - acrescentou, querendo afirmar a si prpria que o modo como o amava no era o amor urgente e irracional de duas pessoas atradas uma pela outra, mas sim
uma coisa mais profunda e real.
- Ento qual  o problema? Podes ficar em Londres e podemos conhecer-nos melhor, se  isso que desejas.
- No  assim to simples - objectou, desejando poder dizer-lhe o contrrio.
- As coisas so apenas complicadas se as deixarmos ser. Vou escrever aos meus pais para lhes dizer que conheci uma menina muito bela e inocente, com quem quero passar
o resto da minha vida.
- E eles vo entender? - perguntou, apreensiva.
- Vo, assim que te conhecerem - replicou ele, confiante, bei-jando-a de novo. - Acho que no compreendes, Ana Melodia. Amo-te. Adoro a tua maneira de sorrir, a
maneira nervosa como brincas com o cabelo. A expresso assustada do teu olhar quando te digo o que sinto. O modo confiante e corajoso como foste ter comigo ao hotel.
Nunca conheci ningum como tu. Tenho de admitir que no te conheo, que no sei qual  o teu prato favorito, ou que livros gostas de ler. No sei de que cor gostas
mais ou como eras em criana. No tenho ideia de quantos irmos ou irms tens, mas isso no me interessa. S sei que aqui - disse, colocando a mo sobre o casaco
- bate o meu corao e  ele que me diz o que sinto por ti. Sentes?
- Ela riu-se e tentou sentir-lhe o corao, mas s deu conta dos batimentos do seu pulso na agitao do seu polegar. - Quero casar-me contigo, Ana Melodia. Quero
casar-me contigo porque, se te deixar partir, vou lament-lo para o resto da vida.
83
Quando Paco a beijou, desejou mais que tudo um final feliz como nos filmes que ia ver ao cinema e, quando ele a puxou para si para a abraar com fora, sentiu que
a poderia proteger de tudo o que era desagradvel neste mundo. Se se casasse com Paco, poderia sair para sempre de Glengariff. Ficaria com o homem que amava. Seria
a Senhora Paco Solanas. Teriam filhos to bonitos como ele, e ela seria mais feliz do que alguma vez sonhara ser possvel. Quando ele a beijou, recordou-se do beijo
desajeitado de Sean O'Mara, dos receios da noite de npcias, da tristeza do futuro que se estendia diante dela como uma montona estrada cinzenta levando apenas
a dificuldades e  estagnao, mas, mais importante, a um futuro sem amor verdadeiro. Com Paco era diferente. Nada mais desejava do que pertencer-lhe, do que se
entregar, do que permitir que ele reclamasse o seu corpo para a poder amar completamente.
- Sim, Paco, caso-me contigo - murmurou, vencida pela emoo. Paco envolveu-a nos seus braos com tanta fora que ela acabou por rir encostada ao pescoo dele. Tambm
Paco se riu, aliviado.
- Sinto-me to feliz que me apetece cantar! - exclamou ele, er-guendo-a no ar.
- Paco, pe-me no cho - disse, rindo-se. Mas ele continuou a danar com ela em redor da fonte.
- Vou fazer-te to feliz, Ana Melodia, que no vais lamentar a tua deciso - afirmou, colocando-lhe de novo os ps sobre as pedras molhadas. - Amanh quero conhecer
os teus pais. Quero pedir ao teu pai a tua mo.
- Receio que eles no nos deixem casar - disse ela, apreensiva.
- Deixa tudo comigo, mi amor. Deixa tudo comigo - retorquiu ele, acariciando-lhe o rosto preocupado. - Encontramo-nos no salo de ch do Gunther's.
- No salo de ch do Gunther's? - repetiu Anna, olhando-o sem perceber.
- No salo de ch do Gunther's em Park Lane, s cinco horas - disse antes de a beijar mais uma vez.
Anna ficou com Paco at a madrugada riscar o cu de dourado. Falaram sobre o seu futuro juntos, fizeram planos, coseram os sonhos no tecido do seu destino. O nico
problema era como haveria ela de explicar aquilo  me e  tia Dorothy.
84
-Jesus, Maria, Jos, Anna Melody, enlouqueceste? - exclamou a tia, quando ouviu as novidades. Emer respirou fundo e bebeu uns golinhos de ch com a mo a tremer.
- Fala-nos dele, Anna Melody - pediu em voz fraca. Anna disse-lhes ento que tinham passado a noite a passear nas ruas de Londres. Omitiu o beijo; achava que no
era justo falar do assunto diante da tia Dorothy, que nunca se casara.
- Passaste toda a noite na rua sozinha com ele? - perguntou, escandalizada, a tia Dorothy. - Meu Deus, menina, mas o que vo pensar as pessoas? Pobre Sean O'Mara.
Escapuliste-te do quarto a meio da noite, como uma vagabunda dos becos. Oh, Anna! - passou o leno de renda pela testa hmida. - S o conhecias havia umas horas.
No sabes nada a seu respeito. Como podes confiar nele?
- A tia Dorothy tem razo, querida. No conheces este homem. S agradeo a Deus ele no te ter feito mal - disse Emer, chorosa. A tia Dorothy fungou com ar de aprovao,
ao ouvir as palavras da irm que, pelo menos por uma vez, parecia ter juzo e concordar consigo.
- Fazer-me mal? - exclamou Anna, exasperada. - No me fez mal nenhum. Danmos em volta de uma fonte. Demos as mos. Ele disse-me que eu era muito bonita. Disse-me
que se tinha apaixonado por mim assim que me vira sentada no trio. Fazer-me mal! Francamente! Roubou-me o corao, s disso  que  culpado - afirmou, com um melodramtico
suspiro.
- O que dir o teu pai? - perguntou Emer, abanando a cabea. - No penses que vai ficar sentado a ver-te partir para um pas estrangeiro. O teu pai e eu queremos-te
junto a ns, na Irlanda. s a nossa nica filha, Anna Melody, e gostamos muito de ti.
- Porque no vai ao menos conhec-lo, mezinha? - sugeriu Anna esperanosa.
- Conhecer? Quando?
- Hoje, no salo de ch do Gunther's em Park Lane - disse ela, alegremente.
.85
- Ora, ora, j tinhas tudo planeado, no  verdade, minha menina? - resmungou a tia Dorothy com ar reprovador, servindo-se de mais caf. - Gostaria de saber o que
pensam os pais dele.
- Disse que ficariam felizes por ele.
- Acredito - disse, mergulhando os seus duplos queixos no pescoo e abanando sensatamente a cabea. - Tenho a certeza de que os pais dele no vo caber em si de
contentes quando souberem que o filho se apaixonou por uma rapariga irlandesa, desconhecida e sem um tosto. Uma rapariga que viu apenas uma vez.
- Duas - exclamou Anna, ofendida.
- Duas, se contares com aquela breve apresentao no hotel. Ele deveria ter vergonha e perseguir algum da sua classe e cultura.
- Talvez, pelo menos, o devamos conhecer, Dorothy - sugeriu Emer, sorrindo bondosamente  filha que apertava os lbios, furiosa, olhando venenosamente para a tia.
- Oh, mas isto j  habitual. A Anna Melody choraminga e tu, como sempre, ds-lhe tudo o que ela quer - disse a tia Dorothy. - Suponho que penses que te vo receber
de braos abertos nessa famlia, no  verdade? A vida no  assim to simples. Os pais dele provavelmente desejam que se case com algum da Argentina, algum com
classe e influncia. Desconfiaro de ti, porque nada sabem a teu respeito. Tu, que achas que os teus primos te chamam nomes horrveis, que tal te parece o de caadora
de dotes, hem? Ah, pois, vais dizer que eu sou rspida e injusta, mas s te quero ensinar agora o que a vida te vai ensinar mais tarde. Pensa bem, Anna Melody,
e lembra-te de que a galinha da minha vizinha parece sempre melhor que a minha.
Anna cruzou os braos e olhou para a me, com ar de splica. A tia Dorothy sentou-se muito direita na cadeira, a beber ruidosamente o caf, mas sem o saborear como
era seu costume. Emer comeou a beber o ch, enquanto pensava no que fazer.
- E se tu ficasses em Londres... arranjasses um emprego, talvez... sei l. Talvez haja uma maneira de o conheceres melhor. Talvez ele possa ir  Irlanda conhecer
o teu pai... - sugeriu Emer, tentando arranjar uma soluo intermdia.
- No! - disse Anna, rapidamente. - Ele no pode ir a Glen-gariff. No pode. O pai pode vir a Londres para se encontrarem.
86
- Tens medo de que ele j no te queira quando vir de onde vens? - disse rispidamente a tia Dorothy. - Se te amar de verdade, no se importar com as tuas origens.
- Oh, no sei, Anna Melody. No sei o que fazer - Emer suspirou tristemente.
- Por favor, venha conhec-lo. Quando o vir, saber porque o amo assim - disse ela, dirigindo as palavras para a me e ignorando a tia Dorothy.
Emer sabia que pouco ou nada se podia fazer para impedir Anna Melody quando estava disposta a conseguir uma coisa. Tinha herdado do pai aquele feitio teimoso.
- Muito bem - cedeu, j cansada. - Vamos conhec-lo.
Emer e a tia Dorothy estavam sentadas, muito direitas, a um canto do salo de ch. A tia Dorothy achara mais discreto arranjarem uma mesa o mais afastada possvel
dos outros clientes. Nunca se sabe quem nos pode ouvir, dissera. Anna estava nervosa. Brincava com os talheres e, no espao de dez minutos, foi duas vezes ao toilette.
Quando voltou de l pela segunda vez, declarou que o esperaria l fora.
- Nem penses numa coisa dessas! - resmungou a tia Dorothy. Mas Emer disse-lhe que fosse.
- Como te sentires melhor, querida.
Anna ficou  porta, ao frio, observando ansiosamente a rua para ver se conseguia distinguir Paco por entre os rostos desconhecidos dos transeuntes que caminhavam
na sua direco. Quando por fim o viu, alto e bem-parecido sob a aba engomada do chapu, pensou  com este homem que me vou casar, e sorriu orgulhosa. Caminhava
com confiana, olhando para as pessoas em seu redor como se estas estivessem ali apenas para lhe tornar a vida mais confortvel. Tinha o ar descuidado e indolente
de um elegante vice-rei espanhol, crente de que a sua supremacia nunca seria afectada. O dinheiro tinha-lhe posto o mundo aos ps. A vida fora generosa para ele,
que nunca esperara menos.
Paco sorriu para Anna, tomou-lhe as mos e beijou-a no rosto. Depois de lhe dizer que no deveria estar  espera, ao frio, com um
87
vestido to fino, entraram os dois no salo aquecido. Anna explicou rapidamente que o pai no estava. Tinha assuntos a tratar na Irlanda. Paco ficou desiludido.
Esperara pedir imediatamente a mo de Anna. Era to impaciente quanto ardente.
Emer e a tia Dorothy viram-nos aproximar-se, serpenteando por entre os grupos de mesinhas redondas, apertadamente agrupadas na sala como nenfares num lago, repletas
de bules de prata e chvenas de porcelana, pirmides de bolinhos de ch e scones, em redor das quais as pessoas mais distintas e elegantes conversavam em voz baixa.
O que mais impressionou Emer foi o modo superior com que Paco se comportava e a arrogncia do seu olhar. Possua o ar langoroso dos privilegiados e o encanto fcil
que Emer julgava pertencer ao mundo maravilhoso de onde ele vinha. Naquele momento receou que a filha tivesse querido subir alto de mais e lhe fosse depois difcil
enfrentar as dificuldades que lhe traria a sua nova situao. A tia Dorothy achou-o o homem mais bonito que alguma vez vira e sentiu um amargo ressentimento em relao
 sobrinha que, apesar de todos os seus caprichos, conquistara o corao daquele cavalheiro, enquanto o destino lhe retirara a ela uma possibilidade de conhecer
algum assim no seu passado e, sem dvida, no seu futuro.
Depois dos cumprimentos iniciais, dos reparos sobre o tempo horrvel e dos comentrios sobre o espectculo que tinham visto na noite anterior, Paco resolveu falar
um pouco da sua famlia.
- Compreendo que isto vos parea apressado, mas asseguro-vos que no sou um mero conquistador. Perteno a uma famlia decente e as minhas intenes tambm o so
- explicou.
Disse-lhes que tinha sido criado na Argentina. Os pais eram ambos de origem espanhola, apesar de a av materna ser austraca. Era o que justificava o seu cabelo
louro e os olhos azuis, disse a rir.
- O meu pai  to moreno, que nem parecemos da mesma famlia - continuou tentando desanuviar o ambiente. Emer sorriu para o encorajar, a tia Dorothy manteve-se de
lbios cerrados e implacvel, Anna bebia-lhe as palavras com mais reverncia do que se estas sassem da boca do Papa. O seu domnio e confiana garantiam-lhe que
seria bem cuidada quando estivessem casados. Reconhecia nele o autodomnio masculino que sempre admirara em Cary Grant.
88
Disse-lhes que fora educado no colgio interno ingls de St. George, na Argentina. Falava ingls, francs e era perfeitamente fluente em italiano, bem como no seu
espanhol nativo. A sua famlia era uma das mais ricas e respeitadas do pas. O pai tinha um pequeno avio. Para alm da estncia de Santa Catalina, a famlia possua
quase a totalidade de um prdio de apartamentos no centro de Buenos Aires. Quando se casassem, viveriam num apartamento prprio nesse mesmo prdio e passariam os
fins-de-semana em casa dos pais, em Santa Catalina.
- Posso garantir-lhe, senora, que cuidarei bem da sua filha e que ela ser muito feliz. Amo-a. sina Melodia. Nem consigo descrever o quanto a amo. At eu prprio
estou surpreendido. Mas amo-a e estou certo de que tambm ela me ama. Por vezes, as pessoas tm a sorte de ser atingidas por um raio. H pessoas que levam mais tempo
a encontrar o amor e que so incapazes de reconhecer esse raio. Eu era uma dessas pessoas, mas agora compreendo aquilo sobre o que os poetas tanto escrevem. Aconteceu-me
e sou o homem mais feliz do mundo.
Emer entendia exactamente o muito que ele amava a filha. Olhava para Anna tal como Dermot a olhara, havia tantos anos, quando se tinham casado. Desejou que ele ali
estivesse a acompanh-la, mas, ao mesmo tempo, receava a sua reaco. Nunca deixaria a sua preciosa filha casar-se com um estrangeiro.
- No estou interessada em riquezas, Senhor Solanas, e o meu marido tambm no - disse Emer na sua voz suave. Estava sentada, com as costas muito direitas, e olhava
firmemente para os olhos azuis e sinceros de Paco. - O que nos importa  a felicidade e a sade da nossa filha.  a nossa nica filha, sabe? Quanto a isso, posso
falar em nome do meu marido. A ideia de ela se casar e ir viver para to longe, do outro lado do mar,  traumtica para ns. Mas sempre demos  Anna Melody uma certa
liberdade. Se  isso que ela de facto quer, no nos podemos atravessar no seu caminho. Todavia, ficaramos mais felizes se pudessem passar mais algum tempo juntos,
antes de se casarem. Para se conhecerem melhor, mais nada. E, claro, ter de se encontrar com o meu marido para pedir a mo dela.
89
- Mas, me... - protestou Anna. Sabia que os pais no tinham dinheiro para a pr num hotel e no conheciam ningum em Londres. Paco compreendia silenciosamente o
dilema.
- Posso sugerir que a sua filha fique em casa do meu primo Antoine La Rivire e da sua mulher Dominique? Casaram h pouco e esto a viver em Londres. Se, daqui a
seis meses, ainda nos quisermos casar, teremos a sua bno?
- Terei de discutir o assunto com o meu marido - disse Emer, cautelosa. - Amanh, a Anna Melody tem de voltar connosco para a Irlanda. - Anna olhou-a horrorizada.
- Minha querida, no nos vamos apressar. O teu pai vai querer falar disto contigo - disse a me dando-lhe umas pancadinhas na mo e esboando para Paco um sorriso
compreensivo.
- Se tenho de ir amanh para a Irlanda, poderemos ao menos encontrar-nos esta noite? A me quer que nos conheamos, no  verdade?
Paco tomou a mo de Anna e levou-a aos lbios, dizendo-lhe silenciosamente que o deixasse encarregar-se daqueles assuntos.
- Teria muita honra em levar-vos a todas a jantar esta noite, minhas senhoras - disse delicadamente. Dorothy abriu a boca, horrorizada. Emer ignorou a irm, que
lhe deu um pontap por baixo da mesa.
-  muito simptico, Senhor Solanas - agradeceu Emer, encolhendo os ps debaixo da cadeira. - Porque no leva s a Anna Melody? Afinal, se querem casar, tm de se
conhecer. Pode ir busc-la ao hotel s sete e meia.
- E leve-a antes da meia-noite - acrescentou a tia Dorothy, mordaz.
Depois do ch, Anna e Paco despediram-se  porta, enquanto a me e a tia esperavam pelos casacos.
- Valha-me Deus, Emer, achas que fizeste o que devia ser?
- S posso dizer-te, Dorothy, que a nossa Anna Melody sabe o que quer. Ter uma vida muito melhor com este jovem do que alguma vez poderia esperar ter com o Sean
O'Mara, disso tenho a certeza. Custa-me pensar que vai para o outro lado do mundo, mas, mesmo assim, como lhe posso negar essa vida, se  o que ela quer? Por
90
amor de Deus, l, a vida deve ser melhor para ela do que em Glenga-riff.
- Espero que o Paco Solanas se aperceba de que a Anna  uma jovem ardente e caprichosa. Se ela for to esperta como penso, vai andar na linha at ter a aliana no
dedo - comentou secamente a tia Dorothy.
- Dorothy, s vezes s to m!
- No sou m, Emer. Estou a dizer a verdade. Parece que sou a nica aqui a ver as coisas como so - afirmou, tristemente, saindo para a rua.

CAPTULO SEIS
A ltima noite em Londres foi bastante inquieta. Emer e a tia Dorothy, em camisa de dormir, ficaram  espera de que Anna voltasse  meia-noite. Devido  mentira
em que se envolvera acerca do local onde estava hospedada, vira-se obrigada a apanhar outro txi para o Brown's Hotel para que Paco a fosse ali buscar conforme o
combinado. Levara-a a jantar a um pequeno restaurante sobranceiro ao Tamisa, onde depois passearam e conversaram sob as estrelas trmulas que cintilavam por cima
deles.
Paco sentia-se infeliz por Anna ter de voltar para a Irlanda e no percebia porqu. Esperara que ela ficasse em Londres. Receoso de que Anna desaparecesse por entre
as brumas celtas e que nunca mais fosse vista, tomara a precauo de escrever a morada e o nmero de telefone, dizendo-lhe que havia de lhe telefonar todos os dias,
at ela regressar. Queria lev-la de volta ao Brown's, mas ela insistiu para que a metesse num txi porque as despedidas num trio de hotel eram pouco romnticas.
- Quero que me beijes  luz de um candeeiro da rua, debaixo desta chuva miudinha. No quero recordar-te num trio pblico
dissera, e ele acreditara. O beijo fora longo e sincero. Quando regressou ao De Vere, em South Kensington, o corao ardia-lhe sob a pele e sentia ainda um tremor
na boca depois do beijo que ele lhe dera. Estava demasiado excitada para dormir, por isso ficou a olhar para a escurido, recordando-se dos beijos, at que os seus
pensamentos se transformaram em sonhos e caiu num sono sensual.
Anna mais parecia uma boneca de corda, girando dentro da sute num estado de manaca excitao. No parecia muito preocupada
92
com Sean O'Mara; todos os seus pensamentos se dirigiam para o belo Paco Solanas e, por muito que a tia Dorothy a tentasse impressionar com a gravidade da sua situao,
no parecia estar preocupada.
- Senta-te um pouco, Anna Melody, ests a pr-me tonta - sibilou a tia Dorothy, muito plida.
- Estou to feliz, que me apetece danar - replicou ela, comeando uma valsa imaginria. - Ele  to romntico... como uma estrela de cinema de Hollywood. - Suspirou
e saltou no tapete.
- Tens de pensar muito bem no assunto. O casamento no  s paixo - disse a me, cautelosa. - Este jovem vive num pas longnquo. Podes nunca mais voltar  Irlanda.
- O que me importa Glengariff! O mundo est a abrir-se para mim, mezinha. O que h para mim em Glengariff?
A me pareceu ofendida e engoliu um soluo. No podia permitir que os seus sentimentos influenciassem a deciso da filha, embora sentisse um desejo avassalador de
se lhe lanar aos ps, para lhe implorar que ficasse. No sabia como haveria de viver sem ela.
- H a tua famlia, no sabes? - exclamou a tia Dorothy, ofendida. - Uma famlia que te adora. No menosprezes isso, menina. Na vida, h coisas mais importantes
do que a riqueza. Vais aprender da pior maneira.
- Acalme-se, tia Dorothy. Eu amo-o. Que me importa que ele seja rico ou no. Am-lo-ia mesmo que fosse pobre - disse Anna, imperiosa.
- O amor  uma coisa que vai crescendo, minha querida. No tenhas demasiada pressa - aconselhou a me, indulgente. - No estamos a falar de Londres ou de Paris,
Anna, estamos a falar de um pas que fica do outro lado do mundo. Falam uma lngua diferente. A cultura  diferente. Vais ter saudades de casa - disse, sufocada,
mas em seguida controlou-se.
- Posso aprender espanhol. Olhem, j sei dizer te amo... amo-te
- disse Anna e soltou uma gargalhada. - Te amo, te amo.
- A deciso  tua, minha querida, mas vais ter de convencer o teu pai - declarou Emer, tristemente.
- Obrigada, mezinha, a tia Dorothy  uma velha desconfiada
- disse Anna a brincar.
93
- Ah, e no se pensa no jovem Sean? Suponho que, se as coisas correrem mal, poders continuar com ele como se nada se tivesse passado?
- No, tia Dorothy - disse Anna, sufocada. - Alm do mais, nada vai correr mal - acrescentou com firmeza.
- Ele  bom de mais para ti.
- V l, Dorothy - implorou Emer, nervosa. - A Anna sabe o que quer e o que  melhor para ela.
- No sei, Emer. No pensaste nem um pouco naquele pobre rapaz que sempre foi to bom para ti. No te importas com o que vai ser dele? Deseja um futuro feliz com
a mulher que ama e tu ests a retirar-lhe impiedosamente essa possibilidade. S te digo, Emer, tu e o Dermot mimaram esta mida a tal ponto, que ela s sabe pensar
na sua pessoa. No foi ensinada a pensar em mais ningum.
- Por favor, Dorothy, a Anna est muito feliz.
- E o Sean O'Mara vai ficar infeliz - resmungou a tia Dorothy, teimosa, cruzando os braos.
- Que posso eu fazer, se me apaixonei pelo Paco? Que esperava que eu fizesse, tia Dorothy? Que ignorasse o corao e regressasse para um homem que j no amo? -
perguntou Anna, melodramtica, afundando-se numa cadeira.
- Pronto, Anna Melody, j basta. A tua tia e eu s queremos o que  melhor para ti. Tudo isto foi um choque para ns.  melhor acabares j tudo com o Sean do que
te vires a lamentar mais tarde. Uma vez casada, ests casada para toda a vida - disse Emer, suavemente, acariciando o longo cabelo ruivo da filha.
A tia Dorothy soltou um pesado suspiro. Nada podia fazer. Quantas cenas como aquela no presenciara j? Inmeras. No valia a pena querer endireitar o mundo. O
destino f-lo- por mim, disse para consigo.
- Estou apenas a ser realista - comentou, adoptando um tom de voz mais suave. - Sou mais velha do que tu, Anna Melody, e conheo a vida. E como o teu pai sempre
diz: Os conhecimentos aprendem-se, a sensatez vem com a experincia. Claro que ele tem razo. Vou deixar que a vida te ensine.
94
- Ns gostamos muito de ti, Anna Melody. No queremos que cometas um erro. Oh, quem me dera que o teu pai aqui estivesse. O que ir ele dizer? - perguntou a me,
apreensiva.
As faces de Dermot O'Dwyer iam ficando cada vez mais vermelhas e at os seus olhos cinzentos pareciam querer sair-lhe das rbitas. Agitado, percorria a sala de um
lado para o outro, sem saber o que dizer. No iria permitir que a sua filha nica desaparecesse num pas qualquer, esquecido por Deus no outro lado do mundo, para
se casar com um homem que conhecera havia apenas vinte e quatro horas.
-Jesus, Maria, Jos, menina, o que  que te passou pela cabea? A febre de Londres, no pode ser outra coisa! Vais casar com o Sean, nem que eu tenha de te arrastar
- disse, furioso.
- No me caso com o Sean nem que tenha de dar um tiro na cabea, paizinho - gritou Anna, em tom de desafio, com o rosto vermelho e molhado de lgrimas. Emer tentou
intervir.
-  um belo jovem, Dermot. Muito bem-parecido e maduro. Terias ficado bem impressionado.
- No quero saber. Nem que ele fosse o maldito rei de Buenos Aires eu queria que a minha filha se casasse com um estrangeiro. Foste criada na Irlanda, ficas na Irlanda
- gritou ele, servindo-se de um usque e bebendo-o de um trago.
Emer reparou que as mos lhe tremiam e a dor dele despedaava-lhe o corao. Como um animal ferido, mostrava os dentes a quem quer que se aproximasse.
- Vou para a Argentina, nem que tenha de ser a nado. Sei que ele  o homem para mim, pai. No amo o Sean. Nunca amei. S concordei, porque vos queria agradar. Mas
vi o homem que  o meu destino. No v que Deus quis que nos encontrssemos? Tinha de ser - disse Anna, e os seus olhos imploravam-lhe que compreendesse e se acalmasse.
- De quem foi a ideia de te levar a Londres? - perguntou ele, olhando para a mulher, com ar acusador. A tia Dorothy sara, depois de afirmar:
- J disse o que tinha a dizer - explicara, fechando a porta atrs de si. Emer olhou  sua volta, impotente, e abanou a cabea.
95
- No imaginvamos que isto fosse acontecer. Podia ter acontecido em Dublin - disse ela com os lbios trmulos, porque conhecia bem o marido e sabia que, por fim,
este haveria de ceder. Acabava sempre por ceder a Anna Melody.
- Dublin  outra coisa. No vou permitir que fujas para a Argentina com um homem que conheces h cinco minutos - disse ele, levando aos lbios a garrafa de usque
e emborcando-a. - Pelo menos, poderamos ir procurar-te a Dublin.
- Porque no posso ir trabalhar para Londres? O primo Peter foi trabalhar para Londres - sugeriu Anna, esperanosa.
- E com quem ficavas? Responde. No conheo ningum em Londres e certamente no poderemos pagar-te um hotel - replicou ele.
- O Paco tem um primo que casou e vive em Londres. Diz que eu poderia ficar com eles. Podia arranjar um emprego, paizinho. No me d, pelo menos, seis meses? Por
favor, permita que eu o conhea melhor. Se daqui a seis meses eu ainda o amar, d-lhe autorizao para que ele lhe pea licena para casar comigo? - Dermot afundou-se
na cadeira, derrotado. Anna ajoelhou-se no cho e encostou a face molhada de lgrimas  mo do pai. - Por favor, paizinho, deixe-me descobrir se ele  o homem certo
para mim. Se no o fizer, vou lament-lo durante a vida toda. Por favor, no me obrigue a casar com um homem que no amo. Um homem cujas carcias sero desagradveis.
Por favor, no me obrigue a ter de suportar uma coisa dessas - disse, acentuando especialmente as duas ltimas palavras, sabendo que a ideia de ser sujeita a avanos
sexuais da parte de um homem de quem no gostava seria o suficiente para enfraquecer a vontade do pai.
- Vai ter com os teus primos, Anna Melody. Quero falar com a tua me - disse ele, em voz baixa, retirando a mo.
- Querido, eu tambm no quero que ela v. Mas este jovem  rico, culto, inteligente... j para no falar no bem-parecido que . H-de dar-lhe uma vida melhor do
que o Sean - afirmou Emer, permitindo-se deixar correr as lgrimas, assim que a filha saiu da sala.
- Lembras-te de como rezmos para ter um filho? - perguntou ele, com os cantos da boca descados, como se no tivessem for-
96
a ou vontade para se manterem firmes no seu rosto. Emer tomou o lugar da filha no cho e beijou-lhe a mo, que continuava sobre o brao da cadeira.
- Deu-nos tantas alegrias - soluou ela. - Mas um dia j c no estaremos e ela ter de enfrentar o futuro sozinha. No a podemos guardar aqui, s para ns.
- A casa no vai ser a mesma - gaguejou ele, o usque soltan-do-lhe j a lngua e as emoes.
- Pois no. Mas pensa no futuro dela. De qualquer modo, daqui a seis meses pode ter resolvido que, afinal, ele no  para ela. Depois talvez volte.
- Talvez - disse ele, mas no acreditava.
- A Dorothy diz que fomos ns que a crimos assim to voluntariosa. Se tiver razo, ento a culpa  nossa. Crimos na nossa filha expectativas demasiado altas. Glengariff
no  suficiente para ela.
- Talvez - replicou ele, desanimado. - No sei. - A ideia de a casa ficar sem o caos feliz dos netos mantinha-se-lhe no esprito e o corao revoltava-se contra
aquele peso. - Vou dar-lhe esses seis meses. S quero conhec-lo depois - aceitou. - Se ela se casar com ele, acabou-se. Nem por sombras a vou visitar  Argentina
- disse, com os olhos marejados de lgrimas. - Nem por sombras!
Anna caminhava no cimo do monte com o nevoeiro esvoaando em seu redor como fumo fino de chamins celestes. No queria ver os primos. Odiava-os. Nunca a tinham aceitado.
Mas agora ia deix-los. Podia mesmo nunca mais voltar. Adoraria ver as reaces deles quando soubessem do seu radiante futuro. Um estremecimento de emoo percorreu-lhe
o corpo e aconchegou mais o casaco, sorrindo para consigo. Paco lev-la-ia para o sol.
- Anna Solanas - disse. - Anna Solanas - repetiu em voz alta, at gritar por entre os montes.
Um novo nome para assinalar uma nova vida. Sabia que haveria de ter saudades dos pais. Sentiria a falta da calorosa intimidade do seu lar e das ternas carcias da
me. Mas Paco f-la-ia feliz. Paco afastaria a sua saudade com beijos.
Quando Anna voltou dos montes, a me tinha fechado a porta do escritrio de Dermot, para o deixar s com o seu desgosto e para
97
no perturbar a filha. Disse a Anna que ele a deixava ir para Londres, mas que deveria telefonar assim que chegasse, para garantir que estava instalada e em segurana
no apartamento dos La Rivire. Anna abraou a me.
- Obrigada, mezinha. Sabia que o convenceria, eu sabia - disse, feliz, beijando a pele macia que cheirava a sabonete e a p de talco.
- Quando o Paco telefonar, podes dizer-lhe que o teu pai concordou que fosses viver seis meses para Londres. Diz-lhe que, se ambos sentirem o mesmo, nessa altura,
o teu pai ir a Londres para o conhecer. Est bem assim, querida? - perguntou Emer, passando a mo plida pelo cabelo ruivo da filha. - Para ns, s especial, Anna
Melody. No ficaremos felizes com a tua partida. Mas Deus estar contigo e Ele sabe o que  bom para ti - disse com a voz embargada. - Perdoa a minha emoo. Tens
sido o sol das nossas vidas...
Anna beijou mais uma vez a me, e sentiu que a emoo tambm a sufocava, no por estar prestes a partir, mas porque a sua felicidade traria tanta infelicidade aos
pais.
Dermot deixou-se ficar ali, desanimado, at ao pr do Sol. Viu as sombras entrarem pela janela at dominarem o cho do escritrio, sobrepondo-se aos ltimos raios
de luz. Via a sua menina a danar pelo quarto, com um vestido domingueiro. Mas, algum tempo depois, a alegria cedeu o lugar s lgrimas e ele caiu no cho a chorar.
Quis correr para ela, mas quando tentou pr-se de p, a garrafa vazia caiu com estrondo e assustou-a. Quando Emer veio para o levar para a cama, Dermot, um homem
triste e derrotado, ressonava ruidosamente, sentado na sua cadeira.
Anna tinha um ltimo dever a cumprir antes de partir para Londres. Dizer a Sean O'Mara que no se podia casar. Quando chegou a casa dele, a me, uma mulher alegre,
com o fsico atarracado de um sapo jovial, saltou para o hall para dizer ao filho que a noiva os tinha surpreendido e aparecera como que por magia.
- Como foi a viagem, querida? Aposto que foi fantstica, fantstica - disse ela rindo, limpando ao avental as mos cheias de farinha.
98
- Foi muito agradvel, Moira - replicou Anna, sorrindo, pouco  vontade, e espreitando por cima do ombro da mulher para ver Sean descer a escada a correr.
- Ainda bem que voltaste, nem  preciso dizer-te - soltou uma gargalhada. - O nosso Sean andou a choramingar todo o fim-de-semana.  bom v-lo sorrir de novo, no
 Sean? - Voltou para dentro de casa, acrescentando satisfeita: - Ento vou deixar os dois pombinhos para conversarem.
Sean beijou Anna desajeitadamente, antes de lhe pegar na mo e de a levar para a rua.
- Ento, que tal a viagem a Londres? - perguntou.
- Boa - replicou ela, cumprimentando Paddy Nyhan, que passava por eles de bicicleta. Depois de sorrir e acenar a vrios aldeos, Anna no conseguiu aguentar nem
mais um minuto.
- Sean, preciso de falar contigo num stio onde possamos estar a ss - disse, enrugando a testa numa expresso ansiosa.
- No estejas to preocupada, Anna. Nada pode ser assim to mau - disse ele a rir enquanto caminhavam pelas ruas laterais em direco aos montes. Subiram-nos em
silncio. Sean tentava dar incio a uma conversa, fazendo-lhe perguntas sobre Londres, mas ela respondia bruscamente, de modo que algum tempo depois ele desistiu.
Por fim, longe de olhos e ouvidos curiosos, sentaram-se num banco hmido e olharam l para baixo, para o vale.
- Ento, que se passa? - perguntou Sean. Anna olhou-lhe para o rosto plido e angular, para os ingnuos olhos verdes e receou no ter coragem para lhe contar. No
havia maneira de o fazer sem o magoar.
- No posso casar-me contigo, Sean - disse ela, por fim, e viu o rosto dele amarfanhar-se.
- No podes casar-te comigo? - repetiu, incrdulo. - Que queres dizer com isso de no te poderes casar comigo?
- No posso e pronto - disse ela, desviando o olhar. O rosto dele enrubesceu, principalmente junto aos olhos que se encheram de lgrimas de emoo.
- No compreendo. Porqu isto agora? - gaguejou. - Ests nervosa, mais nada. Eu tambm. Mas no tens de desistir. Vai correr tudo bem, depois de estarmos casados
- insistiu, para a tranquilizar.
99
- No posso casar-me contigo porque estou apaixonada por outra pessoa - disse ela, desfazendo-se em soluos. Sean levantou-se, ps as mos nas ancas e vociferou
furioso:
- Quem  essa pessoa? Eu mato-o! - exclamou, zangado. - V... quem  ele?
Anna ergueu os olhos e reconheceu a dor por detrs da fria, o que a fez chorar ainda mais.
- Perdoa-me, Sean. No te queria magoar - fungou ela.
- Quem  ele, Anna? Tenho o direito de saber - gritou, sentando-se no banco e puxando-a, para a obrigar a voltar-se para ele.
- Chama-se Paco Solanas - respondeu ela, soltando-se.
- Mas que nome  esse? - perguntou, com um riso de desprezo.
-  espanhol.  da Argentina. Conheci-o em Londres.
- Em Londres! Valha-me Deus, Anna, s o conheces h dois dias. Isto tem de ser uma brincadeira.
- No  uma brincadeira. Vou partir para Londres no final da semana - disse, secando o rosto com a manga do casaco.
- No vai durar muito.
- Oh, Sean, lamento tanto. No deveria ter acontecido - disse suavemente, colocando a mo sobre a dele.
- Pensei que me amavas - respondeu ele, agarrando-lhe a mo e olhando para os olhos vagos de Anna, como se tentasse encontrar a pessoa de quem tanto gostava escondida
por detrs deles.
- Amo-te, mas como uma irm.
- Uma irm!
- Sim. No te amo como esposa - explicou, tentando no o ofender.
- Ento acabou-se? - Engoliu em seco. - Tudo o que resta ... adeus?
Anna acenou afirmativamente.
- Ests disposta a fugir com um homem que conheces h dois dias em vez de te casares comigo. Conheces-me de toda a vida. No entendo, Anna.
- Lamento.
- Deixa de dizer que lamentas. No lamentas, seno no me abandonavas assim. - Ergueu-se abruptamente. Anna reparou que
100
um msculo lhe latejava no rosto, como se lutasse contra o impulso de se descontrolar e chorar. Mas manteve a compostura. - Ento  assim. Adeus. Espero que tenhas
uma vida muito feliz, porque arruinaste a minha. - Olhou para os olhos azul-claros da jovem que, mais uma vez, tinham comeado a encher-se de lgrimas.
- No vs assim - disse ela, correndo atrs dele. Mas Sean afastou-se a passos largos e desapareceu em direco  aldeia.
Anna regressou ao banco e chorou devido  dor que lhe causara. Mas no havia maneira mais humana de o fazer. Amava Paco. No o podia evitar. Consolou-se pensando
que, a seu tempo, Sean encontraria algum. Todos os dias havia coraes partidos e todos os dias os coraes se curavam. Ele esquec-la-ia.
Anna passou alguns dias escondida em casa, falando com Paco ao telefone, evitando os primos e os conterrneos que, tendo ouvido a novidade, culpavam-na de ter desgraado
o futuro de Sean O'Mara. No se atrevia a sair. Quando abandonou Glengariff, nem olhou para trs; se o tivesse feito, teria visto o rosto plido de Sean O'Mara olhando-a
tristemente da janela do quarto.
Anna ficou seis meses em Londres. Foi viver com Antoine e Dominique La Rivire no seu espaoso apartamento de Kensington. Dominique era uma futura romancista e Antoine
era j um profissional bem-sucedido na City. Paco ficara abismado com a ideia de a sua noiva ir trabalhar durante a estadia em Londres e insistira para que, em vez
disso, ela frequentasse aulas, algumas delas de espanhol. Anna ficara embaraada e no o quisera confessar aos pais, com medo de lhes ferir o orgulho, de modo que
lhes disse que estava a trabalhar numa biblioteca.
Paco escreveu aos pais a contar os seus planos. O pai exprimiu a sua preocupao, numa epstola invulgarmente longa. Aconselhou-o a que, se no final dos seus estudos
ainda sentisse o mesmo, deveria ento levar a namorada  Argentina para ver se ela se adaptava. Vers rapidamente se dar ou no resultado. A me, Maria Elena, escreveu
que confiava na sua deciso. No tinha dvidas de que Anna se adaptaria a Santa Catalina e que, tal como ele, toda a gente gostaria muito dela.
101
Passados os seis meses, Anna disse ao pai que ela e Paco ainda se amavam e estavam decididos a casar-se. Quando o pai sugeriu que Paco fosse  Irlanda, ela insistiu
para que o pai viesse a Londres. Dermot apercebeu-se de que a filha tinha vergonha da sua casa e sentiu-se preocupado com o futuro do jovem casal, uma vez que o
seu presente no era verdadeiramente honesto. Mas concordou em ir.
Dermot deixou a mulher e a filha a passear em Hyde Park, enquanto se encontrava com Paco Solanas no Hotel Dorchester. Emer apercebeu-se de que a filha tinha crescido
naqueles seis meses em que vivera em Londres. A sua vida nova e independente tinha-lhe feito bem. Estava com um ar radiante e ela podia ver, pela maneira como davam
as mos e sorriam um ao outro, que eram verdadeiramente felizes.
Depois de Dermot ter feito a Paco as perguntas habituais, disse que confiava em que ele fosse um homem honesto e Paco garantiu-lhe que tomaria bem conta de Anna.
- Espero que saiba no que se vai meter, meu rapaz - disse tristemente. - Ela  caprichosa e mimada. Se h pais que amam de mais um filho, esses pais fomos ns e
somos ns os culpados. Ela no  fcil, mas a vida na sua companhia nunca ser aborrecida. Sei que ter melhor vida consigo do que a que teria na Irlanda. Mas no
vai ser to fcil quanto ela pensa. S peo que tome conta dela. Para ns,  preciosa.
Paco reparou que os olhos de Dermot estavam rasos de lgrimas. Apertou-lhe a mo, dizendo-lhe que poderia ver por si prprio a felicidade da filha no dia do casamento,
em Santa Catalina.
- No estaremos l - disse Dermot, decidido. Paco ficou assombrado.
- No vo ao casamento da vossa filha? - perguntou, espantado.
- Escrevam-nos e contem-nos tudo - disse Dermot, teimosamente. Como poderia explicar a um homem to sofisticado como Paco Solanas que tinha medo de viajar para to
longe e de se encontrar num pas estrangeiro, com uma lngua estranha. No podia explicar, era demasiado orgulhoso.
102
Anna abraou afectuosamente o pai e a me. Quando estreitou  a me, teve a certeza de que esta estava mais pequena e mais magra do que quando sara da Irlanda,
seis meses antes. Emer sorriu, apesar da tristeza que lhe apertava a alma. Quando disse  filha que a amava, f-lo em voz rouca e seca; as palavras perderam-se-lhe
algures na garganta, que se apertara para no as deixar passar. As lgrimas caam-lhe dos olhos e corriam-lhe a fio pelas faces empoadas, pingando-lhe do nariz e
do queixo. Tencionara manter-se calma, mas subitamente, ao abraar a filha, talvez pela ltima vez durante muito tempo, no conseguiu conter mais as suas emoes.
Limpou o rosto quente com um leno de renda que lhe esvoaava na mo, trmulo como uma pomba branca que tenta fugir.
Dermot olhava a mulher com inveja. A agonia de suster as lgrimas, de engolir a dor, era quase excessiva. Deu umas palmadinhas talvez demasiado firmes nas costas
de Paco e apertou-lhe a mo com fora de mais. Quando abraou Anna, f-lo com tanto fervor que ela gritou, incomodada, e teve de a libertar demasiado cedo.
Anna tambm chorou. Chorou porque via os pais to infelizes por a irem perder. Queria dividir-se em duas, para que eles pudessem guardar metade da sua pessoa. Pareciam
frgeis e vulnerveis ao lado da figura alta e imponente de Paco. Estava triste por os pais no irem ao casamento, mas satisfeita porque a sua nova famlia no os
iria conhecer. No queria que soubessem de onde ela vinha, para o caso de pensarem que no era aceitvel para o noivo. Sentia remorsos por ter permitido que uma
ideia to egosta lhe passasse pela cabea enquanto se despedia dos pais. Estes teriam ficado muito magoados.

CAPTULO SETE
Quando Anna avistou pela primeira vez Santa Catalina, conseguiu ver o seu futuro nas rvores altas e frondosas, na casa colonial e na vasta plancie, e soube que
iria ser feliz. Glengariff parecia ter ficado a muitos mundos de distncia, e sentia-se demasiado emocionada para ter saudades da famlia ou pensar no pobre Sean
O'Mara.
Sara de Londres na luz dourada do Outono e chegou a Buenos Aires quando a cidade explodia em flores, pois na Argentina as estaes so ao contrrio da Europa. No
aeroporto havia um cheiro a humidade e a suor, misturado com o forte aroma de lrio-do-vale das companheiras de viagem, que tinham acabado de sair do toilette, onde
se tinham ido refrescar.
Anna e Paco foram recebidos por um homem forte e moreno, com pequenos olhos brilhantes e um meio sorriso. Tomou-lhes conta da bagagem e conduziu-os para uma porta
lateral, por onde saram para o sol quente de Novembro. Paco nem por um momento lhe largou a mo e segurou-a numa atitude possessiva enquanto esperavam pelo carro,
que foi trazido do parque de estacionamento.
- Esteban, apresento-te a minha noiva, a Seorita O'Dwyer - disse ele, enquanto o homenzinho moreno metia as malas no porta-bagagens.
Anna, que aprendera um pouco de espanhol em Londres, sorriu timidamente e estendeu-lhe a mo. A mo de Esteban estava quente e hmida, conforme apertava a sua firmemente,
deixando que os seus olhos, semelhantes a passas, observassem o rosto dela com curiosidade.
104
Quando perguntou a Paco por que razo toda a gente olhava para ela com um ar to curioso, ele replicou que era por causa do seu cabelo ruivo. Na Argentina, muito
pouca gente era ruiva e tinha uma pele to branca. Enquanto se dirigiam para Buenos Aires, Anna colocou a cabea junto  janela aberta para que a brisa lhe refrescasse
o rosto quente e fizesse esvoaar o cabelo.
Para Anna, Buenos Aires possua o lnguido encanto de uma cidade antiquada. A primeira vista, parecia-se com as cidades europeias que ela vira nas fotografias dos
livros. Os edifcios de pedra ornamentada poderiam pertencer a Paris ou a Madrid. As praas eram rodeadas por altos sicmoros e palmeiras, os parques cheios de flores
e arbustos. Para seu encanto, o prprio asfalto parecia florir com milhares de flores cor de violeta, cadas dos jacarands. O ambiente era sensual. As esplanadas
dos pequenos cafs espalhavam-se pelos passeios poeirentos, e era a que as pessoas de Buenos Aires se sentavam a beber ch, na humidade sufocante. Paco explicou-lhe
que quando os seus antepassados tinham imigrado para a Argentina, em finais do sculo xix, vindos da Europa, haviam recriado a arquitectura e os hbitos remanescentes
dos seus velhos mundos, para minorar a saudade inexorvel que lhes agitava a alma. Era por isso, comentou ele, que o Teatro Coln era como o La Scala de Milo, a
Estao do Retiro era como a Estao de Waterloo, e as ruas ladeadas por sicmoros eram como as do Sul de Frana.
- Somos um povo desesperadamente nostlgico - disse ele. - E tambm desesperadamente romntico. - Ela riu-se e inclinou-se para o beijar afectuosamente.
Anna inspirou os aromas embriagadores do eucalipto e do jasmim que emanavam das praas cheias de folhagem e observou a animao da vida diria, serpenteando por
entre os delapidados passeios, na forma de mulheres elegantes com rostos morenos e macios, cabelo comprido e brilhante, descaradamente admiradas por homens trigueiros
com olhos escuros e atitude letrgica. Viu o jogo de seduo dos jovens sentados nas mesinhas dos cafs de mos dadas, ou nos bancos de jardim, beijando-se ao sol.
Nunca tinha visto tantos beijos numa cidade. Todos se beijavam.
O carro desceu para uma garagem subterrnea da Avenida Libertador, ladeada de rvores, onde uma criada sorridente, de pele cor de
105
leite com chocolate e ansiosos olhos castanhos, os esperava, para levar a bagagem. Quando viu Paco, os seus olhos marejaram-se de lgrimas e beijou-o ternamente,
embora mal lhe chegasse ao peito. Rindo, ele rodeou-lhe o pesado corpo e tambm a abraou.
- Seor Paco, est com to bom aspecto! - disse ela em voz baixa, olhando-o de alto a baixo, admirada. - A Europa fez-lhe muito bem. Vejam s! Ah! - exclamou olhando
para Anna. - Esta menina deve ser a sua noiva. Esto todos muito excitados. Todos^ desejosos de a conhecer.
 Estendeu a mo gorducha que Anna apertou, espantada. Falara to depressa que a jovem no percebera uma nica palavra.
- Mi amor, esta  a nossa querida criada Esmeralda. No  um amor? - perguntou, piscando-lhe o olho. Anna sorriu, antes de o seguir at ao elevador. - Eu tinha vinte
e quatro anos quando sa de c e ela no me via h dois anos. Como podes imaginar, est um pouco confusa.
- A tua famlia no est c? - perguntou Anna, apreensiva.
- Claro que no.  sbado. Nunca passamos os fins-de-semana na cidade - disse, ele como se fosse a resposta mais bvia. - Vamos s levar o que precisamos para o
campo. Deixamos o resto a cargo da Esmeralda.
O apartamento era grande e arejado. As janelas luminosas davam para o parque, cheio de rvores frondosas, sob as quais amantes sonolentos se olhavam nos olhos, acariciando-se
e rindo na brisa da manh de Primavera. O chilrear dos pssaros e as vozes das crianas ecoavam na rua sombria e um co ladrava, algures. No muito longe, pois os
seus latidos eram altos, constantes e insistentes. Paco mostrou a Anna um pequeno quarto azul-plido decorado num estilo muito ingls, com cortinas floridas a condizer
com a colcha da cama e o estofo da cadeira do toucador. Da janela, Anna tinha uma vista que ia dos telhados da cidade at ao rio castanho e brilhante que ficava
para alm deles.
- Aquele  o Rio de la Plata - disse Paco, envolvendo-a nos braos e olhando por cima do ombro dela. - Na outra margem do rio fica o Uruguai.  o rio mais largo
do mundo. Alm - disse, apontando para l dos prdios -  a zona de La Boca, a antiga zona
106
porturia estabelecida pelos italianos. Hei-de levar-te l, porque os restaurantes italianos so fantsticos e julgo que vais achar as casas muito engraadas, pois
esto pintadas de cores garridas e festivas. Depois levo-te a San Telmo, a parte antiga da cidade, onde as ruas so empedradas, as casas, romnticas e degradadas,
e  a que vamos os dois danar o tango. - Anna sorriu deliciada, olhando sobre a cidade que era agora a sua nova casa e sentindo uma corrente de excitao a percorrer-lhe
os ossos. - Vamos caminhar, de mos dadas, junto  margem do rio que se chama Costanera, beijarmo-nos e depois...
- E depois? - perguntou ela com um riso levemente provocante.
- E depois trago-te para casa e fazemos amor na nossa cama de casal, lentamente... apaixonadamente - replicou ele.
Ana soltou uma gargalhada rouca, recordando as longas noites em que se haviam beijado, em que ela resistira ao seu prprio desejo que ameaava venc-la quando ele
lhe passava os lbios pela pele e lhe acariciava os seios ousadamente erguidos debaixo da blusa. Afastara-o com o rosto afogueado de sensualidade e vergonha, pois
a me ensinara-lhe que se deveria poupar para a noite de npcias. Uma jovem decente no permite que um homem comprometa a sua reputao.
Paco era antiquado e cavalheiro e, embora o seu baixo-ventre sofresse sob a tenso de ter de resistir aos seus impulsos para ir mais longe do que o que seria decente,
respeitou o desejo de Anna de se manter virgem. Controlara os seus prprios desejos com enrgicos passeios a p e duches vigorosos. Teremos todo o tempo do mundo
para nos descobrirmos um ao outro, depois de nos casarmos, dissera.
Anna retirou da mala as suas roupas de Vero, deixando o resto das coisas para Esmeralda arrumar, tal como Paco lhe dissera. Tomou um duche na casa de banho de mrmore
e envergou um vestido comprido, s flores. Enquanto Paco estava ocupado no seu quarto, ela levou algum tempo a andar pelo apartamento, constitudo por dois andares,
e observou as fotografias a preto e branco que lhe sorriam das cintilantes molduras de prata. Havia uma dos pais de Paco,
107
Hector e Maria Elena. Hector era alto e moreno com profundos olhos negros e feies aquilinas que lhe davam o porte altivo de um falco. Maria Elena era baixa e
loura, com olhos claros e melanclicos e uma boca terna e generosa. Pareceram-lhe elegantes e orgulhosos. Anna esperava que gostassem de si. Recordou-se de a tia
Dorothy a ter avisado de que eles provavelmente desejariam que o filho se casasse com uma pessoa da sua classe e cultura. Em Londres, sentira-se to confiante;
agora, estava assustada s de pensar que iria entrar neste mundo novo e maravilhoso. Achava que a tia Dorothy tinha razo. Apesar dos seus grandes ares, no passava
de uma jovem irlandesa de provncia com sonhos infantis de grandeza.
Ouviu Paco falar com Esmeralda no patamar e logo descer as escadas com a mala.
- No levas mais nada? - perguntou quando viu Anna no trio segurando a sua maleta castanha. Ela abanou a cabea. No tinha muita roupa de Vero.
- Ento pronto, vamos embora - disse ele, encolhendo os ombros.
Anna sorriu para Esmeralda, que lhe entregou um cesto de provises para levar para a quinta e conseguiu murmurar Adios como lhe tinham ensinado nas aulas em Londres.
Paco voltou-se e ergueu uma sobrancelha quando a ouviu dizer aquilo.
- Falas como uma nativa - brincou ele, metendo as malas no elevador. - Muito bem!
Paco tinha um cintilante Mercedes importado da Alemanha. Era um descapotvel azul-claro e emitia um rugido que ecoava nas paredes da garagem quando ele ligava a
ignio. Anna viu Buenos Aires passar por ela, sentindo-se num barco de corrida a cortar o oceano. Desejou que os seus horrveis primos a pudessem ver agora. Ficariam
loucos de inveja, pensou muito satisfeita. Os pais ficariam inchados de orgulho e, pela primeira vez, desde que os deixara, os seus rostos molhados de lgrimas subiram,
como bolas de sabo,  superfcie do seu esprito. O corao estremeceu-lhe momentaneamente de saudades de casa, mas estavam na estrada, sentia o vento no cabelo
e o sol no rosto, de modo que as bolas de sabo rebentaram e logo desapareceram.
108
Paco tinha-lhe explicado que tinha trs irmos. Ele era o terceiro. O mais velho, Miguel, era como o pai, de pele morena, cabelo e olhos escuros. Estava casado com
Chiquita, de quem Paco dissera que ela haveria de gostar muito. Seguia-se Nico, que tambm era moreno como o pai, mas tinha olhos azuis como a me. Estava casado
com Valeria, que era arguta e no to meiga como Chiquita, mas ele tinha a certeza de que se tornariam amigas assim que se conhecessem bem. Depois de Paco vinha
Alejandro, o mais novo, que era solteiro, mas tinha um namoro muito srio com uma jovem chamada Malena que, segundo as cartas de Miguel, era uma das raparigas mais
bonitas de Buenos Aires.
- No te preocupes - aconselhou-a Paco, complacente. - Limita-te a seres tu e vais agradar a todos.
Deslumbrada com a beleza da paisagem, Anna viu-se sem fala, de to espantada. Longe dos montes verdes da Irlanda, olhava em seu redor para a plancie seca das pampas.
Esta era pontilhada por vacas, por vezes cavalos, e estendia-se at aos confins da terra como um mar castanho por baixo de um cu azul brilhante, de uma cor to
extraordinria que lhe recordou os miostis. Santa Catalina mais parecia um frondoso osis de rvores e relvados verdejantes no final de um longo trilho poeirento.
Ao ouvir o rudo familiar do carro de Paco, a me saiu de dentro da casa fresca e sombria e veio receb-lo. Envergava um par de calas plissadas, com botes nos
tornozelos, que Anna em breve soube serem uma cpia das tradicionais calas dos gachos, chamadas bombachas, e uma blusa branca de colarinho aberto e mangas arregaadas.
Em redor da cintura usava um cinto de cabedal decorado com medalhas de prata que captavam a luz e cintilavam. Tinha o cabelo louro apanhado num carrapito na nuca,
expondo assim as suas feies suaves e os olhos azul-claros.
Maria Elena abraou o filho com um arrebatado afecto. Poisou-lhe as mos longas, elegantes, no rosto e olhou-o nos olhos, murmurando palavras em espanhol que Anna
foi incapaz de entender, mas que sabia serem exclamaes de alegria. Depois, voltou-se para Anna e, mais reservada, dirigiu-se-lhe para lhe beijar a face plida
e disse-lhe, num ingls entrecortado, que era um prazer conhec-la. Anna seguiu-os at onde o resto da famlia se encontrava para saudar Paco e conhecer a sua noiva.
109
Quando Anna viu a sala fresca cheia de desconhecidos, sentiu-se, de sbito, fraca e aterrorizada. Viu que todos lhe lanavam um olhar crtico, querendo saber se
serviria para Paco. Paco deixou a mo de Anna e foi imediatamente engolido nos braos da famlia, que no o via havia dois anos. Durante breves instantes, que 
assombrada Anna pareceram embaraosamente longos, ela sentiu-se s, como um barquinho  deriva no mar. Olhando em redor, desesperada e com os olhos hmidos, parecia
estar pregada ao cho, sentindo-se desajeitada e exposta. Exactamente no momento em que pensou que j no aguentava mais, Miguel foi ter com ela e tratou de a apresentar
 famlia. Miguel parecia bondoso e sorria-lhe com simpatia.
- Isto vai ser um pesadelo para ti. Respira fundo que corre tudo bem - disse ele, falando ingls com um encantador sotaque, como o do irmo, colocando-lhe a mo
rude sobre o brao para a tranquilizar. Nico e Alejandro sorriram-lhe educadamente, mas, quando voltou as costas, sentiu que os seus olhos se mantinham sobre ela
e ouviu-os a discutir em espanhol com palavras que no conseguiu entender, apesar de todas as aulas que tinha frequentado. Falavam to depressa! Estremeceu com a
imponente beleza de Valeria, que beijou Anna sem um sorriso, mas com um olhar firme e confiante. Ficou aliviada quando Chiquita a abraou afectuosamente e lhe deu
as boas-vindas  famlia.
- O Paco falou tanto de ti nas suas cartas. Estou muito contente por c estares - disse ela, num ingls hesitante, e depois corou. Anna ficou-lhe to grata que lhe
apeteceu chorar.
Quando Anna viu aproximar-se a imponente figura de Hector, sentiu o suor escorrer-lhe pela barriga das pernas e o estmago aper-tar-se-lhe. Era alto e majestoso
e ela encolheu-se sob o peso sufocante do seu carisma. Curvou-se para a beijar e Anna sentiu o cheiro da sua gua-de-colnia que lhe permaneceu na pele durante algum
tempo. Paco parecia-se muito com o pai, com as mesmas feies aquilinas e o nariz curvo; s que tinha herdado o tom de pele e a expresso meiga da me.
- Bem-vinda a Santa Catalina e  Argentina. Julgo que  a primeira vez que c vens - disse em perfeito ingls. Anna susteve o flego e respondeu com um fraco aceno
de cabea. - Gostaria de fa-
110
lar a ss com o meu filho. Importas-te que te deixe com a minha mulher? - Anna assentiu com a cabea.
- Certamente que no - replicou em voz rouca, desejando que Paco a levasse para Buenos Aires onde pudessem ficar sozinhos. Mas Paco afastou-se satisfeito com o pai
e Anna percebeu que deveria fazer o que lhe tinham dito.
- Anda, vamos sentar-nos l fora - disse simpaticamente Maria Elena, vendo, com uma expresso apreensiva que lhe escurecia os olhos claros, o marido e o filho desaparecerem
no trio. Anna no teve outro remdio seno ser arrebatada para o terrao por Maria Elena e pela famlia, e ir l para fora, para o sol, onde a me de Paco a poderia
ver melhor.
- Por Dios, Paco! - exclamou o pai na sua voz firme e profunda, abanando a cabea com impacincia. - No h dvida de que  muito bonita, mas olha para ela... parece
um coelho assustado. Ser justo traz-la para c?
Paco corou violentamente e os seus olhos brilharam, tornando-se cor de violeta. J esperava aquele confronto. Desde o princpio que sabia que o pai iria reprovar.
- Pai, espanta-o ela estar assustada? No fala a nossa lngua e est a ser submetida a um escrutnio por todos os membros da nossa famlia, para ver se serve para
mim. Pois bem, eu sei o que  bom para mim e no vou permitir que me queiram convencer do contrrio - afirmou lanando ao pai um olhar de desafio.
- Meu filho, sei que ests apaixonado e est tudo muito bem, mas o casamento no precisa exactamente de amor.
- No fale assim da minha me - disse Paco, irritado. - Vou casar com a Anna - acrescentou num tom calmo e decidido.
- Paco, ela  uma provinciana, nunca saiu da Irlanda. Ser justo para ela coloc-la no meio do nosso mundo? Como achas que se vai aguentar?
- Vai aguentar-se bem, porque a vou ajudar, porque o pai tambm a vai ajudar - disse Paco, zangado. - Porque vai dizer a toda a famlia que a receba bem.
- No basta. Vivemos numa sociedade rgida... vai ser julgada por toda a gente. Com tantas raparigas bonitas que h aqui, na Ar-
111
gentina, porque no pudeste escolher uma delas? - Hector ergueu as mos, desesperado. - Os teus irmos conseguiram arranjar casamentos muito adequados neste pas.
Porque no tu?
- Amo a Anna porque ela  diferente de toda a gente. No  sofisticada,  provinciana e no pertence  nossa classe. E ento? Amo-a tal como  e o mesmo vai acontecer
com o pai, quando a conhecer melhor. Deixe que ela se descontraia um pouco. Quando esquecer o medo, o pai vai perceber por que razo eu a amo tanto.
Paco fixou no pai os olhos firmes, que se suavizavam quando falavam de Anna. Hector apertara teimosamente o maxilar e lanara o queixo para diante. Abanou a cabea
e abriu as narinas para respirar, sem afastar os olhos do rosto do filho.
- Muito bem - cedeu. - No posso impedir que cases com ela. Mas espero que saibas o que ests a fazer, porque tenho a certeza absoluta de que no sabes.
- D-lhe algum tempo, pai - disse Paco, grato por o pai ter recuado. Em toda a sua vida, Paco no vira o pai recuar uma nica vez.
- J s um homem e tens idade suficiente para tomar as tuas decises - disse Hector, bruscamente. - A vida  tua. S espero ter-me enganado.
- Vai ver que sim. Eu sei bem o que quero - disse-lhe Paco. Hector acenou afirmativamente antes de abraar com firmeza o filho e de lhe beijar a face hmida, como
era o seu hbito quando terminavam uma discusso.
- Vamos ento ter com os outros - disse Hector e dirigiram-se ambos para a porta.
Anna gostou imediatamente de Chiquita e de Miguel, que a receberam na famlia com incondicional afecto.
- No te preocupes com a Valeria - disse Chiquita enquanto mostrava a estncia a Anna. - Quando te conhecer, h-de gostar de ti. Todos estavam  espera que o Paco
casasse na Argentina.  um choque, sabes? O Paco mandou dizer que se ia casar e ningum te conhecia. Mas vais ser muito feliz, depois de te acomodares.
Chiquita mostrou os ranchos a Anna - o apertado conjunto de casas atarracadas, onde viviam os gachos - e o campo de plo, que
112
ganhava vida nos meses de Vero, quando os rapazes no faziam mais nada seno jogar, e quando no jogavam falavam das partidas. Levou-a ao campo de tnis aninhado
entre os pesados pltanos e eucaliptos, e  piscina lmpida, situada numa colina artificial de onde se via um campo verdejante cheio de vacas castanho-claras, a
ruminar.
Com Chiquita, Anna em breve comeou a praticar espanhol. Chiquita explicou-lhe as diferenas gramaticais entre o espanhol de Espanha, que Anna aprendera em Londres,
e o espanhol que se falava na Argentina, e ouvia com toda a pacincia Anna tropear nas palavras quando estava nervosa.
Durante a semana, Anna e Paco viviam em Buenos Aires com os pais dele. Embora a princpio as refeies fossem tensas,  medida que o espanhol de Anna progredia,
tambm progrediam as suas relaes um pouco agitadas com Hector e Maria Elena. Anna pouco se queixou dos seus receios durante aqueles meses de noivado, pois tinha
a sensao de que Paco queria que ela se esforasse por se adaptar. Ele comeara a trabalhar na empresa do pai, deixando a Anna os dias livres para estudar espanhol
e tirar um curso de Histria de Arte. Ela temia os fins-de-semana, quando toda a famlia se juntava na fazenda, principalmente pela hostilidade que sentia da parte
de Valeria.
Valeria fazia-a parecer indigna. Com os seus imaculados vestidos de Vero, o cabelo escuro, muito comprido, e as feies aristocrticas, punha o estmago de Anna
s voltas, obrigando-a a sentir-se deslocada. Sentava-se com as amigas a segredar  beira da piscina e Anna sabia que estavam a falar de si. Fumavam e ficavam a
olh-la, como um grupo de panteras luzidias observando preguiosamente uma tmida pomba, divertindo-se quando ela tropeava. Anna recordava com amargura as primas
que tinham ficado na Irlanda e perguntava a si prpria quem seria pior. Pelo menos em Glengariff podia fugir para os montes; aqui no tinha onde se esconder. No
podia queixar-se a Paco, porque desejava que ele pensasse que ela j se adaptara e tambm no queria ir choramingar para junto de Chiquita, que se tornara sua verdadeira
amiga e aliada. Estivera sempre habituada a ocultar os seus sentimentos, e o pai dissera-lhe, uma vez, que tentasse esconder as suas fraquezas das pessoas que se
pudessem aproveitar delas. Neste caso, ele tinha certamente razo, pois Anna no queria dar a nenhuma delas a satisfao de a verem falhar.
113
- Ela no  melhor do que a Eva Pern! - disse Valeria, aborrecida, quando Nico a confrontou pela sua antipatia. - Uma arrivista a tentar subir na escala social
casando na nossa famlia. No ests a ver?
- Ela ama o Paco. Isso vejo eu - repetiu ele, de mau humor, defendendo a escolha do irmo.
- Os homens so to burros quando se trata de entender as mulheres! S te digo que o Hector e a Maria Elena se apercebem - insistiu ela.
Nesses tempos, Pern estava no auge do poder. Tinha reduzido a populao  submisso total. Apoiando-se nos militares, controlava a imprensa, a rdio, as universidades.
Ningum se atrevia a desviar-se da linha do partido. Embora tivesse popularidade suficiente para implementar uma democracia, preferia governar com preciso militar
e controlo total. Admita-se que no existiam campos de concentrao para os dissidentes, e a imprensa estrangeira estava autorizada a visitar o pas com toda a liberdade;
porm, uma corrente subterrnea de medo fervilhava sob a Argentina de Pern. Eva, a quem os seus milhares de apoiantes chamavam Evita, usava o seu estatuto e poder
para agir como uma Robin dos Bosques dos tempos modernos, e a sala de espera do seu gabinete vibrava literalmente com filas de pessoas que lhe imploravam favores
- uma nova casa, uma penso, um emprego - s quais Eva respondia com um toque da sua varinha mgica. Via como sua misso pessoal aliviar o sofrimento dos pobres,
j que conhecera a pobreza em primeira mo, e tinha grande prazer em retirar simplesmente aos ricos para dar aos seus descamisados - nome criado pelo prprio Pern
e que,  letra, significa gente sem camisa. Parte das famlias ricas, preocupadas por a ditadura de Pern poder conduzir ao comunismo, saram do pas durante esse
tempo.
- Sim - disse Valeria, desdenhosa. - A Anna  como a Eva Pern. Socialmente ambiciosa, e tu e a tua famlia vo deix-la conseguir o que quer.
Nico coou a cabea e decidiu que a discusso era to ridcula que nem merecia que participasse nela.
- D uma oportunidade  rapariga - retorquiu. - Se te puseres na posio dela, acho que consegues ser um pouco mais caridosa.
114
Valeria mordeu o lbio inferior e perguntou a si prpria porque seriam os homens to impotentes quando se tratava de ver para alm da superfcie de uma mulher bonita.
Tal como Juan Pern.
O momento decisivo chegou uma tarde em que toda a famlia estava estendida nas lajes quentes da piscina, torrando ao magnfico sol, bebendo os abundantes sumos de
fruta trazidos da casa de Hector pelas criadas fardadas de azul-claro. Anna estava sentada  sombra com Chiquita e Maria Elena, quando um dos amigos de Miguel, Diego
Braun, encantado pela beleza celta da noiva de Paco, no resistiu a namorisc-la diante de todos.
- Anna, por qu no te banas? - perguntou, da piscina, na esperana de que ela saltasse l para dentro e se juntasse a ele.
Anna percebeu perfeitamente a pergunta: Anna, porque no vens tomar banho?, mas estava to nervosa, sabendo que todos esperavam a resposta, que se confundiu com
a gramtica e traduziu directamente do ingls.
- Porque estoy caliente - replicou, desejosa de comunicar que no queria meter-se na gua fria porque se sentia muito bem ao calor. Para sua surpresa todos soltaram
sonoras gargalhadas, com tanto gosto, que tiveram de se agarrar ao estmago para acalmar as dores.
Anna olhou desesperada para Chiquita que, entre risadas contagiosas, lhe explicou o que acabara de dizer.
- Sou sensual,  mais ou menos essa a traduo. - Depois Chiquita comeou de novo a rir com o resto da famlia e dos amigos.
Anna reflectiu sobre o que tinha dito e, de sbito, o riso de Chiquita pareceu fazer-lhe ccegas e tambm ela soltou uma sonora gargalhada. Riram todos e, pela primeira
vez, Anna sentiu-se parte do cl. Pondo-se de p, disse com o seu forte sotaque irlands, sem se preocupar com a correco gramatical, que talvez lhe fizesse bem
dar um mergulho para se refrescar.
A partir desse momento, aprendeu a rir de si prpria e apercebeu-se de que o sentido de humor era a nica maneira de fazer com que gostassem dela. Os homens deixaram
de a admirar de longe e em silncio e comearam a troar do seu mau espanhol, e as raparigas resolveram encarregar-se de a ajudar a lidar no s com a lngua, mas
115
tambm com os homens. Ensinaram-lhe que os homens latinos tinham muita confiana e despudor com as mulheres, o que significava que ela teria de se acautelar. Mesmo
assim, tentariam tudo. Como era europeia e muito bonita, teria de ter ainda mais cautelas. As mulheres europeias eram como os panos vermelhos diante dos touros,
diziam, pois tinham a fama de ser fceis. Todavia, dizer no nunca fora um problema para Anna e, ao ganhar confiana, a sua fora de carcter e os seus habituais
caprichos comearam a surgir de novo.
A medida que o carcter de Anna ressurgia do nevoeiro que fora o seu medo e as limitaes que a barreira da lngua lhe impusera, Valeria apercebia-se de que ela
no era nem fraca, nem desesperada, como a princpio suspeitara. De facto, tinha um carcter de ao e uma lngua viperina, mesmo num espanhol hesitante. Respondia
aos outros e, um dia,  mesa, atreveu-se mesmo a discordar abertamente de Hector diante de toda a famlia, tendo a sua opinio prevalecido. Paco olhou-a triunfante.
Na altura do casamento, se Anna ainda no ganhara o afecto de todos os membros da sua nova famlia, pelo menos conseguira que a respeitassem.
O casamento realizou-se sob um cu azul-mar nos jardins de Vero de Santa Catalina.
Rodeada por trezentas pessoas que no conhecia, Anna Melody O'Dwyer estava deslumbrante por baixo de um vu translcido, bordado com pequenas flores e lantejoulas.
Enquanto caminhava pela nave, pelo brao do distinto Hector Solanas, sentia-se como se tivesse verdadeiramente saltado das pginas de um livro de contos de fadas
que folheara em criana. Tinha-o conseguido atravs da sua determinao e fora de personalidade. Todos a olhavam e acenavam com ar de aprovao, comentando o facto
de ela ser uma criatura especial. Sentia-se admirada e adorada. Libertara-se da pele de menina assustada com que chegara  Argentina trs meses antes e emergia como
a borboleta que sempre soubera poder ser. Quando fez os votos ao seu prncipe, acreditava que histrias assim tinham, de facto, finais felizes. Caminhariam em direco
ao pr do Sol e viveriam felizes para sempre.
Na manh do casamento recebeu um telegrama da famlia. Rezava assim:
116
Para nossa querida Anna Melody stop Todo nosso amor desejos de felicidade futura stop teus pais que te adoram tia Dorothy stop Temos saudades tuas stop.
Anna leu-o enquanto Encarnacin lhe entranava jasmim nos cabelos. Depois dobrou-o e guardou-o juntamente com a sua vida passada.
A sua noite de npcias foi, tal como esperava, terna e excitante. Por fim, j os dois sozinhos, a coberto da escurido, ela permitiu que o marido a encontrasse.
Trmula, deixou que ele a despisse, beijan-do-lhe o corpo  medida que o ia descobrindo, gozando a inocncia loura da sua pele iridescente na fraca luz do luar que
entrava em trmulos raios pelas aberturas das cortinas. Ele desfrutou da sua curiosidade e prazer quando ela se lhe abandonou e lhe permitiu explorar os locais anteriormente
proibidos. A cada carcia, a cada toque, Anna sentia verdadeiramente que as suas almas se uniam num plano espiritual e que os sentimentos por Paco pertenciam a outro
mundo, um mundo para l do fsico. Sentiu-se abenoada por Deus.
A princpio, no teve saudades do seu pas nem sentiu falta da famlia. De facto, de repente, a sua vida tornara-se muito mais emocionante. Como mulher de Paco Solanas,
podia ter tudo o que queria e o respeito vinha com o nome. O seu novo estatuto ofuscou rapidamente os vestgios do seu humilde passado. Gostava de fazer de anfitri
no seu novo apartamento de Buenos Aires, deslizando pelos enormes aposentos, magnificamente decorados, sendo sempre o centro das atenes. Encantava toda a gente
com as suas fracas tentativas de falar espanhol e com os seus modos pouco sofisticados; se a famlia Solanas a aceitara, os Porteos, habitantes de Buenos Aires,
fariam o mesmo. Como estrangeira, era uma curiosidade e conseguia quase tudo. Paco estava profundamente orgulhoso da mulher. Era diferente de todos naquela cidade
de rgidos cdigos sociais.
Todavia, no princpio do casamento, ainda cometia erros. No estava habituada a ter criadas e tinha uma certa tendncia a trat-las de modo indelicado, acreditando
ser assim que a classe superior tratava o pessoal. Queria que as pessoas pensassem que crescera numa casa com criadas, mas estava enganada; a sua atitude para com
elas ofendia a sua nova famlia. Paco fingira no ver durante os primeiros
117
meses, na esperana de que ela aprendesse observando as cunhadas. Mas, por fim, viu-se na contingncia de ter de a chamar  parte, para lhe pedir que as tratasse
com mais respeito. No lhe podia dizer que Angelina, a cozinheira, tinha aparecido  porta do seu escritrio, torcendo as mos, perturbada, declarando que nunca
um Solanas lhe falara como a Seora Anna o fizera. Anna ficou mortificada e amuou durante uns dias. Paco tentou anim-la e acabar com o seu mau humor. Aqueles amuos
no pertenciam  Ana Melodia por quem ele se apaixonara em Londres.
De sbito, Anna descobriu que tinha mais dinheiro do que o Conde de Monte Cristo. Numa tentativa de mostrar que no era uma rapariga provinciana da Irlanda do Sul,
e para se animar, resolveu passear-se pela Avenida Florida em busca de um vestido especial para usar no jantar de aniversrio do sogro. Encontrou um vestido encantador
numa pequena butique na esquina da Avenida Santa F com a Avenida Florida. A empregada foi muito amvel e ofereceu-lhe como brinde um frasco de perfume. Anna ficou
encantada e comeou, de novo, a sentir aquela animao interior que sentira na sua chegada a Buenos Aires.
Contudo, nessa noite, assim que entrou na sala do apartamento de Hector e Maria Elena e olhou para o que as outras mulheres vestiam, apercebeu-se, para seu embarao,
de que tinha feito uma m escolha. Todos os olhos se voltaram para ela e os sorrisos esconderam a reprovao que a delicadeza no lhes permitia mostrar. Escolhera
um vestido demasiado decotado e espaventoso para aquela ocasio elegante e ntima. Para sua maior vergonha, Hector dirigiu-se-lhe. O seu cabelo negro, levemente
grisalho nas tmporas, e o seu porte aterrorizaram-na. Lanando sobre ela a sua sombra, ofereceu-lhe um xaile.
- No quero que tenhas frio - disse delicadamente. - A Maria Elena no gosta de aquecer a casa porque lhe causa dores de cabea.
Ela agradeceu-lhe, engolindo um soluo, e um copo de vinho, logo que lhe pareceu apropriado. Mais tarde, Paco disse-lhe que, apesar de o vestido no ser muito apropriado,
ela era, mesmo assim, a mulher mais bonita da sala.
118
Quando Rafael Francisco Solanas (que recebeu o diminutivo de Rafa) nasceu no Inverno de 1951, Anna j se sentia adaptada. Chiquita, agora sua cunhada, levara-a s
compras; ela comeara a usar os fatos mais elegantes importados de Paris e toda a gente estava muito admirada por ter posto um rapaz neste mundo. Era to louro que
quase parecia um macaquinho albino, muito gorducho, mas para Anna era a criatura mais preciosa que alguma vez vira.
Paco sentara-se na cama do hospital e dissera-lhe o quanto ela o tinha feito feliz. Tomou nas suas a mo esguia da mulher e beijou-lha com enorme ternura, antes
de lhe colocar num dedo um anel de rubi.
- Deste-me um filho, Ana Melodia. Estou to orgulhoso da minha linda mulher - disse, esperanoso de que a criana a ajudasse a acalmar e que lhe desse algo mais
para preencher os dias, para alm das compras.
Maria Elena deu-lhe um medalho de ouro com esmeraldas que pertencera  sua me. Hector olhou para o neto e disse que ele se parecia com a me mas que chorava com
a fora de um Solanas.
Quando Anna telefonou  me, para a Irlanda, Emer chorou durante quase todo o tempo que durou o telefonema. Mais que tudo, desejava estar com a filha naquele momento
e partia-se-lhe o corao pensar que nunca veria o neto. A tia Dorothy pegou no auscultador e interpretou o que a irm tentava dizer, repetindo as palavras da sobrinha
para todos aqueles que se encontravam na pequena saleta.
Dermot queria saber se ela estava bem e se cuidavam dela. Falou uns momentos com Paco, que lhe disse que Anna era muito querida por toda a famlia. Quando Dermot
desligou o telefone, estava mais do que satisfeito, mas a tia Dorothy no estava convencida.
- Se querem que vos diga, nem parecia ela - disse em tom sombrio, pousando a malha.
- O que queres dizer? - Emer ainda chorava.
- A mim pareceu-me bastante satisfeita - disse Dermot, rabugento.
- Pois sim, bastante satisfeita, mas ligeiramente mais sossegada.  bvio que a Argentina est a fazer muito bem  nossa Anna Melody.
119
Anna tinha tudo o que possivelmente poderia desejar nesta vida, excepto uma coisa que constantemente lhe feria o orgulho. Por muito que observasse e copiasse aqueles
que a rodeavam, nunca conseguia livrar-se da sensao de ser socialmente inadequada. No fim de Setembro, quando a Primavera cobria as pampas de erva comprida e verdejante
de flores silvestres, Anna encontrou outro obstculo que se interps no caminho entre ela e a desejada sensao de pertencer  famlia - os cavalos.
Anna nunca gostara de cavalos; de facto, era alrgica a eles. Gostava de quase todos os animais: das maliciosas viscachas, enormes roedores semelhantes a lebres,
que habitavam a plancie, do gato-monts que muitas vezes avistava, deslizando furtivamente por entre os arbustos, e do armadillo, que a fascinava em virtude da
sua forma absurda. Hector tinha a carapaa de um destes animais sobre a sua mesa de trabalho, coisa que Anna achava perturbadora. Todavia, em breve se apercebeu
de que a vida em Santa Catalina girava  volta do plo. Todos montavam a cavalo; os carros eram obsoletos num local em que as estradas que levavam de uma estncia
a outra no eram mais que carreiros de terra ou simplesmente atalhos atravs da erva comprida.
A vida em Santa Catalina estava cheia de acontecimentos sociais; organizavam constantemente chs, enormes churrascos, ou asados, nos ranchos uns dos outros. Anna
tinha de dar a volta e ir de carrinha, enquanto todos os outros saltavam simplesmente para cima de um cavalo e galopavam, num instante, at ao seu destino. A conversa
era dominada pelo plo, pelos jogos contra as outras estncias, os handicaps, os pneis, o equipamento. Os homens pareciam pratic-lo quase todas as noites. Era
um divertimento. As mulheres sentavam-se na relva com as crianas e viam os maridos e os filhos galoparem de um lado para o outro do campo - mas para qu? Para bater
uma bola entre duas balizas. Nem valia a pena o esforo, pensava Anna aborrecida. Quando observava as crianas, que ainda mal falavam, brincando na parte lateral
do campo com tacos minsculos, erguia os olhos ao cu, desesperada. No havia fuga possvel.
Agustin Paco Solanas nasceu no Outono de 1954. Ao contrrio do irmo, era moreno e peludo. Paco disse que ele era muito parecido
120
com o av Solanas. Dessa vez, deu  mulher um anel com um diamante e uma safira. Mas havia um certo arrefecimento das suas relaes que nunca antes se notara.
Anna ocupava-se completamente da vida dos filhos pequenos. Embora tivesse Soledad, a jovem sobrinha de Encarnacin, para tomar conta deles, preferia fazer quase
todo o trabalho. Os filhos precisavam e dependiam dela. Ela era tudo para os filhos e o amor deles era incondicional. Anna respondia com devoo cega quele afecto.
Quanto mais mimava os filhos, mais distante parecia tornar-se o marido, at Paco no ser mais que uma personagem sombria no cenrio do quarto das crianas. Parecia
passar cada vez mais tempo afastado, chegando quase todas as noites tarde do trabalho, e saindo de manh, antes de ela se levantar. Ao fim-de-semana, em Santa Catalina,
falavam um com o outro com a fria amabilidade que invadira a sua relao com a subtileza de um puma da pradaria. Anna perguntava a si mesma onde teriam ido parar
a alegria e os risos. O que acontecera s brincadeiras? Agora parecia que apenas falavam dos filhos.
Paco no se atrevia a admitir a ningum que talvez se tivesse enganado. Que talvez tivesse pedido demasiado a Anna, quando quisera que ela se aclimatasse a uma cultura
que lhe era estranha. Vira a Ana Melodia por quem se apaixonara desaparecer lentamente atrs da mscara de uma mulher que tentava ser aquilo que no era. Assistira,
impotente,  transformao daquela natureza incontida e desafiadora independncia em mau humor e petulncia. Estava constantemente na defensiva. Parecia esforar-se
por se encontrar, o que apenas resultava numa tentativa de competir com aqueles que a rodeavam para ser como eles. Sacrificou as qualidades to especiais que Paco
tanto apreciava nela a uma sofisticao que lhe ficava to mal como um vestido mal talhado. Paco sabia que ela era capaz de uma grande paixo, mas, por mais que
tentasse afastar com beijos a reserva da mulher, os seus encontros nocturnos nada mais eram do que isso: encontros. Por muito que ele quisesse discutir com a me
as suas preocupaes, era demasiado orgulhoso para admitir que talvez devesse ter deixado Anna Melody O'Dwyer nas brumosas ruas de Londres, poupando a ambos toda
aquela infelicidade.
Quando Sofia Emer Solanas entrou a gritar neste mundo, no Outono de 1956, o arrefecimento transformara-se em gelo. Paco e Anna
121
mal se falavam. Maria Elena interrogava-se se a separao da famlia no teria comeado a fazer os seus efeitos, de modo que sugeriu a Paco que mandasse vir os sogros
a Santa Catalina para fazer uma surpresa  mulher. A princpio, Paco resistiu; no sabia se Anna ficaria satisfeita por ele fazer uma coisa nas costas dela. Mas
Maria Elena foi firme e determinada. Se queres salvar o teu casamento, deves pensar menos e fazer mais, disse-lhe com severidade e Paco cedeu, telefonou para a
Irlanda, falou com Dermot e p-lo a par dos seus planos. Escolheu cuidadosamente as palavras para no ferir o orgulho do sogro. Dermot e Emer aceitaram a oferta
com gratido. A tia Dorothy ficou mortificada por no ter sido includa.
- No te esqueas de um nico pormenor, Emer Melody, ou nunca mais te falo! - avisou de bom humor, para esconder o seu desapontamento.
Dermot nunca fora mais longe que Brighton, e Emer sentia-se nervosa por ir viajar de avio, mesmo depois de lhe terem garantido que a Swissair era uma companhia
muito respeitvel. Contudo, a ideia de ir ver a sua amada Anna Melody e conhecer os netos foi suficiente para afastar os receios. Os bilhetes chegaram conforme o
prometido e eles iniciaram a difcil viagem de quarenta e quatro horas de Londres para Buenos Aires, com escala em Genebra, Dacar, Recife, Rio e Montevideu. Sobreviveram
 viagem, apesar de se terem perdido no aeroporto de Genebra e quase terem perdido o voo de ligao.
Quando Anna voltou para Santa Catalina com a pequena Sofia, de duas semanas, bem enrolada num xaile de renda cor de marfim, encontrou os pais chorosos e exaustos,
no terrao,  espera dela. Entregou a menina  emocionada Soledad e lanou-se de braos abertos para o pai e para a me. Estes tinham trazido presentes para Rafael,
j de seis anos, e para o pequeno Agustin, e o lbum de fotografias antigas de Emer para Anna. Paco e a famlia deixaram-nos tacitamente a ss durante algumas horas,
durante as quais conversaram at perder o flego, choraram sem qualquer vergonha e riram como s os irlandeses sabem fazer.
Dermot comentou a vida maravilhosa que Anna Melody tinha conseguido, e Emer observou-lhe os armrios e as divises da casa com verdadeira admirao.
122
- Se a tia Dorothy te pudesse ver agora, minha querida, ficaria demasiado orgulhosa. No h dvida de que caste de p.
Emer ficou satisfeita por a filha lhe ter perguntado com ternura por Sean O'Mara. Havia de explicar a Dorothy que a sobrinha no era to egosta como ela supusera,
nem to desprovida de corao. Emer disse  filha que ele se tinha casado e ido viver para Dublin. Segundo os pais dele lhe tinham contado, estava bem. No tinha
a certeza, mas parecia-lhe que algum tambm lhe dissera que ele tinha tido uma filha ou um filho, j no se lembrava, mas de todos os modos era pai. Anna sorriu
animada e afirmou sentir-se feliz por ele.
Emer e Dermot mimaram os netos, que imediatamente se afeioaram a eles. Contudo, quando a emoo inicial da sua presena se esbateu, Anna desejou que os pais no
fossem to provincianos. Tinham ambos trazido as suas melhores roupas, mas eram um casal tmido numa paisagem estrangeira. Maria Elena tomou ch com Emer em casa,
diante de uma enorme lareira, pois arrefecia muito quando o Sol se punha, e Hector mostrou a fazenda a Dermot, no carro puxado por dois pneis luzidios. Toda a famlia
se juntou a eles para o jantar, e assim que Dermot bebeu alguns goles de bom usque irlands comeou a contar histrias exageradas da vida na Irlanda, embaraando
Anna com aquelas em que ela entrava quando era pequena. O seu cabelo grisalho, impecavelmente penteado  chegada, estava agora frisado e as faces brilhavam-lhe de
alegria. Quando comeou a cantar Danny Boy depois do jantar, com Maria Elena ao piano, Anna desejou que eles nunca tivessem vindo.
Quatro semanas depois, Anna despediu-se da me com um abrao. No poderia imaginar que no a voltaria a ver. Emer sabia. Por vezes, as pessoas sentem estas coisas
e Emer Melody herdara da av aquela intuio especial. Morreu dois anos depois.
Anna estava triste por os ver partir, mas no o lamentava. Os anos tinham enfraquecido os laos que os ligavam; sentia que tinha avanado no mundo, mas eles no.
Se, por um lado, estava encantada por a terem vindo visitar, por outro, sentia que a tinham deixado ficar mal. Tendo-se apresentado como uma senhora, tinha a certeza
de que agora a famlia do marido a veria como realmente era. Mas Paco e os pais tinham gostado muito de Emer, com a sua doce maneira de
123
ser irlandesa e sorriso encantador, e todos tinham adorado o excntrico Dermot. S no esprito de Anna aquela sombra se manteve e cresceu, at ameaar destruir a
nica coisa que amava.
Dois anos depois, quando Anna descobriu a conta de um hotel num bolso do casaco de Paco, apercebeu-se subitamente para onde ele tinha levado o seu amor e culpou
aquela traio de todos os seus sentimentos de excluso e inadequao. No perdeu tempo a pensar quem o tinha conduzido at l.

CAPTULO OITO
Santa Catalina, Fevereiro de 1972
- Maria, no embirras quando te dizem que tens de gostar de uma pessoa? - gemeu Sofia, descalando os tnis e sentando-se na relva ao lado da prima.
- Que queres dizer com isso? - perguntou esta.
- A tal Eva. A minha me diz que tenho de olhar por ela e ser simptica. Odeio esse tipo de responsabilidade.
- Ela s vai c estar dez dias.
- Dez dias  de mais.
- Ouvi dizer que  muito bonita.
- Hem? - Sofia interessou-se imediatamente a pensar na competio. Nos ltimos meses s ouvira elogios  beleza de Eva. Tinha esperana de que os pais estivessem
a exagerar por delicadeza. - Mesmo assim, no percebo por que razo a minha me precisava de a convidar para ficar aqui em Santa Catalina.
- Porque foi que a convidou?
-  filha de uns amigos dos meus pais, do Chile.
- Eles tambm vm?
- No. Azar. A responsabilidade ainda  maior.
- Eu ajudo-te. Ela pode ser muito simptica; podemos ficar amigas. No sejas to pessimista - riu Maria, imaginando j qual seria o problema de Sofia. - Que idade
tem ela?
- A nossa, quinze ou dezasseis. No me lembro.
- Quando chega?
125
- Amanh.
- Podemos receb-la juntas. S precisamos de nos preocupar se for uma chata.
Sofia esperava que Eva fosse chata - chata e feia. Talvez a pudesse deixar com Maria e se dessem bem as duas. Maria era to amvel que no via qualquer razo para
que no a aliviasse da sua incumbncia e distrasse Eva em seu lugar. A Maria  assim, pensou Sofia feliz. Sempre desejosa de agradar. E de repente a semana
seguinte no lhe pareceu assim to lgubre. Poderia passar o tempo todo com Santi, deixando que Maria e Eva se divertissem as duas.
Na manh seguinte, Sofia, o irmo e os primos estavam a conversar, deitados  sombra dos enormes pltanos, escutando a voz de Neil Diamond ecoar pelas janelas da
sala, quando um carro cintilante se aproximou. Todos se calaram e as atenes voltaram-se para Jacinto, o motorista, que saiu, deu a volta ao carro e abriu a porta
de trs. Tinha o rosto corado e sorria. Quando a maravilhosa Eva saiu do automvel, o seu largo sorriso e faces rosadas no surpreenderam ningum. O estmago de
Sofia estremeceu  vista de uma tal competio. Olhou para os rapazes que se tinham erguido imediatamente como uma matilha de ces da pradaria.
- Puta madre! - exclamou Agustin.
- Dios! Olha-me para aquele cabelo - sussurrou Fernando.
- Nunca vi uma potra com pernas to boas - murmurou Santi por entre dentes.
- Por amor de Deus, meninos, cuidado com a lngua. Tem o cabelo louro... muitas raparigas tm o cabelo louro - disse Sofia, levantando-se, irritada. - Limpa a boca,
Agustin, ests a babar-te - acrescentou, antes de avanar em direco ao carro.
Anna, que estivera sentada no terrao com Chiquita e Valeria, atravessou a relva em direco  recm-chegada, que se deixara ficar timidamente ao lado do hipnotizado
Jacinto.
- Eva - disse, aproximando-se. - Como ests?
Eva flutuou at ela. No dava passos, no andava, esvoaava. O seu cabelo louro, longo e solto, ondulava em redor do seu rosto angular, enquadrando enormes olhos
cor de guas-marinhas que piscavam nervosamente sob espessas pestanas escuras.
126
Sofia tentou desesperadamente encontrar um defeito naquela criatura que aparecera diante de si como um demnio disfarado, pronta a roubar-lhe Santi, mas ela era
perfeita. Sofia pensou que nunca antes encontrara uma pessoa to extraordinria. Viu a me abraada afectuosamente, perguntar-lhe pelos pais e dar ordens a Jacinto
para lhe levar a mala para o quarto dos hspedes.
- Eva, esta  a Sofia - disse Anna, empurrando a filha. Sofia beijou-a e sentiu o perfume de limo da sua gua-de-colnia.
Eva era mais alta que Sofia e muito magra. Parecia ter muito mais que quinze anos. Quando sorria, um sorriso tmido, as suas faces ruborizavam-se antes que a cor
se esbatesse um pouco, espalhando-se por todo o rosto. Quando Eva corava, parecia ainda mais bonita; os seus olhos pareciam mais azuis, mais profundos.
Sofia murmurou um tnue Hola, antes de deixar a me conduzir a hspede ao terrao. Sofia acompanhou-as quase sem foras. Olhou para os rapazes que ainda espreitavam
da toca. Mas no a ela; olhavam para Eva. Todos imaginavam como seria t-la.
Eva reparou tambm naquele silncio aprovador; sentia que todos os olhos a seguiam pelo terrao. Nem se atrevia a olhar para eles. Sentou-se e cruzou as pernas,
sentindo o suor na parte de trs dos joelhos e nas coxas.
Sofia sentou-se em silncio ao lado da me. Chiquita e Valeria esforavam-se por conseguir a ateno de Eva, como se fossem um grupo de meninas admiradoras. Sofia
perguntou a si prpria se, por acaso, a me e as tias dariam pela sua falta se ela sasse dali. No pareciam interessar-se se ela falava ou no e nem sequer a olhavam.
Poderia muito bem ser uma sombra.
Soledad apareceu, trazendo um tabuleiro com um jarro de limonada gelada e copos e comeou a distribu-los. Quando chegou a vez de Sofia, franziu a testa. Sofia esboou
um meio sorriso que Soledad reconheceu e compreendeu imediatamente. Devolveu-lhe o sorriso como que para lhe dizer: A menina  mimada de mais, Seorita Sofia.
Sofia engoliu a limonada, mas reteve o cubo de gelo na boca com ar petulante. Os olhos de Eva voltaram-se para os de Sofia e pareceu sorrir-lhe com eles. Sofia devolveu-lhe
timidamente o gesto, mas es-
127
tava decidida a no gostar dela. Olhou para os rapazes que se movimentavam inquietos debaixo da rvore, fazendo esforos mal disfarados para conseguirem a melhor
vista de Eva. Depois, Santi levantou-se, fez um gesto para os outros, como se fosse a resposta a um desafio, e encaminhou-se com ar confiante para o terrao onde
as mulheres estavam sentadas.
Chiquita chamou-o para que se juntasse a elas.
- Eva, este  o meu filho Santiago - disse com orgulho, ao ver o filho curvar-se para beijar a maravilhosa visitante antes de puxar uma cadeira. E sorriu ao ver
que a atraco fazia com que os olhos acinzentados de Eva brilhassem, apesar de os desviar, envergonhada.
- s chilena? - perguntou ele com um enorme sorriso, presenteando Eva com a sua boca generosa de grandes dentes brancos.
Sofia revirou os olhos. Tambm ele ficou apanhado, grande parvo, pensou, irritada.
- Sim, sou chilena - replicou Eva no seu sotaque sedoso.
- De Santiago?
- Sim.
- Ento, s bem-vinda a Santa Catalina. Sabes montar?
- Claro que sim. Adoro cavalos - respondeu-lhe ela com ar feliz.
- ptimo, se quiseres, mostro-te a fazenda a cavalo - sugeriu.
Sofia estava prestes a afogar-se na sua tristeza, quando Santi estendeu a mo para o seu copo de limonada e o levou  boca para beber um gole. O facto de ter partilhado
o copo com tanta naturalidade mostraria a Eva que ele lhe pertencia. Esperava que a recm-chegada se apercebesse.
Depois Santi sentou-se; colocou o tornozelo sobre o joelho e poisando o copo sobre a coxa f-lo rolar distraidamente. Continuaram a falar de cavalos, da casa de
praia dos pais dela em Cachagua, e das longas brumas de Vero que, por vezes, cobrem toda a costa at ao meio-dia. Enquanto conversavam, Sofia inclinou-se para lhe
retirar o copo. A sua mo tocou na de Santi quando lho tirou para beber o resto da limonada, mas Santi mal reparou. Parecia incapaz de afastar os olhos da fascinante
Eva que lhe sorria amavelmente.
Assim que os outros rapazes viram que Santi se tinha instalado to naturalmente no grupo, sentiram-se espicaados e dirigiram-se
128
para l. Eva viu o grupo de predadores morenos e esfomeados sarem da sombra para o sol e os seus lbios plidos estremeceram pouco  vontade. Mas depois Santi sorriu-lhe
com ar solidrio, enquanto os outros se aproximavam do terrao para cheirar o pote de mel, e ela devolveu-lhe o sorriso com gratido.
Maria saiu de entre as rvores com Panchito e o pequeno Horcio. Paco dobrou a esquina acompanhado por Miguel, Nico e Alejandro, seguido de perto por Malena com
as duas filhas Martina e Vanesa. Em breve, Eva era apresentada a quase toda a gente na estncia; at os ces pareciam querer aquecer-se na sua aura e instalaram-se
timidamente junto  cadeira dela. Os rapazes queriam deitar-se com ela, as raparigas queriam ser ela e, imediatamente, todos comearam a fazer-lhe perguntas e tentaram
ganhar-lhe o afecto. Sofia disfarou um bocejo e estava prestes a escapulir-se quando o av O'Dwyer entrou hesitante, a arrastar os ps, vindo da sala.
- Quem  esta coisinha bonita que apareceu entre ns? - perguntou quando os seus olhos poisaram sobre a bela Eva.
- Esta  a Eva Alarcon, pai. Veio do Chile passar c uma semana - disse Anna apressadamente em ingls, examinando-o para tentar perceber se ele tinha bebido.
- Muito bem, Eva, falas ingls? - perguntou ele, bruscamente, pairando sobre ela como uma enorme traa atrada por uma bela flor.
- Um pouco - respondeu Eva com um forte sotaque.
- No te preocupes - disse Anna em espanhol. - O meu pai s c vive h treze anos.
- No fala uma palavra de espanhol - disse Agustin, ansioso por que Eva reparasse na sua pessoa. - Ignora-o.  o que todos fazemos - riu-se e ficou satisfeito de
a ver sorrir da graa.
- Tu talvez - resmungou Sofia. - Mas eu nunca o ignorei. Santi olhou para Sofia e franziu a testa como que a perguntar
a que se devia aquela rabugice, mas ela afastou os olhos e sorriu para o av.
- Do Chile, hem? - continuou Dermot pegando na cadeira trazida por Soledad, que lhe antecipara os pensamentos, e obrigando os outros a mudarem de lugar para se sentar
ao lado de Eva. Todos tiveram de arrastar as cadeiras que rasparam no cho de mosaico, an-
129
tes de Dermot conseguir enfiar-se no pequeno espao que lhe fora aberto. Anna abanou a cabea, cansada. Sofia sorriu divertida. Vamos l ver como  que ela se d
com o av, pensou satisfeita.
- O que fazes no Chile? - perguntou. - Mida gira - resmungou para Soledad quando esta lhe trouxe um copo de limonada gelada. - Penso que aqui dentro no h uma
surpresa para mim, pois no? - acrescentou cheirando a bebida. Incapaz de compreender o que ele dizia em ingls, Eva retraiu-se.
- Bom, andamos a cavalo na praia - respondeu Eva muito sria.
- Cavalos, hem? - disse Dermot, acenando com a cabea com ar aprovador. - Na Irlanda tambm andamos a cavalo. Que fazem vocs no Chile que ns no faamos na Irlanda?
- Shoot the rapids?
- Caar coelhos?*
- Sim, temos o rpido mais veloz do mundo - acrescentou, orgulhosa.
- Meu Deus, deve ser um coelho muito rpido se  o mais veloz do mundo - disse ele com uma gargalhada.
- No s  veloz como tambm  perigoso.
- Perigoso? Morde?
- Como? - perguntou ela, olhando desesperada para Sofia, que decidiu no se apressar a ajud-la, como o fizeram imediatamente os sicofantas membros da sua famlia.
Preferiu encolher os ombros.
- Ainda ningum o caou? - perguntou ele.
- Como?
- Ento no Chile no deve haver muito bons caadores, ou o maldito coelho teria de correr como um raio - disse Dermot, soltando uma ruidosa gargalhada. - Um coelho
que corre como um raio... diabos me levem!
- Desculpe?
- Na Irlanda, os coelhos so gordos e lentos, comem cenouras a mais e so alvos fceis. Gostaria de experimentar caar um coelho muito veloz.
* Shoot the rapids significa percorrer os rpidos. Shoot the rabbits significa caar coelhos, da a confuso. (N. da T.)
130
Nesse momento, Sofia foi incapaz de conter o riso por mais tempo. Abriu a boca e riu at que as lgrimas surgiram presas nas suas pestanas.
- Av, ela est a falar de rpidos... sabes... aqueles rios muito velozes para onde as pessoas se atiram dentro de barcos de borracha. No  de coelhos! - disse,
quase sufocada, e quando os outros perceberam a graa tambm riram. Eva soltou uma gargalhadinha e corou. Quando olhou timidamente para Santi, viu que ele a fitava.
Depois do almoo, Anna sugeriu que Sofia e Maria levassem Eva at  piscina para tomar um banho de sol. Sofia e Maria acompanharam-na primeiro ao quarto para que
ela desfizesse a mala. A jovem ficou muito satisfeita com o quarto. Era grande e luminoso com duas enormes janelas abertas para o pomar de macieiras e ameixeiras.
O perfume de jasmim e gardnias flutuava e enchia o ar quente com o seu estonteante perfume. Havia duas camas cobertas por colchas s flores brancas e azuis a cheirar
a alfazema e um toucador de madeira delicada para ela pousar as escovas e a gua-de-colnia. Havia tambm uma casa de banho com uma funda banheira de esmalte com
torneiras cromadas, importada de Paris.
- Mas que quarto to bonito - suspirou, abrindo a mala.
- Adoro o teu sotaque - declarou Maria, muito animada. - Adoro o modo como os chilenos falam espanhol.  muito delicado, no concordas, Sofia? - A prima acenou com
a cabea, com ar impvido.
- Obrigada, Maria - replicou Eva. - Sabes,  a primeira vez que estou nas pampas. J estive muitas vezes em Buenos Aires, mas nunca numa estncia. No h dvida
de que isto aqui  muito bonito.
- Gostas dos nossos primos? - perguntou Sofia, deitando-se numa cama e passando um p moreno sobre o outro.
- So todos um encanto - respondeu Eva com ar inocente.
- No. O que eu quero dizer  se te agradam? Todos gostaram de ti... podes escolher.
- s um amor, Sofia. No creio que estejam interessados, sou s novidade e mais nada. Quanto a agradarem-me... mal tive tempo de olhar para eles.
- Pois eles estiveram muito tempo a olhar para ti - disse, lanando a Eva um olhar firme.
131
- Sofia, deixa a nossa amiga em paz, que acabou de chegar - interrompeu Maria. - V, despacha-te e veste o fato de banho, estou a morrer de calor aqui dentro.
Na piscina, os rapazes j estavam deitados ao sol, como um grupo de lees  espera que Eva aparecesse de fato de banho. Semicer-rando os olhos  luz, espreitavam
as rvores com respirao superficial e corpos quentes. No tiveram de esperar muito tempo. Trocaram alguns comentrios lascivos quando as raparigas se aproximaram
e fingiram-se desinteressados, conversando sobre plo. Envergonhada, Eva despiu os cales e a T-shirt para revelar um corpo de mulher, com seios arredondados e
fartos, ventre liso, ancas cheias e pele macia e bronzeada. Sentiu que os olhares desnudavam a sua modstia, por isso passou os dedos pelo fato de banho como que
a certificar-se de que ainda l estava. Sofia atirou a roupa para o cho e dirigiu-se s espreguiadeiras com o seu andar de pata, o traseiro espetado, o ventre
encolhido e os ps para fora. Santi estava na cadeira a seu lado, observando Eva em silncio com a paciente arrogncia de um homem que sabe que a mulher desejada
acabar por vir ter com ele. Sofia reparou na sua expresso e, ofendida, esticou o lbio inferior.
- Queres que te passe leo nas costas? - perguntou Agustin de dentro de gua.
- No, tens as mos frias - disse Eva, j mais confiante, agora que tinha feito amizade com as raparigas.
- O Agustin no  de confiana - disse Fernando. - Se precisares que te ponham leo nas costas, eu sou mais habilidoso.
Todos se riram.
- No  preciso, muito obrigada.
- Podes ficar com a minha espreguiadeira, Eva - disse Santi, levantando-se. Sofia reparou que Maria se sentara na outra.
- No  preciso... - disse.
- De qualquer maneira, aqui est muito calor - insistiu ele. - S h trs. Depois trago mais da arrecadao.
- Bom, j que  assim - disse ela, estendendo muito bem a toalha e deitando-se em cima. Santi sentou-se nas lajes a seu lado e conversaram como se j se conhecessem
h muito. Tinha muita fa-
132
cilidade em conversar com as mulheres e estas imediatamente acreditavam nele. Ao contrrio do que acontecia com os outros, ganhava-lhes a confiana. Sofia sentiu
o cime erguer-se-lhe do estmago como blis. Ps os culos escuros, deitou-se ao sol e tentou ignor-los.
Fernando viu o irmo a conversar com a loura e teve esperana de que ela no se deixasse encantar por ele. Que teria Santi, que todas as midas se interessavam por
ele? Esperava que ela reparasse que ele era coxo e que isso a afastasse. Se fosse rapariga, era o que lhe aconteceria, pensou amargamente. Decidiu esperar na piscina.
Ela acabaria por ter calor e ir tomar banho, pensou, e ento ele estaria  sua espera.
Rafael perdera o interesse e adormecera  sombra com uma revista sobre o rosto queimado do sol. Agustin j mergulhara vrias vezes, mergulhava bem e de vez em quando
dava mortais. Eva sorrira-lhe. No havia dvida de que ele a impressionara. Mas agora estava a ser monopolizada por Santi, tambm desejoso de se meter na gua, por
isso Agustin disse para consigo que teria simplesmente de esperar como Fernando e nadar como um tubaro, at que ela se decidisse a reparar nele. Angel, Niquito
e Sebastian tinham-se apercebido da competio e compreenderam que no valia a pena entrar na arena, pois no tinham possibilidades. Assim, afastaram-se para ir
jogar tnis no campo que estremecia de calor como uma fornalha, por detrs da vedao de arame.
Quando o calor se tornou excessivo, Eva incentivou Sofia e Maria a irem tomar banho as trs; os tubares eram demasiado ameaadores para que ela enfrentasse a gua
sozinha. Quando Eva se levantou, foi como se um vento gelado se tivesse erguido dos lnguidos confins da piscina acordando todos da sesta. Agustin mergulhou de novo,
Fernando nadava de c para l executando um crawl ruidoso, Sebastian, Niquito e Angel voltaram da sua partida de tnis para se refrescarem. S Rafael continuava
a ressonar  sombra, agitando com a sua respirao as pginas da revista que tinha  sua frente. Sofia ficara amuada a um canto, enquanto Maria e Eva tentavam nadar
na gua agitada.
- Que se passa contigo? - perguntou Santi, atirando-se  gua e indo ter com Sofia ao canto onde ela se encontrava.
133
- Nada - replicou com ar cauteloso.
- Bem te conheo - disse ele a sorrir.
- No conheces, no.
- Oh, acho que conheo. Ests com cimes porque ningum te d ateno. - Os seus olhos verdes cintilaram por instantes. - Estive a observar-te todo o dia.
- No sejas parvo. No me sinto bem.
- Chofi, s mais mentirosa do que uma mida pequena, mas hs-de ser sempre a minha prima preferida.
- Obrigada - agradeceu, sentindo-se um pouco mais feliz.
- Nem sempre podes ser o centro das atenes. D a vez a outra pessoa.
- Olha, no  isso. S que no me sinto muito bem.  do calor. Talvez me v deitar  sombra - disse Sofia com ar indiferente, na esperana de que ele a acompanhasse.
- Como queiras - replicou ele, voltando-se para olhar para Eva que nadava graciosamente como um cisne entre a agitao de patos brincalhes.
Nessa noite, as trs raparigas decidiram dormir juntas. Soledad levou uma cama de campanha para o quarto de Eva e disse a Sofia que, como era ela a anfitri, seria
a que tinha de dormir. Claro, pensou a jovem, aborrecida. E a mim nunca me apeteceu dormir aqui. Mas  medida que conversavam  luz plida e azulada da lua,
que entrava pelas enormes janelas com os doces aromas da terra e da pampa hmida, a sua disposio melhorou e, mesmo contrariada, comeou a gostar de Eva.
- Quando eu voltava para casa, o Agustin saltou de trs de uma rvore e encostou-me a ela. - Eva soltou uma gargalhada. - Fiquei to embaraada!
- No acredito! - exclamou Sofia, espantada com o atrevimento do irmo. - Que foi que ele te fez?
- Empurrou-me de encontro  rvore e disse-me que estava apaixonado por mim.
- Esto todos! - disse Maria a rir. - Tem cuidado ou em breve no haver uma rvore segura em Santa Catalina.
134
- Ele beijou-te? - perguntou Sofia esperanosa, apesar de saber que Eva nunca se interessaria pelo extico Agustin.
- Tentou.
- Valha-me Deus, que vergonha - suspirou Sofia.
- Depois, quando estvamos a jogar tnis, s me lanava a bola depois de lhe dar um beijo.
- Meu Deus!
- No te devia dizer isto, Sofia. Ele  teu irmo.
- Infelizmente. Os irmos da Maria so bem melhores do que os meus.
- Sim, o Santi  muito atraente - disse Eva, os seus olhos claros brilhando-lhe com a febre que lhe tinha cativado o jovem corpo.
- O Santi? - O corao de Sofia parou de bater.
- Sim, o Santi.
- Aquele que coxeia... alto, louro?
- Sim, aquele que coxeia - repetiu ela. -  muito giro e o facto de coxear ainda o torna mais amoroso.
Sofia teve vontade de chorar. No podes gostar do Santi, do meu Santi! Gritava para consigo. Depois, mais calma, tomou uma deciso. Tinha de pensar num plano, tinha
de pensar numa maneira de impedir um romance que, sem dvida, se incendiaria, a menos que o apagasse agora na sua primeira fase. Tinha de impedir aquela bela feiticeira
de enterrar em Santi as longas unhas cor-de-rosa. Que pena. Agora que eu comeava a gostar dela, pensou rejeitando a ideia.

CAPTULO NOVE
Sofia passou os trs dias seguintes a assegurar-se de que se tornava a melhor amiga e confidente de Eva. A me elogiara-a por ser uma anfitri to boa e pelo seu
esforo valoroso de fazer com que a jovem convidada se sentisse em casa. Iam a todo o lado juntas e Sofia no precisava de a espiar quando estava com Santi, j que,
tendo ganho a confiana de Eva, esta de bom grado lhe contava tudo.
De repente, os rapazes comearam a andar tambm  volta de Sofia. Viam-na como um meio de se aproximarem de Eva. Sofia adorou todas aquelas atenes. Tendo sado
da sombra, desempenhou o seu papel com fanfarronice. Mas Eva no estava interessada em Agustin, Fernando ou qualquer dos outros; sentia-se desesperadamente atrada
por Santi. Cada movimento que ele fazia, ela contava a Sofia. Santi levara-a a andar a cavalo pelas plancies. Sofia recusara-se a ir, com a fraca desculpa de que
tinha de ajudar o av a arrumar o quarto. Depois tinha-lhe pedido que fosse sua parceira no tnis. Eva confessou que lhe faltava a fora nas pernas sempre que o
via, mas, at a, Santi nada dissera que pudesse sugerir que sentia por ela algo mais do que amizade.
- No te preocupes - disse Sofia. - O Santi  meu primo, sou mais chegada a ele do que qualquer outra pessoa. Ele conta-me tudo... coisas que nem sequer diz  Maria.
Eu descubro, com subtileza, claro, e depois digo-te. Se quiseres que faa isso, no digas nada  Maria que no sabe guardar um segredo - mentiu.
- Est bem, mas tem cuidado. No quero fazer de parva.
136
- No vais fazer de parva - afirmou Sofia, satisfeita.
Mais tarde, arranjou uma oportunidade para ficar sozinha com Santi. Este praticava umas tacadas de golfe no terreno diante de sua casa. Sofia deixou Maria e Eva
no terrao a conversarem com a tia e a me e dirigiu-se a ele para desempenhar a sua misso.
- Boa tacada, Santi - disse, quando o viu lanar a bola no ar.
- Obrigado, Chofi.
- Tens sido muito bom para a Eva, levando-a a passear a cavalo e mostrando-lhe a fazenda.
-  uma mida amorosa - disse ele, colocando de novo a bola na relva.
-  mais do que isso.  amorosa e muito bonita. De facto, nunca vi uma rapariga to bonita como ela.
- Realmente,  muito bonita - concordou, distrado, concentrando-se mais nas tacadas do que na falsa conversa da prima.
- Sabes de quem  que ela realmente gosta? - perguntou Sofia, calmamente, escolhendo as palavras com a cautela de uma serpente deslizando pela erva em perseguio
da sua presa.
- De quem? - perguntou, baixando o taco e olhando-a com firmeza.
- Do Agustin.
- Do Agustin? - repetiu ele com ar zangado.
- Sim.
- Ests a brincar, no  verdade?
- Porqu? Ele  muito atraente. Parece um cavalo moreno.
- Sofia, no acredito - disse Santi, e lanou-lhe um sorriso pretensioso, abanando a cabea impaciente.
- Ora. Ele beijou-a ontem  noite e ela no quer que ningum saiba.
- Ele beijou-a! Pois sim...
- Juro... Mas no digas a ningum, ou ela mata-me. Somos to boas amigas que no quero estragar tudo. Mas sabes que eu no consigo esconder-te nada.
- Muito obrigado, Chofi - disse, sarcstico. Depois, levando o taco atrs do ombro, puxou-o furiosamente e falhou a bola. - Mierda!
137
- Santi, falhaste! Nem parece teu. Que se passa? No gostas dela, pois no? - perguntou Sofia, tentando esconder o sorriso, brincando com uma madeixa de cabelo junto
 boca.
- Claro que no. Agora vai-te embora que me ests a distrair - disse ele, enxotando-a.
- Est bem, at logo - e afastou-se com o seu arrogante andar de pata, sorrindo alegremente para consigo.
Santi no acreditava que a bela Eva estivesse apaixonada por Agustin. Estava confuso e furioso. Agustin? No era possvel. Semi-cerrou os olhos na direco do terrao,
onde Sofia estava agora sentada na relva, de pernas cruzadas com Maria e Eva, como um trio de bruxas planeando os seus feitios. O que andar ela a tramar?, pensou
para consigo, sabendo que a prima no era de confiana.
- No disse nada. Esconde muito bem o jogo - informou mais tarde Eva quando se serviam do almoo. - Se fosse a ti, esperava que ele avanasse primeiro. No te posso
aconselhar mais nada. J sabes como so os homens.
- Bom, pelo menos no disse que no gostava de mim - retorquiu Eva, cheia de esperana.
- No, no disse que no gostava de ti - respondeu Sofia com sinceridade.
- Obrigada, Sofia, s uma verdadeira amiga. - Eva beijou-a na face. Por um instante, Sofia sentiu remorsos, mas a sensao passou e comeu avidamente o suculento
lomo.
Nos dias seguintes, Sofia viu Eva flutuar por Santa Catalina como a Branca de Neve seguida pelos seus babados anes nas pessoas de Fernando, Agustin, Sebastian,
Niquito e Angel. Para grande alvio seu, reparou que, depois da conversa que tinham tido, Santi se desinteressara. Ignorava-a praticamente. At Eva tinha deixado
de falar dele como se soubesse que tinha perdido a batalha. Sofia regalava-se com a sua vitria.
A medida que as frias de Eva se aproximavam do fim, Sofia via-a cada vez menos. Desaparecia durante horas a cavalo ou ia  cidade com Chiquita. J sabia o caminho
e distraa-se sozinha. Sofia estava encantada. O seu plano resultara. No s a impedira de perseguir
138
Santi, como se livrara de ter de a distrair durante toda a semana. Ficaria ainda mais satisfeita se Santi tambm no se mostrasse to esquivo. Contudo, este dizia
que ia para a estncia vizinha praticar plo. Sofia pensava que o primo estivesse zangado com ela por lhe ter dado as ms notcias sobre o romance secreto de Eva
com Agustin. Logo lhe passa, disse para consigo e no pensou mais no assunto.
O ltimo dia de Eva foi passado na piscina e no campo de tnis. Despediu-se dos primos antes de ir para casa para fazer a mala e se vestir. Assim que ela partiu,
Santi sentou-se ao lado de Sofia e, s escondidas, entregou-lhe um bilhete metido num simples envelope selado.
- Por favor, Chofi, d isto  Eva antes que ela se v embora - pediu-lhe.
- O que  isso? - perguntou curiosa, fazendo-o girar nas mos.
- A minha ltima oportunidade. Cuidado, o Agustin que no te veja. Mata-me, se descobrir.
Sofia encolheu os ombros.
- Est bem, se  isso que queres, mas no vai servir de nada - disse, e sorriu-lhe com ar compreensivo.
- Pode ser que sim - respondeu ele, esperanoso.
Sofia correu para casa. Mal tinha tempo de abrir a carta com vapor antes de Eva partir para o aeroporto. Correu para a cozinha e ps a chaleira ao lume. Pobre Santi,
pensou. No percebeu nada. Sofia no conseguia imaginar que algum preferisse Agustin a Santi. Era inconcebvel. Mesmo assim, tinha-o convencido. Deu uma gargalhada
enquanto o vapor chiava contra o selo deixando que ela o descolasse. Encostada  bancada, abriu o papel bem dobrado e leu a curta mensagem, escrita  mo.
Para a prxima, Chofi, mete-te na tua vida.
Ficou siderada. O sangue subiu-lhe ao rosto que latejou de vergonha. Incrdula, leu a mensagem lentamente, vrias vezes. Depois rasgou-a em pedacinhos e lanou-a
no caixote do lixo. Em pnico, percorreu a cozinha de um lado para o outro, sem saber o que fazer, sem querer enfrentar Santi ou Eva.
Por fim, apercebeu-se de que no tinha outro remdio seno sair com a cabea erguida e agir como se nada se tivesse passado. Eva
139
despedia-se de Maria, que abraava chorosa a sua nova amiga, e trocavam moradas e nmeros de telefone. Sofia procurou Santi, mas, para seu alvio, ele no estava
ali. Sorriu como uma boa actriz e abraou Eva, sentindo de novo o fresco perfume a limo da sua gua-de-colnia. Prometeu passar as prximas frias de Vero em Cachagua
e escrever muitas vezes.
Subitamente, Santi surgiu de entre as rvores com passos decididos. Passou por Sofia, puxou a delicada Eva para os seus braos e beijou-a nos lindos lbios rosados
com tal ardor que as outras raparigas tiveram de se voltar, embaraadas. Abraaram-se com fora, como fazem os namorados quando se separam. Beijaram-se com a intimidade
de duas pessoas habituadas ao corpo uma da outra. Sofia sentiu o sangue descer-lhe da cabea aos ps e o mundo s voltas. Quando se separaram, Eva meteu-se no carro
e desapareceu pela longa alameda. Santi ficou a acenar at ele no ser mais do que um ponto de luz no horizonte e depois dirigiu-se a Sofia.
- Nunca mais me mintas - disse em tom firme. - Percebes? - Sofia abriu a boca para lhe responder, mas apenas saiu ar. Esticou o pescoo para que as lgrimas no
lhe cassem dos olhos e nem se atreveu a pestanejar no caso de uma se soltar e revelar a sua vergonha.
- s muito m, Chofi - disse ele, passando-lhe amigavelmente o brao pelo pescoo. - Que hei-de fazer contigo?

CAPTULO DEZ
Quando, no fim das frias de Vero, Santi anunciou que ia estudar para a Amrica durante quase dois anos, Sofia saiu da sala a chorar. Santi correu atrs dela, mas
ela gritou-lhe que a deixasse em paz. Felizmente, sabia que no valia a pena fazer o que ela pedia e seguiu-a at ao terrao.
- Vais daqui a um ms? Porque no me disseste antes? - disse Sofia, voltando-se para ele.
- Porque, a princpio, pensava ir em Setembro, quando comeassem as aulas, mas primeiro quero viajar durante seis meses e mais alguns depois. De qualquer forma,
sabia que ficarias perturbada.
- Mas eu sou a ltima a saber, no  verdade? - soluou, zangada.
- Pois. Acho que sim. No sei. Tambm mais ningum parece muito interessado - disse ele, encolhendo os ombros.
- Dois anos? - Limpou as lgrimas que lhe desenhavam riscos brilhantes pelas faces poeirentas.
- Bom, quase dois anos.
- Exactamente quantos meses? - fungou ela.
- No sei.
- Bom, ento quando voltas?
- No Vero, depois do prximo. Em Outubro ou Novembro... ainda no tenho a certeza.
- Porque no podes estudar aqui como toda a gente?
- Porque o meu pai acha que  essencial viver no estrangeiro. Vou melhorar o meu ingls e ter mais habilitaes.
141
- Eu ajudar-te-ia a melhorar o ingls - disse ela com doura, sorrindo atravs da nvoa que o fazia parecer uma sombra esbatida.
Santi riu-se.
- Seria interessante - declarou.
- Vais voltar nas frias? - perguntou ela, esperanosa.
- No sei. - Encolheu os ombros. - Quero viajar para ver o mundo. Provavelmente, vou passar as frias a viajar.
- Nem sequer vens passar o Natal? - perguntou Sofia, sufocada, sentindo-se subitamente vazia por dentro, com a perspectiva de viver dois anos sem ele.
- No sei. Provavelmente, no. Os meus pais vo ter comigo  Amrica. - Viu a prima sentar-se e derramar lgrimas que quase formaram um lago no cho de pedra. -
Chofi, eu volto. Dois anos no  assim tanto tempo - disse ele em voz baixa, surpreendido com a violncia daquela reaco.
- E,  uma eternidade - gaguejou a jovem. - E se te apaixonares por uma americana e casares com ela? Talvez nunca mais te veja.
Santi riu-se e passou um brao em volta dela, puxando-a para si. Sofia fechou os olhos, desejando que ele a amasse tanto como ela o amava. Assim no partiria, no
a deixaria.
- Ser difcil que me case com dezoito anos, no achas? Que parvoce. De qualquer modo, vou casar com uma argentina. No ests a pensar que eu iria deixar o pas
para sempre, pois no?
Sofia abanou a cabea.
- No sei. No quero perder-te. Vou ficar aqui presa com o Agustin e o Fercho, sem ningum que me defenda. Provavelmente, nem vo deixar que volte a jogar plo.
Fungou e enfiou o nariz no pescoo de Santi. Sentiu o odor a cavalos e quele almiscarado cheiro masculino que lhe deu vontade de lhe lamber a pele.
- Eu escrevo-te - sugeriu Santi.
- Prometes?
- Prometo. Cartas muito, muito grandes. Vou contar-te tudo. E tu tambm tens de me contar tudo.
- Escrevo-te todas as semanas - respondeu ela, decidida.
142
Ali, nos braos dele, apercebia-se de que os seus sentimentos tinham ultrapassado o afecto que sentiria por um irmo, mesmo muito especial, e entrado num campo muito
mais profundo e proibido. Amava-o. Nunca antes tinha parado para pensar naquele assunto, mas com o cheiro do corpo dele nas narinas, com a sensao da pele dele
contra a sua, o hlito dele na sua testa, sabia que a razo pela qual era to possessiva era porque o amava. No gostava dele unicamente - amava-o. Sim, amava-o
com todo o seu corao, com toda a sua alma. Agora compreendia.
Durante um momento aterrador, quase lhe contou. Mas sabia que no estava certo. Sabia tambm que ele a amava como a uma irm e que no valia a pena revelar-lhe aquele
desejo obscuro que apenas o surpreenderia, ou que, na pior das hipteses, o faria fugir na direco oposta. Deixou-se ficar abraada a ele, que continuava a ignorar
a fora com que o corao batia no peito da prima, como um pssaro louco lanando-se contra as grades da gaiola no seu desejo contido de voar e cantar.
Santi regressou a casa, plido e confuso, e contou a Maria como Sofia ficara perturbada ao saber da sua partida.
- Fartou-se de chorar. Nem acredito. Est desfeita - contou-lhe abismado. - J sabia que iria ficar perturbada, mas no tinha ideia de que ficaria assim. Quando
a deixei, ela fugiu.
Maria foi imediatamente  procura da prima e esbarrou com Der-mot que jogava croqu com Antonio, o empregado que cuidava da propriedade e era casado com Soledad.
Quando lhe contou as razes da fuga da neta, Dermot poisou o taco e acendeu o cachimbo. Adorava a neta com uma intensidade que apenas sentira pela filha. Para ele,
Sofia era mais radiosa do que o Sol. Quando chegara  Argentina, depois da morte da mulher, fora a pequena Sofia que o impedira de desejar ir ter com ela.  um
anjo disfarado, dizia. Um anjinho de Deus.
O av O'Dwyer dirigiu-se ao ombu na carroa, conduzida por Antonio. Apesar da sua incapacidade de comunicar seno por gestos, sentia-se mais  vontade com Antonio
e Jos do que com a famlia da filha. Sofia estava sentada no cimo da rvore com a cabea entre as mos. Quando viu o av descer da carroa com passo incerto, levou
143
as mos  cabea e chorou ainda mais alto por causa dele. Dermot ficou junto da rvore e disse-lhe que descesse.
- No vale a pena chorares, Sofia Melody - disse ele, fumando o cachimbo.
Ela pensou um pouco e depois desceu lentamente. Quando chegou c abaixo, sentaram-se os dois na relva  luz do suave sol da manh.
- Ento, o jovem Santiago vai para os Estados Unidos.
- Vai deixar-me - gemeu ela. - Fui a ltima pessoa a saber.
- Mas ele volta - disse o av, meigamente.
- Mas vai por dois anos. Dois anos! Como vou eu viver sem
ele?
- Claro que vais - disse ele, tristemente, recordando-se da sua querida mulher. - Vais porque tem de ser.
- Oh, av, vou morrer sem o Santi.
O av O'Dwyer soprou preguiosamente o fumo do cachimbo e viu-o subir e desfazer-se no ar.
- Espero que a tua tia no saiba desta histria - disse com ar srio.
- Claro que no.
- No me parece que lhe agrade muito. Se descobre, vai cair-te um grande peso nos ombros.
- Que mal h em amar algum? - perguntou ela em tom de desafio.
A boca do av O'Dwyer abriu-se num sorriso.
- O Santiago no  algum, Sofia Melody...  teu primo direito.
- E o que  que tem?
- Tem muito - replicou ele com simplicidade.
- Est bem. Ento,  agora o nosso segredo.
- Como a minha bebida - disse ele a rir, passando a lngua pelos lbios plidos.
- Exactamente - concordou Sofia. - Oh, av, apetece-me morrer!
- Quando eu era da tua idade, apaixonei-me por uma bela rapariga como tu. Era tudo para mim neste mundo, mas desapareceu
144
e foi para Londres durante trs anos. O Santiago vai s por dois. Mas eu sabia que um dia, se esperasse, ela haveria de voltar. Porque, sabes uma coisa, Sofia Melody?
- No. O que ? - perguntou, amuada.
- Quem espera, sempre alcana.
- Isso no  verdade.
- Alguma vez experimentaste?
- Nunca foi preciso.
- Pois eu esperei. E sabes o que aconteceu?
- Ela voltou, apaixonou-se por ti e casou-se contigo, certo?
- No! - Sofia ergueu curiosamente a cabea. - Ela voltou e, de repente, apercebi-me de que j no me interessava.
- Av! - exclamou Sofia a rir. - No disseste que quem espera sempre alcana?
- A sabedoria. O tempo deu-me a oportunidade de me afastar e ser objectivo. A sabedoria nem sempre traz o que se espera, ou no valeria a pena esperares se soubesses
o que te ia trazer. Esses anos trouxeram-me sabedoria. Quando ela voltou, decidi que j no a queria. Tinha-me apercebido de que, afinal, no era a pessoa que eu
desejava. Foi uma sorte para ti que eu no me tivesse casado com ela, pois assim casei com a tua av.
- Gostava de ter conhecido a minha av - disse Sofia, melanclica.
O av Odwyer soltou um profundo suspiro. No passava um nico dia sem que uma nica flor, cano ou pssaro lhe recordassem a sua Emer Melody. Estava presente onde
quer que ele olhasse, e a recordao da sua expresso boa e generosa ajudava-o a arrastar-se durante mais um dia sem ela.
- Tambm gostava que a tivesses conhecido - disse ele, engolindo em seco, mas com os olhos hmidos. - Ela havia de gostar muito de ti, Sofia Melody.
- Sou parecida com ela?
- No te pareces com ela, a tua me  que sim. Mas tens o seu carisma e o seu encanto.
- Tens muitas saudades dela, no tens, av?
- Sinto muito a sua falta. No passa um nico momento em que no me recorde da tua av. Era tudo para mim.
145
- O Santi  tudo para mim - disse ela, voltando ao seu problema. -  tudo para mim e acabei de me aperceber de que o amava, av.
-  tudo para ti agora, mas ainda s muito nova.
- Mas, av, no quero seno o Santi. Nunca hei-de querer.
- Vais crescer e esquec-lo, Sofia. Espera. Vai aparecer um jovem argentino para te arrebatar, tal como o teu pai arrebatou a jovem Anna Melody h muitos anos.
- No. Nunca - contrariou enfaticamente.
Dermot O'Dwyer riu-se pelo canto da boca, puxando, ao mesmo tempo, uma fumaa do cachimbo. Olhou para o rosto petulante da neta e acenou com a cabea.
- Como queiras, Sofia Melody. Ento, espera por ele. Ele vai voltar, no se vai embora para sempre, pois no? - Como sempre, o av O'Dwyer conseguia anim-la. No
havia nada no mundo que lhe negasse. Nem sequer Santiago Solanas.
- No.
- Ento, tem pacincia.  com pacincia que o gato apanha os ratos.
- No , no.  com rapidez - disse ela, abrindo o rosto num sorriso.
- Se tu assim o dizes, minha querida...
No incio de Maro, quando as folhas comearam a encaracolar-se nas pontas e as longas frias de Vero, que j duravam desde Dezembro, se haviam esgotado como a
areia de uma ampulheta, Sofia encontrava-se diante da casa de Miguel e Chiquita para se despedir de Santi. Nas sombras alongadas da tarde hmida de Vero, lembrava-se
do que lhe dissera o av O'Dwyer. Poderia esperar por ele como um gato paciente. No olharia para outro rapaz. Manter-se-ia fiel para sempre.
As ltimas semanas de frias tinham sido difceis para Sofia. Tinha de disfarar quando os seus impulsos a obrigavam a corar e faziam com que as suas mos suassem
se estava na presena de Santi. Quando sentia as palavras Amo-te em equilbrio precrio na ponta da lngua, como resultado de um momento de distraco, tinha de
146
a morder. Tinha de esconder os seus sentimentos do resto da famlia, quando apenas queria chorar abertamente ao lembrar-se do vazio que ficaria dentro de si assim
que ele partisse.
Santi tinha o cuidado de no falar da sua aventura quando estava com ela; no a queria ver, mais uma vez, lavada em lgrimas. Comovera-se com aquela incontrolvel
demonstrao de afecto. Sentia-se orgulhoso como um heri de guerra partindo para outra batalha, enquanto as suas mulheres gemiam e arrancavam os cabelos por sua
causa. Sabia que no sentiria a falta dela. Claro que lhe escreveria, a prima era para ele como que uma irmzinha que adorava; tambm escreveria  me e a Maria.
Mas a Amrica esperava-o com a promessa de aventuras e mulheres de pernas compridas e virtude fcil. Estava desejando provar os Estados Unidos. Alm do mais, Sofia
estaria ali quando ele voltasse.
Por fim, Santi saiu de casa, seguido de Antonio com as malas. Abraou a chorosa Maria e apertou a mo a Fernando que estava secretamente satisfeito por o ver partir.
Fernando via com alvio a partida do irmo. Todos adoravam Santi. Este era bom em tudo, encantava toda a gente, fazia as pessoas rir - navegava pela vida com a facilidade
e a graa de um elegante navio, enquanto Fernando se sentia mais um rebocador. Tinha de trabalhar muito e, apesar dos esforos, pouco conseguia. Por isso, quanto
mais velho, menos tentava. Sim, no se sentia penalizado com a partida do irmo. Estava mesmo encantado. Sem Santi  sua volta para o eclipsar, talvez sentisse,
para variar, o sol no rosto. Panchito estava ao colo da velha Encarnacin, ainda muito pequeno para entender ou se preocupar. Quando Santi abraou Sofia, mais uma
vez prometeu escrever-lhe.
- J no ests zangada comigo, pois no? - perguntou com um sorriso afectuoso.
- Estou. Mas perdoo-te quando voltares - replicou ela, engolindo as lgrimas. Santi no fazia ideia de como a emocionava. Parecia no notar que o estmago dela estremecia
quando ele lhe tocava, que o corao lhe saltava quando ele sorria, que o sangue lhe subia s faces quando ele a beijava. Para Santi, Sofia era uma irm mais nova.
Para Sofia, Santi era tudo, e agora que ia partir quase nem valia a pena respirar. S o fazia porque no tinha escolha. Como o av O'Dwyer lhe dissera, viveria porque
no tinha outro remdio.
147
Miguel e Chiquita subiram para o carro e gritaram a Santi que se despachasse. J estavam atrasados. Ele acenou a todos do banco de trs. Fernando voltou para casa.
Maria e Sofia ficaram a olhar para o carro at este desaparecer da vista.
Os dias seguintes passaram lentamente. Sofia andou sempre mal-humorada, num amuo que nem as graas do av O'Dwyer conseguiam animar. Maria seguia-a como um cozinho
feliz, o seu sorriso satisfeito e graas simpticas, servindo apenas para irritar o corao solitrio da amiga que queria ficar sozinha para fazer o seu luto. As
frias estavam a chegar ao fim e, com elas, os longos dias de Vero e tudo o mais que lhes pertencia. Por fim, Maria resolveu que j estava farta da m disposio
da prima.
- Por amor de Deus, Sofia, deixa-te disso - disse, quando a prima se recusou a jogar tnis.
- Deixo-me de qu, Maria?
- De andar a choramingar pelos cantos como se tivesse morrido algum.
- Estou triste, mais nada. No tenho licena para ficar triste? - perguntou sarcstica.
- Santi  s teu primo. Parece que ests apaixonada por ele.
- Estou apaixonada por ele - replicou Sofia, ousadamente. - E no me importo que se saiba.
Maria ficou chocada.
-  teu primo direito, Sofia. No podes amar um primo direito.
- Pois amo, h algum problema? - perguntou em tom de desafio.
Por uns instantes, Maria deixou-se ficar em silncio. Vencida por um cime que no reconhecia, ps-se de p de um salto e gritou para Sofia:
- Devias crescer. J s grande de mais para essas paixonetas! Seja como for, o Santi no est apaixonado por ti. Se estivesse, nunca teria gostado da Eva, pois no?
No vs que ests a fazer figura de idiota?  escandaloso estar-se apaixonado por uma pessoa da prpria famlia. Incesto,  isso que se chama... incesto - disse,
zangada.
- Incesto  irmo com irm. Ele  meu primo - retorquiu Sofia, zangada. - Muito bem,  bvio que j no queres ser minha amiga!
148
Maria olhou impotente para a prima que saa intempestivamente do quarto, batendo com a porta atrs de si com tanta fora que o quadro do lado direito caiu no cho
e partiu-se em mil bocados.
Maria desfez-se em lgrimas de raiva. Como poderia Sofia estar apaixonada por Santi? Ele era seu primo. No estava certo. Sentou-se e reflectiu sobre o assunto,
dando voltas e mais voltas  cabea, tentando perceber os seus prprios sentimentos de cime e irritao. Tinham sido sempre trs e agora, de repente, com uma palavra,
eram dois e no havia espao para Maria.
De regresso a Buenos Aires no princpio do ano escolar, Sofia ainda se recusava a falar com Maria. Iam sentadas no carro, num silncio gelado, enquanto Jacinto as
levava  escola e Sofia tratava de nem sequer olhar para Maria durante as aulas. Maria j tivera discusses com Sofia e perdera todas elas. Sofia conseguia sempre
manter uma zanga durante mais tempo do que era normalmente possvel entre amigas to chegadas. Tinha um talento especial para desligar as suas emoes conforme lhe
convinha e parecia adorar o drama. Evitava deliberadamente Maria durante os intervalos, ria ruidosamente com as amigas e lanava  prima olhares rancorosos.
Maria estava decidida a no dar parte de fraca. Afinal, no fora ela que comeara a discusso. Sofia provocara-a. No ia deixar que ela levasse a melhor. Durante
os primeiros dias, tentou o mais possvel ignor-la. A noite chorava em silncio at adormecer, incapaz de compreender totalmente a sua dor. Mas durante o dia fazia
discretamente as suas coisas, enquanto Sofia conseguia que as outras colegas tambm a evitassem. Sofia tinha um carisma que atraa as pessoas para si. Assim que
as colegas souberam da discusso, todas alinharam pelo lado de Sofia como coelhos assustados.
Uma semana depois, Maria no conseguiu aguentar o ambiente gelado. Sentiu-se infeliz e sozinha. Esqueceu o orgulho e escreveu uma nota  prima: Sofia, por favor,
vamos ser amigas de novo. Sofia gozou perversamente o sofrimento da prima. E no havia dvida de que Maria sofria muito. Como no recebeu resposta, Maria escreveu
outra nota: Sofia, desculpa. Nunca devia ter dito o que disse. Fiz mal e peo desculpa. Vamos ser amigas, por favor.
149
Sofia, que estava de facto a adorar as atenes de que era alvo, deu voltas e voltas  nota antes de decidir o que fazer. Por fim, quando Maria se desfez em lgrimas
na aula de Histria, apercebeu-se de que tinha ido longe de mais. Sofia encontrou-a no intervalo a chorar, sentada na escada. Sentou-se ao lado dela e disse-lhe:
J no gosto do Santi. No queria que Maria a denunciasse. Grata, esta sorriu com o rosto manchado de lgrimas e disse que isso j no tinha importncia.

CAPTULO ONZE
Buenos Aires, 1958
Soledad ouviu Sofia chorar e dirigiu-se ao quarto da menina. Pegou ao colo na criana de dois anos que soluava, encostou-a ao peito e falou-lhe para a tranquilizar.
-  s um pesadelo, minha querida - disse, e Sofia reagiu agar-rando-se a ela com os seus braos e pernas quentes. Soledad olhou com ateno para a pele cor de azeitona
e os olhos cor de avel daquela menina gorducha, reparando nas pestanas espessas e escuras, brilhantes das lgrimas.
- s uma verdadeira beleza, no  verdade? Mesmo quando choras - disse, e beijou-lhe a face molhada.
Anna parecia s se interessar pela filha quando esta estava a dormir. Quando a menina era pequenina, era incapaz de tolerar os seus gritos queixosos e mandava-a
para Soledad sempre que choramingava. Paco, que no se interessara muito pelos outros filhos enquanto pequenos, mal conseguia tirar os olhos desta. Corria pelas
escadas assim que regressava do trabalho, para lhe dar as boas-noites ou para lhe ler uma histria antes de ela adormecer. Sofia sentava-se nos seus joelhos, aconchegava-se
a ele at se sentir confortvel, encostava-lhe a cabea ao peito e chuchava no polegar. Soledad estava espantada. O Seor Paco no era o tipo de pai que fosse meigo
para as crianas. Mas Sofia era especial. Era uma menina e, aos dois anos e meio, j o tinha enfeitiado na teia dos seus encantos.
Soledad gostava de passar a semana em Buenos Aires. Criada no campo, a cidade era nova e emocionante para si. No que sasse mui-
151
to. Estava sempre muito ocupada a tomar conta de Sofia. Mas, por vezes, ia s compras, deixando Loreto, a criada interna do apartamento, a tomar conta da menina
enquanto saa. Paco pedira a Soledad para passar algum tempo na cidade com Sofia, que se habituara a chamar por ela a meio da noite. Ela precisa de ti, Soledad,
dissera ele. E ns tambm. Ficamos sem saber o que fazer quando a vemos aflita. Claro que Soledad aceitara imediatamente, apesar de aquilo significar ter de deixar
Antonio, por vezes durante uma semana inteira. Mesmo assim, regressava sempre com a famlia ao fim-de-semana para continuar com o seu trabalho habitual. Queres
dormir na minha cama?, perguntava  criana sonolenta. Sofia acenava com a cabea antes de se encostar ao peito de Soledad e de fechar os olhos.
Soledad descia as escadas com cuidado, com a menina nos braos. O Seor Paco chegara a casa muito tarde, pensou, reparando na pasta e no casaco de caxemira sobre
a cadeira do hall. No fora dar as boas-noites a Sofia. Quando chegou ao hall, ouviu vozes atrs da porta da sala e, apesar de o seu instinto a aconselhar a no
escutar, deteve-se e fez o contrrio. Falavam espanhol.
- ... Muito bem, de onde vens tu? - perguntou Anna, zangada.
- Trabalho, no  o que ests a pensar - respondeu friamente Paco.
- Trabalho? Por que diabo precisas de um hotel nesta cidade quando tens um ptimo apartamento? Por amor de Deus, Paco, no sou idiota!
Seguiu-se um silncio pesado. Soledad no se mexeu, manteve-se to quieta como se fizesse parte do mobilirio; mal respirava. Porm, o seu corao batia, ferozmente
acelerado. Sabia que escutava uma conversa particular. Sabia que deveria dar meia-volta e ir-se embora, levar Sofia para o quarto e fingir que no tinha ouvido nada.
Mas no podia. Era demasiado curiosa; tinha de saber de que falavam. Ouviu passos. O Seor Paco devia estar a andar de um lado para o outro da sala; conseguia ouvir
o som frio dos seus sapatos na madeira e depois na carpete, para a frente e para trs, e, de vez em quando, uma funga-dela da Seora Anna. Por fim, Paco falou.
- Muito bem, tens razo - disse tristemente.
- Quem? - soluou Anna.
152
- No conheces, posso garantir-te.
- Porqu?
Soledad ouviu Anna pr-se de p e depois o bater dos saltos, pois ela deveria ter atravessado a sala at  janela. Mais uma vez, houve um tenso momento de silncio.
- Um homem precisa de ser amado, Anna - suspirou, cansado.
- Mas ns amvamo-nos, no  verdade? A princpio?
- Amvamo-nos. No sei o que se passou. Tu mudaste.
- Eu mudei? - retorquiu ela, severamente. - Eu mudei? Suponho ento que a culpa seja minha. Fui eu que te lancei para os braos dela, no  verdade?
- No estou a dizer isso.
- Ento o que ests a dizer? Tambm mudaste, sabes?
- Anna, no estou a dizer que a culpa seja tua. A culpa  de ambos. No me quero desculpar. Tu  que quiseste saber.
- Quero saber porqu.
- Mas eu no sei porqu. Apaixonei-me por ela. H anos que deixaste de reagir em relao a mim, o que esperavas?
- Suponho que me vais dizer que se trata de uma espcie de costume argentino doentio, isso de os maridos arranjarem amantes quando se fartam das mulheres.
- Anna...
- Bom, ento  a tua famlia. Est-vos no sangue - disse em tom de desprezo.
- De que ests a falar? - replicou ele, lentamente. Soledad reparou na mudana do tom de voz: descera uma nota.
- O teu pai e a sua... amante. - Ia dizer prostituta, mas o instinto avisou-a de que poderia estar a ir longe de mais.
- No metas o meu pai no assunto. Isto  entre ns, no tem nada a ver com o meu pai. - Paco estava surpreendido, sem saber at que ponto ela conhecia a histria.
- S espero que no ensines o Rafael e o Agustin a fazerem o mesmo. No os quero a partir coraes, tal como tu.
- No consigo falar contigo quando ests assim - disse ele, exasperado.
153
Soledad ouviu-o encaminhar-se para a sada e, voltando-se rapidamente, atravessou o hall a toda a pressa. Mas ele saiu da sala, batendo com a porta, antes de ela
ter tempo de desaparecer.
- Soledad - disse ele, severamente. Corando, ela baixou a cabea e voltou-se.  o fim, pensou. Porque fui to estpida? Mand-la-ia fazer as malas e ir-se embora.
Ela fungou aflitivamente. - Traz aqui a Sofia - ordenou. Soledad aproximou-se, arrastando os ps, sem coragem para erguer os olhos.
- Minha querida Sofia - disse ele numa voz suave e doce, beijando a testa quente da filha. A menina, mesmo a dormir, pareceu responder ao toque do pai. - Gostas
de mim, no  verdade? E eu gosto de ti, nem sabes quanto - murmurou.
Soledad reparou que o rosto dele se transformara numa expresso de ternura; tambm reparou no brilho dos seus olhos. Ficou ali enquanto ele acariciava o rosto da
filha, sentindo-se pouco  vontade,  espera da repreenso. Mas ele no lha deu. Acariciou a face de Sofia e depois pegou no casaco e dirigiu-se  porta.
- Vai sair? - ouviu-se a perguntar, desejando imediatamente no o ter feito; no era da sua conta.
Paco voltou-se para ela e acenou gravemente.
- No venho jantar e... Soledad?
- S, Seor Paco.
- Aquilo que ouviste esta noite no deve ser mencionado a ningum.
- S, Seor Paco - replicou, corando com ar solene e culpado.
- Ainda bem - disse ele, fechando silenciosamente a porta atrs de si.
Soledad olhou para a porta da sala antes de seguir para a cozinha e depois para os seus aposentos. Sabia que no deveria ter escutado  porta, mas assim que recuperou
do choque comeou a reconstituir toda a conversa. Ento, o Seor Paco tinha um caso, disse para consigo. No se surpreendeu. A maior parte dos homens arranjava de
vez em quando uma amante, e, tambm, porque no? Contudo, aquilo no parecia ser sobre gratificao sexual, mas sim amor. Se o Seor Paco tinha deixado de amar a
Seora Anna, ento o caso era srio. Sentiu muita pena da patroa. Sentiu pena dos dois.
154
Anna deixou-se ficar na sala, estirada numa cadeira, demasiado cansada e triste para se mexer. Gostaria de saber o que haveria de fazer a seguir. Paco admitira ter
um caso e no sugerira que ia deixar de ver a outra mulher. Anna ouvira-o sair. Ia a correr para ela, quem quer que fosse. No queria saber. No confiava em si prpria.
Seria perfeitamente capaz de ir apunhal-la num ataque de fria e desespero. Lembrou-se da tia Dorothy. Tratava-se provavelmente da penitncia por ter recusado Sean
O'Mara. Talvez a tia tivesse tido sempre razo, talvez ela tivesse sido mais feliz se tivesse casado com ele e nunca tivesse sado de Glengariff.
As semanas passaram-se numa triste angstia. Paco e Anna no voltaram a falar do assunto e nada parecia ter mudado, apenas a gua gelara e a comunicao cessara
completamente entre ambos. Anna via com amargura a relao de Paco com Sofia. Todas as carcias a feriam; parecia que a filha era a outra mulher da vida dele. Passava
mais tempo com a menina do que com a mulher e envolvia-a com o amor que fora de Anna, deixando esta completamente de fora. Anna passava o tempo com os filhos, absorvendo
o afecto deles como uma planta no deserto. Era-lhe difcil amar Sofia, que estava ligada a Paco e  sua tristeza. A menina choramingava agora sempre que estava ao
colo da me, como se sentisse a sua m vontade, enquanto adorava o abrao do pai, sorrindo audaciosamente como que a dizer: Gosto dele, mas no de ti. Anna no
conseguia olhar para eles sem se sentir magoada.
Anna pensou que nunca fora to infeliz. No princpio do ano, o pai mandara-lhe um telegrama a dizer que a me tinha morrido. Quando ele chegara  sua porta, tentara
encontrar o amor da me no abrao do pai, mas tambm este fora engolido pela pequena feiticeira em que Sofia se transformara. Eram estranhos. O lao que selara o
seu amor com o pai fora quebrado por anos de afastamento.
Tinha mais saudades da me do que do pai, que via passear-se pela fazenda como um co perdido. Recordava-se do riso suave de Emer e da luz dos seus olhos suaves.
Recordava-se do cheiro a sabonete de alfazema que a envolvia como uma nuvem etrea e, no seu esprito, a me erguia-se num pedestal onde nunca a colocara en-
155
quanto viva. No se recordava da mulher cujo rosto triste se dissolvera num rio de lgrimas, naquela tarde de Outono quando se tinham abraado pela ltima vez. A
me de que agora necessitava era a mulher que lhe secava as lgrimas quando os primos implicavam com ela em Glengariff, a me que teria feito parar o mundo para
devolver o sorriso ao rosto da filha. Faltava-lhe o seu amor incondicional. Como adulta, o amor tornara-se muito difcil de conservar.
Anna permitiu que Soledad se afirmasse mais na infncia da pequena Sofia. Os rapazes tinham agora sete e cinco anos, estavam na escola, e ela encontrava-se com mais
tempo livre. Precisava de mais tempo para si. De qualquer forma, pensava, a Sofia  perfeitamente feliz com a Soledad. Anna comeou a pintar e arranjou um pequeno
estdio numa das divises vazias do apartamento de Buenos Aires. Percebia que no era grande coisa, mas era uma distraco da sua vida domstica e permitia-lhe passar
algum tempo sozinha sem que lhe fizessem perguntas. Paco nunca entrava no estdio. Era o seu santurio, um local a que podia chamar seu, um local onde se podia esconder.
Paco ficara profundamente ofendido que a mulher achasse necessrio mencionar o caso do pai com Clara Mendoza. No se surpreendeu por ela ter conhecimento, pois nessa
altura muitas pessoas sabiam, mas espantou-o que tivesse descido a usar a histria como arma contra si. Vigiava-a cautelosamente, perguntando a si prprio se a sua
histria de amor, havia tantos anos em Londres, teria realmente acontecido. Era como se se tivesse apaixonado por uma doce jovem e trazido por engano para a Argentina
uma rapariga muito amarga. Imaginava a Ana Melodia das suas recordaes tristemente sentada ao lado da fonte em Trafalgar Square e interrogava-se se ela ainda ali
estaria. O seu corao sofria por ela. Ainda a amava.
Um dia, a meio da Primavera, Anna caminhava pela plancie com Agustin. Estava muito calor e as flores silvestres tinham comeado a brotar e a colorir a pampa. Para
seu encanto, encontraram duas pequenas viscachas farejando-se ao sol, o plo castanho cintilante  luz. Anna sentou-se na erva comprida e puxou para o colo o filho
de cinco anos.
- Olha, querido - disse em ingls. - Ests a ver os coelhos?
156
- Esto a dar beijinhos - disse o menino.
- Temos de estar muito calados e quietinhos, seno eles assustam-se e vo-se embora.
Ficaram ali sentados a ver os animais brincalhes a saltar e a correr, olhando de vez em quando  sua volta, como se percebessem que estavam a ser observados.
- J no ds beijinhos ao pai - disse de repente Agustin. -J no gostas dele?
Anna ficou espantada com a pergunta e perturbada pelo tom ansioso da voz do filho.
- Claro que dou - replicou em tom exagerado.
- Esto sempre a discutir e a gritar os dois. No gosto - choramingou.
- Olha, assustaste os coelhinhos - disse Anna, tentando distrair o filho.
- No me importo. J no quero ver os coelhos! - gritou. Anna abraou-o, tentando tranquiliz-lo.
- Eu e o pai discutimos s vezes como tu e o Rafael ou como tu e o Sebastian. Lembras-te daquela discusso que tiveste com o Sebastian? - A criana acenou lentamente
com a cabea.
- Ento,  s uma pequena zanga.
- Mas eu e o Sebastian j somos amigos. Tu e o pai ainda se zangam.
- Vais ver que vamos fazer as pazes, prometo. Agora, limpa essas lgrimas e vamos tentar ver um armadilh para dizermos ao av - disse ela, limpando suavemente as
lgrimas do filho com a manga da blusa.
Enquanto voltavam para casa, resolveu que no podia continuar a viver assim. Era insuportvel para si, era insuportvel para a famlia. No era justo que a infelicidade
de ambos se infiltrasse nas crianas. Olhou para o rosto agora sorridente de Agustin e percebeu que no o poderia desiludir.
Ao aproximar-se de casa, Soledad apareceu a correr, com o rosto molhado de lgrimas. Oh, meu Deus, pensou Anna agarrando com fora a mo de Agustin. Que no tenha
sido nada com o Rafael, por favor, com o Rafael, no.
157
- Que se passa? - perguntou em voz rouca, enquanto a criada se aproximava, plida de angstia.
- A Seora Maria Elena! - disse Soledad, sufocada. Anna rebentou em lgrimas de alvio.
- O que aconteceu? - soluou.
- Est morta. A Seora Maria Elena morreu.
- Morreu? Meu Deus! Onde est o meu marido? Onde est o Paco? - perguntou.
- Em casa do Seor Miguel, seora.
Anna entregou Agustin a Soledad e correu pelas rvores para casa de Miguel e Chiquita. Ao entrar, encontrou toda a famlia na sala. Procurou Paco com os olhos, por
entre todos eles. Mas no o conseguiu ver. Chiquita viu-a e apressou-se a ir ter com ela. Tinha o rosto inchado de chorar.
- Onde est o Paco? - perguntou Anna em voz rouca.
- No terrao com o Miguel - replicou, apontando para as enormes janelas.
Anna passou pelos parentes que agora no lhe pareciam mais do que manchas, at chegar s portas do terrao. Espreitou pelos vidros e viu Paco a conversar com Miguel.
Estava de costas para ela, de modo que no a viu aproximar-se. Miguel recebeu-a com tristeza antes de, cheio de tacto, se retirar. Paco voltou-se e viu o rosto da
mulher a olhar tristemente para ele.
- Oh, Paco, lamento muito - disse ela, sentindo as lgrimas correrem-lhe pelas faces. Ele olhou-a friamente. - Como foi que aconteceu?
- Um acidente de automvel enquanto vinha para c. Um camio bateu nela - replicou ele, simplesmente.
- No pode ser. Pobre Hector, onde est ele?
- No hospital.
- Deve estar arrasado.
- Est. Estamos todos - disse ele, desviando os olhos.
- Paco, por favor.
- Que queres que eu faa? - perguntou, impvido. Anna engoliu um soluo.
- Que me deixes ajudar - pediu.
158
- Porqu?
- Porque te quero consolar.
- Queres consolar-me? - repetiu ele, como se no acreditasse.
- Sim, sei como te deves sentir.
- No sabes como eu me sinto - replicou com desprezo.
- s tu quem tem um caso. Estou disposta a ultrapassar isso. A esquecer. A recomear.
Paco olhou para ela e franziu a testa.
- Porque a minha me morreu? - perguntou.
- No. Porque ainda gosto de ti - replicou ansiosa, com os olhos brilhantes.
- Pois eu no estou disposto a esquecer o que disseste sobre o meu pai - retorquiu ele, zangado.
Ela olhou-o, espantada.
- O teu pai? O que disse eu sobre o teu pai? Adoro o Hector.
- Como podes descer to baixo e lanares-me  cara que o caso dele  uma espcie de tradio familiar? - perguntou com amargura.
- Oh, Paco. S disse isso para te magoar.
- Pois olha que conseguiste. J ests contente?
- O Agustin perguntou-me porque  que eu j no gostava de ti - disse ela em voz baixa. - A sua carinha estava plida de medo. No sabia o que lhe dizer. Depois
pensei no assunto. Ainda gosto de ti. S me esqueci de te amar.
Paco fixou-lhe os lquidos olhos azuis que brilhavam de autoco-miserao e sentiu o corao enternecer-se.
- Tambm me esqueci de te amar - disse. - E no me orgulho disso.
- No podemos tentar reparar os estragos? No desapareceu tudo, pois no? No poderamos passear de novo por aquelas maravilhosas ruas de Londres e recapturar a
sua magia? No poderemos recordar? - perguntou ela e tremeram-lhe os lbios plidos.
- Desculpa, Anna - disse ele, abanando a cabea. - Desculpa se te magoei.
- E eu tambm peo desculpa por te ter magoado - retorquiu, com um fraco sorriso e lanando-lhe um olhar solcito.
159
- Vem c, Ana Melodia. Tens razo, preciso mesmo do teu consolo - disse ele, puxando-a lentamente para os seus braos.
- Acabou? - perguntou, algum tempo depois. - Podemos tentar de novo?
- Morreu - disse-lhe ele, e beijou-lhe a testa com uma ternura que ela no esperara voltar a sentir. - Nunca deixei de te amar, Ana Melodia. S te perdi e mais nada.
Maria Elena foi enterrada no tmulo da famlia depois de um triste e comovente servio religioso na Igreja de Nuestra Seora de la Asuncin. Fora amada por todos.
No havia mesmo lugares que chegassem dentro da igreja para instalar a enorme multido que quisera apresentar os seus respeitos, por isso as pessoas da cidade tiveram
de se espalhar pela praa. Felizmente, estava calor e o Sol brilhava ousadamente como se ningum lhe tivesse dito que Maria Elena falecera.
Anna viu que as mos de Paco tremiam ao fazer a leitura e apercebeu-se de que estava de novo a chorar. Agradeceu a Deus o ter tornado possvel voltarem a amar-se.
Poisou os olhos nas imagens ao lado do altar e sentiu que estas a consolavam. Se eu estiver profundamente infeliz, pensou, procurarei consolo nesta igreja e no
bom Deus. Quando foi a vez de Miguel ler, Anna viu Chiquita murchar como uma flor. Fora um choque terrvel para todos, mas ningum sofrera mais do que Hector. Pareceu
envelhecer numa questo de horas e desfazer-se literalmente diante dos olhos de todos. Estava inconsolvel. A fora abandonara-o. O desgosto corroeu-lhe a vida como
uma cascata de dor, destruindo-lhe o sistema nervoso e o desfiladeiro em que o seu corao partido se tinha transformado. Morreu um ano depois.
Nos anos que se seguiram, a vida de Anna e Paco voltou ao normal. Viram crescer os filhos e encantaram-se com eles como  prprio dos pais. Falavam de novo um com
o outro, mas nunca encontraram Londres na Argentina que construram juntos. Paco deixou a amante, Anna tentou ser uma boa esposa, mas as razes dos seus problemas
mantiveram-se, embora a rvore parecesse mais forte.

CAPTULO DOZE
Santa Catalina, 1973
Era tarde quando Sofia se esgueirou para o quarto do av. O luar salpicava a escurido com uma luz azulada quando ela se deteve aos ps da cama e ficou a olhar para
ele. Dermot ressonava ruidosamente, mas, para Sofia, havia algo de reconfortante naquele barulho. Recordava-lhe a sua infncia, fazendo-a sentir-se amada e em segurana.
Sentia o cheiro dos restos do fumo doce do tabaco do seu cachimbo embebido nas cortinas e nos mveis depois de muitas fumaas. A janela estava aberta e o vento acompanhava
o rtmico subir e descer da sua respirao.
Sofia no queria acord-lo, mas queria que ele acordasse. Sabia que no devia estar naquele quarto a meio da noite; a me no aprovaria, se descobrisse. Nesse dia,
Anna fora horrvel para Sofia. No gostava quando o seu pai fazia tudo o que ela queria. Acusara Dermot de a estragar com mimos e fizera tudo para o contradizer.
Mas o av O'Dwyer prometera-lhe um cinto de couro com fivela de prata e as suas iniciais gravadas. Anna dissera que ele desperdiava o dinheiro e que Sofia no o
saberia apreciar. Que a filha nunca tomava conta das coisas dela. Que as atirava para o cho e esperava que Sole-dad as apanhasse e arrumasse.
Se ele lhe queria comprar alguma coisa, que fosse uma coisa sensata, como literatura ou msicas para o piano. Paco herdara o piano da me; Sofia mal o usava. J
era tempo de aquela rapariga se dedicar a alguma coisa, de acabar alguma coisa. No se concentrava; comea-
161
va projectos para logo perder o interesse neles. Sim, resolvera Anna, estudar piano seria muito melhor do que passar o tempo todo naquela rvore ridcula. Todas
as raparigas da sua classe deviam pintar e tocar, ler boa literatura inglesa e saber como governar uma casa e no passar todo o dia a montar a cavalo e a subir s
rvores.
- Encoraje-a a fazer qualquer coisa sensata, paizinho - sugeriu. Mas o av O'Dwyer queria comprar o cinto a Sofia, tal como tinha prometido.
Era por isso que Sofia estava no quarto dele. Queria dizer-lhe que iria adorar aquele cinto e tomar conta dele, porque o adorava e porque o cinto lhe faria sempre
recordar o seu querido av. A me nunca compreendera a sua preferncia pelo av, mas Sofia e Dermot nutriam um pelo outro uma profunda afeio, que os unia num lao
indescritvel.
Sofia arrastou os ps, pouco  vontade. Tossiu, arrastou outra vez os ps. Por fim, Dermot, voltou o corpo enorme e ficou de costas. Semicerrou os olhos, pensando
que Sofia era um gnomo ou um vampiro e ergueu a mo, assustado.
- Sou eu, av... a Sofia - murmurou.
- Jesus, Maria, Jos! Menina, o que fazes tu aqui aos ps da minha cama? s o meu anjo protector a vigiar-me enquanto durmo?
- Acho que assustaste o teu anjo protector com os teus roncos - disse Sofia e riu-se em surdina.
- Que ests a fazer, Sofia Melody?
- Quero falar contigo - disse ela, e arrastou de novo os ps.
- Ento no fiques a, menina. Sabes que o cho est cheio de crocodilos que te vo comer os ps. Mete-te na cama.
Sofia meteu-se na cama com o av - coisa que a me reprovaria completamente. Aos dezassete anos, no devia meter-se na cama com um velho. Ficaram deitados lado a
lado como um par de esttuas num tmulo. Ela sentiu o corpo do av junto ao seu e sentiu-se invadida pelo afecto que sentia por ele.
- De que queres falar, Sofia Melody? - perguntou.
- Porque me chamas sempre isso?
- Sabes, a tua av chamava-se Emer Melody. Quando a tua me nasceu, eu queria pr-lhe o nome de Melody, mas a tua av nem quis
162
ouvir falar era tal. Sabia ser teimosa quando queria. Por isso chammos-lhe Anna Melody O'Dwyer. Melody como segundo nome.
- Como Maria Elena Solanas.
- Exactamente, como Maria Elena Solanas, que descanse em paz.
- Mas o meu segundo nome  Emer, no Melody.
- Para mim, sers sempre Sofia Melody.
- Gosto.
- Tens de gostar.  assim que .
- Av?
- Sim?
- Sabes, o tal cinto?
- Sei.
- A minha me diz que eu no teria cuidado com ele, mas no  assim. Prometo que terei todo o cuidado.
- A tua me nem sempre tem razo. Sei que ters cuidado com
ele.
- Ento ds-mo?
Ele apertou-lhe a mo e soltou uma pequena gargalhada sibilante.
- Dou-to, sim, Sofia Melody.
Ficaram ali a olhar para as sombras que danavam no tecto, enquanto o vento frio do Inverno entrava pelas cortinas e saltava sobre os seus rostos quentes com pezinhos
gelados.
- Av?
- O que  agora?
- Quero o cinto por razes sentimentais - disse ela, timidamente.
- Com que ento por razes sentimentais?
- Porque te amo, av - nunca antes o dissera a ningum. Ele ficou em silncio por uns momentos. Ela pestanejou na escurido, interrogando-se como reagiria o av
quela sbita exploso.
- Tambm te amo, Sofia Melody. O mais que  possvel. Agora  melhor ires dormir - disse em voz baixa, com a voz trmula a meio da frase. Sofia era a nica pessoa
capaz de embalar o seu velho corao sentimental.
- Posso ficar?
163
- Desde que a tua me no te encontre - murmurou.
- Oh, eu levanto-me muito antes dela.
Sofia acordou com frio. Percorria-a um arrepio desde a cabea at  ponta dos dedos dos ps. Chegou-se mais para o p do av para se aquecer. Levou um instante a
aperceber-se de que era ele que a fazia ter frio. Estava frio e rgido como um peixe morto. Ela sentou-se e olhou para o seu rosto barbudo. Tinha uma expresso de
alegria. Se no estivesse frio e rgido, pensaria que ele iria soltar uma das suas sibilantes gargalhadas. Mas as suas feies pareciam uma mscara; nada havia por
detrs delas e os seus olhos estavam abertos, fixando o vcuo.
Encostou o rosto ao dele e puxou-o para si. Lgrimas enormes saltaram-lhe dos olhos, correndo a fio do seu nariz para o dele, at que o corpo se lhe agitou em violentos
soluos. Nunca sentira uma tristeza assim. Ele partira. Mas para onde? Haveria um Cu? Estaria agora com Emer Melody num stio maravilhoso? Porque morrera? Era um
homem saudvel, cheio de vida. Ningum estivera mais vivo do que o seu av. Balanou-se para trs e para a frente embalando o enorme corpo de Dermot, at os maxilares
e o estmago lhe doerem de tanto chorar. O pnico invadiu-a quando tentou recordar-se das ltimas palavras que ele lhe tinha dito. O cinto, tinham falado do cinto.
Depois ela dissera-lhe que o amava. Gemeu ao recordar-se desse momento de ternura. Assim que comeou a gemer, foi incapaz de parar, at que os seus gemidos acordaram
toda a gente na casa. A princpio, Paco pensou que fosse um animal a ser morto junto  janela por um cruel co da pradaria. Mas depois reconheceu a voz da filha
sufocada, antes de soltar outro grito.
Enquanto os irmos, Rafael e Agustin, e a me e o pai corriam em seu auxlio, ela recordou-se das palavras do av: Desde que a tua me no descubra. Sempre fora
seu cmplice.
Tiveram de o arrancar dela. Depois agarrou-se ao pai. O choque de encontrar o av morto atingiu-a subitamente como a bofetada de uma mo gelada e comeou a tremer
descontroladamente. Anna deixou que as lgrimas lhe corressem livremente. Sentou-se na beira da cama e passou-lhe a mo fina pela testa. Retirando a cruz de ouro
que trazia ao pescoo, encostou-a aos lbios do pai.
164
- Deus o guarde e abenoe, meu pai, e lhe confira a entrada no Reino dos Cus. - Depois, olhando para a famlia, pediu para ficar algum tempo sozinha. Rafael e Agustin
saram arrastando os ps. Paco beijou a testa da filha antes de a levar suavemente consigo.
Anna Melody O'Dwyer levou aos lbios a mo sem vida do pai e beijou-a com tristeza. Encostando os lbios  palma da mo, chorou, no pelo corpo inerte que tinha
diante de si, mas pelo pai que conhecera enquanto crescia em Glengariff. Durante algum tempo, partilhara com a me o corao dele, mas isso fora antes de Sofia o
ter invadido, como um cuco, e a ter expulsado de l. Provavelmente, ele nunca lhe perdoara o ter sado da Irlanda para casar com Paco, havia tantos anos, ou, pelo
menos, por nunca mais ter regressado.
Ao perd-la, substitura-a pela neta no seu afecto, essa neta que parecia combinar tudo o que amara em Anna com tudo o que era adorvel em Sofia como ser humano
nico. Ela apercebera-se; primeiro, Paco e depois o pai; Sofia roubara-lhe os dois. Mas no perguntava a si prpria porqu, pois tinha medo da resposta. Receava
admitir que talvez Paco tivesse razo. Talvez ela tivesse mudado. De outro modo, como seria possvel ter conseguido afastar logo os dois homens de quem mais gostava
nesta vida?
Mas em vez de reflectir sobre si prpria, Anna olhava para o que restava do velho mal-humorado, procurando nas suas feies o pai que perdera, algures, anos atrs.
Agora era tarde de mais para o reclamar. Tarde de mais. Recordava-se de a me lhe dizer que as palavras mais tristes do dicionrio eram tarde de mais. Agora compreendia.
Se ao menos ele pudesse voltar a respirar, mostrar-lhe-ia o muito que o amava. Apesar dos anos que tinham corrodo os laos que os uniam, apesar da vida que tinha
causado mal-estar entre eles, amava o pai do fundo do corao, e, todavia, nunca lho dissera. Para ela, fora antes um incmodo, como um co rafeiro impossvel de
treinar, em nome de quem tinha constantemente de pedir desculpas. No entanto, ele fora uma alma atormentada, mais feliz por descer  loucura do que ter de enfrentar
a realidade da vida sem o caloroso amor da mulher. A sua loucura fora um anestsico que o adormecera contra a desolao cada vez mais profunda. Se ao menos tivesse
aproveitado o tempo para o tentar entender. Para entender a sua dor. Oh, meu
165
Deus, rezou, fechando os olhos com fora, deixando cair uma lgrima brilhante que ficara presa nas longas pestanas plidas, deixa-me dizer-lhe que o amo.
Para mostrar o muito que o amava, Anna tratou de que o pai fosse enterrado na plancie, entre os pneis e os pssaros, na erva do campo, debaixo de um retorcido
eucalipto. Antonio e os rapazes dos estbulos ajudaram a abrir a cova e o padre Julio gaguejou umas oraes e fez uma lgubre encomenda do corpo sob o cu escuro
de Inverno. Mas o seu gaguejar sempre divertira o av O'Dwyer, por isso, de certo modo, era apropriado.
Toda a famlia viera apresentar os seus psames. Murmuraram as suas oraes de cabea baixa e, com rostos tristes, viram o caixo baixar  cova. Quando acabaram
de lanar a ltima p de terra, as nuvens abriram-se e o sol surgiu, inundando as plancies do princpio do Vero com um estranho calor. Todos pareceram surpreendidos
e encantados. Anna benzeu-se e agradeceu a Deus por ter levado o pai para o Cu. Sofia viu a luz com o corao pesado e pensou que o mundo se tinha subitamente tornado
escuro. Sem o av O'Dwyer, at o sol parecia mais apagado.

CAPTULO TREZE
Universidade de Brown, 1973
Santi passou a mo pelo interior do vestido de Gergia e descobriu que ela usava meias. Tocou com os dedos na seda grossa e depois na pele suave e sedosa da coxa
da jovem. O seu corao acelerou de antecipao. Encostou a boca  dela e sentiu o doce sabor do mentol das pastilhas elsticas que tinham dividido entre os dois
depois de sarem da festa. Ficara impressionado pela ousadia dela. Faltava-lhe a inibio das jovens argentinas, bem-educadas, e havia nela uma rudeza que achava
atraente.
O beijo dela era vido. Parecia retirar um enorme prazer do corpo dele, forte e jovem, arranhando-lhe a pele com as compridas unhas vermelhas, lambendo o sal que
se misturava com o cheiro masculino. Gergia cheirava a perfume caro, e ele sentia-lhe o sabor do p-de-arroz na pele, quando lhe passava a lngua pelo corpo. Tinha
o ventre arredondado e gorducho. Quando tentou tirar-lhe o cinto de ligas, ela impediu-o calmamente, dizendo, na sua voz profunda de chocolate, que preferia fazer
amor com as meias caladas, comeando a despir as suas calcinhas de renda preta.
Ele abriu-lhe as pernas, que ela voluntariamente abriu ainda mais, e ajoelhou-se entre elas passando-lhe as mos pelas ancas e coxas. Era loura, loura natural como
Santi podia ver pelo tringulo de plos que lhe revelava os seus encantos.
Gergia observava-o com um olhar ousado, gozando a admirao com que ele a brindava. Nas duas horas seguintes mostrou-lhe
167
como se acariciava uma mulher, lenta e sensualmente, e deu-lhe mais prazer do que aquele que ele julgara possvel. As duas da manh, tivera os orgasmos suficientes
para se certificar de que Gergia era, de facto, uma fantasia do quarto de dormir; ela atingira-os tambm com a facilidade de uma mulher  vontade com o seu prprio
corpo.
- Gergia - disse ele -, tu no existes. Quero abraar-te toda a noite para ter a certeza de que amanh de manh ainda estars aqui.
Ela rira, acendera um cigarro e prometera-lhe que, durante o fim-de-semana, nada mais fariam seno amor.
- Lento, longo, apaixonado, aqui mesmo em Hope Street - dissera. Confessou-lhe que tambm gostava muito do sotaque dele e obrigou-o a falar em espanhol. - Diz que
me queres que me amas... vamos fingir - disse ela.
E ele disse-lhe: Te quiero, te necessito, te adoro.
Adormeceram quando se sentiram cansados, os corpos doridos de prazer. De vez em quando, as luzes de um ou outro carro banhavam-nos momentaneamente de ouro, expondo
os membros nus estendidos sobre os corpos um do outro.
Santi sonhou que se encontrava na aula de Histria Antiga do professor Schwartzbach com Sofia. Esta estava sentada com a sua enorme trana atada com uma fita vermelha.
Vestia calas de ganga e uma blusa lils que lhe realava o bronzeado. Estava linda, macia, morena e cintilante. Voltou-se para ele e pestanejou com os seus olhos
cor de mogno, fitando-o, caprichosos. Depois, transformou-se subitamente em Gergia, ali sentada, nua, sorrindo-lhe. Sentiu-se embaraado por ela estar nua diante
de toda a turma, mas ela no pareceu importar-se. Olhava-o, sonolenta. Ele desejava que Sofia voltasse, mas esta tinha desaparecido. Quando acordou, com Gergia
entre as suas pernas, olhou-a para se certificar de que se tratava de Gergia e no de Sofia. Descontraiu-se quando viu os sensuais olhos azuis a observarem-no.
- Querido, parece que viste um fantasma - disse ela a rir.
- Vi mesmo - replicou ele e permitiu abandonar-se  sensao da lngua dela executando nele a sua magia.
Santi passara os primeiros seis meses dos seus dois anos no estrangeiro a viajar extensivamente pelo mundo, com o seu amigo Joa-
168
quin Barnaba. Foram  Tailndia, onde visitaram o bairro da luz vermelha em busca de divertimento e prostitutas. Santi ficara assombrado e ao mesmo tempo fascinado
com as coisas que as mulheres conseguiam fazer com os seus corpos, coisas que ele no conseguiria inventar nos seus sonhos mais lbricos. Fumaram cannabis nas Terras
Altas de Cameron, na Malsia, e assistiram ao pr do Sol que transformava os montes em ouro. Viajaram at  China, onde caminharam pela Grande Muralha, admiraram
o Palcio da Suprema Harmonia, na Cidade Proibida, e descobriram, para desagrado seu, que, de facto, os Chineses comiam ces. Andaram de mochila s costas pela ndia,
onde Joaquin vomitou junto ao Taj Mahal antes de passar trs dias de cama com diarreia e desidratado. Montaram elefantes na ndia, camelos em frica e belos cavalos
brancos em Espanha.
Santi enviava postais ilustrados  famlia de cada local que visitava. Chiquita sentia-se desesperada por no o conseguir contactar. Durante seis meses inteiros,
esteve em stios em que no lhe conseguiam chegar, e movimentava-se quase todos os dias sem que ningum soubesse para onde ia. Todos ficaram aliviados quando, no
final do Inverno, receberam notcias de que estava em Rhode Island  procura de alojamento e inscrevendo-se no seu curso, que inclua as cadeiras de Gesto e Histria
Antiga.
Nos primeiros dias na Brown, Santi ficou num hotel. Porm, quando assistiu  primeira aula na faculdade, conheceu uns amveis americanos de Boston que procuravam
uma pessoa para dividir a casa em Bowen Street. No final da aula, dada por um velho professor com uma boca pequena, escondida por detrs de uma farta barba branca
e uma voz ainda mais pequena, que engolia o final das palavras, descobriram quase tudo o que havia para descobrir acerca uns dos outros, tendo-se j tornado bons
amigos.
Frank Stanford era baixo e forte, com ombros largos e msculos bem definidos, o tipo de jovem que compensava a sua falta de estatura exercitando-se num ginsio para
se assegurar que estava na melhor forma possvel, praticando infindveis jogos, tais como o tnis, o golfe e o plo, de modo a que as raparigas esquecessem a sua
estatura e o admirassem pelos seus feitos. Ficou imediatamente impressionado com Santi, no s porque este era argentino, facto que era imen-
169
smente elegante, mas porque jogava plo e ningum praticava este desporto melhor do que os Argentinos.
Frank e o amigo Stanley Norman, que preferia sentar-se num canto a fumar cannabis e a dedilhar a sua guitarra do que a agitar uma raquete de tnis ou um taco de
plo, convidou Santi para ir  Bowen Street ver a casa. Santi ficou impressionado. Era a tpica habitao da costa leste dos Estados Unidos, com janelas de guilhotina
e um alpendre imponente, numa rua ladeada por rvores frondosas e carros elegantes. O interior estava imaculadamente decorado com paredes recm-pintadas, moblia
de pinho e estofos brancos e azuis s riscas e quadrados.
- A minha me insistiu em fazer-me isto - disse Frank com naturalidade. -  uma daquelas mes superprotectoras. Como se eu me importasse. Olha para isto... devia
estar numa revista. Aposto que  a casa mais espaventosa da rua.
- No temos regras c em casa, pois no, Frank? - perguntou Stanley no seu sotaque rolado de Boston. - No nos importamos de ter c midas.
- Pois, no nos importamos, s exigimos que tragas as irms delas se forem giras. Percebes o que estou a dizer? - Frank piscou o olho a Stanley e deu uma gargalhada
de satisfao.
- Calculo que aqui sejam giras - disse Santi.
- Com o teu sotaque, amigo, no vais ter problemas. Vo adorar-te - garantiu Stanley.
No se enganava. Santi era perseguido pelas raparigas mais bonitas da universidade e no levou muito tempo a perceber que elas no estavam interessadas em casar-se,
mas apenas em ir para a cama com ele. Na Argentina era diferente. No podia andar a dormir com uma e outra; as mulheres exigiam mais respeito. Queriam ser cortejadas
e depois casarem-se. Mas, em Brown, Santi tratou-as como se colhesse morangos. Colocava algumas num cesto para mais tarde, de outras servia-se imediatamente. Em
Setembro e Outubro, passava os fins-de-semana com Frank e a famlia em Newport, onde jogavam tnis e plo. Santi tornou-se o heri dos irmos mais jovens de Frank,
que nunca tinham visto um verdadeiro jogador de plo argentino, e era adorado por Josephine Stanford, a me de Frank, que vira muitos jogadores de plo argentinos,
mas nenhum to bem-parecido.
SANTA MONTEFIORE
- Ento, Santi...  o diminutivo de Santiago, no  verdade? - perguntou Josephine entregando-lhe um copo de Coca-Cola e limpando o rosto numa toalha branca. Tinham
completado o terceiro set de tnis contra Frank e Maddy, a irm mais nova. Santi acenou afirmativamente. - O Frank disse-me que veio fazer um curso de um ano, no
?
-  verdade. Termino em Maio - respondeu, sentando-se numa das cadeiras de jardim e estendendo as longas pernas morenas diante de si. Os cales brancos acentuavam
a bonita cor de mel da sua pele e Josephine tentou evitar poisar os olhos nelas.
- Depois volta para a Argentina? - quis saber, tentando fazer perguntas do tipo maternal. Estava sentada diante de Santi e alisava a sua curta saia de tnis sobre
as coxas, com os dedos elegantes.
- No, vou viajar um pouco mais e regressarei a casa no final do ano.
- Oh, vai ser bom. Depois comea tudo de novo, em Buenos Aires - suspirou. - No percebo porque no faz toda a universidade aqui.
- No quero estar muito tempo longe da Argentina - afirmou Santi com ar srio. - Tenho saudades.
- Que bom -Josephine lanou-lhe um sorriso doce. - Aposto que tem por l uma namorada - riu-se e piscou-lhe o olho com ar coquete.
- No, no tenho - replicou ele, levando aos lbios o copo e esvaziando-o sequioso.
- Estou surpreendida consigo, Santi. Um rapaz to bem-parecido. Mas assim ainda  melhor para as minhas irms americanas, acho eu.
- O Santi  uma espcie de heri da universidade, me. No sei o que se passa com os homens latinos, mas as raparigas ficam loucas por eles - troou Frank. - Eu
fico com as sobras. As sobras da mesa do ricao.
- Tretas, Frank. No acredite nele, Mistress Stanford - disse Santi, envergonhado.
- Por favor, chame-me Josephine. Mistress Stanford faz-me sentir a directora de uma escola, coisa que eu nunca desejaria ser.
171
Deus me livre - limpou o rosto com a toalha. - Onde est a Maddy? Maddy!
- Estou aqui, me. Fui buscar qualquer coisa para beber. Queres alguma coisa, Santi?
- Outro copo de Coca-Cola, por favor. Obrigado.
Maddy tinha o cabelo escuro e era feia, tendo herdado as feies algo infelizes do pai em vez do cabelo grosso e arruivado da me, a sua pele dourada e rosto feiticeiro.
Maddy tinha um nariz grande, olhos pequenos e inchados, que lhe davam o ar de quem acaba de acordar, e a pele amarelada e borbulhenta de uma adolescente que come
fast-food e bebidas aucaradas. Josephine gostaria de ter encorajado Santi a sair com a filha, mas era sensata e sabia reconhecer que a sua Maddy no era bastante
bonita ou interessante para Santi. Oh, se eu tivesse menos vinte anos, pensou, levava-o l para cima e retirava-lhe todo aquele excesso de energia.
Santi examinava Josephine com olhos semicerrados, desejando que ela no fosse a me do seu melhor amigo. No lhe importava a idade que tivesse. Sabia que seria fantstica
na cama.
- Ento, Santi, que tal se apresentasse o meu Frank a uma bonita menina argentina? Tem irms, no  verdade? - perguntou Josephine cruzando as longas pernas.
- Tenho uma, mas, francamente, no  o tipo do Frank. No  suficientemente esperta para ele.
- E primas? Estou decidida a fazer parte da sua famlia, seja como for, Santi - e soltou uma gargalhada.
- Tenho uma prima chamada Sofia. Essa seria melhor.
- Como  ela?
- Espirituosa, difcil, mimada e joga plo melhor do que ele.
- Ora a est uma mida que eu gostaria de conhecer - disse Frank. - Que altura tem ela?
- Mais ou menos a tua. No  muito alta, mas tem carisma e encanto e consegue sempre aquilo que quer. Podes ter a certeza de que com ela ficarias muito ocupado -
respondeu, orgulhoso, evocando o rosto desafiador de Sofia e recordando-a com afecto.
- Que mida! Quando posso conhec-la?
- Vais ter de ir  Argentina. Ela est ainda na escola - disse-lhe Santi.
172
- Tens uma fotografia dela?
- Na Bowen Street, tenho.
- Pois bem, acho que a viagem vale a pena, s para a conhecer. Gosto do som... como disseste que ela se chamava?
- Sofia.
- Sofia. Gosto de como me soa. - Reflectiu uns instantes. -  fcil?
- Fcil?
- Iria para a cama comigo?
- Frank, meu querido, no digas essas coisas diante da tua me - cantarolou Josephine, abanando-se como que para limpar o ar de palavras malcheirosas.
- Iria ou no?
- No, no iria - replicou Santi, sentindo-se pouco  vontade por estar a falar de Sofia daquela maneira.
- Aposto que aceitava com um pouco de persuaso. Vocs, latinos, podem ter charme, mas ns somos persistentes. - Frank soltou uma gargalhada. Santi no gostou da
expresso de desafio no olhar do amigo e desejou no ter falado de Sofia.
- De facto, conheo uma rapariga que seria muito melhor para ti - disse ele, recuando aflito.
- Nada disso. Gosto muito daquilo que me disseste da Sofia - insistiu Frank.
Quando Maddy voltou com o outro copo de Coca-Cola, Santi sorveu a bebida entusiasmado. Sentiu-se subitamente muito protector da prima e perguntou a si prprio como
iria impedir Frank de se meter num avio para a ir conhecer. Era exactamente aquilo que Frank era capaz de fazer. Tinha dinheiro suficiente para ir onde quisesse
e era bastante ousado para tentar tudo.
Uma vez de volta  universidade, encontrou outra carta de Sofia na caixa do correio. Escrevia-lhe todas as semanas, conforme prometera.
- De quem ? - perguntou Stanley, curioso. - Recebes mais cartas que uma estao de correios. - Dedilhava na viola uma cano de Bob Dylan.
- Da minha prima.
173
- No ser da Sofia, pois no? - perguntou Frank, saindo da cozinha com pezinhos redondos e salmo fumado para o lanche.
- No sabia que tinhas voltado - disse Santi.
- Mas voltei. Queres? Esto ptimos - disse, mastigando o po.
- No, obrigado. Vou ler isto l para cima. As cartas da minha me costumam ser muito compridas.
- Pensei que tinhas dito que era da tua prima - disse Frank.
- Disse? Queria dizer da minha me. - Perguntou a si prprio porque estaria a mentir em relao a um assunto to trivial. Frank em breve esqueceria Sofia com tantas
raparigas que havia em Brown.
- Ei, o Jonathan Sackville vai dar uma festa esta noite. Querem ir? - perguntou Frank.
- Claro - respondeu Stanley.
- Claro - respondeu Santi, retirando-se para o hall.
Uma vez l em cima, na privacidade do seu quarto, leu a carta de Sofia.
Santi, meu primo querido e preferido
Obrigada pela tua ltima carta, embora no me tenha escapado que as tuas cartas so cada vez mais curtas. No est certo. Mereo mais. Afinal, as minhas so compridas
e tenho mais que fazer do que tu - lembra-te de que no tens uma me como a minha que te obriga a estudar todo o dia. Estou bem, acho eu. Ontem foi o aniversrio
do meu pai, por isso jantmos todos em casa do Miguel. Est tanto calor que nem imaginas. O Agustin bateu-me na semana passada. Tivemos uma discusso qualquer. Claro
que foi ele quem comeou, mas adivinha quem ficou com as culpas? Ento atirei com toda a roupa dele para a piscina, mesmo as botas de couro de que ele tanto gosta
e os tacos. Havias de ter rido se visses a cara dele. Tive de me esconder com a Maria porque pensei que me fosse matar. Tens saudades minhas, Santi? Olha, tenho
de ir, a minha me vem a subir as escadas e parece muito zangada. O que achas que fiz agora? Vou deixar-te a adivinhar e conto-te na prxima carta. Se no me escreveres
depressa, no te digo e sei que ests desejando saber.
Um grande beijo Sofia
Santi riu-se ao ler a carta. Quando a dobrou e guardou na gaveta com as outras cartas da prima e as dos pais e de Maria, sentiu uma
174
pontada de saudade. Mas esta durou apenas um segundo, antes de ser sufocada pela ideia da festa de Jonathan Sackville.
Jonathan Sackville vivia na Hope Street, a uns quarteires da Bo-wen Street e era famoso na universidade por dar as melhores festas, com as raparigas mais bonitas.
Santi no tinha grande vontade de ir, sentia-se invulgarmente em baixo, mas sabia que seria melhor do que ficar sentado a choramingar em cima das notcias que tinham
chegado de casa. Assim, tomou um duche e vestiu-se.
Quando Santi, Frank e Stanley chegaram a casa de Jonathan, este estava  porta, abraado a duas fantsticas ruivas e bebendo directamente de uma garrafa de vodca.
- Sejam bem-vindos, amigos. A festa est agora a comear - disse com a voz arrastada. - Entrem.
A casa era enorme e vibrava literalmente com a msica alta e os ps de cerca de cento e cinquenta pessoas. Tinham de se espremer no corredor para chegar ao stio
onde se encontravam as bebidas, depois de atravessarem uma multido to amontoada que mais parecia um cortio de abelhas, empurrando-se uns aos outros e gritando
por cima da msica.
- Eh, Joey! - exclamou Frank. - Santi, j conheces o Joey?
- Ol, Joey - disse simplesmente Santi.
- Ol, Joey, que tal? Onde est a bela Caroline? - perguntou Frank, olhando por cima do ombro do amigo,  procura da irm deste.
- Procura-a se te atreves, Frank. Ela anda por a.
- Vou entrar, amigos. No esperem por mim!
Santi viu Frank desaparecer na ondulante massa de corpos suados.
- Estou a ficar com dores de cabea. Vou para casa ouvir o Dylan e o Bowie - disse Stanley. Parecia sempre fora da realidade, mesmo quando no estava. - A vida no
tem de ser uma montanha-russa. Est aqui muito barulho... muito, muito barulho. Queres vir comigo?
- Sim, vamos - disse Santi, desejando nunca ter vindo. Fora uma completa perda de tempo.
Uma vez l fora, no ar fresco de Outubro, Santi conseguiu respirar de novo. A noite estava clara e estrelada, recordando-lhe aquelas noites abafadas em que olhavam
para o cu por baixo do ombu. Nunca sentira saudades de casa, porque surgira ento aquilo to de repente?
175
- Tambm te vais embora? - disse uma voz forte por detrs deles. Voltaram-se ambos.
- Vamos, sim. Queres vir connosco? - perguntou Stanley, vol-tando-se e apreciando o que via.
- No - respondeu ela, sorrindo para Santi.
- Eu conheo-te? - perguntou ele, observando-lhe as feies plidas  luz da rua.
- No. Mas eu conheo-te. J te tenho visto. s novo por c.
- Pois sou. - Santi ficou a pensar no que ela quereria. Envolvia-a um casaco curto vermelho e tinha as pernas magras meio escondidas por umas botas de cabedal brilhante
que lhe chegavam aos joelhos. Ela estremeceu e bateu com os ps.
- A festa est demasiado barulhenta para mim. Apetece-me ir para um stio quente e sossegado.
- Onde queres ir?
- Bom, eu ia para casa, mas no me apetece ficar sozinha. Queres vir fazer-me companhia? - perguntou e sorriu, desarmando-o.
- Parece-me que no sou includo no convite - disse Stanley com ar resignado. - At depois, Santi - e comeou a subir a rua.
- Como te chamas? - perguntou Santi.
- Gergia Miller. Estou no segundo ano. J te vi na universidade. s argentino, no  verdade?
- .
- Tens saudades da tua terra?
- Um pouco - replicou com franqueza.
- Bem me parecia. Pareceste-me um pouco melanclico ali dentro - passou-lhe a mo pelo brao. - Porque no vens at minha casa? Ajudo-te a esquecer a tua.
- Gostava muito, obrigado.
- No me agradeas, Santi. Tambm me ests a fazer um favor. Apeteceu-me ir para a cama contigo da primeira vez que te vi.
Uma vez  luz quente da casa de Gergia, Santi conseguiu v-la claramente. No era bonita, tinha o rosto comprido e os olhos azuis muito separados - contudo, era
sexy. Tinha os lbios assimtricos mas sensuais e, quando sorria, fazia-o com metade da boca. Fora abenoada com uma massa de grossos caracis louros que balana-
176
vam como uma cheerleader quando caminhava, e, quando despiu o casaco, Santi sentiu o baixo-ventre retesar-se  vista dos seios grandes, da cintura fina e das longas
pernas bem torneadas. Tinha corpo de actriz de cinema pornogrfico e sabia-o bem.
- Este corpo s me arranja sarilhos - suspirou, sentindo que ele a observava. - O que queres beber?
- Um usque.
- Ests assim to mal?
- Mal de qu?
- De saudades.
- No, nem por isso. Est tudo bem.
- Mas sente-las s vezes, quando menos esperas, no  verdade?
- Pois .
- Talvez uma carta, por vezes, um cheiro ou uma msica - disse ela, tristemente.
- Como sabes?
- Porque Santi, eu sou do Sul, no percebes?
- Do Sul? - perguntou ele, sem entender.
- Da Gergia.
- Claro. Mas acho que o teu sotaque parece igual ao de toda a gente.
- No faz mal, girao. Para mim, o teu sotaque  diferente do de toda a gente. De facto,  o sotaque mais interessante que j ouvi. Por isso, podes falar o tempo
que quiseres, que eu ouvir-te-ei encantada - soltou uma gargalhada gutural. - S quero que saibas que eu percebo o que sentes e no tens de fingir comigo. Tambm
estou nessa. Pronto, aqui tens o usque; vamos acender a lareira, pr msica e esquecer as nossas saudades de casa. Ests de acordo?
- Estou de acordo - disse Santi, vendo-a baixar-se para tratar dos troncos. - Esquece a lareira, Gergia da Gergia, vamos l para cima - disse ele, subitamente,
notando na parte arrendada das meias dela e na centelha negra das calcinhas revelada sob a minissaia. - S h uma maneira de nos esquecermos da nossa casa:  perdendo-nos
um no outro - acrescentou em voz rouca, acabando o usque que restava no copo.
- Pois ento vamos. Estou desejando perder-me em ti - replicou ela e, dando-lhe a mo, conduziu-o pelas escadas at ao quarto.

CAPTULO CATORZE
Santa Catalina, Dezembro de 1973
Chiquita mal dormira naquela noite hmida. Inquieta, dera voltas e voltas no quarto abafado, escutando o ressonar do marido, Miguel, que, enorme e peludo, estava
deitado a seu lado. Todavia, no se devia  humidade o facto de naquela noite o sono se ter transformado num luxo, nem sequer ao pesadelo que acordara Panchito e
fizera com que este aparecesse a chorar  sua cabeceira. Devia-se ao facto de o filho Santi estar de regresso a casa no dia seguinte, dois anos depois de ter partido
para ir estudar nos Estados Unidos.
Escrevera com frequncia. Ela aguardara ansiosamente as suas cartas semanais e lera-as com um misto de alegria e tristeza, pois tinha muitas saudades dele. Vira-o
apenas uma vez, durante as frias da Primavera, em Maro. Ele mostrara orgulhosamente aos pais a universidade, a sua casa na Bowen Street, onde morava com dois amigos,
e tinham ido  costa, a Newport, passar uns dias com um deles, Frank Stanford, e com a sua simptica famlia. Miguel ficara encantado por ele ter conseguido jogar
plo e por parecer praticar aparentemente este desporto quase todos os fins-de-semana. Tinha agora dezanove anos, quase vinte, e parecia mais adulto do que aquele
rapaz de quem ela se despedira numa noite hmida de Maro.
Chiquita e Anna passaram longas tardes sentadas no terrao, olhando ao longe, discutindo pormenorizadamente os filhos. Anna sofria muito com o comportamento agressivo
da filha. Esperara que, com o tempo, Sofia se acalmasse; mas, de facto, esta tornara-se ainda
178
pior. Era insolente e rebelde. Respondia e chegava a chamar nomes  me, com ataques de fria que pareciam surgir sem razo aparente.
Aos dezassete anos, era mais independente e desagradvel do que nunca. Tinha ms notas na escola e era a pior da turma em tudo, excepto quando escrevia textos magnficos,
porque podia expandir-se no mundo imaginrio dos seus sonhos. Os professores lamentavam a sua falta de concentrao e os esforos deliberados para perturbar o resto
da turma. Tambm no sabiam o que fazer com ela. Nos fins-de-semana, em Santa Catalina, desaparecia a cavalo e no regressava durante horas. Nem lhe passava pela
ideia dizer  me onde ia. Muitas vezes, voltava para casa depois do anoitecer, faltando de propsito ao jantar.
A ltima gota foi quando Anna descobriu que Sofia, em vez de ir para a escola, subornara o motorista para a levar a San Telmo, a parte antiga da cidade, onde passava
a maior parte da semana a aprender a danar o tango com um velho marinheiro espanhol, chamado Jesus. Anna nunca o descobriria se a directora da escola no tivesse
telefonado a desejar as rpidas melhoras da febre glandular que Sofia contrara.
Quando confrontou a filha, esta disse-lhe simplesmente que estava farta da escola e queria ser danarina. Paco rira-se e elogiara-lhe a iniciativa. Anna ficara furiosa.
Mas Sofia estava to habituada s frias da me, que estas j no a incomodavam. Anna teria de pensar noutra forma de a controlar. No ajudava nada o facto de ser
bonita e encantadora, pois eram estas qualidades que lhe permitiam levar avante tudo. Chiquita tentava explicar delicadamente  cunhada que Sofia se parecia com
a me. Mas Anna abanava a cabeleira ruiva e no queria ouvir falar do assunto.
-  encantadora de mais para o seu prprio bem. Enreda toda a gente... principalmente, o pai. Ele no faz nada para me apoiar. Sou a nica que ralha com ela. Se
eu no tiver cuidado, vai acabar por me odiar - disse Anna com um pesado suspiro.
- Talvez se lhe desses mais rdea, mais liberdade, ela no tentasse contrariar-te tanto - sugeriu Chiquita, procurando ser compreensiva.
179
- Oh, Chiquita, pareces o meu pai. - Porque seria, perguntava a si prpria, que aquela famlia tinha de relacionar tudo com os cavalos!
- Ele era muito sensato.
- Por vezes. Na maior parte do tempo, era simplesmente irritante.
- Sentes a falta dele, no  verdade? - aventurou-se Chiquita. Nunca falava com a cunhada acerca dos pais desta. Anna no se sentia  vontade para falar da Irlanda.
- At certo ponto. Sinto falta, no do pai que veio ter comigo  Argentina, mas daquele com quem cresci em Glengariff. A nossa relao mudou, no sei porqu. - Baixou
os olhos.
Chiquita observou-lhe o rosto  luz quente da tarde e pensou que a cunhada, incrivelmente bela, se tinha transformado numa mulher amarga.
- Tambm sinto a falta dele - disse.
- Em parte, foi graas a ele que a Sofia ficou to mimada. Eu nunca a mimei. Mas nem o Paco nem o meu pai conseguiram ultrapassar o encanto dela.
- O encanto Solanas!
- O maldito encanto Solanas! - repetiu Anna e depois comeou a rir. - A minha me tambm era encantadora. Toda a gente a adorava. Pobre tia Dorothy, que era gorda
e feia... a minha me herdou toda a beleza. A tia Dorothy nunca se casou.
- O que lhe aconteceu? - perguntou Chiquita.
- No sei. Tenho at vergonha de dizer que perdi o contacto com ela.
- Oh...
- Sei que no foi bonito da minha parte, mas ela estava l to longe... - a voz esmoreceu-lhe. Sentiu remorsos, nem sequer sabia se a tia estava viva ou morta. Deveria
ter tentado contact-la na altura da morte do av O'Dwyer, mas no conseguiu ter coragem para o fazer. Era melhor que a tia no soubesse. Quem no sabe das desgraas,
no sofre com elas, pensou, pondo de lado o assunto.
Chiquita gostaria de lhe fazer perguntas sobre os seus outros tios e tias, pois, pelas histrias do av O'Dwyer, sabia que a famlia era muito grande. Mas no se
atreveu. Preferiu voltar a falar de Sofia.
180
- Tenho a certeza de que a Sofia vai mudar o comportamento.  apenas a fase da adolescncia.
- No tenho tanta certeza. - Anna no podia admitir a ningum, mas via mais de si prpria na filha do que queria admitir. - Sabes, Chiquita, o que mais me preocupa
na Sofia  que se eu lhe der mais rdeas, como sugeres, ela pode tornar-se numa autntica selvagem. E eu no quero que a famlia diga que fui eu que a criei assim.
Chiquita riu, compreensiva; era incapaz de pensar mal de algum.
- Anna, toda a gente adora a Sofia, ela  um esprito livre. O meu Santi e a Maria adoram-na, todos lhe perdoam tudo. S aos teus olhos  que ela se porta mal; aos
olhos dos outros, no faz mal a ningum. E, afinal, o que interessa o que pensam as outras pessoas?
- A mim interessa-me muito. Sabes como so. No h nada que as pessoas mais gostem do que da maledicncia.
- Algumas pessoas, sim, mas essas no interessam - disse Chiquita, olhando para a cunhada. Depois de tantos anos, Anna ainda no se sentia integrada, ainda se sentia
inferior, e era por isso que se preocupava tanto com o que as outras pessoas pensavam a respeito dos filhos. Queria desesperadamente ter orgulho neles. Os seus xitos
reflectiam-se nela, os seus fracassos tambm. Sentia-se obrigada a provar a toda a hora o seu prprio valor. Nunca se descontraa.
Chiquita queria dizer-lhe que no tinha importncia. Que a classe social no tinha a mnima importncia. Todos gostavam de Anna; fazia parte da famlia. Gostavam
dela tal como era; as suas inseguranas faziam parte dela, parte da razo pela qual todos gostavam dela. A princpio, quando chegara a Santa Catalina, havia tantos
anos, tinham-na visto como uma interesseira que quisera casar com Paco pela sua riqueza e posio. No se adaptava. Mas assim que ganhara confiana, a gazela tmida
transformara-se num tigre orgulhoso e conseguira o respeito de todos.
Chiquita desejava dizer a Anna que Sofia era rebelde porque a me preferia os filhos homens. Era bvio que vivia para Rafael e Agustin. Se o comportamento deles
fosse to indisciplinado como o de Sofia, Anna ter-se-ia orgulhado da extravagncia do seu carcter, em vez de os tentar submeter pela disciplina. Teria ficado encantada
por ver reflectido neles o seu prprio desafio e t-los-ia encorajado
181
com amor. Mas, pelo contrrio, tinha cimes do lugar que a filha tomara na famlia. Tinha cimes da marcante presena de Sofia. Amada ou odiada, ningum poderia
dizer que era indiferente. Mas Chiquita j antes tentara, e os seus comentrios apenas haviam servido para chamar mais a ateno de Anna para a sua falta de adaptao.
Aprendera a no se referir ao assunto.
- De qualquer forma - suspirou Anna, para alvio de Chiquita -, basta de falar da Sofia que j deve ter as orelhas a arder e isso no  bom para ela. Agora, o Rafael
e o Agustin so pessoas completamente diferentes. Acho que o Rafael anda a namorar disfaradamente a Jasmina Pena... sabes, a filha do Ignacio Pena. Seria um bom
casamento - disse Anna, respirando fundo com ar importante. - Ele pensa que eu no sei, mas oio-o muitas vezes ao telefone. Claro que no lhe digo nada, ele h-de
confessar-se, a seu devido tempo. Conta-me tudo, no  como a irm, que mais parece um ladro no escuro... - apercebeu-se de que estava a trazer de novo a conversa
para Sofia. - Deves estar muito emocionada por o Santiago voltar para casa - disse, reprimindo a necessidade que tinha de continuar a queixar-se de Sofia. - Nem
imagino como conseguiram passar o Natal sem ele.
Chiquita abanou melancolicamente a cabea.
- Foi terrvel. Claro que tentei no o mostrar por causa dos outros, mas tu, provavelmente, reparaste. No foi a mesma coisa. Adoro quando estamos todos juntos.
De qualquer modo, ele queria ir  Tailndia e viajar. Andou por todo o lado. Acho que no houve um continente onde no tenha estado, no ltimo ano e meio. Foi uma
experincia maravilhosa. Acho que vais notar nele uma grande mudana. J  um homem feito - contou ela, orgulhosa, recordando as frias da Primavera em que se apercebeu
de que a criana que o filho fora tinha desaparecido para sempre. Tinha a voz baixa e grave, a barba cerrada no queixo, os olhos mais fundos devido  experincia,
e o fsico forte e entroncado como o do pai. Reparou tambm que mal se notava que coxeava. - Nem acredito que vai voltar para casa - suspirou satisfeita.
Santi era esperado a meio de Dezembro, a tempo para as longas frias de Vero, que duravam de Dezembro a Maro, depois das
182
quais comearia um curso de cinco anos na Universidade de Buenos Aires. Faltara a um Natal, mas Chiquita estava decidida a que no faltasse a outro. Contara silenciosamente
os dias e, embora quisesse continuar com a vida normal, no podia deixar de viver para esse dia.
Na manh de sbado, 12 de Dezembro, quase sem ter dormido na noite anterior, levantou-se com o corao feliz. Ao abrir as cortinas, o sol pareceu-lhe de certo modo
mais radioso do que o normal e as flores mais delicadas. Tratou de voltar ao quarto de Santi para pr uma jarra de flores frescas sobre a mesa-de-cabeceira. A prpria
casa parecia cheia de entusiasmo. Panchito corria freneticamente pelo rancho com os priminhos e os filhos das criadas e dos gachos que viviam na fazenda. Fernando
desapareceu a cavalo, aguardando o regresso do irmo com um misto de emoes, com as antigas sensaes de cime e ressentimento surgindo de novo, aps um longo sono.
Miguel sara muito cedo de jipe para o aeroporto, deixando a mulher desesperada de impacincia a tratar do almoo. Maria, sem se querer meter no caminho da me,
correu para casa de Sofia logo que acabou o pequeno-almoo.
Encontrou a prima sentada no terrao com a famlia, todos eles rodeados de chvenas de ch, medias lunas e buuelos.
- Hola, Maria, qu haces? - gritou Sofia, quando viu Maria aproximar-se.
- Buen dia, Anna, Paco... - disse Maria, satisfeita, inclinando-se para beijar os tios.
- A tua me deve estar muito entusiasmada - disse Anna, sabendo como se sentiria se se tratasse de Rafael ou de Agustin que regressassem a casa.
- Ora, nem podem imaginar. No conseguiu pregar olho esta noite. J entrou no quarto dele mais de uma dzia de vezes, para ter a certeza de que est tudo em ordem.
- O Santi nem vai reparar - disse Agustin, untando uma media luna com manteiga e molhando-a no ch.
- Claro que vai, vai reparar em tudo - respondeu Anna, entusiasmada. Maria puxou uma cadeira enquanto Soledad vinha da cozinha com outra chvena e outro pires.
- E o Miguel? - perguntou Paco, sem levantar os olhos do jornal.
183
- Saiu cedo para ir buscar o Santi ao aeroporto.
- Bueno - replicou, e depois levantou-se, dizendo que ia a casa de Alejandro e Malena beber um cocktail.
- Paizinho, no  um pouco cedo para beber?
- Em casa do Alejandro e da Malena pode beber-se a qualquer hora, Sofia - e afastou-se com o cabelo grisalho a brilhar ao sol.
- Aposto que ests desejando ver o Santi, Sofia - disse Maria, entusiasmada, servindo-se de uma chvena de ch. - Como ser que ele vem? Achas que estar muito diferente?
- Se deixou crescer a barba ou uma parvoce dessas, mato-o - respondeu satisfeita, com os olhos a brilhar de emoo.
- Nem vai reconhecer o Panchito, que est to crescido. Daqui a pouco tempo, estar a jogar plo com os rapazes mais velhos.
- E com as raparigas - acrescentou Sofia de sobrolho franzido. Sofia sabia que a me no gostava de a ver correr e competir com
os homens no campo e adorava atorment-la. Porque seria Sofia uma maria-rapaz, se Maria era to digna e feminina? Anna, simplesmente, no conseguia entender.
- Olha, Rafa, a primeira coisa que o Santi vai querer fazer  jogar - disse Sofia com malcia. - Vamos organizar um jogo para ele?
- Ests a irritar a me, Sofia, acaba com isso - respondeu ele, distrado, mais concentrado nos jornais de sbado do que na tagarelice da irm e da prima.
Anna suspirou de um modo que era apenas destinado a Sofia, um suspiro sofredor juntamente com um abanar de cabea.
- Sofia, porque no esperas para ver como correm as coisas? Ele vai ter tanto para nos contar a todos - disse ela, inflexvel. Depois, recordando-se dos conselhos
de Chiquita, pensou que deveria dar uma oportunidade  filha e acrescentou em voz baixa: - De facto, porque no haveria o Santi de gostar de jogar contigo, Sofia?
Com certeza que no vai querer ficar aqui sentado a conversar connosco toda a tarde.
- Achas? - respondeu lentamente Sofia. Olhou para a me com ar inquiridor, mas esta limitou-se a sorrir e continuou a tomar
184
o pequeno-almoo. Algum tempo depois, as duas raparigas levantaram-se da mesa e correram para dentro de casa, deixando as coisas de que se tinham servido para Soledad
limpar.
Assim que entraram no florido e rosado quarto de Sofia, atiraram-se para cima da enorme cama, amarrotando os lenis engomados e atirando as alpargatas para o cho.
- Acreditas? - perguntou Sofia.
- Em qu?
- A minha me... disse que no se importava que eu jogasse plo! - encolheu os ombros.
- Nada mau.
- Pois no. Mas gostava de saber porqu.
- Deixa-te disso, Sofia. Aproveita.
- Claro. Mas sei que no vai durar - suspirou. - Espera que eu diga ao Santi.
- Quanto tempo temos? Horas! - resmungou Maria, olhando para o relgio.
- Estou to entusiasmada que quase no me posso conter - exclamou Sofia, e o seu rosto bem definido corou por baixo do bronzeado. - O que hei-de vestir?
- Bom, vejamos o que tens a.
- Nada de especial. As coisas bonitas esto em Buenos Aires. Uso sempre calas de ganga ou bombachas del campo. - Abriu de par em par as portas do guarda-vestidos.
- Vs? - O armrio pouco mais mostrava do que um monte de T-shirts e camisolas bem dobradas e cabides com calas de ganga penduradas.
- Vamos ver o que h por aqui - disse Maria, tentando ajudar e procurando por entre a roupa. - Afinal, o que pretendes? O que te apetece vestir hoje?
- Qualquer coisa como tu vestiste - disse Sofia, depois de pensar por uns instantes.
Maria trazia um bonito vestido que lhe chegava aos calcanhares, enfeitado com rendas e fitas que condiziam com a fita que trazia no cabelo escuro.
- Como eu? - respondeu, espantada, torcendo o nariz. - Mas eu nunca te vi usar um vestido como este.
185
- Pois muito bem, h sempre uma primeira vez. Olha, o Santi vai voltar depois de ter estado dois anos fora e eu quero espant-lo.
- Poupa os teus espantos para o Roberto - replicou Maria com um sorriso.
Roberto Lobito era alto, bronzeado, louro e tinha encanto suficiente para sair com quem quisesse. Era amigo ntimo de Fernando e pertencia ao cl Lobito de La Paz,
a estancia vizinha. No s tinha um handicap de seis golos no campo de plo, como arrastava multides. Se Roberto Lobito jogava, todas as raparigas da fazenda, e
provavelmente das fazendas vizinhas, abandonariam os seus romances para o irem ver.
Sofia nunca se interessara. Mesmo quando ele conversara com ela durante algum tempo, depois da Copa Santa Catalina ou, da outra vez, em que lhe batera no traseiro
com o taco de plo, no lhe dera a mnima importncia. Para Roberto, ela era diferente de todas as outras raparigas que coravam e gaguejavam quando lhes falava.
No sentia qualquer interesse nisso. Sofia falava e brincava com ele, mas Roberto percebia que ela no estava interessada, o que tornava a caada ainda mais emocionante.
Depois da sua zanga com Maria, Sofia pensara ser boa ideia comear a sair com algum para despistar a prima. Ningum, excepto esta, suspeitava dos seus furtivos
sentimentos por Santi, e a nica maneira de a convencer de que se tinha esquecido da sua paixoneta infantil seria parecer estar perdidamente apaixonada por outra
pessoa. Como no gostava de ningum, no importava quem escolhesse. Mas o seu orgulho exigia-lhe que o escolhido fosse o rapaz mais bem-parecido das redondezas,
por isso preferira Roberto Lobito.
Fora fcil. Em vez de dizer no e de ignorar os seus avanos com um sorriso, permitira que ele a beijasse. Fora uma desiluso. No que esperasse que a pampa estremecesse,
mas teria sido bom se tivesse acontecido. Quando a boca dele, hmida, se tinha colado  sua, e a lngua dele explorara a sua, sentira pouco entusiasmo e recuara
com desagrado. De certeza no conseguiria manter aquilo por muito tempo. Mas depois teve uma ideia. Fechou os olhos e deixou que ele a beijasse de novo. Dessa vez,
imaginou ter nos seus os lbios de Santi, as mos deste em redor da sua cintura, o queixo dele a ro-
186
ar-lhe a pele. Dera resultado. De sbito, o seu corao comeara a bater com mais fora, ruborizara-se e a pampa quase estremecera. De qualquer forma, fora melhor
do que olhar para o rosto ansioso de Roberto Lobito a uma curta distncia do seu.
Durante esse ano, no passara um minuto em que no tivesse pensado em Santi e desejado o dia do seu regresso. Quando ele partira, sentira o mundo desmoronar-se 
sua volta. Santa Catalina no era igual sem ele. Quando, para o mundo, se transformou na namorada de Roberto Lobito, no seu corao passou a ser a amante secreta
de Santi - embora houvesse uma grande diferena. Nunca foi para a cama com Roberto Lobito. Ao transformar-se de criana em mulher, apercebeu-se de que os seus sentimentos
eram tambm diferentes, e que se convertiam numa coisa muito mais perigosa. Passava as noites quentes dando voltas na sua cama enorme, corando com os pensamentos
sensuais que lhe vinham  ideia. Muitas vezes, acordava de madrugada com os membros doridos de tanto o desejar. Deixava-se ficar, frustrada, sob os lenis, sem
saber como se aliviar daquele calor opressivo. Sabia que aqueles pensamentos eram pecaminosos, mas, algum tempo depois, estava to habituada, que eles haviam deixado
de a assustar e passado a confort-la. Por isso, no os evitava.
A princpio, sentia remorsos e era-lhe difcil apagar dos seus pensamentos o rosto bondoso mas reprovador do padre Julio. Mas, depois, at o sacerdote arranjou melhores
coisas para fazer do que vigiar as aventuras nocturnas de Sofia e tambm acabou por desaparecer. Sem confessar os seus desejos, guardando-os s para si, conseguia
que o seu segredo a distrasse e afastasse das saudades que tinha dele. No seu corao, sentia-se muito prxima de Santi, apesar de este se encontrar a muitos quilmetros
de distncia. E as suas cartas, cheias de saudades de casa e de pormenores do seu novo mundo, ampararam-na durante muitos dias.
Sofia pegou num vestido branco e p-lo diante de si.
- Que tal este? - perguntou. - A minha me comprou-mo na esperana de me afastar do campo do plo e das calas de ganga. Nunca o vesti.
- Pois veste-o agora e vamos l ver. Engraado, nem te imagino de vestido - repetiu Maria com a testa apreensivamente franzida.
187
Sofia enfiou o vestido branco de algodo pela cabea, puxando-o por cima do peito e do traseiro. Era preso por duas alas finas e cingido s ancas, antes de alargar
e cair at ao cho. Embora fosse muito justo nas ancas, acentuava-lhe a cintura estreita quase ousadamente e os ombros largos e atlticos. O corpete do vestido erguia-lhe
os seios sem qualquer inibio, como se, com o mnimo movimento, estes pudessem rasgar o tecido. Sofia afastou a trana comprida e brilhante das costas e ficou a
admirar-se diante do espelho.
- Oh, Sofia, ests maravilhosa - disse Maria com genuna admirao.
- Achas que sim? - replicou timidamente, voltando-se para ver como lhe ficava nas costas. De facto, estava encantadora, embora levemente desconfortvel; no estando
habituada a usar vestidos, sentia-se um pouco vulnervel e inesperadamente afectada. Estranho, como uma mudana de visual pode ser acompanhada por uma mudana de
personalidade, reflectiu divertida. Contudo, sentia-se satisfeita.
- No posso usar o cabelo assim. Ando sempre com ele desta maneira. No consegues pr-mo ao alto? - perguntou, subitamente entusiasmada pela novidade de tudo aquilo,
desejando que a mudana fosse total e espectacular. Maria, ainda deslumbrada pela transformao, sentou Sofia junto do toucador e comeou a apanhar-lhe os longos
cabelos no alto da cabea.
- O Santi no vai reconhecer-te - riu, com os ganchos entre os dentes.
- Nem ele, nem ningum - comentou Sofia, quase sem conseguir respirar dentro do corpo do vestido. Brincava impaciente com a caixa dos ganchos e das fitas, enquanto
ambas se riam pensando na opinio das outras pessoas.
Contudo, a nica reaco em que Sofia estava interessada era na do seu primo favorito, que j no via h dois longos e dolorosos anos.
Por fim, chegara o dia do seu regresso e toda a espera e saudade pareciam ter desaparecido num momento. Assim que Maria lhe apanhou o cabelo, Sofia lanou um ltimo
olhar  sua imagem no espelho antes de se dirigir a casa de Chiquita, para aguardar a chegada do jovem heri.
188
- Que vamos fazer at ao meio-dia? - perguntou Maria, enquanto passavam pelas rvores em direco  casa.
- S Deus sabe - disse Sofia, encolhendo os ombros. - Talvez pudssemos ir ajudar a tua me.
- Ajudar a minha me? No creio que ainda haja seja o que for para ela fazer.
Chiquita vagueava por entre os canteiros, regando as flores, numa tentativa de controlar a sua impacincia. As mesas para o almoo tinham sido postas por Rosa, Encarnacin
e Soledad e as bebidas refrescavam  sombra, em baldes de gelo. Quando as duas raparigas se aproximaram, ela ergueu os olhos e esboou um largo sorriso. Era uma
mulher esguia e elegante, com um estilo e um gosto que permeavam tudo o que fazia. Reconheceu imediatamente a nova Sofia e, pousando o regador, aproximou-se alegremente.
- Sofia, mi amor, nem acredito que sejas mesmo tu! Ests fantstica! O cabelo fica-te to bem, que nem imaginas. A tua me vai ficar encantada por teres posto o
vestido que te comprou. Sabes que o escolhemos as duas em Paris.
- De verdade? Ento  por isso que  to bonito - respondeu Sofia, sentindo-se mais confiante, agora que a sua querida tia a tinha aprovado.
Sentaram-se as trs no terrao,  sombra de dois guarda-sis, conversando sobre vrias coisas, olhando de vez em quando para os relgios, para ver durante quanto
mais tempo teriam de aguentar a espera. Algum tempo depois chegou Anna que, num vestido azul-claro e com um chapu, parecia fantasmagrica, mas muito bela,  maneira
dos pr-rafaelitas. A seguir apareceu Paco com Malena, Alejandro e os filhos destes, logo seguidos de Fernando, Rafael e Agustin. Assim que os irmos puseram os
olhos em Sofia, no conseguiram resistir a troar impiedosamente.
- A Sofia  uma rapariga! - picou-a Agustin, olhando-a de alto a baixo, divertido.
- Nem por isso. Como descobriste, boludo? - retorquiu sarcasticamente e, pela primeira vez, a me, encantada por a filha aparecer com um aspecto decente e muito
bonita, repreendeu-os. O resto da famlia foi chegando em pequenos grupos, at todos estarem reuni-
189
dos. Ficaram  espera, bebendo vinho por entre o ar cheio de fumo do asado.
Como sempre, as matilhas de ces magros farejavam avidamente o cho em redor do churrasco. Panchito e os priminhos corriam atrs deles, gritando de cada vez que
conseguiam puxar a cauda a um ou fazer-lhes uma festa na cabea, sem que as mes os mandassem lavar as mos.
Por fim, Sofia reparou numa pequena nuvem de p que se aproximava lentamente, erguendo-se  distncia.
- Olhem, l vm eles! - anunciou. - L vm eles! - E a seguir fez-se silncio enquanto todos, na expectativa, voltavam a sua ateno para a nuvem de p.
Chiquita prendeu a respirao, sem querer trazer m sorte por desejar demasiado, pensando a cada segundo que o carro poderia dar meia volta e desaparecer, deixando-os
decepcionados. Ningum reparou quando um dos ces roubou uma salsicha do churrasco. Panchito, que j tinha seis anos, correu atrs do animal, sem querer saber da
chegada do irmo de quem, afinal, mal se lembrava. Sofia sentia o corao acelerado como se este tentasse libertar-se da sua priso e explodir juntamente com os
seios que pareciam sufoc-la. Sentiu as palmas das mos hmidas de emoo e, de sbito, desejou ter vestido umas calas de ganga e uma blusa, para aparecer como
ele se lembrava dela.
A nuvem aumentava cada vez mais  medida que se aproximava, at que o ao brilhante do jipe cintilou atravs do p, voltou a esquina e veio, aos solavancos, pela
alameda de rvores em direco ao rancho. Quando, finalmente, se deteve  sombra dos eucaliptos, Santi saltou l de dentro, mais alto, encorpado e fascinante, vestindo
um par de chinos cor de marfim, uma camisa azul-clara de colarinho aberto e mocassins castanhos de cabedal. O jovem americano estava de volta.

CAPTULO QUINZE
Santiago Solanas teve uma festa de boas-vindas excepcional. Viu-se de repente rodeado pelos primos, irmos, tias e tios, todos a quererem beij-lo, abra-lo e a
fazerem-lhe dezenas de perguntas sobre as suas aventuras no estrangeiro. A me sorria atravs das lgrimas, feliz e aliviada por o filho ter regressado so e salvo
ao seio da famlia.
Sofia viu-o descer do jipe com o seu passo descontrado, naquela sua maneira especial de andar, confiante, com as pernas um pouco arqueadas, por ter passado grande
parte da vida a cavalo, coxeando levemente. Beijou a me com verdadeira ternura. Esta pareceu derreter-se nos seus braos. Estava mais corpulento e pesado do que
no Vero em que fora para os Estados Unidos. Era uma criana quando partira e regressara um homem, pensou Sofia, mordendo ansiosamente o lbio inferior. Nunca se
sentira assim nervosa na presena dele, mas agora fora vencida por uma timidez que lhe era desconhecida. Nos seus sonhos cultivara inconscientemente uma relao
sensual e ntima que, embora fosse contrria  realidade, se tinha tornado real para ela, sendo agora impossvel de reverter. No conseguia olh-lo sem corar. Ele,
claro, nada sabia e, quando a viu, abraou-a com o mesmo amor fraternal de sempre.
- Chofi! Que saudades tive da minha prima preferida - murmurou-lhe junto ao pescoo suavemente perfumado. - Ests to diferente, que mal te reconheci.
Sofia baixou os olhos, apreensiva. Santiago, apercebendo-se de que ela estava pouco  vontade, franziu a testa, confuso.
191
- Creio que a minha Chofi se transformou numa mulher enquanto eu estive fora - disse, dando-lhe um abrao brincalho. Antes de ela poder responder, Rafael e Agustin
empurraram-na para o lado, para dar fortes palmadas de afecto nas costas do primo.
- Che, que bom ter-te de volta! - exclamaram alegres.
- Posso dizer-vos que  muito bom estar de volta - replicou, procurando Panchito com os olhos enormes.
Chiquita, apercebendo-se, esquadrinhou o terrao e os campos  procura do filho mais novo, desejando que tudo estivesse perfeito para o seu Santi. Por fim, Miguel
apareceu  esquina da casa com Panchito que gritava e se contorcia montado nos enormes ombros do pai.
- Ah c ests tu, meu patife - disse a me, alegremente. - Vem cumprimentar o teu irmo. - Ao ouvir isto, o rapazinho calou-se, meteu na boca um dedo gorducho e
deixou que a me o levasse at onde Santi o esperava.
- Panchito! - inclinando-se, Santi tomou nos seus fortes braos a criana envergonhada. - Tiveste saudades minhas? - perguntou despenteando o cabelo louro do menino.
Panchito, que era muito parecido com o irmo, abriu o mais que pde os seus olhos verdes e observou fascinado o rosto de Santi.
- Que se passa, Panchito? - perguntou o irmo, beijando-lhe o rosto macio e bronzeado. O menino riu-se maliciosamente; depois de muita insistncia escondeu a cabea
no pescoo de Santi e segredou-lhe qualquer coisa.
- Ah - riu-se o irmo -, achas que eu sou to barbudo como o pai, no ? - E Panchito passou-lhe a mo pelo queixo spero.
- Ento, Panchito, no me deixas dar tambm um abrao ao Santi? - perguntou Maria, rodeando-os a ambos com os seus braos. Fernando levou mais tempo a aproximar-se;
quando o fez, sentiu o peito apertado de despeito, mas fez os possveis por disfarar aquela desagradvel sensao. Detestara ver o irmo chegar e ter a recepo
de um heri. Incomodara-o. Santi limitara-se a ir estudar para um pas diferente, qual era o espanto? Afastando da testa o cabelo negro, olhou para o irmo de sobrolho
franzido e conseguiu sorrir. Santi puxou-o para si e bateu-lhe nas costas como a um velho amigo. Um velho amigo? Eles nunca tinham sido amigos.
192
- Que saudades tive do asado argentino! - suspirou Santi, atacando o lomo e o chourio de sangue. - Ningum cozinha a carne to bem como os Argentinos.
Chiquita quase rebentava de orgulho, depois de ter tido tanto trabalho a preparar tudo exactamente da maneira como o filho gostava.
- Mostra a toda a gente que falas ingls como um americano - disse Miguel, orgulhoso. Ficara impressionado quando ouvira o filho falar com a famlia Stanford, na
Primavera. Na sua opinio, no fazia qualquer diferena dos outros.
- Sim, falava sempre em ingls. Todas as minhas aulas eram em ingls - respondeu.
- E ento, vais ou no mostrar como falas? - perguntou o pai servindo-se de um pouco mais de vinho de uma garrafa de cristal.
- Ento e o que querem que eu diga? Im glad to be home with my folks andl missedyou alft - disse em ingls perfeito.
- Oh, por Dios, falas como um verdadeiro americano! - declarou a me, batendo orgulhosamente as palmas. Fernando quase sufocou com o chourio que estava a comer.
- Anna, agora deves estar satisfeita porque j tens algum com quem falar na tua lngua - disse Paco, erguendo o copo para o sobrinho com ar aprovador.
- Se  que isso  a minha lngua - disse ela com fingido desdm.
- A minha me fala irlands, que tambm no  ingls puro - disse Sofia, incapaz de resistir.
- Sofia, por vezes, quando no se sabe o que se est a dizer,  melhor ficar calada - disse calmamente a me, abanando-se por baixo do chapu.
- De que mais sentias falta enquanto estavas na Amrica? - perguntou Maria.
Santi pensou durante algum tempo antes de responder. Olhou ao longe, relembrando as longas noites em que recordava as pampas ar-
* Estou muito contente por estar em casa com a minha famlia e tive muitas saudades de todos. (N. da T.)
193
gentinas, o cheiro dos eucaliptos e o vasto horizonte azul, to amplo e to distante que era difcil dizer onde terminava a terra e comeava o cu.
- Vou dizer-te exactamente do que senti mais falta. Senti falta de Santa Catalina e de tudo o que lhe pertence - disse. Os olhos da me encheram-se de lgrimas e
sorriu para o marido, que lhe retribuiu o sorriso com igual ternura.
- Bravo, Santi - disse o pai, solene. - Vamos fazer uma sade a isso.
E todos ergueram os copos a Santa Catalina, excepto Fernando que amuou em silncio.
- Para que nunca, nunca mude - disse Santi, melanclico, olhando momentaneamente para a estranha mas bela jovem de vestido branco que o fitava com olhos castanhos
e lmpidos, perguntando a si prprio por que razo se sentiria to pouco  vontade na sua presena.
Com sentimentalismo latino, o almoo foi entrecortado por discursos, encorajados pelo correr constante do vinho que realava os sentimentos. Contudo, os rapazes
achavam um pouco excessiva aquela exibio de ternura familiar e tentavam a todo o custo conter o riso. S queriam saber do calibre das raparigas americanas, com
quantas Santi tinha dormido, mas, tacitamente, deixaram essas perguntas para depois, quando estivessem sozinhos com ele no campo de plo.
Desesperada, Sofia foi a correr para o quarto e bateu com a porta atrs de si. Frustrada, quase arrancou o vestido do corpo. Santi detestara o seu novo visual e,
pensando bem, ela tambm. Ignorara-a completamente. Quem estava ela a tentar ser? Sentia-se envergonhada. Fizera figura de idiota diante de toda a gente.
Enrolou o vestido numa bola que atirou para o fundo do armrio, escondendo-o atrs das camisolas e jurou nunca mais o vestir. Enfiou apressadamente as calas de
ganga e um plo, arrancou os ganchos do cabelo e atirou-os para o cho como se fossem a causa da indiferena do primo. Sentou-se diante do espelho do quarto e escovou
o cabelo com tal fria que magoou o couro cabeludo. Depois, fez a trana, que prendeu, como de costume, com uma fita vermelha.
194
Agora sinto-me a Sofia, pensou para consigo e limpou o rosto molhado de lgrimas com as costas da mo. Saiu para o sol com passo determinado e dirigiu-se para
o recinto dos pneis. Nunca mais tentaria ser aquilo que no era.
Quando Santi a viu aproximar-se, ficou aliviado por se tratar da Sofia pueril que lhe era familiar e que se lhe dirigia com o seu especial andar de pata. Achava
graa  arrogncia daquele andar; sorriu ao sentir um toque de nostalgia que lhe fez estremecer o estmago. Sentira-se levemente incomodado quando a vira com o seu
vestido branco e o penteado de mulher, embora nem tivesse percebido porqu. Parecera-lhe um pssego a explodir de sensualidade, contudo, havia qualquer coisa nela
que a colocara fora do seu alcance. J no era a sua velha amiga, mas sim uma pessoa diferente. No pde deixar de reparar na sua figura arredondada por baixo do
vestido, transparente, quando o sol lhe batera por detrs, e nos seus seios morenos que acentuavam o seu crescimento e o seu distanciamento. No era a Sofia de que
se lembrava.
Antes de poder continuar a pensar no assunto, ela veio ter com ele. Mesmo assim, perturbava-o ver que ela florescera e se tornara mulher. At certo ponto, sentia
saudades da menina que ela era quando ele partira. Mas assim que comearam a conversar, a habitual centelha de malcia regressou-lhe aos olhos e Santi ficou aliviado,
porque a pessoa dentro daquele corpo voluptuoso era afinal a sua querida prima.
- O meu pai deixa-me jogar sempre - disse ela, alegremente, enquanto se dirigiam ao recinto dos pneis.
- E a tia Anna? Como consegues convenc-la?
- Olha, nem vais acreditar, mas esta manh ela at sugeriu que eu jogasse plo contigo.
- Est doente?
- Deve estar. Pelo menos, no est completamente corpus mentis - retorquiu ela a rir-se.
- Gostei muito das tuas cartas - disse ele, sorrindo-lhe e recordando as centenas de longos episdios descritos na caligrafia confusa e descuidada, no papel azulado
das cartas de avio.
- E eu das tuas. Parece-me que te divertiste muito. Tive tanta inveja! Tambm gostava de sair daqui.
195
- Um dia hs-de sair.
- Tiveste muitas namoradas na Amrica? - perguntou ela, masoquista.
- Muitas - respondeu Santi com naturalidade, apertando-lhe afectuosamente a nuca, com um pouco de entusiasmo a mais. - Sabes, Chofi, sinto-me to feliz por estar
de volta, que nem consigo explicar. Se agora me dissessem que eu nunca mais precisava de sair de Santa Catalina, seria o homem mais feliz do mundo.
- Mas no gostaste dos Estados Unidos? - perguntou, recor-dando-se do tom das cartas em que ele sugeria estar encantado por l estar.
- Claro que sim. Diverti-me imenso, mas s nos apercebemos do muito que gostamos de uma coisa quando a deixamos durante algum tempo. Quando regressamos, vemo-la
num tom completamente diferente porque, de sbito, somos capazes de nos afastar para nos apercebermos de como realmente . Passamos a amar com muita intensidade
todas as coisas que anteriormente tnhamos como certas, porque sabemos o que  passar sem elas. Percebes o que estou a dizer?
Ela acenou afirmativamente.
- Julgo que sim. - Mas de facto no compreendia, porque nunca tinha sado de Santa Catalina.
- Tens tudo isto como certo, no  verdade, Chofi? J alguma vez te detiveste para observar toda esta beleza?
- Sim - respondeu ela, sem ter grandes certezas. Ele olhou-a com um meio sorriso, formando rugas nos cantos dos olhos.
- Aprendi uma lio muito valiosa enquanto estive fora. Foi o meu amigo Norman que me ensinou.
- O Stanley Norman?
- Si. Tenho de ta contar em ingls, porque no faz sentido em espanhol.
- Tudo bem.
-  uma pequena histria sobre o presente precioso.
- O presente precioso.
-  uma histria verdadeira sobre um rapazinho que vivia com os avs. O av era um homem sereno e espiritual que lhe contava
196
histrias maravilhosas. Uma das histrias que contou ao neto foi a do Presente Precioso. - Sofia lembrou-se do av O'Dwyer e, de sbito, sentiu-se triste. - O
menino ficou muito entusiasmado e perguntou ao av que presente era. O velho disse-lhe que, a seu devido tempo, ele acabaria por descobrir, mas que era uma coisa
que lhe traria uma felicidade duradoura como nunca antes sentira. Ento, o rapazinho manteve os olhos bem abertos e quando lhe deram uma bicicleta no dia dos anos,
pensou que fosse aquele o Presente Precioso que o av lhe descrevera. Mas, algum tempo depois, aborreceu-se do brinquedo novo e apercebeu-se de que aquele no
poderia ser o Presente Precioso, porque o av lhe tinha dito que este lhe traria uma felicidade duradoura.
Ento, o rapazinho cresceu e transformou-se num jovem que conheceu uma rapariga por quem se apaixonou. Por fim, pensou: " este o Presente Precioso que me vai trazer
a felicidade duradoura." Mas discutiram, no se entenderam e acabaram por se separar. Ento, o jovem viajou e correu mundo e em cada lugar novo pensou ter encontrado
a verdadeira felicidade, mas estava sempre  procura de mais um pas, de mais um local maravilhoso e descobriu que a felicidade nunca durava muito. Era como se procurasse
uma coisa inatingvel, mas que, mesmo assim, procurava. E isto entristecia-o. Depois, tendo voltado a casar-se e j com filhos, achou que ainda no tinha descoberto
o "Presente Precioso" de que o av lhe tinha falado e comeou a ficar desiludido.
Por fim, o av morreu e com ele o segredo do "Presente Precioso"... ou, pelo menos, foi o que o jovem pensou. Sentou-se, muito triste, a pensar nos momentos felizes
que tinha partilhado com o seu sbio av. E, por fim, depois de tantos anos de busca apercebeu-se. Porque seria que o seu av estava sempre to satisfeito, to contente,
to sereno? Porque seria que, quando se falava com ele, ele nos fazia sentir a pessoa mais importante deste mundo? Porque seria ele capaz de criar uma atmosfera
to pacfica  sua volta que a passava a todos que conhecia? Afinal, o Precioso Presente no era um presente no sentido material da palavra. Era de facto o aqui
e agora, o presente, el momento... ahora. O av tinha vivido o momento e saboreara cada segundo. No existia o amanh, pois por que razo se h-de gastar energia
numa coisa que pode no acontecer? E no se demorava no ontem, porque ontem j passara e j no existia. O presente  a nica
197
realidade, e para obter a felicidade duradoura  preciso aprender a viver o aqui e agora e no nos preocuparmos ou perdermos tempo com outras coisas.
- Eh, vamos, chicos - gritou Agustin entusiasmado, galopando j pelo campo com o taco na mo.
- Que histria maravilhosa - disse Sofia, pensando no muito que o av O'Dwyer haveria de gostar dela. Fazia parte da sua filosofia.
- Vamos, Chofi... vamos jogar juntos outra vez, est bem? - disse ele, afastando-se para montar o pnei. Sofia viu-o galopar at ao campo. A histria que Santi lhe
contara causara-lhe uma profunda impresso.
Santi estava encantado por voltar a jogar com o irmo e os primos na fazenda de que tanto gostava. Sentia-se cheio de energia e de joie de vivre, e da sensao de
poder conquistar tudo e todos. Cavalgou pelo campo consciente de todos os cheiros, de todas as cores que pertenciam a Santa Catalina, inspirando tudo profundamente.
Amava a fazenda como se ama uma pessoa. Quando o jogo comeou, existia firmemente, naquele momento, sem querer apressar a chegada do amanh nem pensar no dia anterior.
Sofia jogava com Santi, Agustin e Sebastian. Na equipa adversria jogavam Fernando, Rafael, Niquito e Angel. Era uma partida amigvel, apesar de no deixar de ter
a habitual competitividade que existia sempre que a famlia jogava em campos opostos. Os seus gritos ecoavam pelo campo, enquanto cavalgavam de um lado para o outro,
suando com o esforo no ar pesado e hmido.
Paco gostava de ver a filha jogar; via reflectido nela o seu amor agressivo por aquele desporto e sentia orgulho nisso. Tanto quanto sabia, era a nica rapariga
que conhecia que conseguia jogar a um nvel to elevado. Sofia encarnava todas as qualidades que ele identificara em Anna quando a conhecera, embora a mulher discordasse
completamente. Segundo esta, nunca tinha sido to ousada ou desmedida como a filha; s dele poderia ter herdado tais atributos.
Os primos j se tinham habituado  presena de Sofia no campo e no se importavam. Haviam tolerado a sua participao no jogo contra La Paz porque ganharam, mas
tinham-na impedido de voltar a participar. Sabiam que a podiam tratar como um homem, mas os outros jogadores, que no estavam habituados a jogar com uma mu-
198
lher, no sabiam agir naturalmente junto dela. Por isso, Paco concordava que no estava certo que ela fosse alterar o ritmo do jogo. Assim, s lhe era permitido
jogar com os primos. Sofia no se importava, desde que jogasse. O plo era para si mais do que um jogo, era a libertao de todos os constrangimentos impostos pela
me. No campo era tratada como qualquer outra pessoa. Podia fazer o que queria, gritar, berrar, dar asas  sua fria e, o mais importante,  que o pai a aplaudia.
O sol do fim da tarde lanava sombras longas e monstruosas que pareciam ter vida prpria, enquanto eles lutavam sobre a erva como se fossem cavaleiros medievais.
Uma ou duas vezes, Fernando quase derrubou o irmo do pnei, mas Santi sorriu-lhe satisfeito e fugiu a galope. O sorriso do irmo ainda o irritou mais. Santi no
perceberia que a sua agresso nada tinha a ver com o jogo? Para a prxima insistiria mais. No final do jogo entregaram os pneis, luzidios de suor e resfolegando
espuma, aos moos de cavalaria, que andavam pelo recinto de bombachas e capacetes.
- Vou tomar um banho  piscina - anunciou Sofia, limpando a testa, hmida e avermelhada no stio do capacete.
- Boa ideia, vou contigo - disse Santi, correndo atrs dela. - Melhoraste muito o jogo desde a ltima vez. No admira que o Paco te deixe sempre jogar.
- S com a famlia.
- Tambm concordo - aprovou.
Rafael e Agustin juntaram-se a eles e dando fortes palmadas nas costas de Santi, seguiram-no, como era costume. J todos se haviam esquecido de que ele tinha estado
fora; a vida continuava como sempre.
- J vou ter  piscina! - gritou Fernando aos outros, enquanto juntava os tacos e os empilhava na parte de trs do jipe. Viu o irmo seguir com os primos e desejou
que desaparecesse de novo para os Estados Unidos. As coisas tinham estado to bem sem ele! Mas agora toda a gente voltaria a adorar Santi e a coloc-lo num alto
pedestal. Engoliu os sentimentos de inferioridade e subiu para o lugar do condutor. Sebastian, Niquito e Angel partiram em direco oposta, para suas casas, situadas
do outro lado do parque, indicando por gestos que tambm iriam para a piscina.
Sofia despiu-se na frescura sombria do seu quarto, enrolou-se numa toalha e passou por entre as rvores em direco  piscina. Na pe-
199
quena colina, rodeada por altos pltanos e choupos, a gua cintilava fascinante  suave luz do entardecer. O perfume dos eucaliptos e da erva cortada pairavam no
ar parado e hmido. Sofia, recordando as palavras de Santi, olhava para a beleza que a rodeava, saboreando-a. Deixando cair a toalha, mergulhou nua na superfcie
espelhada que tinha diante de si, lisa e cintilante, um belo recreio para o elevado nmero de moscas e mosquitos que deslizavam sobre ela. Algum tempo depois, escutou
as vozes profundas e speras dos irmos e dos primos, que se aproximavam, e depois o rugir da moto de Sebastian e, subitamente, a tranquilidade de que gozava quebrou-se
e perdeu-se.
- Olhem, a Sofia est nua! - anunciou Fernando, quando reparou no corpo brilhante da prima por baixo de gua.
Rafael lanou-lhe um olhar reprovador.
- Sofia, j ests crescida de mais para mergulhares despida - queixou-se ele, lanando-lhe uma toalha.
- Ora, no sejas desmancha-prazeres! - gritou ela, nada desconcertada. -  uma maravilha e sei que tu tambm gostas. - Soltou uma gargalhada maliciosa.
- Somos todos primos, qual  o problema? - declarou Agustin, despindo os cales e mergulhando nu. - De qualquer forma, ela no tem nada que valha a pena ver - disse,
cuspindo a gua, quando veio  tona para respirar.
- Estou s a pensar na dignidade da minha irm - insistiu Rafael, ansioso.
- J h muito tempo que ela a perdeu com o Roberto Lobito. Ah! - riu-se Fernando, danando na borda da piscina, com o seu traseiro branco fazendo contraste com as
pernas e as costas morenas, antes de, tambm ele, mergulhar.
- Tudo bem, mas depois no me culpes quando a me te der a maior descompostura da tua vida.
- Quem  que lhe vai dizer? - disse ela a rir, salpicando os rapazes. Santi despiu os cales e ficou nu  beira da gua. Sofia no pde impedir que os seus olhos
escrutinassem o corpo do primo, que ali ficara, desinibido, com as mos nas ancas. Incapaz de se controlar, poisou o olhar fascinado naquela parte que sempre se
insinuara mas nunca se revelara. A se deteve deslumbrada. J antes vira o pai, os irmos e os
200
primos, mas havia qualquer coisa na nudez de Santi que merecia a sua admirao. Ali estava, orgulhosa, majestosa, diante dela, at maior do que pensara. Depois houve
qualquer coisa que atraiu o seu olhar para a cara dele e viu que ele a observava. Tinha uma expresso sombria e zangada. Sofia franziu a testa, tentando adivinhar-lhe
os pensamentos. Depois ele mergulhou, cortando ruidosamente a gua numa tentativa de expulsar do esprito a ideia da prima rolando nua com Roberto Lobito.
Consciente de que Santi estava prximo, Sofia nadou fingindo no reparar nele, salpicando distraidamente os outros. Tentou descobrir porque poderia estar zangado
consigo. Que tinha ela feito? A ansiedade roubou-lhe o entusiasmo e f-la sentir-se deprimida.
Subitamente, Rafael alertou-os da chegada de Anna que, com expresso irritada se dirigia  piscina com ar determinado.
-  melhor mergulhares, Sofia - murmurou aflito. - Vou ver-me livre dela o mais depressa possvel.
- No acredito! - disse Sofia, sufocada. - Essa mulher  uma praga. - Encostando-a contra a parede, o irmo meteu-lhe a cabea debaixo de gua.
- Hola, meninos... viram a Sofia? - perguntou Anna, olhando-os um a um.
- Ora, ela esteve a jogar plo connosco e depois foi para casa. No a vimos desde a - respondeu Agustin com ar srio.
- No est aqui - disse Sebastian. Anna reparou que estavam todos nus e uma centelha de cor subiu-lhe s faces plidas.
- Espero que no - disse com ironia, apesar de aquilo no a surpreender. Depois, sorrindo-lhes por baixo do chapu, disse-lhes que, se vissem a filha a mandassem
para casa. Assim que se foi embora, Sofia veio  superfcie, sufocada e a cuspir, desfazendo-se em ataques de tosse e gargalhadas.
- Foi quase, boluda - disse-lhe Rafael, zangado. - No sabes quando ests a passar das marcas!
Santi observou-a do outro extremo da piscina e teve uma sensao de cime que no soube explicar. Subitamente, no queria que ela nadasse nua com os outros rapazes.
Queria esbofete-la porque andava com o Roberto Lobito. De todos os homens que podia ter escolhido, porque tivera logo de ser aquele?

CAPTULO DEZASSEIS
No dia seguinte, Santi acordou sentindo-se idiota. Permitira que os seus sentimentos se descontrolassem. Porque haveria de se importar com quem ela saa, perguntou
a si prprio. Depois, explicou a sua raiva convencendo-se de que apenas a protegia como faria um irmo ou, pelo menos, deveria fazer. Mas depois pensou nela nua,
contor-cendo-se nos braos de Roberto Lobito e a nusea invadiu-o de tal forma que teve de se sentar. Raios! Poderia sair com quem quisesse, excepto com Roberto
Lobito.
Roberto era uns anos mais velho do que Santiago e considerava-se o maior gal, depois de Rhett Buttler*. Pavoneava-se pela fazenda como se fosse o proprietrio e,
ainda por cima, conduzia um espaventoso carro importado da Alemanha. Os direitos de importao eram to altos que se tornava quase impossvel arranjar um carro daqueles,
mas o pai de Roberto conseguira-o. Odiava Roberto Lobito. Porque seria que o alvo dele fora a sua Sofia?
Quando saiu da cama estava calor e muita humidade. O seu entusiasmo de estar de volta a Santa Catalina tinha-se dissipado; restava-lhe apenas o gosto amargo da revelao
da noite anterior. Arrastou-se para o terrao e encontrou Maria a tomar o pequeno-almoo ao sol. Com toda a naturalidade, perguntou-lhe quanto tempo havia que Sofia
andava com Roberto, fingindo considerar que o namoro era perfeito.
* Personagem masculina principal de E tudo o Vento livou representada no cinema pelo actor Clark Gable. (N. da T.)
202
- Fazem um casal muito bonito... um casal de jogadores de plo. Duvido que haja muitos homens que se possam gabar disso - disse ele, com a garganta apertada de raiva
interior.
Maria, insensvel aos verdadeiros sentimentos do irmo, contou que, realmente, estavam interessados um no outro. De facto, nos ltimos oito meses, tinham passado
quase todos os fins-de-semana juntos, em Santa Catalina. Parecia srio. Santi mudou de assunto, no suportava ouvir falar daquilo. Dava-lhe vontade de vomitar. Tirara-lhe
a vontade de tomar o pequeno-almoo.
Decidiu ir falar com Jos e ver como estavam os pneis. Talvez montar um, para praticar. Tudo menos encontrar Sofia e Roberto juntos. Imaginava-os a rir e - Deus
nos defenda - a beijarem-se. Sentiu-se mais deprimido que nunca. Queria voltar para a Amrica, fugir de um cime que era incapaz de definir.
A conversa com Jos distraiu-o por momentos, mas logo que se viu sobre um pnei, em redor do campo, atrs de uma bola branca, os seus pensamentos voltaram-se uma
vez mais para Sofia. Bateu na bola com uma fora enorme, imaginando que se tratava da cabea de Roberto Lobito. Mas, apesar da fora, no a rachou.
Algum tempo depois, apercebeu-se de que estava a ser observado. Sofia estava sentada na sebe a olh-lo silenciosamente. Tentou ignor-la e conseguiu faz-lo por
algum tempo. Mas finalmente dirigiu-se a ela com o corao a bater mais clere, da adrenalina. Iria dizer-lhe exactamente o que pensava de Roberto Lobito.
Sofia sorriu quando ele se aproximou. Um sorriso nervoso. Sabia que ele estava zangado e tinha passado toda a noite na humidade sufocante, tentando adivinhar a razo.
Engoliu ansiosamente quando Santi se aproximou e tentou reprimir a agitao que sentia no estmago.
- Hola!- disse e ficou  espera que lhe respondesse.
- Que ests a fazer? - perguntou-lhe ele, friamente, sem sequer desmontar. O pnei resfolegou de calor e abanou a cabea.
- Estou a ver-te.
- Porqu?
Ela suspirou com ar magoado.
- O que se passa? - perguntou, desconsolada.
203
- Nada. Porque haveria de se passar alguma coisa? - O pnei bateu com as patas, depois resfolegou, mais uma vez, de impacincia. Santi inclinou-se para trs na sela,
olhando-a, sobranceiro.
- No brinques comigo, Santi. Conhecemo-nos demasiado bem para isso.
- Quem  que est a brincar? S estou chateado, mais nada.
- Que foi que eu fiz? - perguntou.
Ele estalou a lngua como se dissesse: Olhem quem  que est a brincar.
- Ests aborrecido porque eu ando com o Roberto Lobito? - sugeriu ela.
- Porque me haveria de importar com isso? - A expresso dele endureceu ao ouvir mencionar o nome de Lobito.
- Porque te importas.
- Que tenho eu a ver com quem tu andas?
- Bom, parece que tens muito - replicou. Depois, exasperada, saltou da sebe. - Tens razo. No tens nada a ver com isso - disse e encolheu os ombros como se j no
se importasse.
De sbito, Santi desmontou e agarrou-a por um brao, quando ela comeava a afastar-se. Largando as rdeas do pnei, empurrou-a contra uma rvore, agarrou-a pelo
pescoo e encostou os seus lbios quentes aos dela. Aconteceu tudo to depressa que, quando ele se afastou, murmurando uma desculpa, ela perguntou a si prpria se
de facto teria acontecido alguma coisa. Queria dizer-lhe que estava tudo bem. Queria muito que a voltasse a beijar.
Quando montou de novo no pnei, ela segurou nas rdeas uns instantes, para o impedir de partir a galope, e disse-lhe em voz trmula.
- De cada vez que o Roberto me beija imagino que s tu. - Ele olhou-a, j sem parecer zangado, apenas ansioso. Abanou a cabea, desejando no a ter ouvido.
- Dios, no sei porque fiz isso - disse ele e afastou-se.
Sofia ficou junto  sebe como um coelho assustado. Pregada ao cho, viu-o partir a galope sem olhar para trs. Sem estar convencida de que ele a tivesse beijado,
tocou nos lbios com um dedo trmulo. Estavam ainda hmidos e latejantes. O seu estmago estremecia ain-
204
da mais e sentia as pernas leves como se pertencessem a outra pessoa. Queria correr atrs dele mas no se atreveu. Santi tinha-a beijado. Sonhara com aquele momento,
s que nos seus sonhos tinha demorado mais tempo. Mas j era alguma coisa, era um comeo. Quando, por fim, foi capaz de voltar, saltitou por entre as rvores com
o corao a transbordar de esperana. Santi tinha cimes de Roberto Lobito. Riu de felicidade, incapaz de acreditar que era verdade e que no estava a sonhar. Seria
possvel que Santi correspondesse ao seu amor? No tinha a certeza, mas sabia que devia acabar tudo com Roberto o mais depressa possvel.
Quando Sofia telefonou a Roberto Lobito, para a sua estancia, La Paz, e lhe declarou que j no podia ser sua namorada, fez-se um silncio pesado at o rapaz perceber
bem o que ela lhe estava a dizer. Nunca, mas nunca tinha sido desprezado. Perguntou-lhe se ela estava bem, porque de certeza no estava. Sofia respondeu em tom gelado
que estava ptima. Acabara-se.
- Ests a cometer um erro enorme - disse ele. - Recorda-te do que te estou a dizer. Quando cares em ti e me quiseres de volta, j no te quero, percebes? No te
recebo de volta.
- Ainda bem - respondeu ela e desligou.
Sofia pensou que, terminando tudo com Roberto Lobito, Santi ficaria contente. Todavia, este no se sentia satisfeito. Continuava a ignor-la e parecia que a sua
amizade tinha desaparecido para sempre. E o beijo? Ter-se-ia esquecido? Ela no. Sempre que fechava os olhos, sentia os lbios dele sobre os seus. No podia confiar
em Maria. No queria que esta soubesse o que sentia. Por isso, queixou-se a Soledad, que estava sempre pronta a apoi-la. No que os seus conselhos servissem de
muito, mas dava sempre toda a ateno a Sofia, escutando-a com uma expresso de solidariedade e adorao. Sofia disse-lhe que Santi a ignorava e no dividia tudo
com ela como costumava fazer. Soluou no seio almofadado da criada, dizendo que tinha perdido o melhor amigo que tinha no mundo. Soledad embalou-a docemente nos
braos e disse-lhe que os rapazes da idade de Santi queriam andar com outros rapazes ou com as raparigas por quem estavam apaixonados. Como Sofia no fazia parte
de nenhuma dessas categorias, tinha de ter pacincia.
205
- Ele h-de voltar quando crescer um pouco - prometeu Soledad. - No se preocupe, gorda, h-de arranjar outro namorado e depois j no se h-de preocupar com o Seor
Santiago.
Fernando ficou furioso com a reviravolta dos acontecimentos. Como pudera Sofia acabar o namoro com Roberto Lobito? Roberto era o seu melhor amigo. Se ela lhe tinha
arruinado essa amizade, nunca lhe perdoaria. No se apercebia de que era desejado por todas as mulheres que o conheciam? Cabra egosta! Como sempre, s pensava em
si prpria.
Fernando tratou de convidar Roberto Lobito para a fazenda em todas as oportunidades, por duas razes. A primeira, porque receava que Sofia o tivesse afastado e que
ele j no viesse, ou, pior um pouco, que quisesse deixar de ser seu amigo. A segunda, porque sentia prazer em ver Sofia debater-se, pouco  vontade, sempre que
o via por ali - era uma vingana em nome do amigo. De facto, exibia Roberto pelo campo, com a inteno de mostrar a Sofia o que ela estava a perder. Ela tinha ofendido
Roberto, por isso tinha-o ofendido a ele, indirectamente. Roberto no resistiu e aproveitou-se da lealdade de Fernando para namoriscar em frente dela, como querendo
mostrar-lhe que ela lhe era indiferente. Mas no era.
Sofia achava os disparates dele cansativos e retirava-se para o seu prprio mundo, andando a cavalo ou dando enormes passeios solitrios pela pampa. Maria seguia
a amiga, quando esta lho permitia, consciente de que havia qualquer coisa que esta no lhe queria contar. Isto entristecia Maria, que tentava desesperadamente cair
nas boas graas da prima, sorrindo-lhe alegremente quando, interiormente, se sentia triste e excluda. No passado, Sofia amuara, mas nunca por tanto tempo. Maria
fora sempre sua cmplice, sua aliada contra tudo e contra todos sempre que fora preciso. Agora, Sofia queria estar s.
A princpio, fora mais fcil para Santi no se aproximar de Sofia. Envergonhado por ter permitido que os seus impulsos se descontrolassem, conseguira convencer-se
de que estava doente ou coisa parecida - qualquer coisa, menos apaixonado por Sofia. No podia estar apaixonado por Sofia. Seria como estar apaixonado por Maria.
Incestuoso e errado; disso tinha a certeza. Quando se recordava do beijo,
206
sentia um embarao tal que o seu estmago parecia dar um n. Ser que realmente a beijei? perguntava a si prprio nas noites tortuosas que se seguiram. Meu Deus,
mas em que estava eu a pensar? O que pensar ela de mim?
Gemia, na esperana de que, se ignorasse a situao, esta se desvaneceria. Convenceu-se de que ela era jovem de mais para saber o que queria. Deveria ser mais responsvel.
Afinal, ela respeitava-o e admirava-o. Sabia isso. Era mais velho e bem sabia as consequncias de uma tal ligao. Disse para consigo, uma e outra vez, que deveria
crescer e ultrapassar tudo aquilo.
Andava de um lado para o outro, pela fazenda, com os rapazes, como uma matilha de ces, em busca de novidades. Contudo, passava a maior parte do tempo na esperana
de ver Sofia na piscina ou no campo de tnis, apenas para acabar por se sentir desapontado. Era mais fcil quando ela estava perto. Pelo menos, sabia onde se encontrava.
Sabia que no podiam namorar. As famlias nunca o permitiriam. Imaginava o discurso do pai. Aquele que comeava com Tens um futuro brilhante..., e na sua imaginao
via j a expresso espantada da me. Mas o seu corpo desejava Sofia, apesar de todo o seu raciocnio sensato, e isso desgastava-o pouco a pouco. Por fim, j no
conseguia lutar. Tinha de lhe falar. Tinha de se explicar. Tinha de lhe dizer que aquele beijo nada mais fora do que um momento de loucura. Dir-lhe-ia que pensara
que ela era outra pessoa - qualquer outra coisa, excepto a verdade, que se sentia atormentado pelo amor cada vez maior que sentia por ela e que no via possibilidade
de esquecer.
Maria estava no terrao a brincar com Panchito e com um dos seus amiguinhos da fazenda quando Santi lhe perguntou se tinha visto Sofia. A irm respondeu-lhe que
no fazia a mnima ideia onde ela andava e que, nos ltimos dias, se transformara numa desconhecida. Chiquita saiu de casa com um cesto de brinquedos e disse a Santi
que fosse fazer as pazes com Sofia.
- Mas ns no nos zangmos - protestou ele. A me lanou-lhe um olhar como que a dizer-lhe No penses que sou idiota.
- Ignoraste-a desde que voltaste e ela estava to entusiasmada por te voltar a ver. Talvez esteja perturbada por causa do Roberto
207
Lobito. Vai ver o que se passa, Santi. - Maria tirou o cesto das mos da me e despejou o contedo nos mosaicos do cho. Panchito gritou de alegria.
Santi encontrou Sofia mergulhada na leitura de um livro, debaixo do ombu. O pnei dormitava  sombra. Estava muita humidade. Olhando para o cu, viu nuvens negras
que se aproximavam no horizonte. Quando o viu aproximar-se, Sofia poisou o livro e olhou para ele.
- Pensei que te ia encontrar aqui.
- O que queres? - perguntou ela, agressiva, para logo desejar no ter parecido to zangada.
- Vim falar contigo. - Sobre o qu?
- Pois bem, no podemos continuar assim, pois no? - perguntou, sentando-se ao lado dela.
- Acho que no.
Sentaram-se em silncio durante algum tempo. Sofia recordou-se do beijo e desejou que ele o repetisse.
- No outro dia... - comeou ela.
- Bem sei - interrompeu Santi, tentando encontrar as palavras que tinha ensaiado, mas que agora no lhe saam.
- Eu queria.
- Tu disseste isso - respondeu ele, sentindo o suor juntar-se-lhe na testa em gotas febris.
- Ento porque fugiste?
- Porque, Chofi, no pode ser. Somos primos... primos direitos. Somos muito prximos. Que diriam os nossos pais? - Meteu a cabea entre as mos. Desprezava-se pela
sua fraqueza. Porque seria que no conseguia dizer-lhe, decididamente, que nada mais sentia por ela do que amor fraternal e que as suas aces tinham sido um tremendo
erro?
- Quem se importa com o que eles dizem? Nunca me importei. E, tambm, quem  que lhes vai contar - disse ela, alegrando-se. De sbito, o impossvel parecia perfeitamente
possvel. Ele dissera que no deviam, no que no queria. Passou-lhe o brao em volta da cintura e descansou a cabea no ombro dele. - Santi, amo-te h tanto
208
tempo - suspirou feliz. Aquelas palavras, ditas tantas vezes na sua imaginao, eram agora murmuradas do fundo da sua alma. Ele ergueu a cabea e abraou-a, aninhando
a cabea no seu cabelo. Ficaram assim, durante algum tempo, fortemente abraados, escutando a respirao um do outro, imaginando o que fariam.
- Tenho tentado convencer-me de que no gosto de ti - murmurou ele, por fim, sentindo a conscincia mais leve, depois daquela confisso.
- Mas gostas - disse ela, feliz.
- Infelizmente gosto, Chofi - concordou, brincando com a trana da prima. - Pensei tanto em ti enquanto c no estive.
- De verdade? - murmurou Sofia, tonta de prazer.
- Sim. Nunca pensei ter tantas saudades tuas; foi uma surpresa. Nessa altura j gostava de ti, mas s agora compreendo os meus sentimentos.
- Quando te apercebeste de que me amavas? - perguntou Sofia, timidamente.
- S quando te beijei. No compreendia porque me aborrecia tanto que andasses com o Roberto Lobito. Julgo que no queria pensar muito no assunto. Tinha medo da resposta.
- Fiquei surpreendida quando me beijaste - disse ela a rir.
- Posso garantir-te que ningum ficou mais surpreendido do que eu prprio.
- Ficaste envergonhado?
- Muito.
- Se me beijasses outra vez, sentias-te envergonhado? - perguntou-lhe a sorrir, desafiando-o a experimentar para saber.
- No sei, Chofi. E... bom, complicado.
- Detesto as coisas fceis.
- Bem sei que sim. Mas no creio que percebas o que significa um beijo entre ns.
- Percebo, sim.
- s filha do meu tio - lamentou.
- E depois? - disse ela com ligeireza. - Qual  o problema? O que importa  que gostamos um do outro, que somos felizes e que estamos a aprender a viver no presente.
Poderia haver melhor teste?
209
- Tens razo, Chofi - concordou Santi, mas ela reparou que ele ficara de novo srio. Afastou-se do seu abrao e examinou-o, tentando compreender aquela expresso.
Ele ergueu a mo spera e passou-lha ao de leve pela face, tocando-lhe nos lbios com um dedo trmulo. Durante um longo instante olhou-a nos olhos castanhos, como
se tentasse combater os seus impulsos uma ltima vez. Depois, rendeu-se a um desejo muito maior do que a razo e, com uma fora pouco habitual, puxou-a para si e
poisou a sua boca hmida na dela. Sofia susteve a respirao como se, de repente, tivesse mergulhado. Imaginara tantas vezes aquela cena, mas, mesmo assim, no conseguira
antecipar a leve sensao que lhe transformava o estmago em espuma e lhe causava uma dormncia nos membros. De certeza que aquele no era o beijo de Roberto Lobito,
cujos esforos pareciam agora muito artificiais, em comparao com o de Santi. Afastou-se para tomar flego, subitamente confusa pela rapidez febril das suas emoes.
Depois, reconheceu o desejo nos olhos dele e no bater do seu corao e ofereceu-lhe de novo os lbios. Nesse momento, apercebeu-se do significado da histria que
Santi lhe contara e teve conscincia de que existia verdadeiramente no presente, saboreando cada nova sensao. Com uma ternura que lhe fazia estremecer o estmago,
ele beijou-lhe as tmporas, os olhos e a testa, segurando-lhe entre as mos o pequeno rosto, acariciando-lhe a pele com dedos apaixonados. Sofia sentiu-se consumida
por ele, entre os seus braos, perdida no perfume embriagador da sua pele. Nenhum reparou nas pouco auspiciosas nuvens escuras que se juntavam sobre eles. Completamente
imersos um no outro, nem sentiram os primeiros pingos de chuva que, em breve, se transformaram num pesado dilvio que lhes caiu sobre o corpo quando procuraram abrigo
junto ao tronco de uma rvore.

CAPTULO DEZASSETE
Os dias seguintes passaram-se numa bruma abenoada de momentos ilcitos e roubados. A vida na fazenda seguia como era costume, mas, para Sofia e para Santi, todos
os instantes eram sagrados. Todos os momentos a ss eram dedicados a beijos apressados atrs de portas fechadas, de rvores e dos arbustos, na piscina quando tinham
a certeza de que no seriam descobertos. Para eles, nunca antes Santa Catalina tinha vibrado to intensamente bela e radiosa.
O casal desaparecia a cavalo pelos atalhos poeirentos para se deitarem  sombra do ombu e celebrarem a madrugada do seu amor com beijos ternos e suaves carcias.
A, Santi puxava do seu canivete e entretinham-se ambos durante horas, a gravar os seus nomes e mensagens secretas nos ramos verdes e tenros. Subindo o mais que
se atreviam no reino encantado da mais antiga rvore da Argentina, observavam o caleidoscpio dos pneis resfolegando e pastando pacificamente l em baixo nos campos
ridos. Capazes de avistar muitos quilmetros em redor, podiam detectar as idas e vindas dos gachos a cavalo, vagueando preguiosamente pelos atalhos ao longe,
vestidos com as tradicionais bombachas, botas de couro e cintos com moedas de prata. Ao fim da tarde, a sua altura favorita do dia, sentavam-se na erva perfumada
olhando o vasto horizonte e abandonavam-se indulgentes  melancolia do pr do Sol.
Tudo enchia Sofia de alegria. At a tarefa mais pequena e insignificante, como ajudar Soledad a espalhar as migalhas na relva para os pssaros, lhe dava prazer e
encantava, porque Santi a amava. Sentia que o corao explodiria com a paixo dominadora e embriagadora
211
que sentia por ele. Preocupava-se que as pessoas desconfiassem, porque j no andava, saltitava, j no falava, cantava, j no corria, danava. Todo o seu corpo
vibrava de amor. Compreendia por que razo as pessoas faziam tudo por amor. At matar.
Acima de tudo, a relao de Sofia com a me melhorou. Transformou-se numa pessoa nova, prestvel, atenta e abnegada.
- Se no soubesse que era impossvel, diria que a Sofia est apaixonada - disse a me uma manh ao pequeno-almoo, depois de a filha ter sido invulgarmente agradvel,
prestando-se a dar lies de ingls a Panchito.
- Ela est apaixonada, me - replicou Agustin displicente, mexendo o caf.
- Est? - exclamou Anna, alegremente. - E por quem?
- Por ela mesma - atalhou rapidamente Rafael.
- No sejas mau, Rafael. Ela at tem sido muito agradvel. No estragues tudo antagonizando-a.
O que lhe interessava muito mais que Sofia era a bela Jasmina, namorada de Rafael, cujo pai, o clebre Ignacio Pea, era o mais bem-sucedido advogado de Buenos Aires.
Vindo de uma famlia to ilustre, daria uma boa esposa para o filho, uma aquisio para a famlia de que Anna se poderia orgulhar. De facto, conhecera havia pouco
a me da jovem; a seora Pea era uma catlica devota e encontravam-se de vez em quando na igreja, quando passavam os fins-de-semana na cidade. Anna fizera uma nota
mental para ir  missa com mais frequncia. Se se tornasse amiga da Seora Pea seria certamente influente no futuro do filho.
- Por amor de Deus, Agustin! Mas o que estavas tu a fazer quando disseste  me que a Sofia est apaixonada? No tens juzo? - resmungou Rafael, depois de Anna se
ter levantado da mesa do pequeno-almoo.
- Alegra-te, Rafa. S lhe estava a dizer a verdade - protestou aquele.
- Por vezes  melhor mentir.
- Ora,  s uma paixoneta.
- Bem sabes como a me . Lembras-te da reaco dela quando o Joaco Santa Cruz se casou com uma prima direita?
212
- Ser difcil que a Sofia se case com o Santi. Pobre mida. Ele tenta apenas anim-la como o faria a um cachorrinho.
- Como queiras. Mas pensa melhor para a outra vez antes de abrires essa boca.
O caso amoroso de Sofia e Santi passou despercebido a quase todos na fazenda. Os que suspeitavam de alguma coisa, como Rafael e Agustin, atribuam-no a uma paixoneta
adolescente e achavam encantador. Nada havia de invulgar no tempo que passavam juntos. No faziam nada de extraordinrio. No entanto, entre ambos havia gestos e
olhares que tinham para ambos um significado secreto. Viviam num mundo de sonho, paralelo ao de todas as outras pessoas, mas diferente nas suas vibraes. Sentiam-se
como que a viver num plano idlico onde nada lhes podia tocar, muito menos danificar o seu amor. Viviam num presente precioso e nada mais importava.
Continuavam os jogos de plo e Sofia j no se importava tanto se participava neles ou no. J no passava tantas manhs com Jos, mas sim com Soledad, na cozinha,
fazendo bolos que depois levava orgulhosamente para o lanche em casa de Chiquita. Deixou de discutir com a me e pedia-lhe conselhos sobre maquilhagem e roupas.
Isto enchia Anna de felicidade, que se alegrava na certeza de que a filha deveria estar a tornar-se adulta. Deixou de haver banhos sem roupa ou despudoradas demonstraes
caprichosas, e at Paco que, de qualquer modo, nunca parecia reparar nestas coisas, admitia que a filha estava a mudar para melhor.
- Sofia - gritou Anna do quarto. Caa uma chuva pesada, constante e implacvel. Fechou a janela com uma careta e suspirou irritada ao reparar numa enorme poa de
gua no tapete. - Soledad! - gritou. Sofia e Soledad entraram ambas ao mesmo tempo.
- Soledad, por favor, limpa esta poa horrvel. Tens de fechar todas as janelas da casa quando chover assim. Meu Deus, olhando l para fora, dir-se-ia que o mundo
vai acabar - queixou-se. Soledad saiu em direco  cozinha para ir buscar um balde e uma esfregona. Sofia atirou-se para cima da cama da me com um frasco de verniz
cor-de-rosa.
213
- Gostas desta cor? - perguntou em ingls. A me sentou-se na cama para ver melhor.
- A minha me no gostava nada que eu usasse verniz. Dizia que era vulgar - recordou-se e sorriu melanclica.
- Claro que sim.  por isso que  sexy - disse Sofia a rir, abrindo o frasco e comeando a pintar as unhas.
- Valha-me Deus, mida, vai ficar um horror se pintares as unhas  pressa. Olha, d c. Pronto, no h nada como a mo firme de outra pessoa.
Sofia ficou a olhar, enquanto a me segurava a mo na dela e lhe pintava cuidadosamente as unhas. Nem se lembrava de quando fora a ltima vez que a me lhe dera
tanta ateno.
- Tenho um favor a pedir-te, Sofia - disse.
- O que ? - perguntou Sofia com alguma relutncia, esperando que no fosse alguma coisa que a afastasse de Santi.
- Bom, o Antonio vai chegar  aldeia, vindo de Buenos Aires no autocarro das quatro. Ser que podes pedir ao Santi que fizesse o favor de o ir buscar na carrinha?
Sei que  uma maada, mas o Rafa e o Agustin no podem ir.
- Oh, tudo bem. Ele no se importa. Podemos ir os dois. Mas o que foi o Antonio fazer a Buenos Aires? - perguntou naturalmente Sofia, tentando esconder o seu entusiasmo.
Podiam passar toda a tarde juntos no lago. S esperava que Maria no quisesse ir tambm.
- Coitado, teve de ir ao hospital. Foi a anca outra vez.
- Est bem - respondeu distraidamente. J se encontrava no lago com Santi.
- Obrigado, Sofia, s muito simptica. Eu no aguentava ir com esta chuva.
- Adoro a chuva! - disse ela a rir.
-  porque no cresceste com ela como eu.
- Tens saudades da Irlanda?
- No. Fiquei encantada quando vim e agora... bom, j c vivo h tanto tempo que no me sentiria integrada se voltasse para l. Seria ir para um pas estrangeiro.
- Eu teria saudades da Argentina - disse Sofia, erguendo uma mo para admirar as unhas.
214
- Claro que sim. Santa Catalina  um lugar muito especial e tu pertences a isto.  o teu lar - replicou a me, surpreendendo-se. Sempre se ressentira por a filha
se integrar to bem, enquanto para ela fora to difcil sentir-se aceite no seu pas de adopo. Olhou para o rosto radiante de Sofia e sentiu uma nova emoo. Orgulho.
- Bem sei. Adoro isto. Quem me dera no ter de voltar para Buenos Aires - suspirou.
- Todos fazemos coisas que no queremos, mas na maior parte das vezes  para nosso bem. Aprendemos isso quando nos tornamos adultos. - Anna sorriu e fechou a tampa
do pequeno frasco de verniz. - Pronto, pareces uma pssega do melhor - gracejou.
- Obrigada, mezinha - exclamou Sofia, encantada.
- No as borres j.
- Tenho de ir dar o recado ao Santi - anunciou Sofia, saltando da cama e desaparecendo no corredor, passando por Soledad, que vinha ofegante por ter subido as escadas,
carregando o balde e a esfregona para ir limpar a poa de gua.
Santi ficou encantado com a ideia de poder passar a tarde com Sofia. Pouco simpticos, decidiram no dizer nada a Maria. Esta brincava com Panchito na sala, junto
da me e da sua amiga Lia. Correndo pela chuva, chegaram ofegantes  carrinha, excitados e molhados at aos ossos. Saram da fazenda s duas e meia para poderem
passar algum tempo sozinhos antes que o enorme Antonio se sentasse entre eles, s quatro.
Lado a lado, seguiram pelo carreiro, sujando de lama os lados do veculo, enquanto saam do rancho. Santi ligou o rdio e ambos cantarolaram ao som de John Denver.
Sofia poisou-lhe a mo sobre o joelho hmido enquanto ele conduzia. Nenhum deles falou. Desfrutavam em silncio da companhia um do outro.
O pueblo estava deserto. Um carro ferrugento balanava na praa, diante deles, a um passo lento e irritante. As poucas lojas, como a drogaria e a mercearia, estavam
fechadas para a siesta. Viram um velho, com um chapu j muito gasto na cabea, sentado num banco, no meio da praa, como se no tivesse reparado que estava a chover.
At os ces tinham ido em busca de abrigo. Quando passaram pela Igreja de Nuestra Seora de la Asuncin, procuraram o grupo habi-
215
tual de beatas coscuvilheiras vestidas de preto, os corvos como o av O'Dwyer sempre lhes chamara, mas at elas se tinham abrigado do dilvio.
Atravessaram lentamente a aldeia. A estrada em redor da praa fora alcatroada uns anos antes, mas as outras continuavam a ser caminhos de terra batida. Logo a seguir
 praa, viram-se na estrada que corria junto ao lago. Encontrando um lugar abrigado debaixo das rvores, Santi parou o carro.
- Vamos sair para andar  chuva - sugeriu Sofia, descendo do carro. Deram as mos e riram-se, ao mesmo tempo que passavam do abrigo de uma rvore para o de outra,
quando no conseguiam aguentar a chuvada. Verificando que estavam completamente ss, pois no era fcil passarem despercebidos numa aldeia to pequena, principalmente
tratando-se dos Solanas, uma famlia que era muito conhecida da maioria dos habitantes, Santi empurrou Sofia contra uma rvore e beijou-lhe o pescoo. Depois afastou-se
e olhou para ela. Viu que tinha o cabelo encharcado, afastou-lho do rosto, revelan-do-lhe as faces rosadas e o alegre sorriso. A prima tinha uma boca grande e generosa
e ele adorava o modo como, num instante, ela conseguia transformar um amuo numa expresso de alegria. Era sempre convidativa, mesmo quando fremente de raiva. A chuva
pingava das folhas em gotas grandes e pesadas, mas foram bem-vindas, pois o ar estava espesso e hmido. Ele poisou-lhe as mos na cintura e puxou-a para si. A jovem
sentia a excitao de Santi atravs das calas de ganga.
- Quero fazer amor contigo, Chofi - disse ele, olhando-a firmemente.
- No podemos - respondeu ela, soltando uma gargalhada. - Agora no. - Ria-se para esconder o receio que lhe fazia tremer os lbios, e empalideceu. Desde o momento
em que, dois anos antes, se apercebera de que amava Santi, que quisera fazer amor com ele. Mas, agora, que ia de facto acontecer, sentia medo.
- No. Aqui no. Sei de um lugar - disse ele, tomando-lhe a mo e poisando nela os lbios hmidos sem deixar de lhe fitar os olhos ansiosos. - Vou ser meigo, Chofi.
Amo-te.
- Est bem - disse ela, baixando os olhos, nervosa com o que se iria passar.
216
Santi deu-lhe a mo e conduziu-a at um antigo e bolorento abrigo de barcos que se encontrava  beira do lago, por entre as longas ervas e arbustos onde as garas
e os colhereiros faziam os ninhos. Uma vez abrigados da chuva, atiraram-se para cima de sacas vazias e podres, rindo da sua ousadia. A luz entrava atravs das fendas
e dos buracos da madeira, lanando centelhas sobre um barco poeirento, que ali se encontrava abandonado, qual baleia chegada  praia e puxada para fora de gua.
Escutaram o tamborilar da chuva no telhado de zinco e respiraram o ar abafado, que cheirava a leo e a ervas adocicadas e podres. Sofia aconchegou-se a Santi, no
por estar com frio, mas por se sentir a tremer de to nervosa que estava.
- Vou fazer amor contigo muito, muito devagar, Chofi - disse Santi, beijando-lhe a testa que sabia a sal.
- No sei o que fazer - declarou ela em voz baixa. Santi sentiu-se comovido com o receio dela. Ali estava a rapariga que ele amava mais do que ningum, despida de
toda a petulncia e altivez, despida at ao seu doce mago. A Sofia que apenas ele conhecia.
- No precisas de saber o que fazer, meu amor. Eu vou amar-te e isso basta - replicou ele, num tom de voz profundo que a serenava, sorrindo-lhe afectuosamente. Para
lhe abrandar o receio, equilibrou-se sobre um cotovelo e passou-lhe a outra mo pelo rosto, acariciando-lhe com a ponta de um dedo os lbios trmulos. Ela sorriu
nervosa, embaraada pela silenciosa intimidade das aces de Santi e pela fora do seu olhar que a penetrava at  alma. Sofia no falou. No sabia o que dizer.
Curvou-se ao silncio, por respeito  magnitude do momento.
Depois, ele baixou os lbios e beijou-a com ternura nos olhos, no nariz, na testa e, por fim, na boca. Passou a lngua hmida no interior dos lbios dela, explorando-lhe
os dentes e as gengivas at encostar a boca  dela consumindo-a completamente. Ela respirou fundo, hesitante, quando a mo dele lhe passou por baixo da T-shirt e
sentiu um leve estremecimento do estmago e o erguer dos seios. Santi tirou-lhe a camisola e admirou-lhe o tronco nu, plido e trmulo,  luz hmida que penetrava
por entre as tbuas podres. Beijou-lhe o pescoo e os ombros, enquanto com os dedos lhe tocava os pelinhos aveludados da superfcie do ventre, os mamilos rgidos,
os rins que se
217
erguiam do cho em resposta ao seu toque. Tocou-lhe no seio com a lngua at que o prazer se transformou em dor noutro local longe da boca dele, entre as pernas
de Sofia. Todavia, ela no queria que ele parasse, era uma dor ao mesmo tempo terrivelmente desconfortvel e estranhamente agradvel.
Procurando-lhe os botes das calas de ganga, Santi abriu-os um a um e ela despiu-as, bem como s calcinhas brancas, ficando diante dele, tremendo na sua nudez.
Ele viu a expresso dela e acariciou-a. As faces de Sofia estavam vermelhas, brilhantes, e tinha as plpebras pesadas pelo acordar dos sentidos. Pairava subtilmente
 beira da feminilidade. Aquele frgil equilbrio entre a criana e a mulher dava-lhe uma rara beleza que lhe cintilava na pele como a luz dourada do Outono. Depois,
a mo dele desceu at ao local secreto que ela apenas tinha descoberto nas noites quentes em que o desejo de o ter a seu lado no lhe dera outro remdio seno explorar
a sua sexualidade, sozinha, na escurido. Depois imaginara que os seus dedos eram os dele. Mas os seus dedos no tinham sido, de modo algum, como os dele. No havia
passado de pobres substitutos para afastar a frustrao daqueles longos meses de espera. Agora, encontravam-na e ela soltou um profundo suspiro.
Durante algum tempo, perdeu-se no prazer. Santi viu as pequenas gotas de suor juntarem-se-lhe no vale entre os seus seios e na superfcie do seu orgulhoso nariz.
Fechara os olhos e abrira as pernas mesmo sem se dar conta. Incapaz de conter a tenso do seu prprio desejo, Santi sentou-se, despiu a T-shirt e as calas. Sofia
regressou desse local distante e abriu os olhos para observar a sua virilidade, de um modo diferente daquele dia na piscina, porque essa virilidade estava agora
acordada e impaciente. Santi colocou-lhe a mo sobre ela. Sofia no resistiu a examin-la com a curiosidade de um cientista, to-cando-lhe, passando-lhe a mo e maravilhando-se
com o seu peso.
- Ento  isto que conduz os homens? - perguntou, antes de a soltar ao acaso sobre o ventre dele. Santi soltou uma gargalhada. Abanou a cabea e pegou-lhe na mo
para lhe mostrar como a havia de acariciar. Depois meteu a mo no bolso das calas que tinha despido e retirou de l um quadrado de papel. Disse-lhe que era importante
tomarem precaues. No queria que ela engravidasse. Ela riu-se e ajudou-o a colocar o preservativo.
218
- Coitadinho, e se ele tem medo do escuro? - perguntou ela, pois a sua inexperincia apenas servia para dificultar a operao e no para a facilitar.
- s muito m aluna - queixou-se ele a rir, afastando-lhe as mos e tratando de tudo sozinho.
Sofia fechou os olhos, esperando que o seu corpo fosse penetrado por uma dor aguda, mas tal no aconteceu. Pelo contrrio, sentiu-o encher-se de uma sensao ardorosa
e ficar livre de toda a ansiedade. Agarrou-se a Santi e entregou-lhe a sua inocncia com o entusiasmo de uma recm-convertida. Santi fizera sexo inmeras vezes na
Amrica, mas com Sofia era a primeira vez que fazia amor.
Quando saram para a luz do dia, a chuva tinha parado e o sol atravessava as nuvens, fazendo o lago cintilar como prata polida.
- O Antonio! - Sofia recordou-se subitamente do objectivo da sua viagem. - No nos podemos esquecer de o ir buscar.
Santi olhou para o relgio; ainda tinham um quarto de hora. - Quero passar todos os minutos a beijar-te - disse ele, puxando-a de novo para os seus braos.
Assim que Sofia provou o fruto proibido, quis repetir. No foi fcil encontrarem locais resguardados na fazenda, longe dos gachos e da multido de primos e amigos,
mas, como dizia o av O'Dwyer, querer  poder e o incontrolvel desejo de Santi e Sofia encontraria gua no deserto.
Como estavam ainda nas longas frias de Vero, passavam todo o tempo na fazenda. Descobriram que, de dia, era quase impossvel fazerem amor, sem que o medo de serem
descobertos lhes estragasse o prazer. De vez em quando, durante a siesta, quando os adultos desapareciam na frescura dos seus quartos para dormirem depois das copiosas
quantidades de comida e vinho que haviam consumido ao almoo, conseguiam escapulir-se at ao quarto vazio que havia no sto da casa de Sofia, muito afastado do
quarto dos pais dela e raramente utilizado. A faziam amor no calor lnguido da tarde, por entre o perfume do jasmim e da erva cortada e o canto das vrias espcies
de pssaros que se reuniam l fora nas rvores, atrados pela promessa das migalhas de Soledad. Ou,  noite, fugiam dos seus quartos,
219
quando toda a fazenda dormia, e faziam amor debaixo do cu estrelado e do luar que tudo via.
Falavam do futuro - do seu futuro. Um futuro to inatingvel como as nuvens por cima deles. Mas nem um nem outro se preocupava com a possibilidade de os seus sonhos
serem apenas miragens, forjadas no rosado optimismo do amor. A vida de ambos, como marido e mulher em Santa Catalina, era um desejo impossvel. Mesmo assim, vagueavam
at s nuvens, sabendo que uma coisa era certa: amar-se-iam para sempre.

CAPTULO DEZOITO
No fim de Fevereiro, Sofia acordou sentindo-se enjoada. Talvez tivesse comido qualquer coisa estragada na noite anterior. Como  tarde j se sentia bem, esqueceu
o assunto at  manh seguinte, quando vomitou.
- No sei o que se passa comigo, Maria - queixou-se por cima da tigela em que misturava farinha e manteiga para o bolo de aniversrio de Panchito. - Agora sinto-me
bem, mas de manh parecia-me que ia morrer.
- Parecem-me enjoos matinais - troou Maria, piscando o olho  prima, sem reparar na sbita palidez que lhe subira ao rosto.
- Outra imaculada Conceio - replicou Sofia com um sorriso pouco firme. - Acho que sou pouco reverente.
- Ora, o que foi que comeste ontem  noite?
- E na noite anterior? - disse ela, tentando rir, quando o que lhe apetecia era chorar, pensando que talvez estivesse grvida. Havia cerca de seis semanas e meia
que faziam amor e Santi tivera sempre grande cuidado em usar proteco. Sofia sabia porque se tornara muito eficiente a colocar-lhe os preservativos. Tratou de esquecer
aquela ideia, certa de que estava a exagerar.
- Provavelmente foi o arroz-doce da Soledad - disse, j se sentindo bem.
- Fazem-te arroz-doce? - exclamou Maria, invejosa, untando as formas. - Encarnacin! - gritou. A velha criada apareceu, arrastando os ps, com um cesto de roupa
lavada.
- Si, Seorita Maria?
221
- Quanto tempo deixamos isto no forno?
- Pensei que a Seorita Sofia j fosse uma cozinheira profissional. Deixe isso no forno dez minutos e depois espreite. Se no estiver pronto, deixe mais dez. No,
no, Panchito - disse quando viu o menino entrar a correr na cozinha. - Venha comigo, v, d c a mo. Vamos ver se est um drago no terrao - e levou-o para o
sol.
- Drages? - perguntou Sofia.
- Lagartos. O Panchito pensa que so drages.
- Bom, se calhar so. Drages em ponto pequeno.
Maria viu Sofia lamber a tigela. Reparou que a prima tinha um ar cintilante. Prendera o cabelo no alto da cabea com um elstico e algumas madeixas tinham-se soltado,
rodeando-lhe o rosto e o pescoo, colando-se-lhe  pele com a transpirao. At com um avental gorduroso conseguia parecer maravilhosa.
- O que  que ests a olhar, gorda? - perguntou Sofia, sorrindo afectuosamente para a prima.
Maria devolveu-lhe o sorriso.
- Andas muito feliz agora, no  verdade? - perguntou.
- Sim. Porque estou a fazer bolos aqui na tua cozinha.
- Mas ds-te muito melhor com a tua me.
- Afinal, esse insecto pegajoso no  assim to mau.
- Sofia, ela  to bonita.
- Magra de mais - replicou irnica, oferecendo a tigela a Maria.
- Quem me dera ser magra de mais - lamentou Maria, resolvendo subitamente no ajudar a prima a lamber a tigela. Sofia colocou-a no lava-loia para que Encarnacin
a lavasse.
- Maria, ests ptima. No queiras ser magra de mais. s feminina, bonita, saudvel, bem-feita e maravilhosa. s uma mulher completa! - riram-se as duas.
- No sejas ridcula, Sofia.
- No, de verdade. Digo-te sempre a verdade. s muito bonita tal como s.
Maria sorriu agradecida.
- Para mim, tu s especial, Sofia - disse a prima com sinceridade.
222
- sa minha melhor amiga, Maria, tambm s especial para mim. - As duas primas abraaram-se, ambas divertidas e emocionadas por aquela sbita demonstrao de ternura.
- Vamos ento meter o bolo no forno? - perguntou Sofia, largando-a. Pegou na forma cheia da espessa mistura castanha e cheirou avidamente.
- Mmmm, cheira divinamente.
- Dios! Mete j isso no forno ou no vai estar pronto a tempo.
Chiquita convidara todos os amiguinhos de Panchito, das fazendas vizinhas, para um lanche surpresa. O sol da tarde dava ao terrao um tom rosado e quente, enquanto
as crianas corriam por ali com as faces sujas de chocolate e as mos peganhentas, seguidas pelos ces que lhes arrancavam da mo os bocados de bolo, sempre que
os apanhavam distrados.
Fernando, Rafael, Agustin, Sebastian, Angel e Niquito pararam ali uns instantes para comer uma fatia de bolo e bolachas antes de se dirigirem ao parque para irem
jogar  bola. Santi ficou um pouco mais. Observava Sofia enquanto esta conversava com a me e as tias  sombra de uma accia. Adorava os movimentos dramticos das
suas mos quando falava, o modo como erguia os olhos por baixo das espessas pestanas castanhas, como se fosse revelar qualquer coisa escandalosa, enquanto apenas
esperava o momento apropriado para conseguir uma reaco desejada. Santi percebia que ela se sabia observada, porque erguia os cantos da boca num sorriso hesitante.
Por fim, olhou-o. Ele pestanejou duas vezes, sem mudar de expresso. Sofia devolveu-lhe a mensagem e fez um sorriso to radiante que ele teve de a repreender com
o olhar. Ela permitiu-se acariciar-lhe a face e os lbios com os olhos. Santi voltou-lhe as costas, receando que algum pudesse notar, desejando que ela tivesse
tido o bom senso de fazer o mesmo. Mas quando se voltou, Sofia continuava a olh-lo, com a cabea inclinada e um sorriso melanclico. Maria atarefava-se a servir
sanduches e doces s crianas, cortava o bolo, apanhava os copos de sumo de laranja entornados e corria atrs dos ces quando estes vinham farejar e se aproximavam
da comida. Estava demasiado ocupada para reparar nos olhares ternos trocados entre o irmo e a prima.
223
Mais tarde, nessa mesma noite, Sofia e Santi sentaram-se num banco por baixo da varanda da casa dele. Deram-se secretamente as mos ao abrigo da escurido. Quando
ele lhe apertava a mo duas vezes tratava-se de uma mensagem, tal como o pestanejar. Significava amo-te. Por sua vez, ela apertou a dele. A famlia tinha ido para
a cama, a casa estava silenciosa, o ar mais fresco. O Outono aproximava-se, afastando as noites quentes e hmidas com o seu vento fresco e melanclico.
- Sinto o cheiro da mudana - disse Sofia, encostando-se a Santi.
- Odeio o fim do Vero.
- Oh, eu no me importo. Gosto das noites escuras diante do lume - disse ela e estremeceu.
Ele puxou-a para si e beijou-lhe ternamente a testa.
- Imagina o que no poderamos fazer diante da lareira da minha me - murmurou ele.
- Pois! Ests a ver? O Inverno no  assim to mau.
- Contigo, no. Nada  mau contigo, Chofi.
- Estou desejando passar um Inverno contigo e uma Primavera e outro Vero e envelhecer contigo - disse ela, sonhadora.
- Tambm eu - respondeu.
- Mesmo que eu fique loca como o av?
- Bem... - hesitou, abanando a cabea com ar de troa.
- Tenho muito sangue irlands - avisou-o ela.
- Bem sei,  por isso que estou preocupado.
- Amas-me porque sou diferente das outras pessoas. J me disseste! - Sofia riu-se e passou-lhe o nariz pelo queixo. Ele ergueu-lhe o rosto e fez-lhe uma festa na
face.
- Quem poderia no te amar? - suspirou e baixou os lbios para os dela. Sofia fechou os olhos e desfrutou da sensao familiar da boca dele e do seu cheiro picante
enquanto a beijava.
- Vamos para o ombu - sugeriu e ele sorriu-lhe com ar cmplice.
- E pensar que eras uma menina inocente h uns meses - declarou, beijando-lhe a ponta do nariz.
- E tu s um sedutor indigno - replicou ela.
224
- Ora, Chofi, porque  que a culpa  sempre minha? - gracejou.
- Porque tu s um homem e  cavalheiresco ficares com as culpas do meu mau comportamento. Tens de proteger a minha honra.
- A tua honra, ou o que sobra dela! - disse ele a rir.
- Ainda me sobra muita honra - protestou ela com um largo sorriso.
- Como pude ser to descuidado? Vamos imediatamente para o ombu para que eu me possa ver livre dela de uma vez por todas - disse ele e, dando-lhe a mo, desapareceram
na noite.
Na manh seguinte, Sofia acordou com a mesma nusea irritante das duas manhs anteriores. Correndo para a casa de banho meteu a cabea na sanita e vomitou todo o
jantar feito por Encarnacin. Depois de lavar os dentes correu para o quarto da me.
- Estou doente, me, estive a vomitar! - disse, dramaticamente, deixando-se cair sobre a enorme cama de Anna.
Anna colocou a mo na testa da filha e abanou a cabea.
- No me parece que tenhas febre, mas, mesmo assim, ser melhor chamar o doutor Higgins. Provavelmente trata-se de um vrus - e apressou-se a ir telefonar.
Sofia deixou-se ficar deitada na cama e, de repente, o terror invadiu-lhe o corao. E se estivesse grvida? No podia estar, pensou, pondo logo a ideia de lado.
Nunca tinham feito amor sem preservativo. Alm do mais, estava cientificamente provado que os preservativos eram noventa e nove por cento seguros. No, de modo algum,
no podia estar grvida. Mas o medo lanou uma sombra negra sobre a sua alma e, por muito que tentasse afastar a ideia, tremia perante a possibilidade de poder pertencer
a esse infeliz um por cento.
O Dr. Ignacio Higgins era o mdico da famlia Solanas h muitos anos e tratara de tudo, desde a apendicite de Rafael  varicela de Panchito. Sorriu para Sofia com
ar tranquilizador e depois de conversar com ela sobre as frias, comeou a examin-la. Fez-lhe perguntas, acenando compreensivamente a cada resposta dela. Quando
o seu rosto idoso e enrugado se franziu seriamente e o sorriso foi substitudo por uma expresso de profunda preocupao, Sofia sentiu o corao acelerado e vontade
de chorar.
225
- Oh, doutor Higgins, no me diga que  grave - implorou ela, com os olhos cor de avel cheios de lgrimas porque j sabia a resposta. Por que outra razo lhe teria
ele perguntado pelos perodos?
O Dr. Higgins tomou-lhe a mo na sua e, acariciando-a afectuosamente com o polegar, abanou a cabea.
- Receio bem, Sofia, que estejas grvida. - Sabia que ela era solteira. Como mdico da famlia depois de tantos anos, sabia tambm qual a reaco dos pais dela a
uma gravidez fora do casamento, principalmente de uma filha apenas com dezassete anos.
As palavras do mdico fizeram Sofia perder o flego e sentir o estmago vacilar como acontecia quando o carro descia uma lomba a toda a velocidade. O pai dizia-lhe
que ela tinha perdido a barriga. Quem lhe dera ter perdido a barriga. Deixou-se cair, aniquilada, nas almofadas. O maldito um por cento, pensou desanimada, vendo
aquelas longas tardes de amor desaparecerem num rodopio, como gua por um ralo.
- Grvida! Oh Dios, tem a certeza? Que vou eu fazer? - perguntou, sufocada, roendo uma unha. - O que vou eu fazer?
O Dr. Higgins fez os possveis para a consolar, mas ela no podia ser consolada. Via o seu futuro desaparecer num vazio negro diante dos seus olhos e nada podia
fazer para o trazer de volta.
- Tens de dizer  tua me - sugeriu, assim que ela se acalmou um pouco.
- A minha me? Deve estar a brincar, doutor - respondeu Sofia, empalidecendo. -J sabe como ela .
O mdico acenou compadecido. J se vira inmeras vezes naquela situao; jovens arrasadas pela semente que crescia nos seus corpos, quando um tal milagre da natureza
deveria ser celebrado. A sua familiaridade com a situao no lhe retirava a capacidade de se emocionar. Os seus olhos cinzentos enevoaram-se como os dias da Irlanda
dos seus antepassados e desejou poder reverter a gravidez com um comprimido.
- No podes tratar disto sozinha, Sofia, precisas do apoio dos teus pais - disse-lhe.
- Vo ficar furiosos... nunca me perdoaro. A minha me mata-me. No, no posso dizer-lhe - disse histericamente, a sua boca sorridente reduzida a um triste arco
que tremia, inconsolvel.
226
- Ento, o que podes fazer? Eles ho-de descobrir. No podes esconder uma criana a crescer dentro de ti.
Instintivamente, Sofia colocou a mo sobre o ventre e fechou os olhos. Tinha dentro de si o filho de Santi. Tinha dentro de si parte dele. Sem dvida que aquele
era o pior momento da sua vida, mas, no entanto, sentia uma espcie de calor. Receava pensar no que os pais fariam, mas no havia escolha: eles teriam de saber.
- Pode ser o doutor a dizer-lhes? - perguntou, timidamente. Ele acenou afirmativamente. Geralmente, era o que acontecia.
Aquela ingrata tarefa fazia parte de um dos muitos deveres do mdico e um dos mais tristes. Esperava que no culpassem o mensageiro, como tantos pais desesperados
costumavam fazer.
- No te preocupes, Sofia. Vai correr tudo bem - disse ele, bondosamente, levantando-se. Depois, voltando-se para ela, acrescentou: - No podes casar com esse homem,
minha querida? - Mas reconheceu de imediato a insensibilidade desta pergunta logo que acabou de a fazer, seno, porque pareceria ela to desgraada?
Sofia abanou a cabea, infeliz e, incapaz de responder, desfez-se em lgrimas. Temia a reaco da me. No fazia ideia do que iria fazer. Como poderia ter tido tanto
azar? Tinham feito tudo para se assegurar de que aquilo no aconteceria. Esperou aterrorizada. Tantas vezes tinha provocado a me para se divertir, faltando  escola,
escapando-se para uma discoteca, com um jovem, sem autorizao dela, mas tudo isso era insignificante e ridculo em comparao com este problema. Desta vez, a raiva
da me seria merecida e aterradora. Se ela descobrisse o que se passara com Santi, era capaz de os matar aos dois.
A porta abriu-se de rompante e a me entrou, com o rosto to branco como o de um Cristo num dos arrepiantes quadros de El Greco. Os seus lbios tremiam de fria
e Sofia leu-lhe a desiluso nos olhos.
- Como foste capaz? - gritou num estridente tom irlands, o rosto arroxeado de fria. - Como foste capaz? Depois de tudo o que fizemos por ti. O que vai pensar o
resto da famlia? Porque deixaste que tal coisa acontecesse? J  mau que tu... sem seres casada - gaguejou. - Mas ficar grvida! Estou muito desiludida contigo,
Sofia.
227
Deixou-se cair numa cadeira e baixou os olhos como se a revoltasse olhar para a filha cada em desgraa.
- Criei-te numa casa onde as leis de Deus so respeitadas. Espero que Ele te perdoe.
Sofia no respondeu. Ficaram ambas sentadas em silncio. O sangue desaparecera do rosto da me como o de um porco acabado de matar, e os seus olhos opacos dirigiram-se
 janela como se pudesse ver Deus nas plancies secas e no cu hmido. Abanou a cabea, desesperada.
- Onde foi que errmos? - perguntou torcendo as mos. - Mimmos-te em demasia? Bem sei que o teu av e o teu pai te tratavam como uma princesinha, mas eu no.
Sofia olhava para o padro da colcha, tentando perceber o que se estava a passar. A situao era surrealista de mais para ser levada a srio. Pura e simplesmente
no deveria estar a acontecer-lhe.
- Fui rigorosa de mais... foi isso, no foi? - continuou a me, infeliz. - Sim, fui rigorosa de mais e tu sentiste-te encurralada e foi por isso que tiveste de quebrar
todas as regras. A culpa  toda minha. O teu pai sempre me disse que fosse mais compreensiva, mas eu no conseguia. No queria que a famlia me acusasse de ser uma
m me, juntamente com tudo o resto...
Sofia no conseguia ouvir aquela lengalenga da me sem sentir um profundo desagrado. Se tivesse acontecido a Maria, Chiquita teria sido doce e compreensvel, desejaria
ajud-la e cuidar dela, mas Anna estava ali a culpar-se. Era tpico dos catlicos irlandeses - vestir uma tnica de serapilheira para se castigar. Sofia desejava
dizer-lhe que descesse da sua cruz, mas percebia que nesse momento no seria provavelmente a coisa mais sensata.
- Ento, quem  o pai? Quem ? Dios, quem poder ser? No tens visto praticamente ningum seno a famlia.
Sofia olhou-a terrivelmente ansiosa, enquanto Anna descobria por si prpria. A sua expresso transformou-se lentamente de auto-comiserao em desagrado e agitou-se
enojada.
- Oh, meu Deus,  o Santi, no  verdade? - disse sufocada, o seu brusco sotaque irlands mordendo com raiva a palavra Santi. - Tenho razo, no tenho? Meu Deus,
deveria ter percebido. Por-
228
que foi que no percebi? Vocs so nojentos. Como pode ele ter sido to irresponsvel? J  um homem... como te pode ter seduzido a ti, uma criana de dezassete
anos? - Depois comeou a soluar. Sofia olhou-a, impassvel, e pensou como ela era feia quando chorava.
- Devia ter adivinhado, devia ter reparado que vocs se esgueiravam como ladres com o vosso sujo segredo. No sei o que vamos fazer. A criana ser provavelmente
deficiente mental porque vocs so parentes muito prximos. Como pudeste ser to desleal? Tenho de dizer j ao teu pai. No saias deste quarto at eu voltar!
E Sofia ouviu a porta bater atrs dela. Queria desesperadamente correr para Santi para lhe contar, mas, pela primeira vez, no teve foras para desobedecer  me.
Ficou ali, imvel,  espera do pai.
Como estavam no meio da semana, o pai tinha de vir de Buenos Aires. Anna no lhe podia dizer pelo telefone do que se tratava, de modo que ele teve de esperar ansioso,
com o estmago s voltas de preocupao, at chegar a Santa Catalina. Anna informou-o imediatamente e sentaram-se a discutir a situao durante duas horas. Depois
de uma cansativa batalha, Paco teve de ceder  mulher, que conseguira convenc-lo de que a criana seria deficiente mental. Sofia teria de interromper a gravidez.
Quando ele finalmente entrou no quarto da filha, viu-a a dormir, enrolada numa bola sobre a cama. Sentiu o corao partido ao aproximar-se dela. Aos seus olhos ela
era ainda a sua menina.
Sentado na beira da cama, passou-lhe ternamente a mo pelos cabelos hmidos.
- Sofia - murmurou. Quando abriu os olhos, o pai olhava-a com tanto amor que ela lhe lanou os braos ao pescoo e chorou abraada a ele como uma criana.
- Desculpa, paizinho, desculpa - soluou, tremendo de vergonha e de medo. Ele abraou-a com fora e embalou-a, embalando-se tambm a si prprio, para aliviar a sua
dor e a dela.
- Pronto, Sofia. No estou zangado. No estou zangado. Est tudo bem, vai ficar tudo bem.
Sofia sentia-se mais tranquila nos braos do pai. Com uma profunda sensao de alvio passava-lhe toda a responsabilidade.
- Eu amo-o, paizinho.
229
- Bem sei. Mas Sofia, ele  teu primo.
- Mas no h nenhuma lei contra o casamento dos primos direitos.
- No  isso. Vivemos num mundo muito pequeno e, no nosso mundo, o casamento entre primos direitos  visto como o casamento entre irmos.  vergonhoso. No te podes
casar com o Santi. Alm do mais s muito nova. Trata-se de uma simples paixoneta.
- No  isso paizinho. Amo-o.
- Sofia - disse ele, gravemente, abanando a cabea. - No te podes casar com o Santi.
- A me detesta-me - lamentou-se. - Sempre me detestou.
- Ela no te detesta... est desapontada, Sofia, e eu tambm. Mas eu e a tua me discutimos o assunto demoradamente. Vamos fazer o que for melhor para ti, podes
ter a certeza.
- Desculpa, paizinho - repetiu a chorar.
Sofia entrou timidamente na sala onde os pais a esperavam para a informar da deciso que haviam tomado. Sentou-se no sof de cretone com os olhos baixos. Anna estava
sentada muito direita, junto  janela, com as pernas cruzadas e tensas sob o vestido comprido. Estava plida e macilenta. Paco tinha um ar preocupado e andava impaciente
de um lado para o outro da sala. Parecia mais velho e mais grisalho. As portas do corredor e da sala estavam firmemente fechadas. Rafael e Agustin, ansiosos por
saber a razo daquela atmosfera gelada, receberam ordens para desaparecer. Por isso, tinham-se dirigido com relutncia para casa de Chiquita, para ver televiso
com Fernando e Santi.
- Sofia, a tua me e eu decidimos que simplesmente no podes ficar com a criana - comeou o pai, gravemente. Sofia engoliu em seco e ia falar, mas ele silenciou-a
com um gesto da mo. - Irs para a Europa nos prximos dias. Assim que tiveres... - hesitou, lutando contra a ideia de que o aborto lhe pesaria na conscincia, sendo,
como era, contra a sua religio e princpios. - Quando estiveres bem, estudars l em vez de ires para a Universidade de Buenos Aires como estava pensado. Isto dar-te-,
a ti e ao Santi, tempo para ultrapassarem essa paixoneta. Depois podes voltar para casa. Ningum deve
230
saber disto, compreendes? Ser o nosso segredo - ocultou-lhe deliberadamente a informao de que ficaria com os primos Antoine e a mulher em Lausana, para que no
houvesse a possibilidade de Santi descobrir e de a seguir at l.
- No trars a vergonha ao nome da nossa famlia - acrescentou severamente a me, pensando em como aquele tipo de escndalo teria influncia nas perspectivas futuras
dos seus filhos. Recordou amargamente os momentos felizes que passara com a filha e a crescente sensao de orgulho que a invadira. Esses momentos tornavam a sua
desiluso ainda mais grave.
- Querem que eu faa um aborto? - repetiu lentamente Sofia. Poisara a mo sobre o ventre e quando baixou os olhos viu que estava a tremer.
- A tua me... - comeou Paco.
- Pois, ento  a me! - disse voltando-se rancorosamente para a me. - Sabe que h-de ir para o inferno por causa disto! Diz ser uma boa catlica. Para onde foram
os seus princpios? Nem posso acreditar na sua hipocrisia. Transforma a sua religio numa farsa.
- No fales assim com a tua me, Sofia - disse o pai num tom que raramente o tinha ouvido usar. Olhou primeiro para um e depois para o outro como se fossem estranhos.
J no os conhecia.
- A criana seria deficiente, Sofia. No  justo trazer uma criana assim ao mundo - replicou a me com calma forada. Baixou a voz e acrescentou com um sorriso
fraco: -  para teu prprio bem, Sofia.
- No vou abortar - disse ela, teimosa. - O meu filho no vai ser deficiente. Esto simplesmente preocupados com a reputao da famlia. No tem nada a ver com a
sade do meu filho. Pensam que ningum vai saber? Que engraado! - Riu-se, despeitada.
- Sofia, ests zangada, mas a seu tempo hs-de compreender.
- Nunca vos hei-de perdoar por isto - disse, cruzando defensivamente os braos.
- Estamos apenas a pensar em ti. s nossa filha, Sofia, e amamos-te. Confia em mim - pediu o pai.
- Pensei que podia - disse ela, lacnica.
Os abortos eram para as prostitutas. Eram sujos e perigosos. Que diria o padre Julio se descobrisse? Seria eternamente amaldioada
231
e iria para o Inferno? Desejou de sbito ter ouvido os seus sermes em vez de pensar em sexo com Santi. Pensando que a religio era para os espritos fracos que
precisavam de direco espiritual, como So-ledad, ou para fanticos como a me, que a usava apenas quando lhe convinha, temia agora que de facto existisse um Deus
e que ele a castigasse pelo que ela fizera. Enquanto sonhava, a religio invadira-lhe o subconsciente, unicamente para vir  superfcie e a atormentar na altura
em que mais precisava de conforto.
- Tenho de me despedir de Santi - disse, por fim, olhando para as tbuas do cho de madeira.
- No creio que o possamos permitir, Sofia - replicou friamente a me.
- No sei porque no, me. J estou grvida.
- Sofia, no fales assim comigo. Isto no d vontade de rir.  muito, muito srio. No podes ver ningum antes de partires - disse em tom resoluto, alisando com
as mos a saia do vestido.
- Paizinho, no  justo. Que mal pode fazer falar com o Santi? - implorou, erguendo-se do sof. O pai pensou no assunto durante uns instantes. Dirigiu-se  janela
e olhou para a pampa como se o vasto horizonte lhe desse uma resposta. No conseguia olhar para a filha. Os seus remorsos eram demasiado grandes. Sabia que se devia
opor  mulher, mas tambm sabia que, se o fizesse, a perderia para sempre. As coisas corriam agora muito melhor. Sabia que o problema no era, afinal, o caso de
Sofia, mas sim o seu, em 1956. Ele e Sofia tinham trado a confiana de Anna. Sabia que era nisso que a mulher pensava; conseguia ler a dor nos seus olhos. Tudo
tinha a ver com os incmodos sentimentos de isolamento de Anna. Mas no tinha escolha, devia concordar.
- Julgo que a tua me tem razo, Sofia - disse por fim sem se voltar. - Amanh de manh vais com o Jacinto para Buenos Aires. Porque no vais j fazer a mala? Vais
estar uns tempos fora...
Sofia ouviu-lhe a voz entrecortada, mas no sentiu pena.
- No vou sem me despedir de Santi - gritou com o rosto vermelho de frustrao. - Nenhum de vs est a pensar em mim, mas sim no estpido nome e na reputao da
vossa famlia. Como podem pr isso acima do amor que sentem pela vossa prpria filha? Odeio-
232
-vos, odeio-vos aos dois! - saiu a correr da sala e foi para o terrao. No parou enquanto no se viu entre as rvores. Encostou-se ao tronco de uma e chorou, pensando
na injustia do mundo. Depois, olhando para a sua querida Santa Catalina sentiu apenas dio.
Voltando para a cozinha, ouviu os pais a discutir na sala. A me soluava e gritava em ingls para o pai. No ficou  escuta.
- Soledad - sussurrou.
A criada ergueu os olhos do que estava a cozinhar e viu Sofia, chorosa,  porta.
- Que se passa, que se passa? - perguntou na sua voz suave enquanto corria a abraar a jovem que sempre fora uma filha para ela. Apertou-a contra si, embora Sofia
fosse agora mais alta do que ela.
- Oh, Soledad, estou metida num sarilho to grande. Fazes-me um favor? - Os olhos, mortios at ali, cintilavam agora com o entusiasmo de um plano. Correu para o
aparador e pegando num lpis rabiscou uma breve nota.
- Entrega isto ao Santi assim que puderes. No digas a ningum, no mostres a ningum, percebes?
Emocionada por se ver envolvida num segredo, Soledad piscou o olho e meteu o bilhete na algibeira do avental sujo.
- Vou imediatamente, Seorita Sofia. No se preocupe, o Seor Santiago ter esta carta nas mos num instante. - Depois saiu da cozinha a correr.
Quando Rafael e Agustin chegaram a casa de Chiquita disseram aos primos com grande emoo que Sofia estava de novo metida em sarilhos.
- H semanas que isto era de prever - disse Agustin, rindo  socapa.
- Isso no  verdade - respondeu Maria. - Ainda h poucos dias a tua me dizia que se davam muito bem. No sejas mau.
- Quanto tempo acham que vai durar? - perguntou Santi, pouco  vontade.
233
- Pouco. Conhecendo a Sofia como conhecemos vai despachar o caso sem problemas - disse Rafael, ligando a televiso e deixando-se cair no sof. - Maria, s um anjo
e arranja-me uma bebida.
- Est bem - suspirou ela. - O que queres?
- Uma cerveja.
- Uma cerveja... mais algum quer alguma coisa?
Santi deixou-se ficar junto  janela a olhar para fora, mas via apenas a sua imagem reflectida a olhar para si. Todos se sentaram diante da televiso, mas ele nada
via. Meia hora depois, sem conseguir esperar mais, saiu de casa, muito apressado. Atravessava o terrao quando viu Soledad, corada e a transpirar, dirigindo-se a
ele, atravs das rvores.
- Soledad, o que ests a fazer? - perguntou-lhe quando ela chegou junto dele. Sentiu-se pouco  vontade.
- Gracias a Dios, gradas a Dios - disse ela, benzendo-se agitada. -  uma carta da Seorita Sofia... disse-me que lha desse a si e a mais ningum.  segredo, compreende?
Ela est muito aflita, muito aflita. A chorar. Tenho de ir ter com ela - limpou nervosamente a testa com um leno branco.
- Que se passa com ela? - perguntou, intuindo a gravidade da situao.
- No sei, Seor Santiago. No sei nada. Est na carta. - E antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, Soledad desapareceu por entre as rvores como um fantasma.
Uma vez na varanda, abriu o bilhete. Vai ter comigo ao ombu  meia-noite, era tudo o que dizia.

CAPTULO DEZANOVE
Havia muito que Sofia deixara de chorar. Deitada na cama, esperava com a pacincia de quem se resignou ao seu destino. O tempo passava lentamente, mas ela sabia
que a meia-noite acabaria por chegar. Via os arbustos balanarem ao vento com um efeito estranhamente hipntico que lhe minorava a dor.
Por fim levantou-se, pegou na lanterna da cozinha e fugiu, como uma prisioneira de guerra. Rastejou como um puma com passos silenciosos atravs da escurido, at
chegar ao ombu. Com o corao apertado, apressou-se a atravessar o parque como se disso dependesse a sua vida. A sua resoluo era forte, mas sentia-se enfraquecida
perante aquele inevitvel destino. Parecia-lhe estar a representar numa pea trgica da escola e, embora o drama a atrasse, no conseguia reconciliar-se com a sua
realidade.
O caminho at  rvore pareceu-lhe muito mais longo do que o habitual. Apressou o passo. Ao aproximar-se do ombu, reparou na pequena luz amarelada da lanterna de
Santi, danando no ar como um pirilampo gigante. O primo andava, impaciente, de um lado para o outro.
- Santi! - exclamou sufocada, caindo-lhe nos braos. - Eles sabem, Santi, vo mandar-me embora. - Gaguejava, receando no ter tempo suficiente para lhe contar tudo
antes de serem descobertos.
- O qu? Quem sabe? Como? - perguntou ele, confuso. Apercebera-se que havia qualquer coisa de errado no tom urgente do bilhete, mas nunca esperara tal coisa.
- Acalma-te. Ningum nos vai descobrir aqui. Est tudo bem - disse ele, tentando mostrar-se forte, mas sentindo-se j subjugado pela fora do destino.
235
- No, no est. Vo mandar-me para a Sua... vo mandar-me embora. Odeio-os.
- Como souberam?
Sofia ia contar-lhe, no seu modo habitualmente impulsivo, que estava grvida, mas conteve-se. Os pais tinham sido muito especficos. Receava que, se contasse a Santi,
ele no fosse capaz de guardar segredo. Provavelmente entraria pela casa dos tios como um cowboy, com as pistolas fumegantes, e exigiria os seus direitos de pai
da criana. Nem imaginava o que os pais poderiam fazer. Segundo a lei, ainda tinha de lhes obedecer. Podiam mand-la embora e impedi-la de regressar. Enquanto estivesse
na Argentina estava  merc deles. No, resolveu, no lhe podia contar. Escrever-lhe-ia de Genebra quando os pais estivessem longe, assim no podiam fazer nada.
Por isso, esforando-se por combater o desejo que sentia de lhe contar o seu desgosto, resignou-se a carregar a verdade sozinha.
- Eles sabem - repetiu. - Esto furiosos. Vo mandar-me embora, para que eu te esquea - soluou tristemente, procurando os olhos dele na escurido para poder confirmar
o seu afecto. Porm, nada mais via seno dois buracos na noite.
- Mas, Chofi, deixa-me falar com eles. No podem mandar-te embora. No vou ficar sem fazer nada e deixar que te mandem embora! - murmurou ferozmente, decidido a
combater contra as foras que os tentavam separar.
- Oh, quem me dera que o conseguisses, mas eles no te vo ouvir. Esto to zangados contigo como comigo. Nem podes acreditar nas coisas que a minha me me disse.
Acho que est encantada por se ver livre de mim.
- No vou deixar que te afastem de mim. Que vou fazer sem ti? No posso passar sem ti, Sofia! - sussurrou, a sua voz um grito suplicante na escurido.
- Oh! Santi, aceita. Tem de ser.
- Isto  ridculo - exclamou, zangado. - No tm provas. Como podem estar to certos? Quem nos viu?
- No sei. No me disseram - disse ela, envergonhada por conseguir mentir com tanta facilidade.
- Vou contigo - disse ele, entusiasmado. - Parto contigo. Vamos comear uma vida nova longe daqui. Sejamos honestos, teria-
236
mos de o fazer mais tarde ou mais cedo. Aqui no h futuro para ns.
- Deixavas Santa Catalina por mim? - perguntou ela, sufocada pela ferocidade daquela dedicao.
- Sim, deixava. J antes deixei. Mas desta vez no volto - disse com gravidade.
- No podes - suspirou ela, abanando a cabea. - Amas a Argentina tal como eu. Nunca poderias partir para no voltar. Alm do mais, os teus pais ficariam desolados.
- Estamos nisto juntos, Chofi. No vou deixar que arques com toda a culpa. Por amor de Deus, para o amor so precisas duas pessoas. Deixa-me ento ser expulso contigo.
- Mas, e os teus pais? - perguntou ela, imaginando a imensa dor de Chiquita.
- Eu fao o que quero. No preciso da autorizao dos meus pais para sair do pas.
- Eu preciso dos meus para isso - disse Sofia, infeliz.
- Muito bem. Aceita o plano dos teus pais. Eu depois vou ter contigo - disse ele, segurando-a nos braos com tanta fora que Sofia estremeceu.
- Santi... desistirias mesmo de tudo por mim?
- Por ti fao qualquer coisa, Chofi.
- Mas o teu futuro est aqui. Se vieres comigo, como poderemos voltar alguma vez? No podes desafiar a tua famlia, se no estiveres preparado para a abandonar para
sempre.
- Ento abandono-a para sempre. Amo-te. No compreendes que o meu futuro  contigo? No s uma paixo passageira, Chofi. s a minha vida. - E enquanto pronunciava
estas palavras apercebia-se de que realmente era ela a fora que o conduzia. Fora preciso uma situao daquelas para ele se aperceber da profundidade do seu amor,
do muito que dela necessitava. Sem ela, tudo aquilo de que gostava em Santa Catalina se desintegraria como um corpo privado do flego que o sustm. Ela era a fora
vital que tudo alimentava. Sabia-o agora com a mesma certeza com que sabia que no a ia perder.
- Muito bem, se ests a falar a srio, ento vamos fazer um plano - disse ela, sentindo o corao voltar  vida. - Assim que che-
237
gar  Sua escrevo-te e digo-te onde estou. Depois podes ir. - Ambos sorriram com a simplicidade do seu plano.
- Tudo bem, mas mesmo assim podem tentar interceptar-nos as cartas. Temos de estar preparados para tudo. Olha, vou confiar na Maria... podes escrever as cartas para
ela - sugeriu Santi.
- No - disse Sofia, imediatamente. Mas depois continuou mais calma. - S podemos confiar em ns prprios. Arranjo outra pessoa para escrever a morada... mando-as
de outro pas se for preciso. No podero intercept-las para sempre, pois no?
- Amo-te - murmurou ele. E embora ela no pudesse ver a expresso dos olhos de Santi, sentia as suas emoes como se fossem vibraes fosforescentes irradiando de
cada poro, envolvendo-a como tentculos quentes, atraindo-a a si.
- E eu tambm te amo - soluou, caindo sobre ele e beijando-o. Agarraram-se um ao outro, receando que, uma vez apartados, nunca mais se encontrassem. Choraram em
silncio durante muito tempo; apenas o constante cantar dos grilos enchia o vazio que os devorava.
- Vamos pedir um desejo - disse ele, por fim, afastando-se dela e metendo a mo no bolso.
- Qual?
- Quero desejar que, um dia, possamos ficar juntos, talvez quando formos muito mais velhos, para comearmos a nossa vida juntos, mas aceites como casal.
- No acreditas em desejos - disse ela, rindo amargamente.
-  um ltimo recurso, Sofia, experimento tudo.
- Que seja ento pelo resto das nossas vidas. Vamos gravar os nossos nomes - murmurou ela. - Um S de Santi e um S de Sofia.
Levantaram-se e pegaram ambos no canivete, as mos grandes e rudes de Santi cobrindo as dela. Sofia reparou que as dele tremiam. Quando acabaram ergueram a lanterna
sobre as iniciais e formularam um desejo.
- No me esquecers, pois no? - perguntou ele com voz rouca, junto ao pescoo de Sofia; esta aspirou o aroma habitual da pele dele e fechou os olhos, desejando
que aquele precioso momento durasse um pouco mais.
238
- Oh, Santi, espera por mim. No vai ser por muito tempo, por favor, espera por mim. Eu escrevo, prometo. No desistas de mim
- soluou, esforando-se para, na escurido, se poder aperceber de todos os pormenores do rosto dele para o recordar mais tarde, quando estivesse a milhares de quilmetros
de distncia.
- Chofi, h tantas coisas que eu queria dizer-te e que deveria ter-te dito antes. Vamos fugir daqui e casar - depois riu-se, a medo.
- No ser o momento exacto, mas se no te pedir, vou lament-lo para o resto da vida. Queres casar comigo?
Ela sorriu como uma me que no quer contrariar um filho.
- Sim, Santi. Caso contigo - disse tristemente e beijou-lhe o rosto ansioso, perguntando a si prpria se tal coisa seria possvel com tudo o que tinham contra eles.
- No te esqueas de escrever - pediu ele.
- Prometo.
- Bueno, minha querida, at que nos voltemos a ver. E havemos de nos voltar a ver, por isso, no fiquemos tristes.
Depois de se abraarem mais uma vez, regressaram s suas casas em silncio, os coraes a palpitar na crena de que acabariam por se reunir.

CAPTULO VINTE
De repente, Sofia desaparecera. Maria correu para casa dos primos em busca de uma explicao, quando a me lhe deu as novidades. A tia parecia cansada e tinha os
olhos vermelhos. Explicou-lhe que Sofia fora visitar uns amigos na Europa antes de ir estudar numa escola de aperfeioamento. Estaria fora durante algum tempo. Tivera
maus resultados nos estudos por causa das suas inmeras distraces em Buenos Aires, por isso fora mandada embora, de castigo. Anna pediu desculpas por no lhe ter
dado tempo para se despedir. Fora uma deciso de ltima hora.
Claro que Maria no acreditou.
- Posso escrever-lhe? - perguntou chorosa.
- Acho melhor no, Maria. Ela precisa de estar afastada de tudo o que a possa distrair. Lamento - respondera Anna, dando por encerrada a conversa, apertando os lbios
plidos e saindo da sala. Quando Maria reparou que a me deixara de tomar ch no terrao com a tia, apercebeu-se de que alguma coisa se passara entre as duas famlias.
No fim-de-semana, aps Sofia ter inexplicavelmente desaparecido do rancho, Paco deu um enorme passeio a cavalo com o irmo Miguel para lhe contar o que se passava.
Era de manh cedo, a erva comprida cintilava  luz plida e, de vez em quando, uma viscacha saltava sonolenta pela plancie. Paco e Anna tinham decidido no revelar
que Sofia estava grvida. No se podiam arriscar a que semelhante escndalo sasse  luz do dia. Por isso, Paco disse ao irmo que Sofia e Santi se tinham apaixonado
e iniciado uma relao de carcter sexual.
240
Miguel ficou abismado. Sentiu-se humilhado por o filho ter descido tanto. No era assim to mau que dois primos se apaixonassem - essas coisas aconteciam! Mas terem
relaes sexuais era irresponsvel e imperdovel. Culpava o filho.  mais velho e deveria saber como so estas coisas, declarou.
Quando regressaram, umas horas mais tarde, Miguel estava plido de raiva. Dirigiu-se a casa e confrontou imediatamente o filho.
- Isto deve ficar dentro das paredes desta casa, percebes? - vociferou com os punhos cerrados de fria.
Chiquita debulhou-se em lgrimas quando soube. Percebeu as repercusses que aquilo poderia ter para a famlia - que poderia haver uma ruptura na sua relao com
Anna. Sentia-se culpada por ter sido o filho a cometer a ofensa e, ao mesmo tempo, desesperadamente triste por Santi, embora no concordasse com a relao.
Miguel e Chiquita sabiam que Sofia estava em Genebra com os primos e haviam concordado com Paco e Anna que aquilo deveria ser mantido em segredo para que os dois
jovens esquecessem a sua paixo. Precisavam de algum tempo sem contactar um com o outro. Assegurar-se-iam de que Santi no escreveria a Sofia. Apesar das suas splicas,
ocultaram-lhe o paradeiro da prima.
Anna estava to perturbada que se afastou completamente. Ocupava-se em casa e no jardim e recusava-se a ver quem quer que fosse. Sentia-se extremamente envergonhada
e agradecia a Deus que Hector no fosse vivo para presenciar a sua humilhao. Paco disse-lhe com meiguice que a vida tinha de continuar e que ela no se poderia
esconder para sempre. Mas as palavras do marido s conduziam a discusses, que terminavam com Anna desfeita em lgrimas e recusando-se a falar com ele.
Umas semanas depois, resolveu-se a escrever a Sofia num tom calmo, explicando-lhe porque a tinha mandado para a Europa. No vai ser por muito tempo, minha querida,
poders voltar a Santa Catalina e toda esta confuso estar esquecida, escreveu afectuosamente, porque sentia remorsos. Depois de lhe enviar trs cartas, Sofia continuava
sem responder. A me no compreendia. Paco tambm lhe escreveu; a diferena foi que ele continuou a escrever-lhe muito depois de a mulher ter desistido. Se ela
no responde, que posso eu fazer? No vou
241
continuar a gastar tinta. Em breve estar de volta, disse Anna, zangada. Os meses passavam e no havia resposta, nem sequer para Paco.
Chiquita tentara falar com Anna, mas esta deveria t-la visto e retirou-se para dentro de casa. Telefonara algumas vezes, mas Anna recusara-se a falar com ela. S
depois de Chiquita lhe ter escrito uma carta a implorar que conversassem sobre o assunto  que Anna cedeu e permitiu que a cunhada a visitasse. A princpio, a atmosfera
estava pesada. Sentaram-se uma diante da outra, rgidas, como que preparadas para um feroz confronto, mas, como se tudo fosse normal, falaram de coisas triviais,
como o novo uniforme da escola de Panchito, apesar de se vigiarem cautelosamente e com olhares glidos. Foram incapazes de sustentar a charada por muito tempo. Por
fim, Chiquita desalentada, comeou a chorar.
- Oh, Anna, lamento muito. A culpa  toda minha - fungou, estendendo  cunhada os seus braos solcitos. Anna limpou uma lgrima da face.
- Tambm lamento. Bem sei que Sofia pode ser uma peste. A culpa  dos dois - disse ela, desejando poder deitar todas as culpas para Santi, mas sabendo que Sofia
tambm tinha parte nelas.
- Devia ter-me apercebido... devia ter-me apercebido - culpava-se Chiquita. - No vi nada de mal em que passassem tanto tempo juntos. Sempre o tinham feito. Como
haveramos de saber que estavam a ser irresponsveis?
- Bem sei, mas o importante  que Sofia passe uns anos longe daqui, sem contactar com ningum. Quando voltar j ter esquecido tudo.
- Provavelmente sentem-se idiotas - disse Chiquita, esperanosa. - So muito jovens.  uma paixo de adolescentes.
Anna endireitou-se.
- O comportamento deles no foi de adolescentes, Chiquita. O acto fsico do amor est muito longe do amor adolescente... no nos esqueamos - disse friamente.
- Tens razo, claro. No se trata de uma coisa sem importncia - concordou Chiquita, timidamente.
-  o Santi que tem experincia sexual, no a Sofia que, apesar de todos os seus pecados, ainda era virgem e assim se teria mantido
242
at  noite de npcias. Deus tenha piedade dela. - Anna suspirou melodramticamente. - Agora, o marido ter de a aceitar como ela . Mercadoria usada.
Chiquita teve vontade de dizer  cunhada que estavam nos anos setenta. Que o sexo era visto de maneira diferente do tempo delas. Os anos sessenta tinham assistido
a uma monumental revoluo sexual. Mas, segundo Anna, essa revoluo acontecera na Europa e no chegara  Argentina. As mulheres europeias podem reduzir-se ao nvel
de vulgar galdrias, dissera uma vez, severamente. Mas a minha filha ser uma senhora na sua noite de npcias.
- De facto,  o Santi que tem experincia sexual. Tambm  homem e eu aceito completamente essa responsabilidade. As minhas desculpas nunca sero suficientes, acho
que ele deve vir pedi-las pessoalmente - disse Chiquita, disposta a fazer o que fosse preciso para reparar aquelas frgeis relaes.
- Neste momento no quero ver o Santi, Chiquita - replicou Anna em tom gelado. - Deves compreender que tenho os nervos em franja. Ainda no consigo enfrentar o sedutor
da minha filha.
O lbio inferior de Chiquita estremeceu e ela cerrou os dentes para evitar defender violentamente o filho. Mas manteve-se calada, para fazer as pazes com Anna.
- Sofremos ambas, Anna - acedeu diplomaticamente. - Vamos sofrer juntas, para no nos magoarmos uma  outra com acusaes. O que est feito est feito e no podemos
voltar atrs, embora, de boa vontade, eu fizesse tudo para o poder fazer.
- Sim, eu tambm - replicou Anna, pensando na vida que fora desperdiada. - Que Deus me perdoe - disse em voz to baixa que parecia vir-lhe do fundo da garganta.
Chiquita franziu a testa. Anna quase sussurrara aquelas palavras, e a cunhada no tinha a certeza se ela quisera que algum as escutasse. Sorriu e baixou os olhos.
Pelo menos tinham sido capazes de falar, mas a conversa fora difcil. Quando Chiquita regressou a casa, deitou-se na cama e caiu num sono atormentado. Podiam ter
aberto as linhas de comunicao, mas sabia que passariam anos para que a relao de ambas voltasse ao normal.
Disseram a Agustin e a Rafael que Sofia se tinha apaixonado pelo primo e que fora mandada para o estrangeiro para o esquecer. O pai
243
pouca importncia quisera dar ao assunto, mas os irmos sabiam que deveria ser grave. Para que a irm tivesse sido mandada para a Europa teria de ser mais do que
uma simples paixoneta. Para defender a irm, Rafael confrontou-se com Santi e acusou-o de ser irresponsvel. Era mais velho, tinha vivido no estrangeiro e no deveria
t-la encorajado. Ela pouco mais era que uma criana. Santi arruinara-lhe o futuro.
- Quando ela voltar, no te quero por perto, percebes?
Claro que no sabia que ela no tencionava regressar e que Santi se preparava para partir e ir ter com ela assim que recebesse notcias.
Agustin desfrutou com o escndalo. Adorava intrigas e maledicncia e gostava de se deitar na relva analisando a situao com os primos Angel, Sebastian e Niquito.
Aproximava-se de Santi, na esperana de que este se abrisse e lhe contasse pormenores do caso. Teria sido um caso? Teriam realmente dormido juntos? O que tinham
dito os pais dele? Que faria ele quando Sofia regressasse? Amava-a? Mas, para grande desapontamento seu, Santi nada lhe revelava.
Fernando ficara encantado por ver o irmo em apuros. Tinha finalmente cado do seu pedestal e a queda era mais que satisfatria. J no era o heri dourado. De facto,
Fernando no se poderia sentir mais feliz, pois Sofia sempre o irritara, imiscuindo-se nos seus jogos de plo, passeando com Santi, desprezando ambos toda a gente.
Bem o mereciam. Matavam-se dois coelhos com uma cajadada. Sentia-se meio metro mais alto.
Por muito que quisesse esconder o seu desgosto, a dor de Santi transparecia no seu rosto. Coxeava mais. A noite, chorava sozinho e esperava ansiosamente por uma
carta para poder ir ter com Sofia. Precisava que ela o tranquilizasse, dizendo que ainda o queria, agora que estava longe. Queria tambm tranquiliz-la, dizendo
que esperava por ela. Que a amava.
Quando, por fim, Maria descobriu que a prima e o irmo tinham sido amantes, gritou para a me:
- Como pudeste no me dizer, mezinha? Tive de saber pela Encarnacin! Fui a ltima pessoa a saber. No confias em mim?
Furiosa com os tios, evitava-os. Acusava o irmo de ter metido a amiga numa situao to terrvel e esperava por uma carta a pedir
244
desculpa por no se ter despedido e por no ter confiado nela. Estava espantada por no ter suspeitado de nada, mas quando reflectiu sobre as frias de Vero, recordou-se
tristemente de que fora sempre a parte rejeitada naquela relao. Santi e Sofia, muitas vezes, tinham-na abandonado, deixando-a a brincar com Panchito enquanto partiam
a cavalo ou se esgueiravam para ir jogar tnis sem ela. Tinha-se habituado quilo de tal forma, que nem sequer reparara. Sentira-se sempre grata por ser includa
e aceitara resignadamente a excluso. No a surpreendeu no ter reparado. Ningum reparara.
Sofia fora sempre desleal, mas Maria nunca pensara poder ser vtima dos esquemas da prima. Recordou-se da discusso, uns anos antes, quando Sofia lhe confessara
estar apaixonada por Santi. Talvez se a tivesse escutado e tentado compreender, Sofia tivesse confiado nela. Resignara-se ao facto de que era, em parte, por culpa
sua que a prima lho tinha escondido. Mas ainda se sentia zangada e ciumenta, e nenhum desses sentimentos diminuiu durante as semanas em que esperou por uma carta.
Um ms depois, quando, por fim, chegou uma carta  casa de Buenos Aires, no era dirigida a Maria, mas sim a Santi. Este andava pelo vestbulo todas as manhs com
a tristeza de um urso enjaulado, na esperana de ver um fino envelope azul que o livrasse da sua desolao.
Miguel dera instrues a Chiquita que examinasse a correspondncia e que retirasse as cartas que pudessem ser de Sofia antes que Santi tivesse oportunidade de as
ver. Mas o corao de Chiquita enternecia-se ao ver o filho afogar-se cada vez mais no seu mundo solitrio e, assim, comeara deliberadamente a deix-las na mesa
o tempo necessrio, antes de descer as escadas para fazer o que o marido ordenara.
Santi sentia-se grato  me, mas nunca falavam do assunto. Ambos fingiam no perceber. Todas as manhs, ele examinava as cartas, a maior parte dirigidas ao pai,
e a esperana abandonava-o com cada uma que punha de lado. O que Santi e Chiquita no sabiam era que tambm Maria examinava todas as manhs o correio na entrada
do prdio, quando saa para a universidade, antes que o porteiro o fosse levar ao apartamento.
245
Quando Maria viu a carta, pegou nela e observou a caligrafia. No era a de Sofia e fora enviada de Frana, mas era certamente da prima. Quem mais conheceria ele
em Frana? Tratava-se certamente de uma carta de amor, escrita e metida no correio de modo a impedir que os outros descobrissem. Mais uma vez, a punham de lado.
Sentiu-se como se tivesse acabado de levar uma bofetada. A dor invadia-lhe a garganta e sentiu que o ar lhe faltava. Estava demasiado furiosa para chorar. O cime
apoderou-se dela e consumiu-a at desejar gritar a injustia de tudo aquilo. No tinha sido uma boa amiga para Sofia? Como podia ela voltar-lhe as costas com tanta
indiferena? Afinal, no era a sua melhor amiga? Isso no contava?
Maria esgueirou-se para o quarto com a carta e fechou a porta  chave. Tirou os sapatos e sentou-se na cama, aconchegando os ps. Demorou algum tempo a examinar
o envelope, perguntando a si prpria o que fazer. Sabia que deveria entreg-lo a Santi, mas estava to zangada, que a fria a cegava. No os ia deixar sarem-se
com a sua. Queria que sofressem como ela sofria. Abriu o envelope, retirou a carta e reconheceu imediatamente a caligrafia enroscada da prima. Leu a primeira linha.
Para o meu amor, dizia. Sem ler o resto, voltou a folha para confirmar que estava assinada por Sofia. Assim era. O meu corao bate de ansiedade na espera que em
breve estejas aqui comigo. Sem essa promessa, no creio sequer que batesse. Depois tinha assinado simplesmente: Chofi.
Ento, pensou Maria, amargamente, o Santi vai ter com ela. No se pode ir embora, disse para consigo, enfurecida, no se pode ir tambm embora. Os dois no.
Significa que pensam fugir e nunca mais voltar. O que pensariam os pais? Morreriam de desgosto. No posso deixar que uma coisa dessas acontea. Santi vai lament-lo
para o resto da vida. Nunca mais poder regressar  Argentina. Nenhum deles. O corao de Maria batia mais acelerado, enquanto preparava um plano. Se queimasse
a carta, Sofia acreditaria que ele tinha mudado de ideias. Suportaria os trs anos na Europa; nessa altura, j teria esquecido aquela paixoneta e voltaria, como
estava planeado. Enquanto, se Santi fosse agora ter com ela, nenhum dos dois voltaria. E Maria no podia aguentar perder os dois.
Maria escreveu a morada de Sofia na sua agenda, de trs para diante, para o caso de Santi vir espreitar, e meteu a carta no envelope.
246
No leu o resto. No conseguia torturar-se com os pormenores daquele amor, nem sequer para satisfazer a sua curiosidade. Dirigiu-se solenemente  varanda com uma
caixa de fsforos. Pegou fogo ao envelope e deixou-o arder num vaso de flores at nada mais restar dele do que um pequeno monte de cinzas brancas que ela enterrou
com os dedos. Depois, deixou-se cair no cho, com a cabea entre as mos e deixou correr livremente as lgrimas. Sabia que no deveria ter queimado a carta, mas,
no fim, todos lhe agradeceriam. No o fazia s por si ou por eles, mas tambm pelos pais, que ficariam com o corao partido se Santi os deixasse para sempre.
Odiava Sofia, tinha saudades dela, desejava t-la ao p de si. Sentia a falta dos seus amuos, da sua petulncia, do seu esprito aguado e humor irreverente. Sentiu-se
magoada e trada. Tinham crescido juntas e partilhado tudo. Sofia sempre fora egosta, mas nunca antes tinha posto a amiga de parte. Nunca o fizera. No conseguia
compreender por que razo Sofia no lhe escrevera. Sentia-se desprezada, sentia que no se interessavam por si. Ficava doente s de pensar que fora apenas um cachorrinho
leal, seguindo Sofia para todo o lado, sem que ela a apreciasse. Pois bem, agora j veria. Sofia havia de sofrer tanto como ela. Saberia o que era ser tratada como
uma coisa sem importncia. Mais tarde, quando reflectiu no que tinha feito, sentiu uns remorsos terrveis e jurou nunca contar nada a ningum. Logo que olhava para
o seu reflexo no espelho no se reconhecia.
Quando, pouco tempo depois, chegou outra carta, Maria sentiu o estmago apertado de culpa. Escondeu-a apressadamente no fundo do saco e, mais tarde, condenou-a ao
fogo, tal como a primeira. Depois, passou a revistar o correio todas as manhs com a astcia de um ladro profissional. Oprimida pelos seus erros anteriores, teria
sido incapaz de se deter, mesmo que quisesse.
Os fins-de-semana no eram os mesmos depois de Sofia ter partido. Restava um amargo resduo de animosidade entre as famlias que ameaava destruir a to apreciada
unidade. O Vero afastava-se  medida que o Inverno se aproximava. O ar cheirava pesadamente a folhas queimadas e a terra hmida. O ambiente da fazenda era melanclico.
As famlias retiravam-se para a sua intimidade. O asado de domingo desapareceu com a chuva e, em breve, o cho queimado
247
onde se fazia o churrasco nada mais era do que uma poa de gua lamacenta, simbolizando o final de uma era.
A medida que as semanas se transformavam em meses, Santi andava cada vez mais desesperado, aguardando qualquer comunicao de Sofia. Perguntava a si prprio se no
estariam a impedi-la de lhe escrever, sem dvida como parte da estratgia para se esquecer dele. A me lamentava-o, mas mostrava-se realista. Tinha de continuar
com a sua vida, dizia, e esquecer Sofia. Havia muitas outras raparigas. O pai dissera-lhe que deixasse de andar a chorar pelos cantos. Fora ele que se metera em
sarilhos.
- Acontece a todos em determinada poca da vida. O que h a fazer  olhar em frente. Enfronha-te nos estudos, mais tarde ficars contente, se o tiveres feito.
Era bvio que estavam os dois profundamente desapontados com ele, mas no valia a pena fazer sofrer mais o rapaz. J o castigmos o suficiente, diziam.
Sofia enchia todos os seus momentos quer estivesse mergulhado num sono atormentado, quer galopando furiosamente pela plancie. Passava todos os fins-de-semana na
fazenda, repetindo os passos de ambos, passando nostlgicamente a mo sobre o smbolo que tinham gravado no tronco do ombu. Torturava-se, recordando-a, depois deixava-se
cair como uma criana e chorava at perder as foras para soluar.
Em Julho desse ano, Juan Domingo Pern, presidente da Repblica da Argentina, morreu depois de oito meses de governo, que se seguiram ao seu regresso do exlio,
em Outubro do ano anterior. Amado ou detestado, Pern estivera sob os olhares do mundo durante trinta anos. O seu corpo no foi embalsamado e teve um funeral simples,
segundo as suas prprias instrues. A sua segunda mulher, Isabel, tornou-se presidente e o pas entrou numa espiral de declnio. Pouco dotada intelectualmente,
confiava no seu maquiavlico conselheiro, ex-polcia e astrlogo Jos Lopez Rega, alcunhado El Mago, que afirmava poder ressuscitar os mortos e falar com o Arcanjo
Gabriel. Murmurava at os discursos de Isabel ao mesmo tempo que ela os fazia, declarando que as palavras vinham directa-
248
mente da boca de Pern. Mas o sangue jorrava no pas e nem Isabel nem Lopez Rega conseguiam cont-lo. As guerrilhas revoltavam-se e eram confrontadas pelos esquadres
da morte de El Mago. Paco previu que no faltaria muito tempo para que a presidente fosse deposta.
- No passa de uma bailarina de clube nocturno, no sei o que est a fazer na poltica. Deveria limitar-se quilo que sabe - resmungava.
Tinha razo. Em Maro de 1976, os militares depuseram Isabel com um golpe de Estado e puseram-na em priso domiciliria. Com o general Videla  frente, lanaram
uma guerra selvagem contra todos os que se lhe opunham. As pessoas suspeitas de subverso ou actividades contra o Governo eram presas, torturadas e mortas. Tinha
comeado o Grande Terror.

CAPTULO VINTE E UM
Genebra, 1974
Sofia estava sentada num banco junto ao lago de Genebra. Os seus olhos, fixos algures entre as montanhas longnquas, estavam vermelhos de chorar. Estava muito frio,
embora a cor do cu fosse um magnfico azul de miostis. Aconchegou-se no casaco de pele de carneiro e no gorro de l da prima. Dominique dissera-lhe para comer.
Que pensaria Santi se ela voltasse para a Argentina como uma triste verso da mulher de quem se despedira? Mas no lhe apetecia comer. Comeria quando ele respondesse
s suas cartas.
Sofia chegara a Genebra no princpio de Maro. Era a primeira vez que ia  Europa. Ficou imediatamente espantada pelas diferenas entre o seu pas e a Sua. Genebra
era uma cidade meticulosamente limpa, as ruas estavam impecveis e tranquilas, brilhavam os caixilhos metlicos das montras das lojas e o interior destas era luxuosamente
decorado e perfumado. Os carros eram brilhantes e modernos e as casas livres do tipo de marcas que uma histria turbulenta conferira aos edifcios de Buenos Aires.
Todavia, apesar de tanta ordem e brilho, Sofia sentia a falta da louca exuberncia da sua cidade natal. Em Genebra, os restaurantes fechavam s onze, enquanto, em
Buenos Aires, era a essa hora que se animavam e assim continuavam at de madrugada. Tinha saudades da actividade, dos ruidosos cafs, das festas de rua e dos divertimentos,
do cheiro a gasleo, do caramelo queimado e do rudo do ladrar dos ces e das crianas aos gritos, tudo
250
coisas que faziam parte da atmosfera das ruas de Buenos Aires. Na sua opinio, Genebra era silenciosa. Educada, cosmopolita, culta, mas silenciosa.
Sofia no conhecia os primos do pai, Antoine e a mulher Dominique, embora tivesse ouvido, bem como a me, falar deles. Antoine era primo em segundo grau de Paco,
e Sofia sabia tudo a respeito dele pelas histrias do pai acerca dos tempos de Londres, quando tinham andado a desfrutar dessa cidade como dois ces numa caada,
e Anna dissera  filha que vivera com o casal em Kensington durante os tempos de noivado. Sofia parecia recordar-se de que Anna no se afeioara muito a Dominique
- achara-a um pouco excessiva, embora nunca explicasse o que queria dizer com isso. Dominique nunca gostara de Anna, reconhecera nela uma oportunista, mas encantou-se
com Sofia assim que lhe ps os olhos em cima. To parecida com o Paco, pensou satisfeita.
Para grande alvio de Sofia, Antoine e Dominique eram, afinal, o casal mais encantador que j conhecera. Antoine era enorme e falava ingls com um forte sotaque
francs. A princpio, pensou que o primo a quisesse apenas fazer rir, porque, quando chegou, bem precisava que a animassem. Mas a sua maneira de falar era genuna,
e ele gostou que a jovem se tivesse alegrado um pouco.
Dominique era uma mulher na casa dos quarenta, curvilnea, com um rosto cndido e generoso e grandes olhos azuis que abria muito quando mostrava interesse nalguma
coisa. Atava o cabelo louro e comprido (cuja cor de boa vontade confessava no ser natural) num rabo-de-cavalo preso com lenos s bolas. Sempre lenos s bolas.
Dominique contou a Sofia que conhecera Antoine graas a um leno s bolas que ele lhe tinha estendido da fila atrs da dela na Opera de Paris. Antoine reparara que
ela limpava as lgrimas  manga do vestido de seda. A partir desse momento, passou a usar sempre um leno s bolas para comemorar um dia to importante.
Dominique era alta e vistosa, no s pela maneira como ria, pois parecia um enorme pssaro extico, mas tambm na maneira como se vestia. Usava sempre calas largas
de cores vivas e blusas compridas que comprava numa loja extravagante, chamada Arabesque, na Motcomb Street em Londres. Em cada dedo usava um anel cintilante.
251
- ptimo para dar uns socos quando  preciso - dissera, e depois contara a Sofia que, uma vez, tinha arrancado os dentes postios da boca nojenta de um asqueroso
exibicionista na estao de metro de Knightsbridge.
- Fosse ele bem dotado e eu ter-lhe-ia apertado a mo - gracejou. - Londres  uma cidade estranha, foi o nico stio onde os exibicionistas me mostraram os seus
dotes ou onde fui ameaada. E sempre no metro - acrescentou irnica. - Uma vez, um homem, outro homenzinho nojento que mal me chegava ao umbigo, olhou para mim com
olhos lvidos e disse Vou foder-te. Ento eu baixei o nariz para ele e disse-lhe em voz firme que, se o fizesse e eu descobrisse, ficaria muito, muito aborrecida.
Ele ficou to surpreendido que saltou do comboio na estao seguinte, como um gato escaldado. - Dominique adorava ser extravagante.
Sofia ficou encantada com a sombra violeta e azul brilhante que usava para realar a cor dos olhos. De que serve usar cores naturais? A natureza faz o mesmo efeito,
respondera ela a rir, quando Sofia lhe perguntara por que razo escolhia cores vivas. Fumava com uma longa boquilha, como a da princesa Margarida, e pintava as unhas
com verniz vermelho-sangue. Era confiante, obstinada e atrevida. Sofia compreendia perfeitamente por que razo a me no gostara dela, j que tinham sido aquelas
as qualidades que Sofia imediatamente apreciou. Sofia e Anna raramente concordavam com o que quer que fosse.
Antoine e Dominique viviam no opulento esplendor de uma enorme casa branca no Quay de Cologny, sobranceira ao lago. Enquanto Antoine passava longas horas a trabalhar
em finanas, a mulher escrevia livros. Sexo e crime, replicou com um sorriso, quando Sofia lhe perguntou sobre que escrevia. Deu-lhe um para a animar. Chamava-se
A Suspeita Nua e era extremamente mau; at Sofia, com a sua inexperincia em boa literatura, se apercebeu. Mas vendia bem, e a prima andava constantemente ocupada
a autografar exemplares e a dar entrevistas. O casal tinha dois filhos adolescentes - Delfine e Louis.
Sofia confiara em Dominique, a partir do momento em que esta compreendera a sua situao.
252
- Sabes, cbrie, h muitos anos, tive um caso escaldante com um italiano. Amava-o de todo o corao, mas os meus pais acharam que ele no servia para mim. Tinha
uma pequena loja de cabedais em Florena. Nessa poca eu vivia em Paris. Os meus pais mandaram-me para Florena para estudar arte e no homens... mas digo-te, cbrie,
que aprendi mais sobre a Itlia com o Giovanni do que numa sala de aula - soltou uma gargalhada rouca. - E, olha, agora nem me lembro de qual era o seu segundo nome.
Foi h tanto tempo! O que estou a tentar dizer-te, cbrie,  que sei como te sentes. Chorei durante um ms.
Sofia j tinha chorado durante mais de um ms. Deitara-se na colcha branca de damasco de Dominique, numa tarde de chuva, e contara-lhe tudo, desde que Santi regressara
a casa no Vero at que se despedira dela debaixo do ombu. Perdera-se nas suas recordaes e Dominique encostara-se s almofadas, fumando sem parar, es-cutando-lhe
atentamente todas as palavras. No poupara os pormenores e descrevera as relaes entre ambos sem sequer corar. Lera os romances de Dominique, por isso sabia que
pouco a poderia chocar.
Dominique apoiou Sofia logo desde o princpio. No compreendia por que razo Paco e Anna no os deixavam casar e ter o filho. Se fosse me de Sofia no os teria
impedido. Havia mais qualquer coisa e culpava Anna.
- No me parece uma coisa que Paco se dispusesse a fazer - disse Antoine quando a mulher lhe repetiu toda a histria de Sofia.
Depois, discutiram o caso da criana. Sofia estava decidida a t-la.
- Na carta que escrevi a Santi, falei-lhe do beb. Sei que ele haveria de querer que eu o tivesse. Seria um pai adorvel. Vou lev-lo de volta para a Argentina.
Nessa altura, j no podero fazer nada. Seremos uma famlia e pronto.
Dominique concordara. Claro que Sofia no deveria abortar. Seria um segredo at Sofia estar preparada para dizer  famlia.
- Podes c ficar enquanto quiseres - dissera. - Sers mais uma filha para mim.
A princpio, fora muito emocionante. Sofia escrevera a Santi assim que chegara, e Dominique preenchera o envelope com todo o seu
253
entusiasmo. Dominique levara-a ento s compras,  Rue de Rive, para celebrar e para lhe comprar roupa  ltima moda europeia.
- Usa isto enquanto podes. Dentro de pouco tempo j no cabes l dentro - dissera a rir.
Nos fins-de-semana tinham ido fazer esqui em Verbier, onde Antoine tinha um belo chal de madeira, aninhado na encosta, sobranceiro ao vale. Louis e Delphine trouxeram
os amigos e a casa encheu-se de risos e jogos diante das chamas da enorme lareira. Tinham enviado a carta do outro lado da fronteira com todo o ritual, satisfeitas
porque ningum desconfiaria de um carimbo de Frana. Sofia sentia tantas saudades de Santi que imaginava que ele receberia a carta e lhe responderia imediatamente.
Calcularam o tempo que ele levaria a responder e o tempo que a carta demoraria a chegar s suas mos. Esperava ansiosamente a sua chegada. Quando as duas semanas
que tinham calculado se transformaram num ms e depois em dois, a disposio de Sofia definhou at no ser capaz de comer ou dormir e andar cansada e plida.
Sofia preenchia os seus dias com os vrios cursos que Dominique lhe tinha arranjado. Francs, arte, msica, pintura. Temos de te manter ocupada para que no sintas
muitas saudades de casa, nem penses demais no Santi, dissera a prima.
Sofia deixara-se absorver, porque as aulas lhe ofereciam uma espcie de alvio espiritual. A msica que escolhia para tocar no piano de Dominique era desesperante,
os quadros que pintava eram escuros e melanclicos, e desfazia-se em lgrimas diante da beleza etrea, quando estudava os quadros do Renascimento italiano. Enquanto
esperava pela carta de Santi ou pela sua presena, sentia-se segura de que ele apareceria de surpresa  sua porta e usava a arte como expresso da sua tristeza e
desespero. Escrevera-lhe uma e outra vez, para o caso de ele no ter recebido a primeira carta, mas, mesmo assim, nem uma palavra chegara da parte dele.
Olhou para o lago a pensar que talvez Santi estivesse intimidado com a gravidez. Talvez no quisesse saber. Talvez pensasse que seria melhor para todos se a esquecesse
e seguisse a sua vida. E Maria? Tambm a teria esquecido? Sofia quisera escrever-lhe; de facto, comeara at algumas cartas, mas amarrotara o papel e atirara-o para
254
o lume. Sentia-se envergonhada; no sabia o que dizer. Sofia olhava em seu redor, para as frgeis florinhas que espreitavam por entre a neve que derretia. A Primavera
aproximava-se e ela tinha uma criana a crescer dentro de si, por isso deveria sentir-se feliz. Mas sentia a falta de Santa Catalina, dos quentes dias de Vero e
das suas hmidas siestas no sto onde ningum os descobrira.
Quando regressou a casa, Dominique acenava-lhe freneticamente com um envelope azul na mo. Sofia subiu a estrada a correr, sentindo a sua prostrao desaparecer.
De sbito, o ar limpo encheu-lhe os pulmes e saboreou o gosto da Primavera. Dominique sorria, com os dentes muito brancos a brilhar junto aos lbios escarlates.
- At estive tentada a abri-la! Despacha-te! O que diz? - perguntou impaciente e entusiasmada. Por fim, o jovem tinha escrito. Sofia voltaria a sorrir.
Sofia agarrou na carta e olhou para a caligrafia do envelope.
- Oh - disse, desapontada. -  da Maria. Mas talvez ela tenha escrito em vez dele, porque o devem ter proibido de me escrever. - Abriu o envelope. Passou os olhos
pela caligrafia floreada.
- Oh, no - gemeu e desatou a chorar.
- Que se passa, chrie, que diz a carta? - perguntou Dominique assustada.
Sofia deixou-se cair no sof enquanto Dominique lia a carta.
- Quem  a Mxima Marguiles? - perguntou, zangada.
- No sei - soluou Sofia, com o corao partido. - A Maria diz que ele anda com a Mxima Marguiles. Como pode ser... j?
- Acreditas na tua prima?
- Claro que acredito. Era a minha melhor amiga... depois do Santi.
- Talvez ele ande com outra pessoa para mostrar  famlia que j no quer saber de ti. Talvez esteja a representar.
Sofia ergueu a cabea.
- Acha que sim?
- Ele  inteligente, no  verdade?
- Sim, e eu andei com o Roberto Lobito pela mesma razo - disse ela, alegrando-se.
- Roberto Lobito?
255
- Isso  outra histria - replicou, acenando com a mo, sem querer ser distrada da conversa acerca de Santi.
- Contaste  Maria o teu caso com o Santi? - perguntou Dominique. Sofia sentiu o estmago apertado de remorso. Deveria ter contado a Maria.
- No. Era o nosso segredo, no contei a ningum. No podia contar a ningum. Sempre contei tudo  minha prima... mas desta vez... no podia.
- Ento, achas que a Maria no sabe - disse firmemente Dominique.
- No sei - respondeu Sofia, agitada, roendo uma unha. - No, no pode saber, porque se soubesse no desejaria magoar-me falando-me dessa Mxima. E tambm falaria
do meu caso com Santi na carta. ramos muito amigas, creio que no sabe.
- Bom, e o Santi certamente no teria confiado nela, pois no?
- No. Tem razo.
- Muito bem, eu se fosse a ti, esperava por uma carta do Santi.
E Sofia esperou. Os dias alongaram-se at ao Vero, o sol derreteu a neve e os agricultores deixaram as vacas sair dos estbulos para pastar livremente por entre
as flores da montanha e a erva comprida. Em Maio, Sofia estava grvida de quatro meses. Tinha o ventre arredondado, mas estava magra e macilenta. O mdico de Dominique
disse-lhe que, se no comesse, prejudicaria a criana, por isso obrigava-se a ingerir alimentos saudveis e a beber muita gua e sumos de fruta. Dominique estava
constantemente preocupada com ela, rezando para que Santi escrevesse. Maldito! A carta no chegava. Muito depois de Dominique perder a esperana, Sofia continuava
a manter a sua. Sentava-se horas a fio no banco, olhando para o lago, vendo o Inverno transformar-se em Primavera, a Primavera florir no Vero e, por fim, o Vero
expirar no Outono. Sentiu morrer uma parte de si. A sua esperana.
S mais tarde, quando conseguiu ver as coisas de um modo menos emocional e foi capaz de raciocinar mais objectivamente, lhe ocorreu que, se Maria sabia onde ela
estava, ento Santi tambm o saberia. Apercebeu-se de que facilmente lhe poderia ter escrito, mas no o fizera. Trara-a por uma qualquer razo. Tomara a deciso
256
consciente de no comunicar com ela. Sofia tentou consolar-se justificando a traio dele com vrias razes que poderiam no ter dado outra possibilidade ao desesperadamente
apaixonado Santi, seno desistir dela.
No dia 2 de Outubro de 1974, Sofia deu  luz um menino saudvel. Chorou quando o ps ao peito e o viu mamar. Tinha o cabelo escuro como o dela e olhos azuis. Dominique
disse-lhe que todos os bebs nasciam com os olhos azuis. Depois, ficaro verdes como os do pai, disse Sofia. Ou castanhos como os da me, acrescentou Dominique.
O parto fora difcil. Sofia gritara com a dor que lhe dilacerava o ventre. Apertando a mo de Dominique at lhe esgotar o sangue, chamava por Santi. Nos momentos
intensos em que o esforo d lugar ao alvio e por fim  alegria, Sofia sentira o corao vazio, tal como o ventre. Santi j no a amava, e o afastamento daquele
amor lanava uma sombra sobre a sua alma. Sabia que no tinha perdido apenas um amante, mas o nico amigo que tinha neste mundo. Afundou-se ainda mais no seu desespero.
O encanto que sentiu ao pegar no filho pela primeira vez encheu-lhe o vazio que Santi deixara nela. Acariciou-lhe a face manchada, fez-lhe uma festa no cabelinho
de anjo e aspirou o seu odor quente. Enquanto o alimentava, brincava com a mozinha que possessivamente agarrava a sua, recusando-se a solt-la, mesmo quando adormecia.
Precisava dela. Sofia sentia um prazer enorme em v-lo encher de leite o pequeno estmago. Leite que lhe manteria a vida e o faria crescer. Enquanto ele mamava,
ela sentia uma sensao estranha e deliciosa apertar-lhe o ventre. Quando o beb chorava, ela sentia-o nos msculos do peito ainda antes de o ouvir. Ia chamar-lhe
Santi-guito, porque se Santi ali estivesse, seria assim que haveria de querer - pequeno Santiago.
Depois da alegria inicial de amar um beb acabado de nascer, a viso de Sofia obscureceu-se de novo e o seu futuro nada parecia ter que a animasse. Foi ento que
sofreu uma crise de confiana. Sentia-se consumida por um pnico gelado, que parecia retirar-lhe todo o ar dos pulmes e tornar-lhe difcil respirar. No era capaz
de olhar
257
sozinha pelo beb; no sabia como, sem Santi, sem Soledad. Quando abria a boca para chorar saa apenas um grito longo e silencioso. Estava sozinha no mundo e no
sabia enfrentar essa situao.
Sofia pensava muitas vezes em Maria. Desejava partilhar a sua tristeza com a amiga, mas no sabia como fazer. Sentia-se culpada. Se Maria soubesse, e Sofia quase
tinha a certeza de que a prima sabia, sentir-se-ia trada. Tinha a certeza, porque no chegaram mais cartas. Sofia sentia-se completamente separada de tudo o que
lhe era familiar. Por muito que tentasse gostar de Genebra, para ela a cidade representava apenas dor. Sempre que espreitava pelas janelas do hospital para as montanhas
a cintilarem ao longe, pensava no que tinha perdido. Tinha perdido o afecto de Santi e de Maria, perdera a sua amada casa e tudo o que lhe era prximo, tudo o que
a fazia ser amada e segura. Sentia-se abandonada e s. No sabia para onde haveria de ir. Para onde quer que fosse, por muito longe que fosse, no poderia fugir
de si prpria e do profundo sentimento de luto que trazia dentro de si.
Depois de uma semana no hospital, Sofia trouxe o beb para a casa do Quay de Cologny. Tivera muito tempo para pensar enquanto estivera na sua cama de hospital. No
chegara facilmente a essa concluso, mas era evidente que Santi no os queria. No podia regressar  Argentina e, decerto, no iria para Lausana, como os pais haviam
planeado. Em princpio, em Maro, como ambos lhe tinham escrito, tentando explicar-se. O pai escrevera mais vezes, mas Sofia nunca lhe respondera, de modo que tambm
ele deixou de escrever. Pensou que eles calculavam que as coisas voltariam ao normal quando ela regressasse a casa. Mas ela nunca regressaria.
Explicou a Dominique que no suportava voltar  Argentina se no pudesse ter Santi, e que Genebra era uma cidade demasiado calma para construir a o seu futuro.
Iria criar razes em Londres.
- Porqu em Londres? - perguntou Dominique profundamente desapontada por Sofia e o pequeno Santiguito a irem deixar. - Sabes que podes ficar aqui connosco. No precisas
de te ir embora.
- Bem sei. Mas preciso de me afastar de tudo que me faa recordar o Santi. Adoro estar aqui convosco. So a nica famlia que tenho agora. Mas tm de compreender,
preciso de comear de novo.
258
Suspirou e baixou os olhos. Dominique percebeu que a criana que tinha diante dela se transformara numa jovem mulher, desde que fora me. Contudo, no mostrava aquela
radiante felicidade ps-natal, normal nas jovens mes. Tinha um ar triste e levemente evasivo.
- A minha me e o meu pai conheceram-se em Londres - continuou ela. - Falo ingls e tenho passaporte britnico, graas ao meu av que era da Irlanda do Norte. E
tambm, Londres ser o nico stio onde no me vo procurar. Genebra ou Paris seriam as suas primeiras escolhas, ou Espanha, claro. No, j me decidi. Vou para Londres.
Sofia sempre se sentira fascinada por Londres. Tendo frequentado a Escola Inglesa de San Andrs, em Buenos Aires, aprendera tudo sobre os reis e as rainhas ingleses,
as decapitaes e os enforcamentos, as tradies e as cerimnias prprias de uma monarquia. O pai prometera lev-la l um dia. Agora poderia ir sozinha.
- Chrie, o que vais fazer para Londres com um beb to pequenino? No consegues cri-lo sozinha.
- No o vou levar comigo - replicou ela com os olhos fixos no tapete persa que pisava. Dominique foi incapaz de esconder o seu choque. Com os olhos sados como os
de um sapo, fitou horrorizada o rosto plido de Sofia.
- Que vais fazer com ele? Deix-lo connosco? - gaguejou, zangada, certa de que Sofia estaria a sofrer de qualquer tipo de depresso ps-parto.
- No, no, Dominique - respondeu Sofia, cansada. - Quero entreg-lo a uma famlia simptica e bondosa que tome conta dele. Talvez uma famlia que h muito queira
um beb... por favor, Dominique, encontre-me essa famlia - implorou, mas com uma expresso resoluta no rosto.
Sofia j no conseguia chorar. J no tinha lgrimas. Sentia o corao seco e entorpecido. Antoine e Dominique no conseguiam convenc-la a no fazer tal coisa.
L fora chovia torrencialmente, e o tempo reflectia a tristeza interior de Sofia. Santiguito dormia tranquilamente no bero, envolvido num antigo xaile de Louis.
Sofia explicou que no podia ficar com uma criana que lhe recordasse constantemente Santi e a sua traio. Era demasiado jovem e no sabia
259
o que fazer. O seu futuro deparava-se-lhe como um enorme buraco negro para onde se dirigia sem controlo. No queria ficar com o beb.
Antoine disse-lhe muito seriamente que ela estava a falar de um ser humano por quem era responsvel e no de um boneco que pudesse oferecer. Dominique disse-lhe
meigamente que ela esqueceria Santi, que o filho desenvolveria uma personalidade prpria e que deixaria de lhe fazer lembrar o pai. Mas ela no quis ouvi-los. Se
partisse agora, no lhe custaria tanto ficar separada do menino, tratava-se de um simples beb. Se ficasse mais tempo, nunca poderia entreg-lo e era precisamente
isso que tinha de fazer. Era jovem de mais para tomar conta daquela criana que no poderia fazer parte da vida nova que se via obrigada a comear. J se decidira.
Dominique e Antoine passaram longas horas discutindo o que Sofia deveria fazer, enquanto esta estava fora de casa, junto ao lago, passeando Santiguito de um lado
para o outro, no seu carrinho. Nenhum deles queria que ela desse a criana para adopo; sabiam que ela o lamentaria durante o resto da vida. Mas Sofia era jovem
e incapaz de ter uma viso do futuro. Com a sua inexperincia, como poderia aperceber-se de que os nove meses que o trouxera dentro de si e as semanas em que o amara,
depois do nascimento, o tinham ligado a ela por meio de um lao indestrutvel?
Na esperana de que, falando com um mdico, Sofia casse em si, Dominique e Antoine mandaram-na a um psiquiatra. Sofia fez-lhes a vontade e consultou-o, mas declarou
firmemente que no iria mudar de ideias. O psiquiatra, o Dr. Baudron, um homem baixo, com o cabelo grisalho puxado para trs e um peito que a Sofia fazia lembrar
o de um pombo feliz, conversou com ela durante horas, obri-gando-a a analisar cada momento do ltimo ano da sua vida. Impassvel, Sofia contara-lhe tudo, com uma
voz alheada, impassvel como se estivesse sentada a um canto do tecto da sala, observando os momentos que a tinham conduzido ao consultrio. Depois de uma conversa
interminvel e ftil, o Dr. Baudron disse a Dominique que, ou ela tinha um trauma muito grave, ou era o ser humano mais controlado que ele alguma vez conhecera.
Gostaria de ter tido mais tempo,
260
mas a paciente recusara-se a mais consultas. Sofia continuava com a sua ideia, e sem se deter com a demora, estava resolvida a partir para Londres.
Assim que Sofia conseguiu convencer os primos de que no mudaria de ideias, percebeu que havia papis para assinar e pessoas com quem teria de falar para dar legalmente
a criana para adopo. Dominique estava arrasada. Tentou dizer a Sofia que ela se iria arrepender, talvez no naquele momento, mas muito depois. Sofia no quis
saber. Dominique nunca conhecera ningum to teimoso e, por uns instantes, solidarizou-se com Anna. Quando Sofia no conseguia as coisas  sua maneira, no era o
anjo que ela pensava que era. Tinha um temperamento violento, amuava e cruzava os braos, com uma mscara inexpressiva que no quebrava, por muito grande que fosse
a insistncia. No era apenas teimosa, mas tambm orgulhosa. Dominique desejava que Sofia fizesse as malas e levasse a criana para a Argentina; depois do choque
inicial, a tempestade abrandaria e ambos seriam aceites. Mas Sofia no queria voltar. Nunca mais.
Enquanto esperava que o processo de adopo se completasse, a realidade de abandonar o filho tornava-se mais intensa a cada dia que passava. Agora que sabia que
o ia deixar, aproveitava todos os momentos com Santiguito. Mal podia olhar para ele sem chorar; sabia que nunca o conheceria como homem, que no teria qualquer influncia
na formao do seu carcter ou do seu destino. Imaginava como ele seria mais crescido. Apertava o corpinho do filho contra o seu e falava com ele durante horas,
como se, por milagre, ele pudesse recordar o som da sua voz ou o cheiro da sua pele. Contudo, apesar da dor de o ir abandonar, sabia que estava a fazer o que era
certo para ambos.
Com relutncia, Dominique e Antoine deram-lhe dinheiro para a ajudar a comear uma vida nova em Londres. Dominique sugeriu-lhe que ficasse algumas noites num hotel
antes de alugar um apartamento. O casal levou-a ao aeroporto para se despedir dela e a meter no avio.
- O que vou eu dizer ao Paco? - perguntou Antoine irritado, tentando no mostrar as suas emoes. Gostava imenso de Sofia, mas no deixava de se ressentir com a
sua capacidade de se mostrar
261
to fria. No conseguia compreender como poderia entregar um filho. Delphine e Louis eram a coisa melhor que ele tinha neste mundo.
- No sei. Diga-lhe que decidi comear uma vida nova, mas no lhe diga onde.
- Vais acabar por ir para casa, no  verdade, Sofia? - perguntou Dominique, abanando tristemente a cabea. Sofia viu como os longos brincos tnicos da prima lhe
balanavam junto ao pescoo. Teria saudades deles. Engoliu em seco para manter a sua compostura.
- No h nada para mim na Argentina. O meu pai e a minha me mandaram-me embora como se eu nada significasse para eles - disse, com voz trmula.
- J falmos disso tudo, Sofia. Tens de lhes perdoar, ou a tua amargura vai dar cabo de ti e s te trar infelicidade.
- No me importo - replicou ela.
Dominique respirou fundo e abraou a prima que, para ela, se transformara numa filha -, embora nenhuma filha sua pudesse ser to teimosa.
- Se precisares de alguma coisa, seja do que for, podes sempre telefonar. Ou voltar. Estamos aqui  tua espera, chrie. Vamos sentir muito a tua falta, Sofia - disse,
estreitando-a com fora e deixando que as lgrimas lhe manchassem a maquilhagem.
- Obrigada, obrigada aos dois - soluou Sofia. - Valha-me Deus, eu no queria chorar. Pareo um beb, o que se passar comigo? - Fungou e limpou o rosto com as costas
da mo. Prometeu entrar em contacto com eles. Prometeu telefonar se precisasse de alguma coisa.
Abraando o pequeno Santiguito pela ltima vez, sentiu a cabea macia encostada aos seus lbios e inspirou o seu aroma de beb. Custava-lhe deix-lo e quase mudou
de ideias. Mas no podia ficar em Genebra, que a cada segundo lhe recordava a sua desgraa. Tinha de recomear. Olhou para a carinha do filho para levar consigo
uma imagem mental que pudesse recordar para sempre. A criana devolveu-lhe o olhar com os seus brilhantes olhos azuis, observando-a cheios de curiosidade. Sofia
sabia que ele nunca se recordaria dela, pois, provavelmente, nem a conseguia ver com nitidez. Desapareceria
262
da vida do filho que ignoraria t-la visto alguma vez. Controlou-se e disse para consigo que tinha de seguir em frente. Acariciou com um dedo a testa de Santiguito,
voltou-se, pegou na mala e desapareceu no controle dos passaportes.
Uma vez do outro lado, engoliu em seco, ergueu a cabea e deixou de chorar. Ia comear uma nova vida. Tal como dizia o av O'Dwyer, a vida  curta de mais para
arrependimentos. A vida  aquilo que se faz dela, Sofia Melody. E a maneira como a vemos. Um copo est meio vazio, ou meio cheio...  tudo uma questo de atitude.
De uma atitude mental positiva.

CAPTULO VINTE E DOIS
Santa Catalina, 1976
Tinham-se passado dois anos sem uma palavra de Sofia. Paco falara com Antoine, que explicara que ela tinha partido sem revelar para onde. Sofia no quisera que eles
soubessem onde estava, nem sequer em que pas, mas Antoine considerava toda a situao totalmente despropositada. Por isso, disse a Paco que ela queria lanar razes
em Londres.
Anna ficou destroada por Sofia no ter ido estudar para Lausana, como estava projectado, e queria desesperadamente entrar em contacto com a filha para lhe pedir
que regressasse a casa. Estava preocupada, com receio de que Sofia decidisse nunca mais voltar. Teria sido demasiado severa? Disse para consigo que a criana precisava
de disciplina -  para isso que servem os pais. Que esperava ela, uma simples palmadinha na mo? No voltes a fazer isso, querida. No, tinha merecido tudo o que
lhe tinha cado em cima. Com certeza que compreendia. Mas tudo fora atirado para trs das costas, j era passado. Dominique tinha-lhe garantido que Sofia havia enfrentado
o seu problema. Como podia a criana ficar ressentida durante tanto tempo? Tinha sido tudo por bem. Um dia, agradecer-lhe-ia. Nem sequer uma carta, nada. Depois
de todas as cartas que lhe tinham escrito. Anna sentia-se um monstro. Convenceu-se de que Sofia estava a atravessar um perodo infeliz e que um dia regressaria.
Claro que regressaria, Santa Catalina era o lar dela. E to casmurra como era o av dela. Uma verdadeira O'Dwyer, lamentou-se Anna a Chiquita.
264
Mas, l por dentro, o corao doa-lhe com a importuna regularidade de uma pessoa que sabe que fez mal, mas no consegue admitir tal coisa, nem sequer s para si
mesma.
Chiquita tinha visto Santi emagrecer e ficar mais plido. Estava preocupada, pois calculava que o coxear o incomodava, mas ele recusava-se a comunicar com a me.
O corpo dele estava presente, mas o seu esprito estava noutro lado. Tal como Anna, esperava que o seu filho regressasse. Fernando estava na universidade em Buenos
Aires, a estudar engenharia. Tambm estava a atravessar uma fase difcil. Ficar na rua depois do recolher obrigatrio, perder o carto de identidade, meter-se em
sarilhos com a polcia. Corriam histrias de pessoas que eram presas e desapareciam. Histrias sinistras. Chiquita temia que ele se envolvesse com jovens socialistas
irresponsveis, metidos em conspiraes para derrubar o Governo. A poltica no  uma brincadeira, Fernando, dizia-lhe o pai, asperamente. Ainda te metes em sarilhos
e pagas com a vida.
Fernando apreciava as atenes. Finalmente, os pais davam por ele. Deliciava-se com a preocupao deles e ganhou o hbito de contar histrias exageradas acerca dos
seus feitos. Quase se obrigou a ser apanhado pela polcia para os pais demonstrarem o amor que tinham por ele com o esforo e a energia investidos na sua libertao.
Enquanto o pai se zangou, a me chorou de alvio por ele ter regressado ileso. Gostava de puxar os cordelinhos emocionais; assim, sentia-se amado. Viu Santi ocupar
a casa como um espectro. Ia e vinha fazendo muito pouco barulho. Fernando mal dava por ele. Perdia-se no estudo e deixou crescer a barba, pelo que tambm se perdia
ao espelho. Como a sorte se tinha virado para ele, pensava Fernando cheio de jbilo, e tudo por causa de Sofia. Estavam bem um para o outro.
Maria tinha-se desfeito em soluos profundos quando a me lhe disse que Sofia tinha ido viver para Londres e no deixara nenhum endereo de contacto. A culpa 
toda minha, tinha dito num lamento, mas no disse porqu. A me consolou-a o melhor que pde, assegurando-lhe que um dia regressaria. Chiquita sentia-se desamparada;
todos os seus filhos eram to infelizes! S Panchito tinha sempre um sorriso nos lbios e parecia contente.
Em Novembro de 1976, Santi tinha quase vinte e trs anos mas parecia muito mais velho. Resignara-se finalmente ao facto de que
265
Sofia nunca regressaria. Como as linhas de comunicao tinham falhado era coisa que ele no entendia. Tinham planeado tudo com tanto cuidado! Depois de esperar pelas
cartas dela no apartamento, pensara que talvez o pai as fosse buscar ao porteiro todos os dias, quando saa do edifcio para seguir para o escritrio, por isso Santi
habituou-se a levantar-se cedo e a passar pelo correio de madrugada. Mas continuava a no vir nenhuma carta de Sofia. Nada.
Por fim, tinha interrogado Anna. Ao princpio, Chiquita dissera a Santi que se mantivesse longe da tia. Anna tinha-lhe dito especificamente que no queria v-lo.
E Santi assim fizera, tendo sempre o cuidado de no tropear nela. Mas, passados cerca de dois meses, j desesperado com o silncio da caixa do correio, entrou no
apartamento dela em Buenos Aires e exigiu saber onde estava Sofia.
Anna estava sentada com a cozinheira, a passar em revista as receitas para as refeies da semana seguinte, quando Loreto apareceu  porta da sala de estar, corada
e a tremer, para anunciar que o Seor Santiago estava no vestbulo e exigia v-la. Anna disse a Loreto que lhe dissesse que ela no estava em casa, que tinha sado
e vinha tarde, mas ela voltou, dizendo, em tom de desculpa, que o Seor Santiago no se ia embora sem a Seora Anna voltar, mesmo que tivesse de passar a noite deitado
no cho. Anna cedeu, dispensou a cozinheira e disse a Loreto que o mandasse entrar.
Quando Santi apareceu  porta, mais parecia uma sombra que um homem. O seu rosto estava negro de infelicidade e os seus olhos arroxeados de fria. Usava barba e
tinha deixado crescer o cabelo. J no era um homem belo, mas sim decadente e ameaador. Na verdade, Anna pensou que estava agora mais parecido com Fernando, que
sempre tivera um aspecto um pouco sinistro, mesmo em rapazinho.
- Entra e senta-te - disse ela, calmamente, escondendo o tremor da voz sob uma dura camada de controlo.
Santi abanou a cabea.
- No quero sentar-me. No vou demorar. D-me o endereo de Sofia e vou-me embora - disse ele em tom monocrdico.
- Ouve, Santiago - disse Anna em tom severo. - Como tens a ousadia de exigir o endereo da minha filha, quando s o culpado por teres roubado a virtude dela?
266
- D-ma e eu vou-me embora - repetiu ele, decidido a evitar uma cena. Sabia como era a tia. Tinha deixado muitas vezes a me dele em lgrimas. - Por favor - acabou
por dizer, com uma delicadeza forada.
- No te dou a morada dela, porque no quero que vocs se vejam nem que comuniquem. Que esperas tu, Santiago? - disse ela em tom glido, alisando o seu brilhante
cabelo ruivo, preso num carrapito na nuca. - No pensas que possam casar, pois no?  isso que queres?
- D-ma, diabos a levem! Quem ela v ou no v no  da sua conta - disse ele com brusquido, perdendo a compostura.
- Como ousas falar comigo dessa maneira! Sofia  minha filha. No passava de uma criana, uma menor. Que pensas tu que eu sinto? Roubaste a inocncia dela - acusou
ela, furiosamente, numa voz agora mais aguda.
- Roubei a inocncia dela? Cus, como foi sempre melodramtica, Anna. No quer pensar que ela gostou, pois no? - A cara de Anna estremeceu nervosamente. - Ela gostou.
Gozou cada instante porque me ama e eu amo-a. Fizemos amor, Anna. Amor. No foi sexo, sexo srdido e sujo, foi amor lindo. No espero que compreenda, no tem aspecto
de quem  capaz de ter o prazer do amor como Sofia. Est demasiado ressequida de amargura e ressentimento. Bom, no me d o endereo. Mas eu hei-de descobri-lo.
Hei-de descobri-lo, hei-de encontrar Sofia e caso com ela na Europa e nunca mais regressamos. Ento, vai desejar que no a tivesse mandado embora.
No esperou que ela o mandasse sair; saiu apressadamente, batendo com a porta. Depois daquele breve confronto, Chiquita e Miguel tinham criticado a sua m-educao
e Paco tinha-lhe pedido contas, embora num tom mais calmo, e explicado por que razo no podia escrever a Sofia. Santi estava demasiado desesperado para reparar
na dor reflectida nos olhos do tio ou no tom cinzento que no s lhe tinha destrudo a cor do cabelo, mas tambm lhe tinha roubado o tom dourado da pele dos seus
tempos mais felizes. Eram dois homens destroados. Contudo, Santi no podia desistir. Ela tinha-lhe dito que nunca desistisse.
Durante dois anos e meio, atormentou-se com cenrios possveis. Talvez ela tivesse escrito e a carta se tivesse extraviado. E se ela esti-
267
vesse  espera de uma carta dele? Meu Deus, e se ela tivesse escrito? Ralou-se de tal maneira que atingiu um estado de desespero total, at que a conscincia de
Maria no conseguiu suportar a culpa por mais tempo e confessou.
Era uma noite negra e chuvosa de Inverno. Santi estava na varanda, de olhos fixos nas ruas barulhentas da cidade, onze andares abaixo. Como se, num sonho, observasse
sem pestanejar o mundo que continuava, desinteressado da sua dor. Maria foi ter com ele, de lbios descorados e a tremer. Sabia que tinha de lhe dizer. Se no dissesse,
ele podia atirar-se dali para os braos da morte e, depois, ela nunca conseguiria perdoar a si mesma. Ps-se ao lado dele e olhou para baixo, para os automveis
que iluminavam a rua com as suas luzes intensas, apitando sem razo aparente, como os Argentinos fazem sempre. Virou-se para olhar para o perfil sombrio dele, que
continuava a olhar fixamente para baixo, sem reparar que a irm estava ao seu lado; sem saber que ela estava prestes a confessar o seu mais negro segredo.
- Santi - disse Maria, mas faltou-lhe a voz e a palavra saiu num sussurro.
- Deixa-me sozinho, Maria. Preciso de estar sozinho - respondeu, sem desviar os olhos do grande vazio abaixo dele.
- Preciso de falar contigo - pediu ela, desta vez num tom mais enrgico.
- Ento fala - disse com brutalidade, mas sem querer ser grosseiro. A sua infelicidade tinha-o tornado insensvel aos sentimentos dos outros, como se fosse o nico
ser humano em sofrimento.
- Tenho uma confisso a fazer. No te zangues, deixa-me explicar porque fiz o que fiz - gaguejou ela, com as lgrimas j a correr-lhe pela cara abaixo, prevendo
a reaco dele. Santi virou a cabea lentamente e olhou para ela com olhos tristes.
- Confisso? - perguntou em tom inexpressivo.
- Sim.
- Que confisso?
Maria engoliu em seco e limpou as lgrimas da cara com mo trmula.
- Queimei as cartas de Sofia para ti.
268
Quando compreendeu o significado das palavras de Maria, toda a raiva, o sofrimento e a frustrao de Santi explodiram com tanta fora que ele no conseguiu controlar-se.
Puxou a mo atrs e assentou-a no varandim com uma ruidosa pancada seca. Agarrou num dos vasos de flores da me e atirou-o  parede, onde se desfez em pedaos, espalhando
lama pela parede. Depois, virou-se e olhou para a irm com averso. Lgrimas grossas caam pelas faces de Maria.
- Lamento - repetia ela, infindavelmente, tentando tocar no irmo. - Perdoa-me!
- Porqu? - gritou-lhe, afastando-se dela. - Porque fizeste tal coisa, Maria? No parece coisa tua! Como pudeste?
- Eu estava ferida, Santi. Estava ferida. Ela tambm era minha amiga - respondeu, tentando desesperadamente comunicar com ele. Mas o irmo estava ali parado, dominando-a
com a sua altura, olhando fixamente para ela. - Santi. Por favor, perdoa-me. Eu fao qualquer coisa.
- Meu Deus, Maria. Logo tu, de todas as pessoas. Tu! No posso acreditar que fosses to vingativa.
Ofegava, sacudindo a cabea, totalmente assombrado. Maria via-o tremer de fria. Parecia to velho para um homem to novo! Ela tinha-lhe feito aquilo. Nunca conseguiria
perdoar a si mesma.
- Foi um erro. Tenho dio a mim mesma. Quero morrer! - gemeu ela. - Lamento. Lamento tanto.
- Como encontraste as cartas? - perguntou ele, desconcertado.
- Ia busc-las ao porteiro, quando saa para a universidade.
- Meu Deus, Maria, como s desleal. Nunca pensei que fosses assim.
- No sou. No sou mesmo! S que no conseguia suportar que tu te fosses embora. Logo tu e Sofia. Pensei na me e no pai e no sofrimento que eles teriam de suportar
e no podia deixar-te fazer tal coisa.
- Ento leste as cartas.
- No, s lia as ltimas linhas.
- Que diziam?
- Que estava ansiosa por que fosses ter com ela  Sua.
269
- Ento ela esperava que eu fosse. Deve pensar que a tra - sussurrou. Tinha a garganta contrada de ansiedade, como o pescoo de um enforcado.
- Pensei que ela voltasse, pensei que voltasse e descobrissem os dois que tudo tinha passado. E as coisas voltariam a ser como eram dantes. Nunca pensei que a Sofia
se fosse embora para sempre. Oh Santi, nunca pensei que ela se fosse embora de vez. Quem me dera nunca ter feito isto.
- Tambm eu - disse ele, engasgado, deixando-se cair nos ladrilhos molhados do cho e pondo a cara nas mos.
Soluava violentamente e todo o seu corpo tremia. Ao princpio, afastou a irm quando esta tentou confort-lo. Mas ela insistiu e, depois de algumas tentativas,
deixou-a abra-lo e choraram juntos.
Foram precisos dois anos para Santi perdoar  irm por completo. Quando se juntou a Fernando e a dois dos amigos guerrilheiros deste, naquela fria noite de Julho,
para salvarem a irm do sinistro Facundo Hernandez, de repente conseguiu olhar para l de si mesmo e do seu prprio sofrimento. Acordou.
Maria apaixonou-se por Facundo no Outono de 1978. Acabava de fazer vinte e dois anos. Facundo era alto e moreno, pois possua sangue espanhol. Tinha olhos castanho-escuros
com compridas pestanas pretas reviradas como pernas de aranha. Era um jovem oficial - fazia parte do exrcito do general Videla - e usava com orgulho o seu elegante
uniforme novo. Facundo adorava o general com o entusiasmo de um recruta e pavoneava-se pelas ruas de Buenos Aires com um ar importante que na poca era comum a todos
os militares.
O general Videla tinha-se apoderado do poder em Maro de 1976 com o objectivo de acabar com o caos dos anos do peronismo e reestruturar a sociedade argentina. O
Governo desencadeou uma guerra sangrenta contra a oposio, prendendo todos os que eram suspeitos de subverso. Havia casas invadidas a meio da noite, suspeitos
arrancados da cama que nunca mais eram vistos. Foi um perodo de grande medo. Os desaparecidos atingiram talvez o incrvel nmero de 20 000, sem deixarem vestgios
legais. Pura e simplesmente, sumiam-se.
270
Facundo Hernandez acreditava na democracia. Acreditava que os militares estavam a instalar as fundaes para uma eventual democracia que, segundo as palavras deles,
se adequaria  realidade e s necessidades e ao progresso do povo argentino. Era um pequeno dente da grande mquina que ia reformar o seu pas. Dizia a si mesmo
que a tortura e os assassnios eram um meio inevitvel para alcanar este objectivo e que os fins justificavam os meios.
A primeira vez que Facundo Hernandez ps os olhos em Maria Solanas foi numa manh de domingo do ms de Abril, quando ela passeava pelo parque de Buenos Aires com
uma amiga. O dia estava quente, o cu sem nuvens resplandecia por cima da cidade e o parque estava cheio de crianas que brincavam ao sol. Ele seguia-a enquanto
ela vagueava lentamente pelo carreiro. Gostou da maneira como o cabelo dela brilhava e lhe caa em madeixas grossas pelas costas abaixo. Era cheia. Ele gostava de
mulheres cheias. Gostava de ver os seus traseiros redondos e as suas coxas redondas. O traseiro dela mexia-se quando ela andava.
Maria e Victoria sentaram-se a uma das pequenas mesas e pediram duas Colas. Quando Facundo Hernandez se apresentou e pediu para se sentar com elas, ficaram desconfiadas
e explicaram com nervosismo que estavam  espera de uma pessoa amiga. Un amigo, disseram. Mas, quando ele reconheceu Victoria e declarou que era amigo do seu primo
Alejandro Torredon, elas descontraram-se e apresentaram-se. Maria gostou logo de Facundo. Ele f-la rir. F-la sentir-se atraente. Prestou-lhe muita ateno e praticamente
ignorou a amiga. Ainda desconfiada, recusou-se a dar-lhe o nmero de telefone, mas concordou em encontrar-se com ele no parque no dia seguinte  mesma hora.
Em breve, os seus passeios se transformaram em almoos e, por fim, em jantares. Ele era encantador e inteligente. Maria achava-o muito divertido, pois possua um
sentido de humor irreverente e adorava troar das pessoas. Tinha uma maneira de reparar nas fraquezas de toda a gente. A mulher que saiu dos sanitrios das senhoras
com a saia presa nas cuecas. O velhote que conversava na mesa ao lado, sem se dar conta de que tinha um pedao de comida preso
271
na bochecha. Toda a gente tinha alguma coisa que dava para rir. Maria achava-o to atraente que se ria das suas piadas. Mais tarde ach-las-ia cruis.
Facundo beijou-a pela primeira vez na rua escura, diante do apartamento dela. Beijou-a com ternura e disse-lhe que a amava. Quando a viu desaparecer no vestbulo,
decidiu que era a mulher com quem casaria e mais tarde disse isso mesmo a Manuela, a sua prostituta fixa, garantindo-lhe que o casamento no alteraria o seu relacionamento.
Ningum toma conta de mim como tu, Manuela, grunhiu, quando ela o meteu na boca.
Ao princpio, Maria achou que merecia o que lhe acontecia. Um pequeno desacordo e ele deu-lhe um bofeto. Ficou estupefacta e desfez-se em desculpas. A culpa era
dela; tinha sido demasiado franca. Devia mostrar mais respeito por ele. Amava-o. Amava a maneira como a abraava, lhe falava, a beijava. Era generoso, comprava-lhe
roupa. Gostava que ela se vestisse de determinada maneira. Ficava transtornado se ela ia ter com ele vestindo camisoles largos. Tens um corpo lindo, dizia. Quero
que todos vejam o que eu tenho e morram de inveja. Dizia-lhe que se orgulhava dela. Se alguma coisa no era feita como ele gostava, batia-lhe. Maria aceitava os
castigos, convencida de que os merecia, ansiando pela aprovao dele. Quando lhe batia, depois chorava, agarrava-se a ela, prometia que nunca mais lhe batia. Precisava
dela. Ela era a nica pessoa que podia salv-lo. Por isso, continuou a encontrar-se com ele, porque o amava e queria ajud-lo.
Encontravam-se  tarde no apartamento dele em San Telmo. Quando ele disse que no queria fazer amor porque, tal como ela, era um bom catlico e as relaes sexuais
eram para a procriao do gnero humano, ela sentiu-se lisonjeada e comovida. No queria estrag-la, disse, mas sentia-se feliz por lhe tocar e acarici-la. Porm,
as relaes sexuais teriam de esperar at se casarem. Maria no tinha falado de Facundo aos pais nem o tinha apresentado. Mais tarde, recordaria os acontecimentos
e reconheceria que sabia, algures no seu subconsciente, que a famlia no aprovaria Facundo Hernandez.
Chiquita via a filha chegar a casa com escoriaes. Por vezes, um lbio cortado, uma ma do rosto arroxeada. Maria dizia-lhe que no era nada. Que tinha cado na
rua, tropeado a descer as escadas na
272
universidade. Mas as escoriaes apareciam cada vez com mais frequncia e Chiquita falou com Miguel. Era preciso fazer alguma coisa.
Uma noite, em finais de Junho, Fernando seguiu Maria at ao apartamento de Facundo Hernandez, num edifcio deprimente sem carcter nem encanto. Viu-a subir as escadas
e entrar com a sua prpria chave. Fernando deu a volta ao edifcio, trepou pela parede e saltou para a varanda do primeiro andar. Foi fcil. Iou-se para o andar
seguinte e espreitou pela janela. O vidro reflectia o sol e era difcil ver l para dentro. Mas, quando os olhos se adaptaram, conseguiu olhar para alm do seu prprio
reflexo e distinguir o interior da diviso.
O homem parecia que estava a devorar Maria. No estava a fazer amor com ela. Limitava-se a amassar-lhe o pescoo e apalpar-lhe os seios por cima da blusa justa.
Depois, afastou-se bruscamente e bateu-lhe. Gritou com ela, qualquer coisa acerca do suti. Eu disse-te para no o usares. Ela estava a chorar. A desculpar-se.
A tremer. Depois, ele ps-se de joelhos e comeou a beij-la, a acarinh-la, at que ficaram agarrados um ao outro, a oscilarem para um lado e para o outro.
Fernando ficou horrorizado e comeou a sentir nuseas. Teve de se encostar  parede durante um bocado, respirando fundo, at conseguir retomar a vigilncia. Queria
entrar pelo vidro e torcer o pescoo do raio do homem. Era da sua irm que ele estava a abusar! Mas sabia que assim no conseguia nada. Tinha de ter pacincia e
ver o que se passava.
Fernando no ficou por ali. Seguiu o homem at ao bordel. Descobriu o nome dele e soube que era um oficial do exrcito. No precisava de mais informaes. Era o
inimigo. Tinha de receber uma lio.
Quando Fernando contou aos pais, eles ficaram arrasados. Chiquita no conseguia compreender por que razo a filha no lhe tinha contado, no tinha pedido ajuda.
Sempre me contou tudo, dizia ela, chorosa, abanando a cabea, sem conseguir acreditar. Miguel queria mat-lo por abusar da sua menina. Fernando teve de usar da
fora para o impedir de agarrar na pistola.
Fernando sentiu-se herico; ele  que tinha descoberto quem era o homem, tinha-o seguido e espiado. Era ele que tinha o controlo da
273
situao. Os pais ficaram-lhe gratos, confiaram nele. Disse-lhes que no se preocupassem, que ele mesmo ia tratar do assunto e, para sua surpresa e satisfao, concordaram.
Pela primeira vez, viu orgulho nos seus olhos quando olharam para ele. Tinha conquistado o seu respeito e sentiu-se bem por isso.
Santi, preso nos ltimos quatro anos no seu prprio mundo tenebroso, finalmente quebrou as correntes. Ao princpio, Fernando no queria que ele se envolvesse. Aquela
era a sua oportunidade e queria saborear sozinho a sua glria. Mas acabou por ceder ao ver que Santi estava cheio de admirao por ele.
- Podes vir - disse gravemente -, mas tens de fazer as coisas  minha maneira. Nada de perguntas.
Santi concordou. Fernando viu que ele estava grato, humilde mesmo. Fernando sabia que ia ser perigoso, mas estava preparado. Sentiu-se mais forte que nunca.
Os dois irmos sentaram-se a falar de Maria. Sob as estrelas, no escuro, olhando da varanda para as ruas movimentadas de Buenos Aires, conversaram sobre a sua infncia.
Quando Fernando sentiu os primeiros apertos de um lao que se desenvolvia entre ele e o irmo, quase no prestou ateno; o lao apoderou-se sorrateiramente dele
quando estava demasiado ocupado a falar com Santi de igual para igual - um igual com uma causa comum.
Esperaram pelo momento prprio e ento, com dois amigos guerrilheiros de Fernando, entraram furtivamente no apartamento de Facundo Hernandez a meio da noite. Desobedecendo
ao recolher obrigatrio, arriscando as suas vidas. Com as caras tapadas com meias pretas, arrancaram o apavorado homem da cama. Amarraram-no a uma cadeira e espancaram-no
at ele chegar  fronteira entre esta vida e a outra. Fernando disse-lhe que, se alguma vez voltasse a aproximar-se de Maria Solanas, lhe falasse ou comunicasse
com ela de qualquer maneira, eles regressariam para acabar o trabalho. Facundo arquejou de medo antes de perder os sentidos.
Chiquita falou com a filha. No foi fcil. Na segurana aconchegada do seu quarto, Chiquita disse a Maria o que sabia, que ele lhe batia e que tinha uma prostituta.
Maria tentou defend-lo, dizendo que estavam enganados - Facundo nunca lhe tinha batido, nunca.
274
Emocionalmente, encolheu-se a um canto e arranhou todos os que se aproximaram dela. Acusou-os de a terem espiado. Era a sua vida - podia estar com quem quisesse.
No tinham o direito de se envolverem.
Demorou muito tempo, mas com a ajuda de Fernando e de Santi, com carinho, conseguiram acalm-la at que ela baixou a cabea e comeou a tremer como uma criana.
Eu amo-o, me. No sei porqu, s sei que o amo, exclamou. Enquanto a noite avanava, continuaram a conversar sem parar, Miguel, Chiquita, Santi, Fernando e Maria,
todos juntos, unidos, naquele quarto pequeno. Maria olhou  sua volta e sentiu-se reconfortada com a lealdade e o amor deles. Preocupada, Chiquita deixou a filha
a dormir no seu leito conjugal e pediu ao mdico que viesse v-la. O doutor Higgins no podia, pelo que enviou outra pessoa da sua clnica. Um jovem gentil, chamado
Eduardo Maraldi.
Pouco a pouco, a vida em Santa Catalina regressou  normalidade. Finalmente, o Inverno tornou-se mais ameno e deu lugar aos dias cada vez maiores e s flores em
boto. O aroma da fertilidade encheu o ar, e os pssaros regressaram para anunciar a chegada da Primavera. As feridas antigas comearam a cicatrizar e o ressentimento
dissipou-se com os nevoeiros do Inverno. Santi abriu os olhos e voltou a ver o mundo; de alguma maneira, parecia diferente. Estava na hora de cortar a barba.

CAPTULO VINTE E TRS
Eduardo Maraldi era alto, esgalgado e intelectual. Tinha um nariz comprido e sensvel e olhos cinzentos que denunciavam todas as suas emoes. Se no fossem os pequenos
culos ao estilo de Trotsky que usava, revelariam os seus sentimentos a quem quer que se aproximasse o suficiente para olhar para eles. Quando visitou Maria pela
primeira vez, esta ficou logo impressionada com a sua voz suave, que tanto contrastava com a sua altura, e com a maneira gentil como lhe tocou ao examin-la.
- Diga-me onde lhe di - pediu, e ela deu por si a desvalorizar a dor com medo de o perturbar. Estava habituada a mdicos friamente distantes, mdicos que no se
envolviam de mais com os seus doentes.
Na segunda visita que lhe fez, j ela lhe contou tudo acerca de Facundo. Coisas que nem  me tinha contado. A maneira como se tinha imposto uma vez em que estava
embriagado - nunca quisera ter relaes sexuais com ela, quisera guardar a sua virgindade para a noite do casamento, mas tinha apalpado todo o seu corpo e, nessa
vez em que estava embriagado, tinha-a aleijado. Contou a Eduardo que a obrigara a tocar-lhe de uma maneira que ela tinha achado aflitiva. Que a tinha obrigado a
fazer coisas que ela no queria fazer. Que a tinha assustado e ao mesmo tempo conquistado o seu amor. Encorajada pelo sorriso neutro de Eduardo e pela sua expresso
bondosa, contou-lhe coisas que nunca tinha pensado contar a ningum. De repente, reagindo  compaixo dele, comeou a chorar. Ele envolveu-a nos braos e, sem ultrapassar
aquela Unha fina que separa o mdico do doente, empenhou-se em consol-la.
276
- Seorita Solanas - disse, depois de ela ter acalmado um pouco -, fisicamente, as suas feridas vo cicatrizar e desaparecer por completo e ningum saber nunca
que foi molestada. O problema no  esse. - Ela ergueu os olhos para ele com uma expresso de estranheza. - O que me preocupa so as suas cicatrizes mentais. Tem
em casa algum com quem possa conversar?
- Na realidade, no falei disto com ningum.
- E a sua me? - Evocou a mulher elegante e afectuosa que tinha conhecido na sua primeira visita quela casa.
- Sim, eu converso com ela. Mas no como converso consigo - respondeu Maria que corou, baixando os olhos.
- Precisa que tomem conta de si, de ser amada - disse. A jovem corou ainda mais, desejando que ele no desse por isso. Mas ele reparou e tambm se sentiu corar debaixo
do colarinho.
- Oh, eu tenho uma famlia muito afectuosa, doutor Maraldi.
- Essas cicatrizes mentais vo demorar muito tempo a curar. No espere milagres. Pode ficar deprimida de repente, sem razo aparente. Pode sentir dificuldade em
ter um novo relacionamento. Seja paciente e lembre-se de que passou por uma situao que a afectou mais do que imagina.
- Obrigada, doutor.
- Se precisar de conversar, pode sempre procurar-me - sugeriu, na esperana de que ela o procurasse.
-  o que farei. Obrigada.
Quando ela saiu do consultrio, Eduardo lavou a cara com gua fria. Teria falado indevidamente? T-la-ia afastado? Queria dizer-lhe que ele tomaria conta dela, mas
no podia convidar uma doente para sair consigo. Oh, como desejava que ela voltasse!
Maria desejou que Sofia estivesse ali. Com ela conseguiria falar francamente sobre tudo aquilo. Sentia saudades dela. Pensava muitas vezes nela, perguntando-se o
que estaria a fazer, com quem estaria. Tinha tentado escrever outra vez para explicar, mas Dominique tinha-lhe devolvido a carta com uma nota em que dizia que Sofia
tinha ido viver para Londres e que no fazia ideia do endereo dela. Bem, Maria no era propriamente estpida. Era evidente que Sofia lhe tinha dito que no queria
que a famlia soubesse onde estava. Tinha-se
277
afastado por completo - e tudo era culpa sua. A culpa que sentia pesava fortemente no seu corao. Por um lado, queria que a prima regressasse para poder explicar
e, por outro, no queria v-la nunca mais, porque se sentia demasiado envergonhada. Sabia que nunca encontraria uma amiga que substitusse Sofia.
Durante os dois meses seguintes, Maria pensou em Eduardo mais vezes do que esperava. A pouco e pouco, as imagens de Facundo comearam a esbater-se na sua mente e
a cara comprida e angulosa de Eduardo foi-as substituindo. Tinha a esperana de que ele telefonasse, mas nunca o fez. Sabia que podia procur-lo com a desculpa de
que precisava de conversar, mas preocupava-se com o que pensaria dela. Duvidava de que ele tivesse pensado nela uma nica vez desde o seu ltimo encontro.
E ento aconteceu uma coisa estranhssima. Deus, ou quem quer que controla os nossos destinos, compreendeu que, se no interviesse, aquelas duas criaturas discretas
nunca mais se encontrariam. Por isso, colocou Eduardo no meio da rua quando Maria vagueava distraidamente com o saco dos livros, de regresso a casa depois de uma
aula na universidade. Sem olhar para onde ia, chocou com ele. Desculparam-se os dois ao mesmo tempo antes de erguerem os olhos e se reconhecerem um ao outro.
- Seorita Solanas! - exclamou ele, e logo a sua infelicidade diminuiu.
Os ltimos dois meses tinham-se arrastado e ele tinha mergulhado numa depresso sem qualquer razo. De repente, o seu nimo explodiu e ele sorriu, um sorriso demasiado
rasgado para o seu prprio conforto.
- Doutor Maraldi - disse Maria, num riso de surpresa. - Mas que grande...
- Coincidncia. , no ? - Riu-se disfaradamente e abanou a cabea, atnito com a sua sorte.
- Por favor, chame-me Maria - disse ela, com a cara a arder.
- E a mim Eduardo. Hoje no sou o seu mdico.
- No, no  - replicou ela com uma risada tola.
- Quer tomar um caf ou qualquer outra coisa? - perguntou ele, e depois acrescentou rapidamente: - Provavelmente, no tem tempo.
278
- Oh, adorava - disse ela com igual rapidez.
- Bom. ptimo - gaguejou. - Conheo um caf muito agradvel numa rua perto daqui. Deixe-me levar o seu saco. - insistiu.
Ela entregou-lho, pois estava de facto bastante pesado devido a um livro de Histria novo de capa dura que tinha comprado. Seguiram lentamente pela rua. Eduardo
teve o cuidado de se pr do lado de fora.
O Caf Calabria era fresco e no estava muito cheio. Eduardo escolheu uma mesa ao canto, junto da janela, e puxou a cadeira para ela se sentar. Quando o criado se
aproximou, Eduardo pediu dois alfajores de maicena.
- Oh, no posso! - protestou Maria, preocupada com a figura. Eduardo olhou-a e pensou que ela era, na verdade, muito bela,
com aquele seu corpo voluptuoso. Recordava-lhe um pssego maduro. Maria reparou na expresso dele, meio oculta pelos culos, e deu por si a acrescentar:
- Bom, est bem, s desta vez.
O caf durou at ao almoo e ao lanche e s saram dali s seis horas da tarde. Maria contou-lhe tudo acerca de Sofia; confessou tudo. Ele compreendeu todas as suas
aces e tinha uma explicao para cada uma delas. Parecia ter um conhecimento profundo de psicologia. Maria contou-lhe a relao da prima com o seu irmo e confiou
que ele nunca contaria a ningum.
- Fiz uma coisa terrvel - explicou com tristeza. - Queimei as cartas de Sofia. Quem me dera no o ter feito, nunca me perdoarei. Porque, agora, perdi a minha melhor
amiga e quase perdi o meu irmo.
Eduardo olhou para ela com o rosto coberto de compaixo.
- Pensou que estava a fazer o que era correcto. De boas intenes est o Inferno cheio - disse, com uma risada bondosa.
- Agora j sei isso.
- No devia t-lo feito. Mas aprendemos muito mais com os tempos infelizes do que com os felizes. Com cada tristeza vem sempre alguma coisa positiva ao virar da
esquina. Talvez um dia, quando Sofia tiver um casamento feliz e cinco filhos, venha ter consigo para lhe agradecer. Quem sabe? O importante  que agora no se ator-
279
mente com isso. No vale a pena chorar por causa de uma coisa que est feita e  irreversvel. Olhe para a frente - aconselhou, tirando os culos e limpando-os com
o guardanapo.
- Ento no pensa que eu sou malvola? - perguntou ela com um sorriso tmido.
- No, no penso que seja malvola. Penso que  uma boa pessoa que cometeu um erro e, bom, todos ns cometemos erros - disse ele, tranquilizando-a. Queria dizer-lhe
que pensava que ela era uma pessoa bela tanto por dentro como por fora. Queria am-la o suficiente para apagar todos os vestgios de feridas, culpa e dor. Sabia
que podia faz-la feliz, bastava que ela lhe desse essa oportunidade.
Eduardo contou a Maria que quase se tinha casado. Quando lhe perguntou porque tinha mudado de ideias, respondeu com toda a verdade que faltava qualquer coisa. Uma
centelha, uma ligao.
- Pode dizer que sou um romntico incurvel - disse -, mas sabia que podia amar algum mais do que a amava a ela.
A partir dessa tarde, passaram longas horas ao telefone, foram algumas vezes ao cinema e jantaram juntos e s depois ele tentou beij-la. Maria compreendeu que ele
estava a avanar devagar e ficou grata, embora tivesse desejado que ele a beijasse naquela tarde no caf. Veio busc-la com um raminho de flores silvestres. Depois,
levou-a de carro a um restaurante em La Costanera, virado para o rio, onde se contemplaram um ao outro  luz da vela e conversaram sem parar. Depois de jantar, Eduardo
sugeriu que caminhassem um pouco  beira da gua. Ela sabia que ele ia beij-la e de repente ficou nervosa e em silncio. Foram andando em silncio durante um bocado,
at que o silncio se tornou demasiado pesado para ser suportvel. Por fim, ele agarrou na mo dela e segurou-a com firmeza, depois parou e agarrou-lhe na outra
mo, virando-a para ficar de frente para ele.
- Maria - disse.
- Sim? - respondeu ela.
- Eu... Eu tenho querido... - Era uma verdadeira agonia. Ela desejou que ele se limitasse a beij-la e que acabasse com aquilo.
- Eduardo, est tudo bem. Eu quero que o faas - sussurrou ela, finalmente, e depois susteve a respirao por causa da sua ousadia.
280
Pareceu aliviado por ela lhe ter dado o seu consentimento. Por uns instantes, ela receou que fosse desagradavelmente incmodo, mas depois ele pousou a mo quente
na cara dela e os seus lbios trmulos sobre os dela e beijou-a com uma confiana que Maria no julgava que ele tivesse. Mais tarde, quando lhe disse isso, Eduardo
sorriu com orgulho e informou-a de que ela lhe transmitia a convico de que podia fazer qualquer coisa.
Chiquita e Miguel tinham-se apercebido de todas as sadas com o doutor Maraldi. A noite, tinham ficado sentados na cama a discutir o romance. Chiquita rezava todas
as noites antes de se deitar para que ele tomasse conta da sua menina e a fizesse esquecer o horrendo Facundo. Rezava to intensamente que por vezes acordava com
as mos ainda postas com toda a fora. Quando, no fim do Vero, anunciaram o casamento, Chiquita disse entre dentes uma palavra de agradecimento antes de se desfazer
em lgrimas e abraar a filha.
- Me, no sei porque mereo isto - disse mais tarde Maria, quando ficou sozinha com a me. - Ele  tudo que eu alguma vez poderia desejar.  bondoso, divertido
e excntrico. Amo-o pela maneira como as mos dele tremem quando manuseia coisas frgeis, pela maneira como gagueja quando est nervoso, pela sua humildade. Tenho
tanta sorte! Tanta, tanta! S gostava que Sofia estivesse aqui para me ver. Sentir-se-ia feliz por mim, sei que sentiria. Tenho saudades dela, me.
- Todos ns temos saudades dela, querida. Todos ns sentimos terrivelmente a falta dela.

CAPTULO VINTE E QUATRO
Londres, 1974
Sofia chegou a Londres em meados de Novembro, cheia de desalento. Lanou um olhar ao cu cinzento e aos chuviscos e desejou estar na sua terra natal. A prima tinha-lhe
feito uma reserva no Clarid-ges.
-  mesmo ao lado da Bond Street - dissera ela, animadamente -, a mais sedutora rua da Europa para compras.
Mas Sofia no queria fazer compras. Sentou-se na cama a olhar pela janela a chuva implacvel que parecia flutuar at cair no cho. No queria sair. No sabia o que
fazer, por isso telefonou a Dominique para lhe dizer que tinha chegado bem. Ouviu o pequeno Santi-guito a chorar, em fundo, e o corao doeu-lhe de saudades dele.
Recordou os seus perfeitos dedinhos das mos e dos ps. Quando pousou o auscultador, abriu a mala e revolveu-a. Tirou um pedao de musselina branca e apertou-a contra
o nariz. Cheirava a Santiguito. Enrolou-se em cima da cama e chorou at adormecer.
O hotel era grandioso, com tectos altos e belos rebocos nas paredes. O pessoal era encantador e satisfazia todas as suas necessidades, como Dominique dissera que
faria.
- Pergunta por Claude, ele toma conta de ti - aconselhou ela. Sofia descobrira Claude, um homem pequeno e corpulento com uma brilhante careca que parecia uma bola
de tnis de mesa.
Quando ela mencionou o nome da sua prima Dominique, a cabea de Claude ficou toda encarnada, at ao brilhante planalto no topo.
282
Limpando a testa com um leno branco, disse-lhe que, se precisasse de alguma coisa, no hesitasse em pedir. A sua prima era uma cliente muito boa do hotel, na verdade
a mais encantadora das clientes. Dar-lhe-ia muito prazer fazer-lhe um favor.
Sofia sabia que devia procurar um apartamento, um emprego, mas faltava-lhe energia. Por isso, dava longos passeios  volta de Hyde Park, tentando conhecer aquela
cidade desconhecida. Se no sentisse o corao to pesado, teria apreciado a liberdade de explorar Londres sem um dos pais ou um guarda-costas a segui-la para onde
quer que fosse. Podia ir para qualquer lado, falar com qualquer pessoa, sem suspeitas. Vagueava pelas ruas, espreitando montras que cintilavam com as decoraes
de Natal; at visitou algumas galerias e exposies. Comprou um chapu-de-chuva numa pequena loja em Picadilly; viria a ser a sua compra mais til.
Londres era to diferente de Buenos Aires! Na verdade, no se tinha a sensao de ser uma cidade, mas antes uma vila grande. As casas eram baixas e as ruas, orladas
de rvores e com pavimentos perfeitos, lisos, retorciam-se e viravam-se, pelo que no se fazia a menor ideia onde se iria dar. Buenos Aires estava construda num
sistema de grelha; sabia-se sempre onde se ia parar. Para Sofia, Londres era brilhante e limpa como uma prola polida. Em comparao, a sua cidade tinha um aspecto
desmazelado e decadente. Mas Buenos Aires era o seu lar e ela sentia a sua falta.
Passados alguns dias, comeou a procurar um andar. Por conselho de Claude, falou com uma senhora chamada Mathilda, de uma agncia de aluguer em Fulham, que lhe arranjou
um pequeno apartamento com um s quarto em Queen's Gate. Satisfeita com o seu novo andar, Sofia foi s compras. Estava todo mobilado, mas ela queria dar-lhe o seu
toque pessoal, fazer dele a sua pequena fortaleza naquela terra estrangeira. Por isso, comprou uma colcha para a cama, tapetes, loua, jarras, livros para pr na
mesa de caf, almofadas e quadros.
As compras fizeram-na sentir-se melhor e arriscou-se a sair, apesar da assustadora vaga de bombas que atingiram Londres naquela poca. Na realidade, uma delas deflagrou
no Harrods e outra diante do Selfridges. Mas Sofia no tinha televiso e no se deu ao trabalho
283
de comprar jornais - ouvia todas as notcias de que precisava da boca dos condutores de txi que eram o mais jovial grupo de homens que alguma vez tinha encontrado.
Os txis londrinos brilhavam e eram espaosos, enquanto os autocarros eram adorveis, pareciam modelos de uma cidade de brinquedo.
- Estrangeira, no ? - perguntou um taxista com um sotaque tal que ela teve dificuldade em compreend-lo. - No  boa altura para vir a Londres, jia. No ouviu
as notcias, l no stio de onde vem? At parece que aqueles malditos sindicatos governam o pas. Falta de liderana, esse  que  o problema. O pas est em queda
livre. Foi o que disse  minha mulher, disse-lhe: O pas est entregue  bicharada. Do que precisamos  de um valente choque.
Sofia acenou s cegas. Nem sabia do que ele estava a falar.
A pouco e pouco, Sofia comeou a apreciar Londres, com os seus belos polcias com os capacetes engraados, os guardas diante do Palcio de St. James, sempre imveis,
e as pequenas casas aldes e estreitas ruas; no se parecia com nada que ela tivesse visto at ento. Uma cidade de bonecas cheia de casas de bonecas, pensou, recordando
o livro que a me tinha sobre Londres, com todas aquelas fotografias antiquadas. Deixou-se ficar diante do Palcio de Bucking-ham, s porque queria saber o que estavam
todas as outras pessoas a fazer, com o nariz enfiado nas grades de ferro. Descobriu o Render da Guarda, que a fascinou tanto que teve de voltar no dia seguinte para
voltar a v-lo. Consumiu o corao a pensar em Santi, na Argentina e no pequeno Santiguito, at que desistiu de lutar e acabou por se submeter. No continuaria a
atormentar-se.
Quando o dinheiro comeou a faltar, comeou com relutncia a procurar um emprego. Sem qualificaes, comeou a arrastar-se pelas lojas. Todas queriam uma pessoa
com experincia e, como ela no tinha nenhuma, limitavam-se a abanar a cabea e a acompanh-la  porta.
- H tanto desemprego - suspiravam -, que ter sorte se algum a quiser.
No fim de trs longas semanas  procura sem sucesso, Sofia entrou em desespero. O dinheiro desaparecia e tinha de pagar a renda. No queria telefonar a Dominique.
J tinha sido bondosa que chegasse e Sofia no podia suportar a recordao do seu filho.
284
Um dia, sentindo-se desanimada, entrou numa livraria em Fulham Road. Um homem de culos e de expresso bondosa estava sentado atrs de uma pilha de livros, a cantarolar
ao som do rdio. Disse-lhe que andava  procura de trabalho, mas que todos os stios onde fora precisavam de uma pessoa com experincia, coisa que ela no tinha.
Imaginava que houvesse muito movimento, visto que estavam no perodo do Natal. O homem abanou a cabea, disse que lamentava, mas no precisavam de mais pessoal.
- Compreende,  uma loja pequena - explicou. - Mas na porta ao lado, na loja de Maggie, precisam de ajuda. Pode tentar l.  que l no andam  procura de experincia.
Sofia voltou a sair para o frio. Estava a escurecer. Olhou para o relgio. Ainda se espantava por escurecer to cedo em Inglaterra. S eram trs e meia. Afinal,
a loja de Maggie era um salo de cabeleireiro. Sofia recuou. Ainda no estava to desesperada que descesse quele nvel. Por isso, espreitou pela montra embaciada
ao passar, comprou um chocolate quente num caf e sentou-se a contemplar a chvena. Passado um bocado, ps-se a observar as pessoas  sua volta. Algumas tinham andado
a fazer compras para o Natal; os seus sacos estavam cheios at acima com embrulhos a brilhar. Todas tagarelavam, ignorando-a por completo. Sofia pousou as mos 
volta da caneca para as aquecer e curvou-se sobre a mesa. De repente sentiu-se muito sozinha. No tinha um nico amigo naquele pas.
Oh como sentia a falta de Santi - e tambm de Maria! Maria fora a sua melhor amiga e a mais estimada. Queria conversar com ela e contar-lhe tudo por que estava a
passar. Lamentou nunca lhe ter escrito. Lamentava nunca ter confiado nela. Imaginava que Maria devia sentir-se to triste e solitria como ela. Conhecia a amiga.
Porm, agora, era demasiado tarde. Se ao menos tivesse escrito h um ano. Mas, se nessa altura no sabia como comear a carta, ainda menos saberia agora. No, tinha
perdido a oportunidade. No tinha s perdido o amante, como tambm a mulher que, embora sendo de uma natureza mais gentil e tmida que ela, a tinha compreendido
e apoiado em todas as circunstncias. Tinham passado toda a vida juntas e isso agora estava acabado. Uma grossa lgrima pingou no chocolate quente.
285
L fora, a rua estava apinhada de gente; todos tinham um stio para onde ir. Uma festa  tarde, talvez, um emprego, amigos para visitar, famlia com quem podiam
ir ter. Ela no tinha ningum. Ningum se preocupava consigo. Podia morrer num daqueles pavimentos frios e desconhecidos que ningum daria por isso. Perguntou a
si mesma quanto tempo passaria at algum descobrir quem ela era, para avisar a famlia da sua morte. Provavelmente semanas, meses, e isso se algum se desse ao
trabalho. Tinha um passaporte britnico graas ao av, mas no se integrava naquele lugar.
Pagou a conta e saiu. Ao descer a rua, passou de novo pela loja de Maggie e resolveu voltar atrs e dar mais uma olhadela. Encostou a cara  montra e espreitou l
para dentro. Um homem alto e esgalgado cortava o cabelo a uma mulher, parando de vez em quando para ilustrar a sua histria com as mos. Uma rapariga loura estava
sentada  secretria a atender o telefone. Tinha de controlar o riso para registar as marcaes. Nesse preciso momento a porta abriu-se e a rua foi invadida por
um cheiro intenso a champ e perfume.
- Posso ajud-la? - perguntou uma ruiva com cerca de cinquenta anos, espreitando para a rua. Usava um batom escarlate, como Dominique, e tinha aplicado um horrendo
tom verde-lima nas plpebras com mo instvel.
- Soube que andavam  procura de algum para ajudar - respondeu Sofia, meio desconfiada.
- ptimo, ptimo. Entre. Eu sou a Maggie - disse ela, logo que Sofia entrou no interior quente do salo.
- Sofia Solanas - respondeu esta.
O homem tinha parado de contar a sua histria e virou-se para a olhar. Os seus olhos reptilianos desenharam as suas feies, analisando a roupa, estudando-a mentalmente
da cabea aos ps. Fungou, aprovador.
- Muito agradvel, Sofia. Muito agradvel. Chamo-me Anton. Na verdade, sou Anthony, mas Anton  mais extico, no acha? - disse ele, e depois riu-se e inclinou-se
para o armrio para agarrar num grande boio de gel.
- Anton  uma personagem especial, Sofia. Ria-se das piadas dele e ele vai ador-la, queridinha. E o que faz Daisy, no , querida? E ele adora-a.
286
Daisy sorriu calorosamente e estendeu-lhe a mo por cima da secretria.
- Ora bem,  das dez s seis, queridinha, para ajudar a tudo. Ajudar  varrer, lavar cabelos e manter o salo arrumado. S posso pagar oito libras por semana, mais
as gorjetas. Est bem assim? Acho que  justo. No achas, Anton?
- Muito generoso, Maggie - disse ele, efusivamente, enchendo a palma da mo com o que parecia lama verde.
- Mas pago oito libras por semana de renda - protestou Sofia.
- No posso pagar mais.  pegar ou largar - disse Maggie, cruzando os braos diante do seu volumoso peito.
- Eu tambm pago renda. E se juntssemos os nossos recursos? Quero dizer, se partilhssemos o alojamento - sugeriu Daisy, ansiosamente. Vivia num andar velho e estragado
em Hammersmith e demorava uma eternidade para chegar ao emprego de manh. - Vive por aqui?
- Queen's Gate.
- No admira que pague uma renda to alta. De onde , querida? - perguntou Maggie, que no conseguia identificar o sotaque dela.
- Argentina - respondeu, e a garganta contraiu-se-lhe. H tanto tempo que no ouvia aquela palavra pronunciada em voz alta.
- Que encanto - disse Anton, que no fazia a mnima ideia de onde ficava aquilo.
- Bom, se quiser uma companheira de apartamento, eu gostaria muito de dividir.
A ideia de partilhar no agradava a Sofia. Nunca tinha tido de partilhar nada. Mas estava desesperada, e aquela Daisy tinha uma cara agradvel. Por isso concordou.
- ptimo. O seu primeiro trabalho pode ser ir comprar uma garrafa de bom vinho barato, Sofia! - disse Maggie a rir, abrindo a caixa e agarrando nuns trocos. - Temos
na verdade razo para celebrar, no  verdade, Anton?
- Temos mesmo razo para celebrar, Maggie - repetiu ele, sacudindo a mo e mostrando umas unhas bem tratadas.
Duas semanas depois, aquele pequeno salo j era o novo lar de Sofia, e Maggie, Anton e Daisy, a sua nova famlia. Maggie tinha-se
287
separado do marido e iniciado o seu prprio negcio para fazer frente s despesas.
- Foi uma tonta - disse Anton, quando ela no podia ouvir. - Ele era muito rico e tinha ptimas ligaes.
Anton vivia com o namorado Marcello, um italiano moreno, belo e de peito cabeludo, que vinha ao salo de vez em quando para se enrolar no sof, a imitar pele de
leopardo, e ouvir as histrias de Anton. Maggie abria uma garrafa de vinho e sentava-se ao p dele. Mas, por muito que ela agitasse a suas pestanas postias, ele
s tinha olhos para Anton. Maggie tambm namoriscava com os clientes. A maioria adorava a ateno que ela lhes prestava.
- Polvilho-os com p de Maggie, queridinha, e depois mando-os para as mulheres - dizia ela. Daisy e Sofia riam-se o caminho todo at casa das iluses dela.
Daisy era esperta e espirituosa, mas o mais importante era ser cordial. Com uma espessa cabeleira loura, que lhe caa pelas costas em apertados caracis brilhantes,
e um queixo rematado por uma ponta atrevida que dava  cara dela o contorno de um corao, era exuberante e tambm bondosa. Partilhavam o andar, embora fosse bem
pequeno, e tudo o que ele continha. Ao princpio, Sofia teve dificuldade em partilhar o seu espao, mas, pouco a pouco, comeou a depender da sua nova amiga. Precisava
dela. A outra rapariga fez desaparecer a solido e encheu o espao vazio que antes tinha pertencido a Maria.
Os pais de Daisy eram da provncia - do Dorset, que Daisy lhe mostrou no mapa.
-  verde e ondulado, muito bonito - disse a Sofia -, mas provinciano. Sempre senti atraco pelas luzes brilhantes da cidade.
Os pais de Daisy estavam divorciados. O pai, construtor, arrastava-se pela regio do Norte em busca de trabalho, enquanto a me, Jean Shrub, vivia com o amante,
Bernard, por coincidncia tambm construtor, em Taunton, e trabalhava como esteticista.
- Sempre quis fazer o mesmo que ela, ir a casa das pessoas para lhes arranjar as unhas. Mas, logo que tirei o curso, arranjei o meu primeiro emprego e despejei cera
por cima do co de Mistress Hamble-well, um desastre completo, o pobrezinho quase teve de ser esfolado.
288
Por isso, pousei as minhas ferramentas de manicura e vim para aqui. No digas a Maggie, mas talvez regresse  minha profisso. Uma esteticista fazia jeito a Maggie,
no achas?
Brincava sempre com o seu prprio nome, Daisy Shrub, apresentando-se como Daisy, a margarida, e Shrub, o arbusto. Dizia que era uma sorte no ser jardineira; ningum
a levaria a srio. Daisy enrolava os seus prprios cigarros e sentava-se a fumar  janela do apartamento porque Sofia detestava o cheiro, e conversavam acerca das
suas vidas e dos seus sonhos. Mas os sonhos de Sofia eram inventados em benefcio de Daisy; nunca poderia revelar a ningum a verdade do seu passado.
No salo de Maggie, Sofia varria o cho, maravilhando-se com os cabelos multicoloridos que limpava tantas vezes. Anton adorava pintar cabelos. Era o seu trabalho
preferido.
- Todas as cores do arco-ris, fofinha, h muito por onde escolher. - Tinha uma cliente, Rosie Moffat, que vinha praticamente de quinze em quinze dias para mudar
de tonalidade. -J as experimentou todas. Vou ter de voltar ao princpio ou ento fazer madeixas. Que dilema! - lamentava-se ele.
Sofia tambm lavava cabeas. Ao princpio, no gostou muito dessa parte do trabalho, pois dava-lhe cabo das unhas. Mas, passado algum tempo, habituou-se, e os homens,
em especial, davam-lhe boas gorjetas.
- No fala muito de si prpria, pois no, Anton? - comentou Maggie, deitada no sof a limar as unhas.
- Mas  uma rapariga adorvel.
- Adorvel.
- E muito trabalhadora. S queria que no tivesse um ar to triste - disse ele, servindo-se de um copo de vinho. Eram seis e meia, hora para uma bebida.
- Ela ri-se das tuas piadas, no ri, queridinho?
- Oh, sim! Mas ainda est envolvida em tristeza como se fosse uma espcie de terrvel penitncia. Tragdia em movimento, amor.
- Amor, s to potico. No vais deixar-me para escrever poesia, pois no? - Riu-se e acendeu um cigarro.
- Eu sou poesia, fofinha, e seja como for no quero mandar para o desemprego todos aqueles doces poetazinhos, isso no se faz! -
289
Levou-lhe um cinzeiro. Ela inalou profundamente, e os seus ombros descontraram-se instantaneamente.
- Sabes porque veio para Londres?
- Nunca disse. Na verdade, Maggie, no sabemos nem a ponta de nada acerca dela, pois no?
- Estou terrivelmente curiosa, amor.
- Ooohhh, tambm eu. D-lhe tempo. Tenho a certeza de que tem uma histria fascinante para contar.
A medida que o Natal se aproximava e as ruas de Londres cintilavam e resplandeciam com as decoraes e os abetos, Sofia no conseguia deixar de perguntar a si mesma
se sentiriam a falta dela em casa. Imaginava-os a prepararem-se para os festejos. Imaginava o calor, as plancies secas e aqueles eucaliptos cobertos de folhas,
at quase sentir o cheiro deles. Interrogava-se se Santi alguma vez pensava nela ou se a tinha esquecido. Maria tinha deixado de lhe escrever depois daquela dolorosa
carta que devolvera na Primavera. Tinham sido amigas, amigas do peito. Era assim to fcil esquecer? Todos tinham esquecido? Quando pensava na casa, sentia-se retalhada
por dentro.
Daisy foi passar o Natal com a me. Telefonou a dizer que havia tanta neve que no conseguiam sair de casa, pelo que a me lhes dava todas as manicuras e pedicuras.
Espero que isto continue assim durante umas semanas, talvez consigamos arrancar uma casa nova a Bernard. Sofia ficou triste por ela se ter ido embora - no tinha
famlia para onde ir e sentia a falta da amiga de uma maneira horrvel.
Sofia passou o dia de Natal com Anton e Marcello na casa toda cor-de-rosa de Maggie, em Fulham. Adoro cor-de-rosa, disse ela com entusiasmo, exibindo as suas fofas
pantufas cor-de-rosa, ao mostrar a casa a Sofia.
- No fazia a menor ideia - disse Sofia a rir mas, por dentro, sentindo-se morta. Reparou que at a tampa da sanita era lils. Abriram garrafas de champanhe; Anton
adejava pela sala, de calas  boca-de-sino a imitar pele de zebra e lantejoulas  volta da cabea como se fosse uma coroa romana, e Marcello deitou-se no sof a
fumar um charro. Maggie passou todo o dia na cozinha com Sofia, que no tinha mais nada para fazer alm de sentir saudades de casa. Cada um tinha trazido pequenos
presentes para os outros. Maggie deu-lhe uma
290
caixa de vernizes para as unhas que Sofia sabia que nunca usaria e Anton deu-lhe um ncessaire verde, completo, com espelho e uma bolsa para a maquilhagem. Ela reflectiu
sobre a sua pobreza. Fazia parte de uma das famlias mais ricas da Argentina; agora no tinha nada.
Depois de jantarem e beberem demasiado vinho, sentaram-se junto da lareira, a ver as chamas lamberem as paredes, que deixaram de ser cor-de-rosa e passaram a cor
de laranja. De repente, Sofia deixou cair a cabea nas mos e chorou. Maggie olhou para Anton, que lhe fez um aceno. Ela sentou-se no cho e passou um brao fortemente
perfumado  volta dela.
- O que , queridinha? Podes dizer-nos, somos teus amigos.
E Sofia contou-lhes, omitindo a parte acerca de Santiguito. Esse segredo era demasiado vergonhoso para que o revelasse fosse a quem fosse.
- Um homem. Tinha de ser a porcaria de um homem! - lamentou-se Anton, iradamente, quando ela terminou.
- Tu s um homem, amor.
- S meio, fofinha - replicou ele, esvaziando o copo e enchen-do-o outra vez. Marcello dormia no sof, com a mente a flutuar algures entre as colinas da Toscana.
- Ests melhor sem ele, queridinha - disse Maggie com meiguice. - Se ele no conseguiu sequer cumprir a promessa de te escrever, eu diria que tens sorte por te teres
livrado dele.
- Mas eu amo-o tanto que di, Maggie - soluou ela.
- Isso acaba por passar. Acaba por passar a todos, no , Anton?
- Passa, sim.
- Um dia encontras um ingls encantador - disse Maggie, solcita.
- Ou italiano.
- No teu lugar, eu mantinha-me bem longe desses, amor. Sim, um ingls bem simptico.
No dia seguinte, Sofia acordou com dor de cabea e com umas saudades desesperadas do seu menino. Enrolou-se at fazer uma bola e soluou sobre a musselina, at lhe
parecer que a cabea ia partir-se ao meio como um melo. Recordou a carinha de Santiguito, aqueles lm-
291
pidos e inocentes olhos azuis que tinham confiado nela. Ela tinha-o trado. Como podia ter sido to insensvel? No que estava a pensar? Como podia Dominique ter
permitido que ela entregasse o seu precioso beb, a vida que tinha crescido dentro de si? Apertou o ventre e chorou a perda do filho; de repente teve medo de nunca
mais o ver. Tinha chorado tanto que a garganta lhe doa de uma maneira insuportvel. Por fim, puxou o telefone para a cama e ligou para a Sua.
- Oui?
O corao de Sofia caiu-lhe aos ps quando ouviu a voz rabugenta da governanta ao telefone.
- Madame Ibert,  Sofia Solanas, de Londres. Posso falar com Dominique, por favor? - perguntou, esperanosa.
- Lamento, mademoiselle, monsieur e Madame La Rivire foram para fora do pas durante dez dias.
- Dez dias? - perguntou, surpreendida. No tinham falado em ir para lado nenhum.
- Oui, dez dias - replicou a outra com impacincia.   -
- Para onde foram? - perguntou, cheia de desespero.
- No disseram.
- No disseram?
- No, mademoiselle.
- Deixaram algum nmero?
- No.
- No deixaram um nmero de telefone de contacto?
- Mademoiselle Sofia - disse a mulher em tom irritado -, no disseram para onde iam, no deixaram nmero de telefone nem morada. Disseram que iam estar fora dez
dias, e  tudo. Desculpe, mas no posso ajud-la. Lamento.
- Tambm eu lamento - soluou ela, e pousou o auscultador. Demasiado tarde, era demasiado tarde.
Sofia enrolou-se mais uma vez sobre si mesma com os braos  volta do corpo. Encostando a cara  musselina, recordou que a ltima vez que tinha sentido uma infelicidade
igual tinha sido quando o av O'Dwyer morrera ao seu lado. Nunca mais veria Santiguito. Tambm nunca mais veria o seu amado av. Era to definitivo como se Santiguito
tivesse morrido. Nunca, nunca conseguiria perdoar a si mesma.

CAPTULO VINTE E CINCO
O Natal tinha sido doloroso. Sozinha no seu apartamento, Sofia chorara at adormecer, a pensar em Santa Catalina e a sentir a falta de todos. Anton e Maggie tomaram
conta dela durante o resto das frias, tendo o cuidado de no a deixar sozinha e no permitindo que mergulhasse numa espiral de depresso. Quando o salo reabriu,
Sofia sentiu-se aliviada por regressar ao trabalho, na esperana de que 1975 fosse um ano mais feliz para si. Para isso, esforou-se para olhar em frente em vez
de olhar para trs - afinal, seria esse o conselho do av, se fosse vivo. Este pensamento pareceu ajud-la.
Dominique ia a Londres com mais regularidade, pois Antoine fazia agora mais negcios na City que antes. Quando estava com Dominique, comiam em restaurantes elegantes
e faziam compras em Bond Street, o que lhe recordava a vida privilegiada que outrora tivera; dava-lhe agora o devido valor porque, no momento em que Dominique regressava
a Genebra, a sua vida voltava a cair para o nvel de uma trabalhadora normal.
O ano passou rapidamente. Fez amizade com Marmaduke Huck-ley-Smith, o homem de culos que geria a livraria, que a apresentou aos seus amigos; de vez em quando, um
deles convidava-a para sair, o que era simptico, mas no agradava a Sofia. Ningum lhe agradava.
Nos seus tempos livres, Sofia e Daisy andavam por King's Road, em busca de pechinchas. O look tnico estava na moda, e Sofia satisfez o seu gosto pelas saias compridas
e flutuantes da Monsoon; Anton pintou-lhe o cabelo com grossas madeixas ruivas e, um dia em
293
que estava aborrecido, esticou o cabelo de Daisy, o que deixou a rapariga praticamente irreconhecvel, mas muito interessante. Iam ao cinema uma vez por ms e ao
West End, onde viram A Ratoeira.
- Sabes, o homem que construiu este teatro era um aristocrata rico que se apaixonou por uma actriz. Construiu-o para ela. No achas incrivelmente romntico? - sussurrou
Daisy, quando j estavam sentadas.
- Talvez um dos amantes de Maggie lhe construa um salo novo. Isso  que valia a pena! - disse Sofia com uma risada.
Anton levou-as a ver o musical The Rocky Horror Show e embaraou-as a todas ao chegar num Cadillac cor-de-rosa alugado, usando suspensrios e roupa interior de renda,
enquanto Marcello o seguia com um ar afectado, com um fato completo estampado a imitar pele de tigre. Maggie ficou horrorizada e exclamou que esperava que ele no
se esquecesse de mudar de roupa antes de ir trabalhar na segunda-feira de manh. Sofia comentou que, para que o fato ficasse perfeito, Marcello s precisava de uma
cauda comprida. O italiano replicou secamente que, se lhe mostrasse a cauda que tinha, nenhum outro homem estaria  altura da comparao.
Daisy conseguiu arranjar bilhetes baratos para David Bowie, que se exibia em Wembley. Alm de Bowie, Daisy tinha um fraquinho por Mick Jagger e punha a msica dele
muito alto no salo, o que irritava Maggie, que preferia os sons suaves de Joni Mitchell.
A pouco e pouco, os frios meses de Inverno foram-se embora, levando com eles o suplcio de Sofia. A medida que as ruas se enchiam de flores cor-de-rosa e brancas,
foi descobrindo um novo estado de esprito - a atitude mental positiva do av O'Dwyer.
Atirou-se ao trabalho e Maggie aumentou-lhe o salrio. Sofia gostava de viver com a sua amiga Daisy e as duas passavam muitas noites no Caf des Artistes a rir enquanto
tomavam uma bebida. Daisy bebia sempre cerveja, que Sofia achava um bocado repugnante. E tambm no conseguia compreender o maior de todos os amores dos Britnicos
- Marmite. Mas achava que estava em minoria. Parecia que toda a gente tinha sido criada  base de po barrado com Marmite.
-  por isso que somos to altos - disse Anton alegremente, do alto do seu metro e noventa.
294
Em Agosto, Maggie fechou o salo durante quinze dias e convidou-os a todos para uma estadia na sua casa de campo alugada no Devon, para desfrutarem os prazeres do
mar e das praias. Sofia passou um tempo encantador, embora sentisse muito a falta do sol, pois parecia que chovia durante a maior parte do tempo. Recordou que a
me falava das colinas de Glengariff e ficou a pensar se seriam semelhantes s colinas de Devon. Fizeram piqueniques na praia hmida, com os fatos de banho vestidos,
encolhidos debaixo dos chapus-de-chuva, enquanto o vento atirava areia para as sanduches. Mas riam-se das piadas uns dos outros e de Marcello, que nunca conseguia
compreender a loucura dos Ingleses e que tremia de frio, vestido com calas de veludo grosso e camisolas de gola alta.
- Levem-me outra vez para a Toscana - lamuriou-se -, onde vejo o cu e sei que o Sol existe.
- Ora, v se te calas, Marcello, no sejas to italiano - resmungou Maggie, engolindo gulosamente uma fatia de bolo de chocolate.
- Cuidado, fofinha, eu amo-o por ele ser italiano - disse Anton, deixando que o amigo se aconchegasse a ele para se aquecer.
- Marcello tem razo - disse Daisy com convico. - Olhem para ns; as nicas pessoas que esto nestas praias so inglesas. Somos mesmo ridculos, aqui sentados
 chuva, num frio dia de Vero, como se estivssemos no Sul da Frana.
- Foi por isso que ganhmos a guerra, queridinha - respondeu Maggie, tentando acender um cigarro ao vento. Sempre que acendia um fsforo, ele apagava-se. - Oh, pelo
amor de Deus, algum, Anton, Sofia, quero l saber quem, acenda-me a porcaria de um cigarro antes que eu perca a pacincia.
- Tu no estiveste na guerra, Maggie - disse Anton a rir. - Nem sequer s capaz de acender uma beata. - Meteu o cigarro na boca, virou as costas ao vento e acendeu-lho.
- Estou espantada contigo, Anton - replicou ela, secamente -, s mais mulher que homem. Ests muito calada, Sofia, o gato levou-te a lngua? - Olhou de relance para
Sofia que estava embrulhada numa toalha hmida. Conseguiu fazer um sorriso constrangido, com os lbios j azuis que tremiam de frio.
- Desculpem, mas estou do lado de Marcello. Estou habituada s praias da Amrica do Sul - disse ela, a bater o queixo.
295
- Ora vejam-me estes dois cheios de importncia - replicou Maggie com um sorriso amarelo. - Mesmo assim, vai ser o segredo do vosso sucesso. Uma dose de capacidade
de resistncia britnica.  por isso que os nossos exrcitos so os melhores do mundo. Capacidade de resistncia, e ningum tem tanta como os Britnicos.
- Bem, tu tens, sem dvida, Maggie - disse Daisy a rir. - Sofia, aposto que nunca consideraste a possibilidade de estar aqui quando te deitavas ao sol naquelas praias
quentssimas da Amrica do Sul.
- Tens razo - respondeu ela com toda a verdade, mas pelo menos Devon no tinha nada que lhe lembrasse a terra natal. Naquelas praias frias e tristes, estava num
mundo completamente diferente.
O Natal de 1975 foi mais feliz que o do ano anterior. Sofia passou dez dias com Dominique e Antoine no seu chal em Verbier. Delfine e Louis tinham convidado amigos
e, mais uma vez, o chal vibrou com os alegres gritos de satisfao,  medida que os presentes eram abertos e se jogavam jogos. As luzes natalcias cintilavam no
ar tonificante e os sinos ressoavam por todo o vale. O tempo estava suspenso num limbo mgico, onde o Sol brilhava todos os dias num cu cor de seara madura que
s se desfez depois da partida de Sofia para Londres. Quando regressou, o Ano Novo guardava-lhe uma surpresa de todo imprevisvel.
Daisy tinha sugerido que fossem a um clube no Soho por onde param todos os actores. Como Sofia adorava teatro, pensou que era uma ideia maravilhosa e arranjou,
no mercado de Portobello Road, uma velha saia de patchwork e um chapu de veludo mole para usar com as botas de cabedal castanho que tinha comprado com Dominique
em Genebra. No tinha muito dinheiro e era quase impossvel fazer economias com o pouco que ganhava, mas achou que merecia um prazer. Um prazer para simbolizar o
incio de uma era nova e mais positiva.
O clube estava apinhado de gente alegre que se amontoava para fugir do frio. As raparigas arranjaram dois lugares sentados no bar, quando um casal exasperado se
foi embora porque no conseguia chamar a ateno de ningum que lhes servisse uma bebida. Olhando em volta, Sofia e Daisy reconheceram pelo menos dois actores e
um
296
apresentador de televiso. Como eram jovens e bonitas, no tiveram dificuldade em descobrir algum que as servisse. O barman alisou o seu comprido cabelo preto,
apanhado num rabo-de-cavalo bem feito, e apareceu  frente delas, com a cara aberta num sorriso pegajoso.
Faltava um quarto de hora para a meia-noite e Daisy namoriscava alegremente com um escultor suado que era evidente que tinha bebido demasiado. Depois de se babar
por cima da blusa decotada dela, levou-a para o outro lado da sala. Sofia sorriu-lhe e abanou a cabea. Daisy no parecia preocupada com quem beijava, desde que
lhe pagassem uma bebida e lhe prestassem alguma ateno. Sofia ficou calmamente sentada a observar as pessoas  sua volta. Toda a gente estava alegre, mas ela no
se importou por estar sozinha. J se tinha habituado.
- Posso oferecer-lhe uma bebida?
Ela virou-se e viu um homem interessante e bem constitudo que se sentou ao lado dela. Reconheceu-o imediatamente da pea que tinha visto algumas semanas antes.
Fora o protagonista em Hamlet, que representou com grande ardor. Pessoalmente, achava que tinha forado a nota, mas pensou que ele no apreciaria a avaliao naquele
momento. Acenou e pediu outro gin tonic. Ele levantou a mo, chamando imperiosamente o barman, que se apresentou sem demora.
- Um GT para a minha amiga e um usque para mim - disse ele, depois virou-se de novo para Sofia, apoiando o cotovelo no tampo do balco.
- O meu av costumava beber usque - comentou Sofia.
- Uma bela bebida.
- Na verdade, foi enterrado com a sua garrafa da pinga - acrescentou, imitando o sotaque irlands.
- Porqu?
- Porque tinha medo que os leprechauns a roubassem - respondeu com uma risada. Ele olhou para ela e riu-se tambm. A jovem era, sem dvida, diferente de todas as
pessoas que tinha conhecido at ento.
-  irlandesa?
- A minha me  irlandesa. O meu pai  argentino.
- Argentino?
297
- Sim, mas de sangue espanhol.
- Cus! - exclamou ele. - O que a trouxe ento para aqui?
-  uma longa histria - respondeu, tentando pr o assunto de lado.
- Gostava de ouvi-la.
Ficaram sentados a conversar, mesmo com a msica alta. Se no tivesse puxado o banco para mais perto do dela e no se inclinasse para a ouvir melhor, teriam de gritar.
Ele apresentou-se: Jake Felton. Falava com um belo sotaque ingls, numa voz profunda e dominadora.
- Sofia Solanas - disse ela.
- Um nome forte para o palco. E voc seria uma actriz deliciosa - disse, com ar conhecedor, enquanto o seu olhar devorava a figura generosa dela.
- Vi a sua pea.
- Viu? - exclamou ele com um sorriso de orelha a orelha. - Gostou? Se no gostou, no diga - acrescentou jovialmente.
- Na verdade, gostei. Mas no se esquea de que sou estrangeira, por isso no compreendi uma grande parte do ingls.
- No se preocupe. A maioria dos ingleses tambm no compreende Shakespeare. Venha ver-me outra vez. Estou numa pea nova que estreia em Fevereiro no Old Vic.
- Talvez v - disse ela timidamente, e despejou o copo. Quando anunciaram a meia-noite - cinco, quatro, trs, dois,
um, feliz ano novo! - todos ergueram os copos e beijaram as companhias. Jake pousou a mo na cara dela e beijou-a. Teria acertado nos lbios se ela no tivesse virado
a cara para lhe apresentar a face. Quando perguntou se podia voltar a v-la, ela deu-lhe o nmero de telefone.
Para sua surpresa, Jake Felton telefonou-lhe na semana seguinte. No primeiro encontro levou-a a jantar no Daphn, na Draycott Ave-nue. Conhecia Giordano, o exuberante
italiano que geria o restaurante e por isso deram-lhe a melhor mesa da sala. Ao princpio, Sofia sentiu-se pouco  vontade, como se estivesse a trair Santi. Mas
depois recordou a si mesma que Santi  que j a tinha trado. Tinha de crescer, seguir em frente.
298
Passados alguns meses, Jake e Sofia encontravam-se regularmente. Maggie e Anton ficaram embasbacados de admirao quando souberam e sentiram-se genuinamente felizes
pela amiga. Jake Felton. Muito gostoso!, comentara Anton entusiasmado, quando recuperou do choque. Daisy tinha-a avisado para que tivesse cuidado - ele  um autntico
sedutor, dissera. Daisy tinha muito tempo para ler as seces de bisbilhotice nas horas de trabalho. Por vezes, o telefone no tocava durante horas. Sofia retorquiu
que todos os homens latinos eram assim e por isso estava habituada. Pouco tempo depois, j Sofia assistia aos ensaios dele e era apresentada a todos os seus amigos.
De repente, o seu pequeno mundo londrino alargou-se e ela deu por si a movimentar-se em crculos muito mais excitantes e tambm mais bomios.
Quando Jake fazia amor com Sofia, ela preferia deixar as luzes acesas. Gostava de olhar para ele. Ele sentia-se lisonjeado. Ela no podia dizer-lhe que, quando fechava
os olhos, pensava em Santi. Jake era diferente de Santi em todos os aspectos. Mas o seu corpo tinha sido de Santi, s ele tinha entrado nela. Por muito que tentasse
mant-lo afastado, a sensao de um homem dentro de si evocava-o e trazia-lhe  ideia o filho que tinham feito juntos. Tinha de manter os olhos abertos para esquecer.
Jake era carinhoso e excitava-a, mas no o amava. Ele dizia-lhe que a amava, que o seu mundo tinha mudado por causa dela. Que nunca tinha sido to feliz, to realizado.
Mas ela era incapaz de reagir com a mesma veemncia. Tudo o que conseguia era dizer-lhe que gostava muito dele, que se sentia confortvel com ele, que ele tinha
preenchido o vazio que ela tinha dentro de si.
A noite, Sofia assistia aos ensaios de Jake e depois fazia a crtica do desempenho. Ajudava-o mesmo a decorar as falas quando estavam juntos na cama,  noite. De
repente, ele punha-se de p de um salto e lanava-se num dos seus solilquios. Nos restaurantes, pedia-lhe que o deixasse praticar com ela. Fazes de Jlia, v!
- suplicava. E ento ficavam sentados  mesa a repetir as falas memorizadas, com as caras alteradas pelas expresses das personagens que representavam, at que o
riso invadia a cena e eles ficavam ofegantes, sem conseguir respirar.
299
- Mas ele nunca fala de ti, fofinha? - perguntou Anton uma noite, quando j saam juntos h um ms.
- Claro que fala.  s que, neste momento, o trabalho dele  muito importante.  a prioridade dele - insistiu Sofia. Anton fungou de desaprovao, enquanto ela apanhava
do cho as ltimas pinas para o cabelo.
- No quero ser desmancha-prazeres, amor, mas, quando o conheci, achei-o decididamente arrogante - comentou Maggie, sacudindo a cinza do cigarro para o cho. Anton
agarrou nas toalhas e atirou-as para dentro de um cesto de verga alto.
- Finge-se arrogante porque  tmido - disse Sofia, na defensiva.
- Tmido! Se ele fosse tmido, amor, no se exibia daquela maneira no palco - troou ela. - Anton, s uma jia e serve-me mais um copo de vinho.  a nica coisa
que uma velhota como eu pode esperar com prazer nestes tempos que vo correndo.
- No sejas azeda, Maggie - censurou Anton, depois sorriu compreensivamente. - Em breve sers devorada por um soberbo pedao de homem, no achas, Sofia?
Sofia acenou.
- David Harrison, o produtor da pea de Jake, convidou-nos a irmos  casa de campo dele passar o fim-de-semana - disse-lhes, arrumando a escova e sentando-se junto
de Maggie no sof.
- Sabemos quem  David Harrison, no sabemos, Maggie?
- Sim,  muito famoso. Teve um divrcio conflituoso h cerca de dez anos, talvez mais, no me lembro. Olha, esse  que era homem para ti, amor.
- No sejas ridcula, Maggie. Sou muito feliz com Jake.
- Que pena - disse Anton, franzindo os lbios.
- Bem,  como quiseres - disse-lhe Maggie. - Mas no digas que no te avisei quando Jake fugir com a estrela da companhia. So todos assim, os actores. J tive alguns.
No volto a meter-me por esse caminho nem que me paguem.  certo que David Harrison tem idade para ser teu pai... Mas repara, no h nada de mal num homem rico,
simptico e mais velho, pois no, Anton?
- Conta-nos tudo quando voltares, est bem, fofinha? - pediu ele a Sofia, piscando-lhe o olho.
300
No sbado de manh, Jake foi buscar Sofia a Queen's Gate no seu Mini-Cooper e depois meteu-se na auto-estrada para Gloucestershire, conduzindo como um louco. Falou
de si mesmo durante todo o caminho; tinha um ligeiro desentendimento com o director por causa de uma cena da pea. Eu sou o actor disse, e tenho a certeza de
que a minha personagem nunca reagiria daquela maneira. Conheo a minha personagem!
Sofia recordou a conversa com Maggie e Anton e observou com tristeza a paisagem coberta de gelo que passava a correr pela sua janela. Jake no parecia notar que
ela ia calada; estava demasiado ocupado a falar afectadamente do seu director. Sofia sentiu-se aliviada quando chegaram  casa cor de areia de Harrison, que se erguia
na extremidade de um longo caminho,  sada da vila de Burford.
David Harrison apareceu  porta, acompanhado por dois ces labrador cor de mel que abanaram as caudas ao verem o carro. David era de altura mdia e elegante, com
a cabea totalmente coberta de cabelo castanho-claro, ligeiramente grisalho nas tmporas. Usava uns pequenos culos redondos e exibia um grande sorriso acolhedor.
- Bem-vindos a Lowsley, no se incomodem com a bagagem - disse. - Venham tomar uma bebida.
Sofia seguiu Jake pelo caminho de gravilha em direco a ele. Os dois homens apertaram as mos e David deu a Jake uma palmada afectuosa nas costas.
- Gosto em ver-te, Lothario.
- David, apresento-te Sofia. Sofia Solanas - disse ele, e Sofia estendeu a mo.
- Jake tem-me falado muito de si - disse David, dando-lhe um aperto de mo firme. - Ser um prazer conhec-la pessoalmente. Agora entre, no faa cerimnia.
Entraram atrs dele para um vestbulo enorme. Todas as paredes pareciam estar cobertas de pinturas de todos os tamanhos, e no havia uma nica superfcie que no
estivesse ocupada por torres instveis de livros. O soalho, de boa madeira, estava parcialmente oculto por luxuosos tapetes persas e grandes plantas em potes chineses.
Sofia gostou imediatamente da casa. Era quente e dominada pelo cheiro a co.
301
David conduziu-os at  sala de estar, onde quatro pessoas que Sofia no conhecia estavam sentadas  volta de uma lareira exuberante a fumar e a beber. De repente,
Sofia recordou a casa de Chiquita em Santa Catalina e bloqueou a dor que acompanhava sempre aquelas recordaes. Foram apresentados aos outros convidados: os seus
vizinhos Tony Middleton, o escritor, e a esposa, Zaza, proprietria de uma pequena boutique na Beauchamp Place, e Gilbert d'Orange, um cronista jornalstico francs,
e a esposa, Michelle, a quem chamavam Miche. Depois sentaram-se todos e retomaram a conversa.
- E ento que faz? - perguntou Zaza, virando-se para Sofia. Sofia encolheu-se.
- Trabalho num salo de cabeleireiro chamado Maggie's - respondeu, e reteve a respirao,  espera que Zaza sorrisse com expresso delicada, mas desdenhosa, e lhe
virasse as costas.
Mas, para seu deleite, os olhos verdes, maquilhados, de Zaza arregalaram-se e ela arfou.
- No acredito! Tony, querido. Tony! - O marido interrompeu a frase a meio e virou-se para Zaza. Todos se calaram para ouvir. - Nem vais acreditar! Sofia trabalha
com Maggie!
Tony sorriu de esguelha.
- O mundo  pequeno! Maggie foi casada com o meu segundo primo, Viv. Oh, cus, como est a velhota?
Sofia ficou exultante e pouco depois estavam todos agarrados ao estmago, a rir  gargalhada com as suas imitaes de Maggie e de Anton. David, que estava junto
do armrio das bebidas, ficou a olhar para ela, pensando que nunca tinha visto uma pessoa to encantadora em toda a vida. Havia um ar de tragdia nos seus grandes
olhos castanhos, apesar do seu sorriso generoso, e ele sentiu vontade de a tomar nos braos e tomar conta dela. Era muito mais nova que os outros e, mesmo assim,
no tinha dificuldade em falar com eles. Foi s quando Zaza, que tinha sido decididamente conquistada por Sofia, lhe perguntou com toda a inocncia qual era o seu
pas de origem, que a sua convidada ficou calada durante um bocado.
Depois do almoo na sala de jantar - que cheirava a mofo -, servido por uma senhora rotunda chamada Mrs. Berniston, Gilbert e Miche meteram-se no quarto para dormir
a sesta.
302
- Aquele pudim de chocolate e o vinho deixaram-me trs, trs fatigue - disse Gilbert, pegando na mo da sua esposa miudinha e levando-a pela escada acima. Jake decidiu
ir fazer jogging.
- Achas que  boa ideia depois de uma refeio pesada? - interrogou Sofia.
- No fiz esta manh e gosto de o fazer antes de escurecer - respondeu, subindo a escada a correr, dois degraus de cada vez.
- E porque no vamos ns dar um passeio? Assim tambm fazemos um pouco de exerccio - sugeriu Zaza cheia de entusiasmo. - Vens connosco, David?
O ar estava glido, mas o calor do sol caa sobre eles de um cu lmpido e cerleo. Os jardins estavam abandonados, embora evocassem misteriosamente a ordem de uma
era passada, quando a ex-mulher de David, fantica da jardinagem, cuidara amorosamente deles. Os quatro, Tony, Zaza, Sofia e David seguiram pelo caminho empedrado
que atravessava o jardim das traseiras da casa, comentando a rir que se sentiam cheios e letrgicos depois de um almoo to grandioso. As rvores estavam nuas e
geladas por causa das geadas de Fevereiro, e os arbustos rasteiros, sobre os quais caminhavam, estavam hmidos e podres.
Sofia bebeu sofregamente o ar do campo e apercebeu-se de que j h muito tempo no estava num stio to belo. Lembrou-se de Santa Catalina no Inverno e pensou que,
se fechasse os olhos e inspirasse os aromas da terra hmida, carregados com o cheiro adocicado da folhagem de Inverno, quase poderia convencer-se de que estava l.
Gostava de David. Ele tinha aquele -vontade ingls que tanto atraa a sua natureza estrangeira. Era muito atraente, de uma maneira intelectual, no era belo mas
sim interessante. Era forte, sabia o que queria e era carismtico, no obstante os seus olhos azul-claros serem profundos, revelando que tambm ele tinha experincia
das lutas da vida. Quando desceram uma pequena colina em direco a um grupo de estbulos, o corao de Sofia teve um sobressalto.
- Se algum quiser andar a cavalo, tenho dois cavalos - disse David, descuidadamente. - Ariella costumava fazer criao. Quan-
303
do se foi embora, a quinta de criao foi fechada e tive de vender as fmeas todas. Foi trgico. Agora tenho apenas dois para minha diverso.
Sofia deu por si a andar cada vez mais depressa, deixando ficar os outros para trs a descerem a colina. Sentiu a garganta a contrair-se enquanto remexia no ferrolho
de uma das portas do estbulo. Quando o som de palha remexida indicou que havia um cavalo l dentro, ela fungou, tentando controlar as emoes. Chegou-lhe imediatamente
ao nariz o cheiro de feno quente; estendeu a mo, sorrindo tristemente quando o focinho aveludado do animal lhe tocou com curiosidade. Passou os dedos pelo focinho
branco do cavalo, sem nunca deixar de contemplar amorosamente os seus olhos brilhantes como berlindes. S ento, quando o cheiro nico a cavalo se agarrou s suas
narinas, Sofia se apercebeu de quanto tinha sentido a falta deles. Encostou a cabea do animal  sua e serviu-se do plo dele para apagar a sua melancolia.
- Quem s tu? - perguntou, acariciando-lhe as orelhas. - Como s belo. To belo. - Sentiu uma lgrima no lbio e lambeu-a. O cavalo pareceu compreender a sua infelicidade
e soprou para a cara dela. Sofia fechou os olhos e imaginou que estava de novo em casa. Inclinando-se sobre o seu novo amigo e sentindo a sua quente pelagem acetinada
contra a pele, sentiu-se brevemente regressada  pampa hmida. Mas tudo era demasiado real, ento abriu os olhos de repente e pestanejou para afastar a recordao.
Quando David virou a esquina, viu a cabea de Sofia mergulhada no pescoo de Safari. Queria aproximar-se dela, contudo pressentiu que aquele era um momento privado.
Diplomaticamente, fez Tony e Zaza voltarem para trs e seguirem para o outro lado.
- Ela est bem? - sussurrou Zaza, que tinha reparado em tudo.
- No sei - disse David, abanando a cabea com ansiedade. - Uma rapariga estranha, no ?
- H um bocado, no quis falar de casa quando lhe fiz perguntas sobre ela - comentou Zaza.
- Talvez sejam apenas saudades - disse Tony com o seu bom senso. - Provavelmente sente a falta da terra natal.
304
- David! - Viraram-se todos e viram Sofia, que corria ansiosamente para eles. - Preciso de... quero dizer, adoraria dar um passeio a cavalo. Posso?
Zaza e Tony continuaram o passeio sozinhos, deixando David e Sofia a selar os cavalos e a iniciarem uma longa cavalgada de que s regressariam depois do sol-posto.
Enquanto Sofia e David trotavam pelos montes Cotswolds, Sofia teve a sensao de que um peso opressivo tinha sido retirado do seu peito. Conseguia respirar de novo
e encheu os pulmes de grandes golfadas de ar. A sua mente ganhou lucidez; de repente, sabia quem era, sabia qual era o seu lugar. Sentiu que tinha chegado a casa,
cavalgando por aquelas colinas acima, conseguindo ver milhas e milhas de uma manta de retalhos de campos e "bosques que se estendiam ondulantes  sua frente como
um agitado mar verde. Voltou a sorrir; no s por fora, mas sorriu aberta e genuinamente por dentro. Todo o seu corpo foi injectado de energia, uma energia que nunca
mais sentira desde a ltima vez que estivera em Santa Catalina.
David notou imediatamente a mudana. Como um actor numa pea, tinha despido o fato de palco e revelado a pessoa autntica que ele ocultava. Quando fecharam as portas
do estbulo e penduraram os arreios no lugar, j se riam como fazem os velhos amigos, agarrados  barriga de tanto rir.

CAPTULO VINTE E SEIS
Quando Jake trouxe novamente Sofa para Queen's Gate, esta veio a reflectir na proposta de David.
- Gostaria imenso de pr estas instalaes a funcionar de novo - tinha ele dito, referindo-se aos cavalos. -  evidente que tem um bom conhecimento de cavalos. A
minha ex, Ariella, criava cavalos de corrida. Produzia potros de qualidade superior. Quando se foi embora, foi o fim, vendi-os todos menos Safari e Inca. Pago-lhe,
claro, e contrato todo o pessoal de que necessitar. No precisa de estar presa no campo toda a semana, s tem de vigiar. A propriedade est morta, se no tiver quem
tome conta dela. Vai ficar destruda em pouco tempo e eu no gostaria nada de vender os cavalos.
Sofia recordou o seu tom neumtico. Era prosaico, mas a sua expresso era calorosa. Deu por si a sorrir ao lembrar-se dele. Era uma ideia simptica, mas Jake nunca
permitiria; no havia de querer que ela trabalhasse no campo. Era demasiado possessivo, mas Jake era tudo quanto tinha.
Em Abril, estava a pea em palco havia dois meses, Sofia abriu a porta do camarim de Jake e encontrou-o enfiado dentro de Mandy Bourne, a protagonista, contra a
parede. Tinha descido as calas e o que mais tarde ficou na mente de Sofia foi o seu traseiro branco a arremeter agressivamente contra uma Mandy desgrenhada e suada,
ainda com a roupa do sculo xvii do palco. Ficara mesmo ali uns dois minutos at eles darem por ela. Mandy grunhia como um porco com fome, com a cara retorcida numa
expresso de dor, mas Sofia depreendeu que estava a gostar pelos miados que se ouviam entre os
306
grunhidos. Jake murmurava amo-te, amo-te ao ritmo dos impulsos e parecia estar a chegar ao moment critique quando Mandy abriu os olhos e gritou. Jake enterrou
a cara nos seios moles dela e exclamou Porra!, quando viu Sofia parada, muito hirta, no umbral da porta. Mandy tinha fugido, desfeita em lgrimas.
No havia desculpas, nem penitncia. Jake culpara Sofia, afirmando que s dormira com Mandy porque fora incapaz de chegar at ela.
- Tu no me amas! - gritara ele em tom acusador.
- Primeiro tenho de confiar em ti - respondera ela com frieza. Quando saiu do teatro nessa noite, ela f-lo pela ltima vez. No
queria voltar a ver Jake Felton. Ao pegar no telefone, esperou que David Harrison se lembrasse da oferta que lhe fizera em Fevereiro.
- Vais deixar-nos? - gritou Anton, em desespero. - Oh, no, no aguento!
- Vou pr a funcionar uma quinta para criao de cavalos para David Harrison - explicou ela.
- Mas que homem desprezvel - rosnou Maggie, inalando o fumo do cigarro.
- Oh, Maggie, no tem nada a ver com isso. Apesar de que tinhas razo acerca de Jake Felton. Homens, quem precisa deles!
- Ooh no, ests desactualizada! Maggie arranjou um amante, no foi, fofinha? Um cliente. Talvez o p de Maggie tenha resultado, afinal de contas. - Maggie arreganhou
os lbios, muito satisfeita consigo mesma.
- Boa, Maggie! Oh, cus, estou to triste por os deixar a todos - Sofia fez uma pausa -, mas no fico sempre em Lowsley. Vamos estar em contacto.
- Espero bem que sim. Seja como for, Daisy vai contar-nos os mexericos todos. No te esqueas de nos convidar para o casamento.
- Maggie - Sofia riu-se. - Ele  velho de mais.
- Cautela, eu tambm sou quarentona, sabes... - replicou, e depois acrescentou numa voz gutural: - Veremos.
Daisy ficou desolada por ela se ir embora. No s porque sentiria a falta da amiga, mas tambm porque, se as coisas corressem bem a
307
Sofia, tinha de arranjar outra pessoa com quem partilhar o apartamento. No queria partilh-lo com mais ningum. Ela e Sofia j eram como irms.
- Ento, se gostares, mudas-te para l permanentemente? - perguntou, horrorizada com a ideia de ficar presa no campo, por muito luxuosa que a casa fosse.
- Sim, adoro o campo. Sinto saudades dele - disse Sofia. Lowsley tinha despertado a sua adormecida sensao de afinidade com a natureza; agora, o cheiro da cidade
aterrava-a.
- Vou ter saudades tuas. Quem  que vai arranjar-te as unhas agora? - perguntou Daisy, rabugenta, espetando o lbio inferior para fora.
- Ningum. Volto a ro-las.
- No te atrevas, logo agora que eu as tinha posto to bonitas.
- Vou usar as mos para trabalhar no campo, por isso j no preciso de unhas bonitas - disse Sofia, rindo alegremente, imaginando dias cheios de cavalos e ces e
aquelas interminveis colinas. As duas raparigas abraaram-se.
- No te esqueas de telefonar muitas vezes e de nos visitar de vez em quando. No quero perder o contacto contigo - disse Daisy, sacudindo o dedo diante da amiga
para esconder a tristeza.
Sofia estava habituada a abandonar lugares, a separar-se das pessoas, a fazer novos amigos. Agora j estava habituada. Tinha ensinado a si mesma a desactivar as
emoes para no sofrer, por isso prometeu a Daisy que telefonaria todas as semanas, depois partiu, seguiu para outro lugar. Como um nmada, esperava ansiosamente
pela aventura seguinte, sem se alongar muito nos laos humanos que deixava para trs.
Logo que Sofia se instalou numa pequena casa de campo em Lowsley, sentindo-se ali bem, compreendeu que no ficaria triste se nunca mais voltasse a Londres. Tinha
sentido a falta do campo mais do que notara e, agora que o redescobria, no queria larg-lo nunca mais. Falava com Daisy quase todos os dias ao telefone e ria-se
com os ltimos mexericos do salo de Maggie. Contudo, no tinha muito tempo para pensar nos seus velhos amigos. Estava demasiado ocupada a preparar a propriedade
de David para a criao de cavalos. Ele
308
dissera-lhe que podia vigiar a propriedade. Mas ela no tinha a menor inteno de vigi-la. Queria envolver-se tanto quanto possvel e aprenderia o que no soubesse.
Soube por intermdio de Mrs. Berniston que, quando Ariella se tinha ido embora, tinham tido de fechar os estbulos, pelo que Freddie Rattray, conhecido por Rattie,
se tornara excedentrio. Rattie fora o gestor dos animais, tomando conta dos potros e administrando a quinta. Era um especialista, segundo a informao de Mrs. Berniston.
No encontra homem melhor que Rattie, dissera.
Sofia no perdeu tempo e tratou de localizar e contratar Rattie e a sua filha de dezoito anos, Jaynie, com a ajuda de Mrs. Berniston, que costumava escrever regularmente
a Beryl, a falecida mulher de Freddie. Como Beryl tinha morrido havia pouco tempo, Freddie estava ansioso por regressar a Gloucestershire e retomar a sua antiga
vida.
Quando David vinha passar os fins-de-semana, era saudado pelo sorriso rasgado de Sofia e pelo seu contagioso sentido de humor. Andava sempre de calas de ganga e
T-shirt, muitas vezes com a velha camisola de malha creme, que ela lhe pedira emprestada e nunca devolvera, atada  volta da cintura. O ar do campo tinha alterado
o aspecto da sua pele; agora brilhava de sade rstica e usava o cabelo comprido e brilhante cado at aos ombros, em vez de o prender atrs como costumava. Os olhos
dela cintilavam e a sua energia irreprimvel fazia com que David se sentisse mais jovem na sua presena. Ansiava pelo tempo que passava com ela e sentia-se deprimido
quando tinha de ir para Londres no domingo  noite. Sentia-se satisfeito com os progressos que Sofia fazia, ajudada por Rattie, que ela adorava.
- Ele  to ingls, parece um gnomo dos jardins dos contos de fadas - disse ela.
- Acho que Rattie no ficaria muito satisfeito com essa descrio - respondeu David a rir.
- Oh, ele no se importa. As vezes chamo-lhe o gnomo e ele s sorri. Penso que est to feliz por ter regressado que podia chamar-lhe qualquer coisa.
Rattie tambm era um jardineiro perspicaz e David ficou assombrado com a transformao dos seus terrenos no pouco tempo que
309
trabalhavam neles. Sofia era incansvel. Acordava cedo e preparava o seu pequeno-almoo na casa grande visto que Mrs. Berniston, que vinha trs vezes por semana
para cozinhar e limpar, sugeriu que podia perfeitamente servir-se da cozinha de Mr. Harrison, pois o frigorfico estava sempre cheio. Depois, montava um dos cavalos
para dar uma volta pelas colinas, antes de comear as tarefas do dia nos estbulos.
Rattie sabia tudo acerca de cavalos e Sofia tinha muito que aprender. Em criana, em Santa Catalina, nem sequer tinha de selar um cavalo, pois os gachos faziam-lhe
tudo. Rattie troava dela, dizendo que tinha sido demasiado mimada e que havia de a meter na ordem, e ela respondia-lhe que ele s ali estava por causa dela e, por
isso, era mais seguro trat-la com respeito. Com o seu sorriso retorcido e a sua expresso sabedora, recordava-lhe vagamente Jos. Perguntava a si mesma se Jos
sentia saudades dela, se os mexericos de Soledad tinham chegado aos ouvidos dele, se perdera a considerao por ela.
Sob a orientao de Rattie, compraram seis guas de alta qualidade e contrataram dois moos de estrebaria para trabalhar com a filha dele, Jaynie.
- Isto vai demorar at estar em ordem e a funcionar - foi o aviso que ele fez a Sofia. - Compreende, o ciclo de gestao  de onze meses - disse ele, envolvendo
uma chvena de caf fumegante com as suas mos rijas. - O Outono  o perodo indicado para procurar garanhes para as nossas guas, garanhes com um bom pedigree
e bem constitudos, compreende? - Sofia acenou. - Se quer cavalos de corrida de grande classe, precisa de garanhes de grande classe. - Ela acenou outra vez, enfaticamente.
- Em Agosto e Setembro, apresenta um requerimento para um garanho; fazemos isso atravs de um agente de compra e venda de cavalos.  ele que negoceia a nomeao
com o dono do garanho. Ora, eu estive alguns anos fora disso, mas costumava recorrer a Willy Rankin e creio que ele ainda trabalha. - Sorveu mais um gole de caf.
- A poca comea no dia 14 de Janeiro.  nessa altura que levamos as guas para serem cobertas at se verificar que esto prenhas.
- Quando  que tm os potros? - Sofia tentava fazer perguntas sensatas; tudo parecia bastante mais complicado do que ela esperava. Sentiu-se satisfeita por Rattie
saber o que estava a fazer.
310
- Entre Fevereiro e meados de Abril. Esse  um tempo mgico. Vemos de facto a natureza a trabalhar diante dos nossos olhos. - Suspirou. - Mesmo diante dos nossos
prprios olhos. Dez dias depois do nascimento do potro e de se verificar que  saudvel, tanto ele como a gua voltam para junto do garanho.
- Quanto tempo ficam com ele?
- No mximo trs meses. Depois, quando ela estiver prenha outra vez, trazemo-los para casa.
- Quando  que os vendemos? - perguntou ela, enchendo outra vez a chaleira e pondo-a em cima do fogo.
-  preciso aprender muita coisa, no ? - perguntou ele com uma risada, reparando que ela estava a ficar cansada de pormenores.
- Muito diferente da sua vida em... como  que lhe chama? Pampa?
- A pampa, Rattie. Mas tem razo, nunca fiz nada como isto - acrescentou com humildade, abrindo o frasco do caf granulado.
- Gostando de cavalos como gosta, aprende depressa - disse ele com bondade. - Depois, em Julho h muito trabalho, a preparar os potros de um ano para venda. Vai
gostar dessa poca. Lev-los a caminhar todos os dias, ensin-los a usar a cabeada, esse gnero de coisas. Depois, as pessoas que tratam das vendas vm inspeccionar
os nossos potros de um ano para ver se so adequados para as vendas mais importantes. As vendas realizam-se em Outubro, em Newmar-ket. Isso  que vai ser interessante
para si. Acho que vai gostar - disse ele, estendendo a chvena vazia para ela a encher outra vez.
- Eu ensino-lhe tudo o que sei, mas no aprende sentada  mesa da cozinha. Aprendemos fazendo, era o que o meu pai dizia sempre. Chega de conversa, toca a trabalhar>,
dizia ele. Portanto, agora vou deixar de falar e vamos trabalhar. Est de acordo, senhora? - perguntou, quando ela lhe devolveu a chvena, agora cheia de denso caf
puro, tal como ele gostava. - Que beleza - disse ele, agarrando na chvena.
- Penso que est muito bem, Rattie. - Sofia no estava muito interessada nos pormenores; desde que trabalhasse com cavalos, sentia-se em casa.
O Vero passou depressa. Sofia s conseguira ir a Londres uma vez. Ao princpio, Maggie e Anton ficaram furiosos com ela, que teve
311
de bajul-los at lhes passar o amuo. S tinha ficado uma hora, pois estava ansiosa para regressar para junto dos cavalos. Eles ficaram gratos pela visita, mas sentiam-na
escapar-se-lhes por entre os dedos, o que os entristeceu.
Em Setembro, David comeou a passar mais tempo no campo. Criou outro escritrio no seu gabinete e contratou uma secretria para trabalhar ali com ele em part-time.
De repente, a sua casa estava viva de novo, vibrando com as vozes de pessoas e animais. Mas, se David fosse honesto consigo mesmo, tinha-se apaixonado irremediavelmente
por Sofia e era-lhe quase insuportvel estar longe dela. Por isso a tinha contratado. No se preocupara com o custo; teria pago qualquer soma que ela pedisse. Empreg-la
foi a nica maneira que conseguiu imaginar para a ver sem lhe fazer a corte - e era suficientemente realista para saber que, se tivesse confessado os seus sentimentos,
isso s a teria assustado e ela ter-se-ia afastado. Feitas as contas, doze libras por semana e alojamento na casinha de campo no era nada em comparao com o que
queria dar-lhe, que era um novo nome e tudo o que possua.
Sofia ficou encantada por David decidir passar mais tempo em Lowsley. Ele trouxe os ces, Sam e Quid, que seguiam Sofia para todo o lado durante o dia, com os seus
admirveis olhos de palhao a sorrirem amorosamente para ela. Passavam longos seres a caminhar pelo jardim, conversando, vendo as longas sombras do Vero a tornarem-se
mais curtas no Outono, at que os dias comearam a recuar e as noites a abater-se sobre eles. David reparou que ela nunca falava sobre as suas origens e nada perguntou.
No podia fingir que no sentia curiosidade; queria saber tudo acerca dela. Queria beij-la at afastar os problemas que sentia fervilharem sob o seu sorriso. Na
verdade, queria beij-la sempre que a via, contudo no queria assust-la. No queria perd-la. H muito tempo que no se sentia to feliz. Por isso nunca tentou.
E ento, quando Sofia comeava a conseguir esquecer o seu passado, algum chegou a Lowsley para lho recordar.
David no tinha recebido amigos em casa no fim-de-semana, desde o Vero. Sentia-se feliz por estar sozinho com Sofia, mas Zaza tinha sugerido que talvez ela estivesse
desejosa de se encontrar com pessoas da sua idade.
312
-  uma jovem muito atraente. Um homem pode deitar-lhe a mo antes que d por isso. No pode simplesmente escond-la - tinha ela dito, sem se aperceber de como as
suas palavras o tinham ferido.
David observava Sofia quando ela corria pela propriedade e pensou como ela parecia feliz. No era de modo nenhum a expresso de uma pessoa ansiosa por se encontrar
com outros jovens. Parecia contente com os cavalos. Mas Zaza insistira, pondo de lado as objeces dele com as palavras  preciso uma mulher para compreender uma
mulher. Afinal de contas, ele tinha cerca de vinte anos mais que ela, dificilmente a companhia indicada para uma rapariga daquela idade.
Quando Zaza e Tony o apresentaram a Gonzalo Segundo, um jogador de plo argentino, moreno e invulgarmente alto, amigo do filho deles, Eddie, David percebeu a sugesto
e convidou-os a todos para passarem o fim-de-semana. No previra a reaco de Sofia.
- Sofia Solanas! - exclamou Gonzalo quando foram apresentados. -  da famlia de Rafa Solanas? - perguntou em espanhol. Sofia ficou aturdida. H muito tempo que
no falava espanhol.
-  meu irmo - replicou em voz rouca. Depois recuou um passo, enquanto o som da sua prpria voz a falar a sua lngua materna ps de novo todas aquelas recordaes
suprimidas a chocalhar dentro da sua cabea como um baralho de cartas a cair. Ficou plida e saiu da sala a correr, desfeita em lgrimas.
- Foi alguma coisa que eu disse? - perguntou Gonzalo, perplexo. Pouco depois, David bateu-lhe  porta do quarto.
- Sofia, est bem? - perguntou em voz meiga, batendo de novo.
Ela abriu a porta. David entrou seguido por Sam e Quid, que farejaram ansiosamente os tornozelos dela. A cara de Sofia estava hmida de lgrimas e os seus olhos
injectados de sangue e furiosos.
- Como pde fazer tal coisa? - gritou. - Como pde convid-lo para vir aqui sem me perguntar?
- No sei do que est a falar, Sofia. Acalme-se - respondeu ele com firmeza, tentando pousar a mo no brao dela. Ela afastou o brao com toda a rapidez.
313
- No me acalmo, no - replicou, irada. David fechou a porta; no queria que Zaza ouvisse aquela conversa. - Ele conhece a minha famlia! Vai para a Argentina e
fala-lhes de mim! - soluou ela.
- Isso tem importncia?
- Sim! Sim, tem importncia! - retorquiu ela com brusquido e dirigiu-se para a cama. Sentaram-se os dois. - Tem muita importncia para mim - acrescentou ela em
voz baixa, pestanejando por causa das lgrimas.
- Sofia, no percebo o que est a querer dizer-me. No pode esperar que eu saiba se no me disser. Pensei que gostaria de encontrar algum do seu pas.
- Oh, David. - Ela engoliu em seco e atirou-se para o peito dele. Devagar, ele ps o brao  volta dela. Ela no estremeceu nem o empurrou, por isso ficou ali sentado
a abra-la. - Sa da Argentina h trs anos porque tive uma ligao com uma pessoa que os meus pais no aprovavam. Desde ento no voltei l.
- No voltou? - repetiu ele, sem saber bem o que havia de dizer.
- Briguei com eles. Odeio-os. Nunca mais falei com ningum da minha famlia.
- Pobrezinha - disse ele e, sem dar por isso, estava a passar a mo pelo cabelo dela. Receava mexer-se, pois no queria destruir aquele momento.
- Amo-os e desprezo-os. Sinto a falta deles, tento esquec-los. No consigo, simplesmente no consigo. Estar aqui em Lowsley ajudou-me a esquecer. Tenho-me sentido
to feliz aqui. E agora isto!
David ficou confundido quando ela recomeou a chorar. Agora, violentos soluos rompiam do fundo do seu ser. Ele abraou-a com fora e tentou consol-la. Nunca tinha
visto ningum to infeliz como Sofia estava naquele momento. Chorava to desabaladamente que mal conseguia respirar. David entrou em pnico, no sabia lidar bem
com aquele gnero de situaes e pensou que talvez uma mulher estivesse mais bem preparada. Mas, quando se levantou para ir buscar Zaza, Sofia agarrou-o pela camisola
e pediu-lhe que ficasse.
- H mais, David. Por favor, no v. Quero que saiba tudo - suplicou. Depois, timidamente, contou-lhe tudo acerca da traio de
314
Santi e acerca de Santiguito, omitindo que Santi era seu primo direito. - Entreguei o meu beb - sussurrou desesperadamente e olhou para ele com firmeza. Mergulhando
no seu olhar magoado, ele sentiu a dor dela. Queria dizer-lhe que lhe daria bebs, tantos quantos ela quisesse. Amava-a o suficiente para competir com o amor de
toda a sua famlia. Mas no sabia como dizer-lhe. Puxou-a para os seus braos e ficaram ali sentados em silncio. Naquele momento de ternura, David sentiu que a
amava mais do que pensava que fosse possvel amar algum. Quando estava com Sofia, compreendia como tinha estado sozinho. Sabia que podia torn-la feliz.
Sofia sentiu-se estranhamente melhor por ter partilhado o seu segredo com ele, mesmo s lhe tendo contado metade da histria e, erguendo a cabea, olhou para ele
com outros olhos. Quando as suas bocas se descobriram, nenhum deles ficou surpreendido. Naqueles poucos minutos, Sofia tinha confiado mais nele que em qualquer outra
pessoa  excepo de Santi. Quando David a apertou contra si, ela esqueceu o resto do mundo, e tudo o que existia era Lowsley e o refgio que ali tinha construdo.

CAPTULO VINTE E SETE
Quando David e Sofia regressaram  sala de estar, toda a gente fingiu que no se tinha passado nada. Sofia pensou que aquela atitude era muito british. Donde ela
vinha, toda a gente cairia sobre ela a fazer-lhe perguntas. Era evidente que Zaza dissera a Gonzalo e a Eddie que no aumentassem a sua aflio falando no assunto,
por isso limitaram-se a sorrir e a fazer-lhe perguntas acerca dos cavalos.
Zaza acendeu um cigarro e recostou-se no sof, e os seus olhos franzidos passavam de David para Sofia com desconfiana. David est com um andar muito vivo, que
tenta a todo o custo disfarar, pensou ela, expelindo o fumo numa linha fina pelo canto da boca. Observou Sofia. E as pestanas dela ainda esto hmidas das lgrimas,
mas as faces brilham com uma excitao que mal consegue reprimir. Decididamente, alguma coisa se passa aqui...
Gonzalo achou Sofia irresistvel por duas razes, era trgica e era bela. Tinha ouvido dizer qualquer coisa acerca dela na Argentina. Buenos Aires era uma cidade
pequena e teria sido impossvel manter em segredo um escndalo como o seu. No tinha tido uma ligao com um dos irmos e sido banida para a Europa? No admirava
que no quisesse ser reconhecida - por causa da vergonha. Mas, mesmo assim, pensou, observando o sorriso rasgado dela e os seus lbios trmulos, eu poderia perdoar-lhe
qualquer coisa.
- Sofia, leva-me a dar um passeio a cavalo? - perguntou-lhe em espanhol. Ela sorriu, irresoluta, e os seus olhos viraram-se rapidamente para David que ergueu uma
sobrancelha. Agora que se tinha confessado a David, no queria separar-se dele nem por um minuto.
316
- Gonzalo quer que v dar um passeio a cavalo com ele - disse, na esperana de que algum sugerisse um plano melhor.
- Boa ideia - disse Tony, a roer o charuto. - Eddie, porque no vais com eles?
- Sim, querido, vai. O ar fresco faz-te bem - disse Zaza, ansiosa por ficar sozinha para poder interrogar David. Eddie, que estava preguiosamente esparramado no
sof junto da lareira, no tinha a menor inteno de ir para o frio. Estava a chuviscar e, de toda a maneira, era evidente que Sofia agradava a Gonzalo. Eddie no
queria meter-se entre eles.
- No, obrigado. Vo vocs os dois - disse ele, metendo os dedos na caixa de chocolates tentadoramente pousada em cima da mesa.
- Querido, no podes ficar toda a manh em casa, tens de abrir o apetite para o almoo de Mistress Berniston.
- Bem, tu e o pai vo ficar em casa - replicou ele, enterrando ainda mais o traseiro no sof. Zaza franziu os lbios, frustrada. O interrogatrio teria de esperar.
David viu Sofia sair da sala com Gonzalo e sufocou um baque de cime. Embora soubesse que Sofia ia com relutncia, no conseguia tolerar a ideia dela l fora, nas
colinas, com um homem da sua terra natal. Um homem jovem e interessante que falava a sua lngua, que compreendia a sua cultura e que se relacionava com ela de uma
maneira que ele nunca conseguiria. Quando ela saiu, a sala pareceu-lhe mais fria.
-  um verdadeiro gnio, querido - disse Zaza, observando David com muita ateno.
- E porqu? - perguntou ele, tentando injectar um tom humorstico na voz que sabia ter um tom inspido.
- Por ter concordado em convidar Gonzalo.
- Porque  que isso foi especialmente inteligente da minha parte?
- Porque formam um casal delicioso. Gonzalo e Sofia! - disse ela a rir e depois meteu a boquilha de bano entre os lbios vermelhos e analisou a expresso dele.
Mas David no revelou nada.
- Zaza, querida, este fim-de-semana no h lugar para Cupido. O raio do homem mandou-a para o quarto lavada em lgrimas. No
317
 propriamente a maneira mais romntica de conquistar o corao de uma mulher - interps Tony.
- Afinal o que aconteceu? - perguntou Eddie, deliciado por o pai ter tocado no assunto. Todos olharam para David. Este sentou-se no guarda-fogo e remexeu a lenha
com um atiador de ferro.
- Ela tem saudades de casa,  tudo - respondeu cautelosamente.
- Oh! - disse Eddie, desiludido. Tony acenou com a cabea, compreensivo.
- Foi s isso? - insistiu Zaza. - Que lhe disse para lhe pr outra vez um sorriso na cara?
- Oh, no fui eu que o l pus, foi ela. Quando se refez do choque, falou-me de casa e depois sentiu-se melhor - replicou, de modo pouco convincente, e franziu a
cara. Zaza ia perceber que era uma mentira descarada.
- Compreendo. Bem, ela e Gonzalo podero conhecer-se um pouco sem os velhotes a verem tudo o que fazem. Jovens - suspirou. - Oh, ser jovem outra vez.
A disposio de David desmoronou-se. Tinha mais vinte anos que Sofia. Em que estava ele a pensar? Zaza tinha razo, Gonzalo era um melhor par para ela do que ele.
Talvez a jovem compreendesse isso mesmo l fora, nos montes Cotswolds. H meses que no via um jovem da sua idade. Vai falar da terra natal e compreender que o
lugar dela  na Argentina, pensou sombriamente. Ainda sentia os lbios dela encostados aos seus. Ainda tinha o seu sabor. T-la-ia explorado num momento de fraqueza?
No devia ter-se permitido beij-la, devia ter resistido.
Mudando de assunto, esforou-se por conversar da forma habitual, mas a sua garganta estava contrada e as palavras no tinham a vitalidade habitual. Zaza notou o
sofrimento nos olhos dele e compreendeu que tinha ido demasiado longe. Sempre tinha amado David; era muito feliz com Tony, mas havia uma parte de si que nunca lhe
entregara. Tinha falado como uma mulher ciumenta e odiou-se por isso. Tentou que a disposio dele melhorasse com histrias divertidas, mas no conseguiu que o riso
dele ultrapassasse as linhas do rosto. Olhou para o relgio pousado na cornija da lareira e desejou que Sofia regressasse e o tranquilizasse.
318
Gonzalo era um excelente cavaleiro. Sofia viu como ele se sentava na sela, com aquela descontraco tipicamente argentina, aquela deliciosa autoconfiana, aquela
odiosa arrogncia, e o seu corao teve um sobressalto. Falavam em espanhol e, passado um bocado, j ela falava a toda a velocidade, excitada e a agitar os braos
de forma expressiva, como conversam os latinos. De repente, sentiu-se liberta das restries de ter de esconder o seu verdadeiro eu. Sentiu-se argentina outra vez
e o som da sua voz, o toque das palavras na lngua fizeram-na sentir-se tonta de felicidade.
Gonzalo era divertido e contou-lhe histrias que a fizeram rir. Teve o cuidado de no lhe fazer perguntas sobre a famlia e Sofia no lhe deu qualquer informao.
Parecia sentir-se mais feliz a escut-lo. Na verdade, no se fartava de o ouvir.
- Conte mais, Gonzalo - implorou, insuflando nas palavras dele o entusiasmo de algum que esteve surdo durante muito tempo e de repente ouve de novo.
Seguiram por cima da lama que se acumulava no vale debaixo das rvores, com os cascos dos cavalos a rangerem quando seguiam para o sop das colinas. Os chuviscos
transformaram-se em chuva que lhes escorria pela cara e ensopava a roupa. Chegados s colinas, galoparam pelos cumes, rindo juntos, saboreando o vento nos cabelos
e o movimento dos cavalos por baixo deles. Cavalgaram durante quilmetros, at que um nevoeiro denso caiu sobre eles, subindo do vale, como se viesse do nada.
- Que horas so? - perguntou Sofia, sentindo o estmago a doer de fome.
- Meio-dia e meia - respondeu ele. - Consegue encontrar o caminho neste nevoeiro?
- Claro! - exclamou jovialmente, mas no tinha a certeza. Olhou em volta; todas as direces pareciam iguais. - Siga-me - disse, tentando parecer confiante. Cavalgaram
lado a lado pela brancura, com os olhos fixados na mancha verde cada vez menos ntida que se estendia  sua frente. Gonzalo no parecia nada preocupado. Nem os cavalos,
que resfolegavam com satisfao no ar glido. Sofia sentia-se gelada e desejou estar  lareira em Lowsley. Tambm desejava estar junto de David.
319
De repente chegaram junto do que parecia ser as runas de pedra cinzenta de um velho castelo.
- Conhece isto? - perguntou Gonzalo, ao observar as suas belas feies marcadas por uma ruga de preocupao. Ela abanou a cabea.
- Dios, Gonzalo, tenho de ser franca, nunca vi estas runas. No sei onde raio estamos.
- Nesse caso, estamos perdidos - disse ele com despreocupao, sorrindo abertamente. - Porque no ficamos aqui at o nevoeiro diminuir? Pelo menos, podemos abrigar-nos
da chuva. - Ela concordou e desmontaram os dois. Levaram os cavalos para um stio abrigado e prenderam-nos a uma pedra. - Venha comigo, vamos procurar um stio protegido
- disse, pegando na mo de Sofia e avanando decididamente por cima dos seixos. Caminhava to depressa, praticamente arrastando-a por cima das pedras escorregadias,
que ela tinha dificuldade em acompanh-lo. E depois caiu. No se preocupou at tentar levantar-se. A dor no tornozelo subiu-lhe pela perna e Sofia deixou-se cair
com um queixume. Gonzalo acocorou-se junto dela.
- Onde  que lhe di? - perguntou.
- No tornozelo. Oh, meu Deus, no o parti, pois no? - Fez uma careta.
- Parece mais uma entorse. Consegue mex-lo?
Ela tentou sem fazer muita fora e s conseguiu mex-lo levemente.
- Di muito - queixou-se.
- Bem, pelo menos consegue mex-lo um pouco. Agora agarre-se, vou lev-la ao colo - disse ele com deciso.
- Se fizer cara de esforo, mato-o - brincou a jovem, quando ele colocou os braos por baixo dela e a levantou do cho.
- Sem esforo, garanto - respondeu, e levou-a para o interior escuro dos restos de uma torre. Pousou-a na erva hmida, despiu o casaco e estendeu-o no cho ao lado
dela. - Vamos, sente-se aqui - disse, ajudando-a a arrastar-se sem fazer presso no p.
- Como se eu no estivesse j toda molhada! - Ela riu-se entre dentes. - Obrigada.
320
- Se descalarmos a bota, depois no conseguimos voltar a cal-la - avisou ele.
- No me importo, esta porcaria est a doer muito. Por favor, tire-a. Se o tornozelo inchar, ento  que nunca a tiramos e prefiro ir para casa sem ela do que cheia
de dores.
Gonzalo descalou-lhe a bota com toda a cautela, enquanto Sofia transpirava de sofrimento, com a cara contorcida e a arder.
- Pronto, est feito - disse, triunfante, agarrando-lhe no p e pousando-o no colo. Tirou a meia com cautela, pondo  vista a delicada pele rosada que parecia desamparada
e exposta, naquele cenrio agreste.
Sofia respirou fundo e limpou as lgrimas  manga do casaco.
- Est bastante inchado, mas no morre desta - disse Gonalo, passando a mo quente pela canela.
- Sabe bem - suspirou ela, apoiando a cabea na pedra. - Um pouco para baixo... sim, a... ah - suspirou, enquanto ele lhe massajava devagar o arco do p. - E l
se vai o almoo de Mistress Ber-niston - disse ela com tristeza.
- No me diga que ela  uma grande cozinheira.
- A melhor.
- Agora sabia-me bem um grande pedao suculento de lomo - disse ele, sentindo-se de repente cheio de fome.
- A mim tambm, con papas fritas. - Sorriu nostalgicamente. Depois comearam a fazer a lista de todos os pratos argentinos
de que sentiam falta.
- Dulce de leche.
- Membrillo.
- Empanadas.
- Zapallo.
- Zapallo? - repetiu ele, apertando o nariz.
- Que tem zapallo de mal?
- Est bem. Mate.
- Alfajores...
Em casa, David olhou para o nevoeiro e depois para o relgio.
321
- Foram apanhados pelo nevoeiro - disse Tony. - No h razo para nos preocuparmos. Ela est em mos seguras. Gonzalo  forte como um boi.
 isso que me preocupa, pensou David com tristeza.
- Tenho fome - comentou Eddie. - Temos de esperar por eles?
- Acho que no - respondeu David.
- O almoo de Mistress Berniston no pode ficar a secar - disse Zaza. - Tenho a certeza de que eles no tardam a aparecer. Sofia conhece muito bem as colinas - acrescentou,
cheia de boa vontade.
- No conhece assim to bem - suspirou David. - No com este maldito nevoeiro. E no parece que v levantar.
- Oh, levanta, sim. O nevoeiro levanta muito depressa nesta regio - disse imediatamente Zaza.
- Querida, que sabes tu acerca do nevoeiro? - troou Tony.
- S estou a ter uma atitude positiva. David est preocupado, no vs?
- Talvez seja melhor ir  procura deles - sugeriu David.
- E por onde demnio iria comear? Nem sequer sabe para onde foram - comentou Tony. - Se escurecer, eu vou consigo.
- No sabes andar a cavalo, querido - disse Zaza, acendendo outro cigarro, cheia de nervosismo.
- Vou no Land Rover.
- Para ficares preso na lama? - perguntou Eddie, sombriamente. Tony encolheu os ombros.
- No, Tony tem razo. Vamos almoar. Se escurecer, vamos todos  procura deles.
David sentia-se mais satisfeito, agora que tinham feito um plano. Tentou no pensar neles l fora, abraados um ao outro para se protegerem do mau tempo. Sentia-se
doente e infeliz. Conhecia aqueles montes melhor que ningum - conseguiria encontr-los. Esperava que Sofia estivesse bem. Era uma boa cavaleira, mas at os bons
cavaleiros caem - e aquela pateta nunca pe o chapu na cabea, pensou lastimosamente. Aqui no so aquelas malditas pampas; em Inglaterra, as pessoas usam chapus
para no partirem o pescoo. Esperava que Sofia tivesse levado Safari; era um cavalo dcil e no
322
a atiraria ao cho. No tinha a certeza dos outros. Com estas imagens agarradas aos seus pensamentos, conduziu os convidados para a sala de jantar, para almoarem.
A mente de Sofia vagueava pelas pampas, enquanto evocava as suas recordaes com Gonzalo, permitindo que a sua mo lhe massajasse o tornozelo, para afastar a dor.
- Vamos calar outra vez a meia. Acho que no podemos deixar arrefecer demasiado o p - sugeriu ele passado um bocado.
- Mas est a fazer um trabalho fantstico, doutor Segundo - brincou ela.
- O doutor Segundo sabe o que  melhor, seorita.
- Cuidado - avisou ela quando ele comeou a meter o p na meia.
- Como se sente?
- Melhor - respondeu, surpreendida por no doer tanto como esperava. - As suas mos curam.
- No s mdico, mas tambm curandeiro; est a lisonjear-me - disse ele com uma risada. - Pronto, est como novo. Mais alguma dor que precise de tratamento, seorita?
- Nenhuma, obrigada, doutor.
- E o seu corao perturbado? - Corao perturbado?
- Sim, o seu corao perturbado - respondeu, agora srio, e, segurando-lhe o rosto entre as mos, pousou os lbios sobre os dela.
No devia ter permitido que ele a beijasse, mas o som da sua voz a falar espanhol, aquele inimitvel sotaque argentino, as botas de montar, o cheiro dos cavalos,
o nevoeiro que rodopiava e os escondia do mundo... perdeu-se momentaneamente e correspondeu. Foi agradvel, mas no genuno. Afastando-se, reparou que o nevoeiro
estava a desaparecer.
- Olhe, est a limpar - informou, esperanosa.
- Eu gostava de ficar aqui - disse ele, suavemente.
- Bem, eu estou molhada, tenho frio e di-me o p. Por favor, leve-me para casa, Gonzalo - pediu.
- Muito bem - suspirou ele. - No tinha reparado que tambm eu tenho frio e estou molhado.
323
De repente, Sofia desejou que David estivesse junto dela. Deve estar doente de preocupao, pensou.
Gonzalo pegou-lhe ao colo e levou-a para onde os cavalos estavam presos.
- Levo a sua bota - disse, instalando-a em cima do Safari.
O regresso a casa foi longo e precrio. Sofia perdeu-se mais uma vez, mas, decidida a no desistir, deixou Safari  vontade, na esperana de que soubesse o caminho.
Quando, cheio de satisfao, o animal seguiu para casa, perguntou a si mesma porque no tinha logo feito precisamente isso.
- Pronto, vou procur-los - decidiu David, afastando-se da janela. Estava quase escuro e os dois ainda no tinham regressado. - Alguma coisa correu mal. Precisam
de ajuda - acrescentou com irritao.
- Eu sigo-o no Land Rover - props Tony.
Eddie trocou um olhar com a me, mas nenhum deles ousou falar. O almoo tinha sido desconfortvel. David estava mal-humorado como Zaza nunca o tinha visto; mal tinha
conseguido concentrar-se na conversa. No deixava de olhar pela janela, mirando o nevoeiro, como se Sofia e Gonzalo fossem aparecer de repente, como sempre acontece
nos filmes. Tony e Eddie no tinham dado por nada. Por vezes, os homens so muito insensveis, pensou Zaza com irritao, enquanto discutiam o campeonato de crquete
das ndias Ocidentais, como se nada tivesse acontecido.
David atravessou o vestbulo a correr, agarrou no casaco e nas botas e abriu a porta; deparou-se com Gonzalo a sair do nevoeiro com uma Sofia molhada e a tremer
nos braos.
- Que raio lhes aconteceu? - perguntou com aspereza, incapaz de esconder a exasperao na voz.
-  uma longa histria, depois conto. Vamos levar Sofia para cima - respondeu Gonzalo, ignorando David que se oferecia para tomar conta dela a partir dali.
- S torci o tornozelo - disse Sofia ao passar por ele.
- Deus do Cu, que aconteceu? - exclamou Zaza. Parecia que tinham andado os dois a rebolar-se na lama.
324
- Onde  o seu quarto? - perguntou Gonzalo, levando Sofia pela escada acima.
- Sempre em frente - indicou, olhando em volta  procura de David, mas este no vinha atrs deles. Chegados ao quarto, Gonzalo pousou-a delicadamente na cama.
- Precisa de ajuda para tirar essa roupa hmida. Vou pr gua a correr para a banheira.
- No se preocupe, estou ptima. Posso tratar disso.
- O doutor Segundo  que sabe - disse ele, descalando-lhe a bota.
- Por favor, Gonzalo. Estou bem, acredite.
- Obrigado, Gonzalo - disse uma voz firme atrs dele. - Porque no vai tirar essa roupa molhada? Foi um heri, mas at os heris precisam de uma folga.
- David - suspirou Sofia, aliviada.
Gonzalo encolheu os ombros e, sorrindo para Sofia com uma expresso relutante, saiu do quarto.
- Que demnio andaram a fazer? - perguntou David, rabugento, avanando a passos largos para a casa de banho para pr gua a correr para o banho. Sofia ouviu o jacto
de gua quando ele abriu as torneiras e de repente sentiu-se cansada.
- Perdemo-nos no nevoeiro, mas, graas a um castelo em runas...
- Em nome de Deus, como foram para to longe? - perguntou ele com brusquido.
- David, no tive culpa.
- E os cavalos? No viste o nevoeiro ou estavas demasiado ocupada com o teu novo amigo?
- No fui eu que sugeri que fssemos andar a cavalo. Para comear, no queria ir. Podias ter-nos impedido de ir.
- Despe essa roupa molhada antes que morras de frio. Enchi a banheira - disse ele, dirigindo-se para a porta.
Sofia reconheceu os sinais de cime e sorriu docemente.
- No consigo despir-me sozinha - disse fracamente.
Ele virou-se e Sofia pensou que a sua cara zangada era adorvel; queria beij-lo at a fria desaparecer.
325
- Vou chamar Zaza - disse ele, severamente.
- No quero Zaza. Tambm no quero Gonzalo. Quero-te a ti - respondeu lentamente, olhando a direito para os olhos desalentados dele.
- Estiveste fora de casa durante horas. Estava preocupado - explodiu ele. - Que havia de pensar?
- No podes ter grande opinio de mim se imaginas que eu ando a saltar de homem para homem. No confias em mim?
- Desculpa.
-  por ele ser argentino, no ? - perguntou.
- E belo e jovem. Tenho mais vinte anos do que tu - reclamou ele cheio de infelicidade.
- E?...
- Sou velho.
- E eu amo-te. Amar-te-ia por muito velho que fosses, no me faz diferena - retorquiu ela, lutando com a roupa.
- Deixa-me ajudar-te - disse, dirigindo-se para ela. Ajoelhou-se diante dela, segurou-lhe o rosto com as duas mos
e beijou-a. A sua boca era suave e quente e Sofia desejou enrolar-se encostada a ele, mas ele afastou-a.
- Pareces um co ensopado - disse a rir, olhando para a mancha hmida que agora marcava a camisa.
Puxou-lhe a camisola e a T-shirt pela cabea num movimento rpido. Ela teve um arrepio. O cabelo caa-lhe escorrido pelo pescoo e pelos ombros como longos tentculos
gotejantes. Beijou-a outra vez, numa tentativa de comunicar alguma vida aos seus lbios roxos, mas, apesar dos seus esforos, estes continuavam a tremer. Sofia desabotoou
as calas de ganga e deixou-o tirar-lhas com cuidado, puxando a perna cautelosamente por causa do tornozelo dorido. Estavam ensopadas e cobertas de lama.
- Minha querida, ests gelada. Vou meter-te na banheira - disse ele, solcito.
- Mas... com a roupa interior? - Ela riu-se e soltou o souti. Os seus seios eram surpreendentemente cheios para um corpo to leve e estavam todos arrepiados; os
mamilos cor de sangue estavam rigidamente espetados, protestando contra o frio. Meneou-se para tirar
326
as cuecas e estendeu os braos para ele. David levantou o seu corpo frio da cama e levou-a para a casa de banho.
- s bela - disse, beijando-lhe a tmpora.
- E fria. - Ela encostou a cara ao maxilar spero dele. - Bolhas - suspirou, quando ele a meteu na gua quente, por entre a espuma que a cobria.
David sentou-se na cadeira e ficou a ver a cor que regressava aos lbios e s faces dela, enquanto os seus ombros se descontraam e ela se afundava na gua. O tornozelo
inchado comeou a latejar quando o sangue circulou por ele com renovada energia. Comeou a sentir-se recuperar. Depois de a embrulhar numa grande toalha branca,
David estendeu-a em cima da cama e fez um movimento como para sair do quarto. Mas ela impediu-o.
- Quero que faas amor comigo, David - disse, apertando mais os braos  volta do pescoo dele.
- E os outros? - perguntou, passando a mo pelo cabelo hmido dela.
- Sabem tomar conta de si. Eu  que estou doentinha, no te esqueas.
- Exactamente, e a actividade sexual no te faz bem ao tornozelo.
- No fao amor com o tornozelo - disse, rindo-se tolamente, com a cara encostada ao pescoo dele. David tambm se riu e beijou-a outra vez. E logo a seguir estava
a fazer amor com ela, acarician-do-a, tocando-lhe, saboreando-a. Encantada, Sofia descobriu que, se fechasse os olhos, s via David.

CAPTULO VINTE E OITO
- Sabia que havia qualquer coisa no ar naquele fim-de-semana em que l estivemos com Gonzalo - disse Zaza um ms depois. - Via-se nos seus olhos, David. Como actor,
no tem salvao. - Riu-se guturalmente.
Tinha-lhe telefonado nessa manh a convid-la para almoar, pois ia estar na cidade durante alguns dias, por razes profissionais.
- Mal consigo arrancar-me de junto de Sofia - tinha ele dito, e depois falara-lhe da sua relao.
- O pobre Gonzalo ficou perdido por ela - comentou Zaza, sentada diante dele a uma pequena mesa no Ivy, levando o copo de vinho aos lbios escarlates.
- Pensei que Sofia se apaixonasse por ele - disse, acanhado.
- Tambm eu, foi por isso que sugeri que o convidasse. Se fizesse a menor ideia dos seus sentimentos por ela nunca teria tido tanta falta de tacto. Perdoa-me?
-  maldosa, Zaza, mas mesmo assim gosto de si - retorquiu com uma risada, abrindo a ementa.
- E agora que vai fazer? - perguntou ela. - Importa-se se eu fumar?
- No, fume  vontade.
- Ento?
- No sei.
- Claro que vai casar-se com ela - disse, e sentiu a garganta contrair-se.
328
- No sei. Vamos, que quer comer? - perguntou David, chamando o empregado. Mas no era fcil deter Zaza quando tinha uma misso. Fez o pedido apressadamente e retomou
o interrogatrio.
- Ela h-de querer casar. Todas as raparigas querem. E Ariella?
- Que tem Ariella? Estamos divorciados h sete anos.
- Falou dela a Sofia? Ela vai querer saber.
- Que h para saber acerca de Ariella? Foi minha mulher, uma boa jardineira.
- Uma cabra, uma cabra irritantemente bela - disse Zaza, cuspindo a palavra cabra deliciada. - Vai ficar furiosa quando descobrir.
- No, no fica. Est em segurana, muito aconchegada em Frana, com o amante - disse ele.
Noutros tempos, teria sofrido com a recordao daquele francs sossegado que lhe tinha roubado a mulher. Quase ficara destrudo. Mas eram guas passadas e agora
tinha Sofia, que amava mais que alguma vez amara Ariella.
- Aposto que Ariella vai voltar para arranjar sarilhos. Vai quer-lo outra vez, agora que ama outra mulher. O engraado em Ariella  que quer sempre o que no pode
ter e, David, para ela, ser agora irresistvel.
- No compreende Ariella de maneira nenhuma - disse David, pondo o assunto de lado.
- Nem o David.  preciso uma mulher para compreender uma mulher. Eu compreendo-a de uma maneira que o David nunca poderia. Est a ver, ela  tortuosa. Gosta de um
desafio. Gosta de chocar, de fazer o inesperado. Gosta de agitar as guas. - Zaza franziu os olhos. - Foi sempre uma artista a agitar as guas. Claro que nunca conseguiu
agitar as minhas. No, nunca conseguiu quebrar-me. Mas h-de regressar, no se esquea do que lhe digo.
- Est bem, mas j chega de Ariella. Como est Tony? - perguntou David, chegando-se para o lado para que o empregado colocasse um prato de perca fumegante  sua
frente.
- A sua me... ela j conhece a sua me? - perguntou Zaza, ignorando-o. Inclinou-se para a frente e cheirou a sopa de pastinaca.
- No, no conhece a minha me.
329
- Mas vai conhecer, no vai?
- No h nenhuma razo para a sujeitar  presena da minha me.
- Bem, penso que ela adorava Ariella, no era? A casta correcta, a famlia correcta. Educada em Oxford, esperta e cheia de classe. No vai gostar de uma argentina,
no poder dizer Que interessante, os Solanas de Norfolk. No saber nada dela, no poder classific-la. Oh cus, querido, ela  catlica?
- No sei. Nunca lhe perguntei - reconheceu David, enchen-do-se de pacincia.
- Deus nos livre... uma catlica! No se pode esperar muito desse lado, pois no? Mesmo assim,  o nico filho dela. Gostar de v-lo feliz, no acha?
- No lhe falei de Sofia e no fao tenes de falar. No tem nada a ver com o assunto. S servia para ela ser desagradvel. Porque hei-de dar-lhe essa oportunidade?
- Assombra-me sempre que um drago como Elizabeth Harrison tenha dado  luz uma pessoa to adorvel como voc, David. Assombra-me mesmo. - Agitou a colher no ar,
como se fosse um cigarro.
- Agora que a inquirio terminou, como est Tony? - repetiu ele com um sorriso.
Quando David regressou ao escritrio, caminhando pelas ruas geladas do frio de Novembro, enterrou as mos enluvadas nos bolsos e curvou os ombros para se proteger
do vento. Pensou em Sofia e sorriu. Ela no tinha querido vir a Londres, preferindo ficar com os ces e os cavalos no campo. Desde o temvel episdio de Gonzalo
que eram supremamente felizes, os dois sozinhos. Os amigos iam e vinham, mas eles adoravam o tempo que passavam juntos na solido, andando a cavalo pelos montes,
caminhando pelos bosques, fazendo amor no sof diante da lareira a crepitar.
Adorava a maneira como Sofia entrava no escritrio quando ele estava a trabalhar e o abraava por trs, encostando nele a cara macia. A noite, enrodilhava-se diante
da televiso, puxando os dois ces para cima do sof, para junto dela, a beberricar uma caneca fumegante
330
de chocolate quente e a roer biscoitos, enquanto ele lia na pequena sala de estar verde, ao lado. A noite enrolava as pernas e os braos  volta dele, at que ele
ficava com tanto calor que tinha de a afastar com cuidado para no a acordar. Se acaso a acordasse, tinha de ficar naquela posio at ela voltar a adormecer. Sofia
precisava de se sentir prxima e protegida.
Sofia no falava com Maggie e Anton h alguns meses. Daisy tinha-se mantido em contacto com ela e tinha-a mesmo visitado duas vezes. Continuava a trabalhar no salo
e mantinha Sofia a par dos mexericos. Insistira com Sofia para telefonar a Maggie.
- Ela vai pensar que ests cheia de importncia se no telefonares - disse-lhe.
Maggie no ficou nada surpreendida com o que Sofia lhe contou acerca de David.
- Eu no disse que ele havia de te seduzir? - disse, e Sofia ouviu-a inspirar bruscamente. Maggie acendia sempre um cigarro quando sabia que ia estar ao telefone
o tempo suficiente para o fumar.
- Sim, disseste - confirmou Sofia, rindo-se.
- Que velho sebento.
- Ele no  velho, Maggie, s tem quarenta e dois anos.
- Homem sebento, ento, queridinha - cacarejou do fundo da garganta. -J conheceste a ex dele?
- A mal-afamada Ariella. No, ainda no.
- Mas vais conhec-la. As ex aparecem sempre para meter um prego na engrenagem - disse ela, voltando a inalar ruidosamente.
- No me importo. Estou to feliz, Maggie! Nunca pensei que voltaria a amar.
- Voltamos sempre a amar. Isso de que s existe um homem para cada mulher  um mito. Eu amei vrios, queridinha. Vrios, e todos foram deliciosos.
- At Viv? - perguntou Sofia, maliciosamente, lembrando-se do primo em segundo grau de Tony.
- At Viv. Esse era um homem grande, se percebes o que quero dizer. Nunca deixou de me satisfazer, mesmo quando nos odivamos um ao outro. Espero que David te satisfaa.
- Oh, Maggie!
331
- s to inocente, queridinha... Enfim, acho que isso faz parte do teu encanto. Uma das razes por que ele te ama, sem dvida. No percas essa inocncia,  muito
rara nestes dias - disse ela, secamente. - Ser que vamos ver-te? Anton est a lastimar-se como um co.
- Em breve apareo a. Ando muito atarefada por aqui.
- Seria bom se aparecesses antes do Natal.
- Vou tentar.
Sofia acendeu a lareira na salinha de estar verde. Quando estavam sozinhos em casa, a sala de estar era mais aconchegada que a sala de visitas, que era maior e que,
na verdade, s ganhava vida quando estava cheia de gente. David tinha telefonado duas vezes, enquanto ela andava pelos montes, por isso telefonou-lhe, dando de comer
aos ces com a mo livre. Sentia a falta dele. S tinha passado uma noite e um dia fora de casa, mas Sofia j estava habituada a ele e a cama sem David parecia grande
e fria.
O lume comeou a tremeluzir alegremente. Sofia ps um CD a tocar. David gostava de msica clssica, por isso ela ps um desses; dava-lhe a impresso de que ele andava
pela casa e preenchia o silncio. A noite caa e a luz esbatia-se lentamente na nvoa invernal. Fechou as grandes e pesadas cortinas verdes e pensou em Ariella.
Era evidente que a casa tinha sido decorada por ela. Reflectia o gosto de uma mulher. David no era pessoa para se interessar por decorao.
Sofia ps-se a magicar qual seria o aspecto dela. David no lhe contara grande coisa acerca da sua ex-mulher, excepto que tinha um gosto requintado, viso para obras
de arte e adorava msica. Era culta e inteligente. Tinham-se conhecido no ltimo ano do curso em Oxford. Ele nem sequer tinha sido perseguido por uma mulher at
ento; no seu mundo, eram os homens que andavam atrs das mulheres. Mas Ariella no era mulher para ficar  espera de que lhe fizessem a corte - partia em busca
do que queria. Ao princpio, ele no se interessara, estava mais inclinado para uma rapariga que frequentava o seu curso de Literatura. Mas ela persistiu e acabaram
por ir para a cama juntos. Ariella no era virgem; quando se tratava de sexo, comportava-se mais como um homem, segundo a explicao de David. Tinham-se casado cerca
de um ano depois e divorciaram-se
332
sete anos mais tarde. Isso fora h dez anos. Outra vida, dissera ele. No tiveram filhos, Ariella no queria famlia. E era tudo.
Sofia no fizera perguntas. No era relevante, e David tambm no a perseguia com perguntas acerca do seu passado. Mas agora estava sozinha em casa e de repente
sentiu a presena de Ariella no estofo das cadeiras e no papel de parede. No havia fotografias emolduradas, como seria de esperar, mas o divrcio tinha sido litigioso.
Afinal de contas, ela tinha-o deixado e no ele a ela.
Sofia deu por si a abrir gavetas, dando volta aos papis desarrumados e aos livros de David, em busca de fotografias do seu passado. Pensou que ele no se importaria,
provavelmente ele prprio lhas mostraria se ali estivesse. Mas no queria pedir-lhe, no queria parecer demasiado interessada. No h nada pior que uma namorada
ciumenta, pensou. Fosse como fosse, no tinha cimes, estava apenas com curiosidade.
Por fim, no fundo de um armrio no gabinete dele, viu o que parecia ser um lbum de fotografias coberto de poeira. Puxou-o para fora. Era pesado, com uma encadernao
de cabedal, roda num canto, sem dvida por um co. Abriu-o a meio para ter a certeza de que era o que procurava. Quando viu um David sorridente com o brao descontraidamente
pousado sobre os ombros de uma loura bonita, fechou o lbum, levou-o para a sala de estar, enrolou-se no sof com um prato de biscoitos e um copo de leite frio,
e comeou pelo princpio. Sam e Quid estavam deitados no cho diante da lareira, todos satisfeitos, com as grossas caudas a bater na carpete e de olho no prato dos
biscoitos.
As primeiras pginas eram de David e Ariella em Oxford, num piquenique frio, algures numas colinas. Ariella era muito bonita, pensou Sofia de m vontade. O seu cabelo
era leve e quase branco, a pele cor-de-rosa-plida e o rosto comprido e angular. Tinha uma grossa camada de mscara preta, que acentuava a inclinao felina dos
seus olhos verdes, e os seus lbios, surpreendentemente finos, tinham uma expresso astuta. Era bela e, no obstante, se analisasse cada feio separadamente, no
tinham nada de notvel, apenas se harmonizavam bastante bem umas com as outras. S o seu cabelo quase branco fazia com que se destacasse em todas as fotografias,
pensou Sofia, decidida a no lhe reconhecer carisma, alm de beleza.
333
Foi virando as pginas, sorrindo para as fotografias de David quando jovem. Nessa poca era magricela e tinha um ar rebelde, quando o tempo e a prosperidade ainda
no lhe tinham arredondado os ngulos. O cabelo, espesso e branqueado pelo sol, caa-lhe para a testa. David estava sempre rodeado de pessoas, sempre a rir, a fazer
figura de pateta, enquanto Ariella estava sempre com uma expresso reservada, a observar discretamente toda a gente; contudo, parecia resplandecer de uma maneira
estranha; em todas as fotografias, o olhar era imediatamente atrado para ela.
Sofia procurou lbuns do casamento e dos anos seguintes que tinham vivido em comum, mas no encontrou nenhum. Aquele lbum parecia ser o nico que ele tinha. Sentiu-se
feliz por estar coberto de poeira, enfiado no fundo de um armrio que, provavelmente, ele nunca abria.
Quando David regressou, dois dias depois, Sofia saiu de casa a correr para ir ao encontro dele, com os ces que se puseram aos saltos e lhe deixaram as calas com
marcas das patas. Beijou-o pela cara toda at que ele largou a mala no vestbulo e a levou para o andar de cima.
Sofia no tardou a esquecer-se de Ariella, ocupada a enfeitar a casa com as decoraes de Natal. David, que geralmente passava o Natal com a famlia, decidiu que
no era justo impor to cedo tantos estranhos a Sofia e props um compromisso.
- Vamos passar o Natal a Paris - anunciou enquanto tomavam o pequeno-almoo. Sofia ficou atnita.
- Isso no parece teu. Paris? - disse, meio engasgada. - O que te deu?
- Quero estar sozinho contigo num stio bonito. Conheo um hotelzinho junto do Sena - replicou ele com despreocupao.
- Que excitante. Nunca estive em Paris.
- Ento eu mostro-te. Levo-te s compras nos Champs-Elyses.
- As compras?
- Bem, no podes passar a vida de calas de ganga e T-shirt, pois no? - perguntou, bebendo o resto do caf.
Paris fascinou Sofia. David viajava em grande estilo. Foram de avio, em primeira classe, e no aeroporto tinham  sua espera um bri-
334
lhante carro preto que os levou directamente para o seu discreto hotel  beira da gua. A manh estava fresca. O Sol cintilava num plido cu de Inverno, e uma fina
camada de neve derretia-se nos pavimentos e nas rvores. As ruas brilhavam com as decoraes e as luzes de Natal, e Sofia colou o nariz  janela, muito excitada,
quando atravessaram as pontes de pedra sobre a gua gelada.
Tal como tinha prometido, David levou-a s compras. Com o seu velho casaco de caxemira e o chapu de feltro, Sofia pensou que ele estava distinto e belo. Entrava
em cada loja, sentava-se e dava as suas opinies enquanto Sofia provava coisas para ele ver. Precisas de um casaco, dizia, mas esse  curto de mais ou Precisas
de um vestido de cerimnia, com esse ficas um assombro. Chegou ao ponto de a levar a uma loja de roupa interior, onde insistiu que ela escolhesse roupa interior
de renda e seda, para substituir a de algodo que tinha.
- Uma mulher bela como tu tem de ser envolvida por coisas belas - disse.
No a deixou levar nenhum dos sacos e tomou providncias para que fossem entregues no hotel ao fim da tarde.
- David, deves ter gasto uma pequena fortuna - disse ela ao almoo. - No mereo tudo isso.
- Mereces tudo e mais ainda, amor. S estamos a comear - respondeu, claramente satisfeito por estar a estrag-la com mimos.
Quando regressaram ao hotel, Sofia ficou encantada ao encontrar todas as suas compras cuidadosamente arrumadas, nos seus sacos brilhantes, na sala de estar anexa
ao quarto. David deixou-a a abrir os embrulhos e desceu para dar uma vista de olhos. Sofia retirou cada pea do seu papel de embrulho e espalhou tudo em cima dos
sofs e das cadeiras, at a prpria diviso parecer uma butique de luxo. Depois ligou o rdio e ps-se a ouvir a sensual msica francesa enquanto mergulhava num
banho de espuma bem quente. Era a bem-aventurana. Tinha-se sentido to feliz que h muitos meses no pensava na Argentina nem em Santiguito e no ia comear agora.
Nesse momento, o passado deixou de persegui-la e permitiu-lhe desfrutar o presente sem se atormentar.
Quando David regressou, Sofia estava  espera dele  porta, cheia de impacincia, com o vestido vermelho novo que lhe tinha compra-
335
do. Tinha um decote grande  frente, expondo uma parte minscula da sua roupa interior de renda entre os seios e depois ajustava-se ao corpo quase at ao cho; quando
caminhava, a racha lateral revelava uma perna com meia. Estava mais alta devido aos saltos dos sapatos e o cabelo, limpo e solto, envolvia-a em ondas suaves e brilhantes.
David ficou assombrado e a admirao da sua expresso fez com que o estmago de Sofia estremecesse de felicidade.
Depois de jantarem num pequeno e elegante restaurante virado para a encantadora Place des Vosges, David ajudou-a a vestir o casaco novo e, levando-a pela mo, mergulharam
na noite fria. O cu estava vivo com centenas de minsculas estrelas que tremeluziam ao longe, e a Lua estava to grande e brilhante que os apanhou de surpresa.
- Sabes que  vspera de Natal? - perguntou, atravessando lentamente a praa.
- Acho que sim. Desde que cheguei a Inglaterra, ainda no celebrei o Natal como deve ser - disse ela, sem autopiedade.
- Pois, esta noite ests a celebr-lo comigo - disse, e apertou-lhe a mo. - No podia ser uma noite mais bela.
-  um assombro. O Pai Natal no vai ter dificuldade em se orientar pelo cu esta noite, pois no? - perguntou ela a rir. Contornaram lentamente a fonte de pedra
gelada e ergueram os olhos para a escultura que representava gansos selvagens a levantar voo numa confuso de asas, prontos para enfrentarem a noite. - Parece que
algum bateu palmas e os assustou - exclamou ela, admirada. - Inteligente, no ?
- Sofia - disse ele em voz baixa.
-  espantoso que os de cima no se tenham partido, parecem to frgeis.
- Sofia - repetiu ele, muito srio.
- Sim? - respondeu, sem tirar os olhos da escultura.
- Olha para mim.
Foi uma frase to estranha que Sofia se virou e olhou para ele.
- Qual  o problema? - perguntou, mas viu na expresso dele que no havia problema nenhum. Agarrou-lhe nas duas mos enluvadas e olhou para ela com ternura.
336
- Casas comigo?
- Casar contigo? - repetiu ela, atnita. Por um momento, viu a cara angustiada de Santi e ouviu a voz dele a ressoar fracamente no vento: Vamos fugir daqui e casamo-nos.
Casas comigo? Mas a voz desapareceu e David estava ali, inclinado para ela, observando-a apreensivo. Sentiu que os olhos se lhe enchiam de lgrimas e ficou na dvida
se se sentia feliz ou triste.
- Sim, David, caso contigo - gaguejou. Foi visvel o suspiro de alvio de David e a cara engelhou-se-lhe num sorriso. Tirou uma pequena caixa preta do bolso e meteu-lha
na mo. Ela abriu-a com cuidado, revelando um anel com um grande rubi.
- Vermelho  a minha cor preferida - sussurrou.
- Eu sei - respondeu ele em voz baixa.
- Oh, David,  lindo! No sei o que dizer.
- No digas nada. Pe-no no dedo.
Ela atrapalhou-se a tirar a luva, devolvendo-lhe o anel para no o deixar cair nas pedras brilhantes do cho. David agarrou na mo branca dela e ps-lhe o anel no
dedo, depois levou-a aos lbios e beijou-a.
- Fizeste de mim o homem mais feliz do mundo, Sofia - disse, e os seus olhos azuis brilhavam de emoo.
- E tu fizeste de mim uma mulher inteira, David. Nunca pensei que voltaria a amar. Mas amo-te - disse, e ps os braos  volta do pescoo dele. - Amo-te de verdade.

CAPTULO VINTE E NOVE
Santa Catalina, 1979
Foi no incio de 1979 que Santi permitiu finalmente a si mesmo ser amado de novo. Tambm foi o ano em que as asneiras de Fernando lhe caram em cima da cabea.
Chiquita nunca esqueceria o dia em que chegaram a Santa Catalina e verificaram que a casa fora assaltada. S tinha visto aquele tipo de destruio em revistas. Casas
de outras pessoas, desgraas de outras pessoas. Era sempre problema de outras pessoas. Mas olhou em volta e viu moblias desfeitas, vidros partidos, cortinados rasgados.
Algum tinha urinado em cima da colcha da sua cama. A casa cheirava a gente desconhecida. Cheirava mal, a ameaa. Tinham encontrado Encarnacin, demasiado velha
para suportar um abalo daqueles, a torcer as mos, desesperada, a cara retorcida de pavor, a gritar no terrao.
- No sei como entraram. No vi ningum. Quem podia fazer isto? - lamuriava.
Quando Miguel e Chiquita souberam que Fernando tinha sido preso, compreenderam que lidavam com uma situao grave de mais para eles.
Carlos Riberas, amigo de Fernando, telefonou-lhes de um telefone pblico e informou-os de que o filho se envolvera com a guerrilha e que tinha sido preso. No podia
dizer-lhes mais que isto. No sabia para onde o tinham levado nem quando seria libertado. Queria acrescentar se alguma vez o libertarem. Mas calou-se. Era evidente
que
338
os pais de Fernando no faziam ideia das suas actividades nocturnas. Esperava que Fernando fosse forte, resistisse e no dissesse os nomes dos amigos.
Miguel deixou-se cair numa cadeira e ficou to quieto que mais parecia uma esttua de mrmore. Chiquita ps-se a chorar. Retorcendo as mos e andando para trs e
para diante, soluava dizendo que no fazia ideia de que Fernando estivesse envolvido na guerrilha, no tinha uma pista sequer. Tinha realizado as suas actividades
com total secretismo.
- No conheo o meu filho! - lamentou-se. - O meu prprio filho  um estranho para mim.
Paralisado pela sua sensao de total desamparo, o casal abraou-se. Ambos desejavam ter prestado mais ateno ao filho; a sua ansiedade devido ao caso de Santi
com Sofia tinha eclipsado Fernando por completo. Talvez, se tivessem sido melhores pais, tivessem notado e sido capazes de o impedir a tempo. Mas agora que haviam
de fazer?
Miguel e os irmos contactaram todas as pessoas que conheciam em posies de poder, mas ningum fazia a menor ideia de onde Fernando estava. Disseram-lhes que provavelmente
fora raptado por seguranas de folga - paramilitares que actuavam para o Governo. S podiam esperar. Entretanto, continuariam a tentar descobrir onde ele se encontrava.
Toda a famlia Solanas ficou  espera. Um nevoeiro negro caiu sobre a casa de Chiquita, um nevoeiro de que ela receava nunca mais se libertar. Enquanto, sempre a
chorar, punha a casa em ordem, dizia a si mesma que a famlia do marido tinha influncia. Nunca fariam mal a um Solanas. Fernando ser-lhes-ia devolvido e tudo ficaria
bem. Provavelmente, era um erro terrvel. O filho no podia estar envolvido na oposio, sabendo os riscos que corria. No se poria, nem a ele nem  sua famlia,
na posio de passar por tal coisa. No podia ser; e convenceu-se de que devia ter havido algum engano. Depois, mais calma, desejou que tivessem sido capazes de
o impedir de se envolver com aqueles jovens irresponsveis. No o tinha Miguel avisado dos riscos que isso implicava? Sim, ela lembrava-se de qualquer coisa. Porque
no tinham prestado mais ateno? Mais uma vez, culpou-se a si mesma.
339
Fernando estava sentado, muito infeliz, numa cela sem arejamento. Uma pequena janela deixava entrar luz suficiente para iluminar as paredes e o cho de beto. No
tinha uma nica pea de mobilirio. Nada onde pudesse deitar-se. Tinha sido espancado. Pensou que era provvel que lhe tivessem partido algumas costelas, talvez
um dedo, no saberia dizer, estava demasiado inchado. Mas doa-lhe o corpo todo. A cara latejava. No sabia qual seria o seu aspecto, mas imaginou que estivesse
coberto de sangue e em carne viva. Tinham-no raptado quando caminhava pela rua. Um carro preto encostou ao passeio, a porta abriu-se e dois homens de fato completo
saram, agarraram nele e obrigaram-no a sentar-se no banco de trs. Tudo tinha sucedido em menos de vinte segundos. Ningum reparou. Ningum viu.
Com uma pistola encostada ao trax, tinham-no vendado e levado para um bloco de apartamentos a cerca de quarenta e cinco quilmetros da cidade. H dois, trs dias?
No se lembrava. Nomes, era o que eles queriam, nomes. Disseram-lhe que podiam dispens-lo. No precisavam dele. Havia muita gente que falaria. Acreditou. Tinha
ouvido os gritos que reboavam pelo edifcio. Podiam mat-lo e ningum se importaria. Disseram-lhe que os seus amigos o tinham trado - para qu proteg-los?
Quando se recusou a falar, tinham-lhe dado uma pancada que o deixara inconsciente. Quando recuperou os sentidos, no fazia ideia de quanto tempo tinha estado sem
acordo. Estava desorientado e assustado. O medo agarrava-se de tal maneira s paredes que lhe sentia o cheiro. Sentiu a falta da famlia e desejou estar em casa,
em Santa Catalina; o seu estmago estremeceu literalmente de saudades. Porque se tinha ele envolvido com aquela gente estpida? Na verdade, no se ralava com o seu
pas como fingia. Porque tinha dado nas vistas, ao contrrio do que o pai lhe dissera? Tinha-se sentido to satisfeito consigo mesmo! Aderir  guerrilha fizera-o
sentir-se importante e poderoso; tinha-lhe dado um objectivo, uma identidade. No falara do assunto a ningum prximo de si e encerrara-se no prazer que o seu segredo
lhe dava. Estava a fazer uma coisa importante ou, pelo menos, na altura, parecera-lhe importante. Tinha sido excitante.
340
Era como brincar aos cowboys e aos ndios - s que o que estava em jogo era mais importante. Fora a encontros clandestinos na cave da casa de Carlos Riberas. Tinha
desfilado em manifestaes e distribudo panfletos antigovernamentais subversivos. Acreditava na democracia, mas nada justificava pr a vida em risco.
Fernando fungou e tentou esquecer a sua aflio. Era um cobarde - at tinha sujado as calas. Nunca tinha sentido tais apertos de desespero: parecia que se desfazia
por dentro - quase conseguia ouvir o rudo dos rasges. Se me matarem, pensou, que seja rpido e indolor. Peo-vos, meu Deus, que seja rpido.
Quando ouviu os passos seguros e metlicos que percorriam o corredor na sua direco, foi dominado pelo pnico. Queria gritar, mas nenhum som saiu da sua boca seca
e pegajosa. A porta abriu-se e entrou um homem. Fernando protegeu a cara da luz que entrou com ele.
- Levanta-te - ordenou o homem.
Fernando levantou-se vacilando. O homem aproximou-se dele e entregou-lhe um envelope castanho.
- Tens aqui um passaporte novo e dinheiro suficiente para atravessares o rio para o Uruguai. Quando estiveres no Uruguai, no quero ver-te nunca mais nem ouvir falar
de ti, compreendes? Se voltares, s um homem morto.
Fernando estava estupefacto.
- Quem s tu? - perguntou, olhando para a cara dele. - Porqu?
- Isso no interessa. No o fao por ti - disse o homem sobriamente. E acompanhou-o at  sada.
S depois de atravessar a fronteira e estar em segurana  que Fernando se lembrou de repente onde tinha visto aquele homem. Era Facundo Hernandez.
Quando Chiquita ouviu a voz de Fernando, chorou de alvio. Miguel pegou no telefone e ouviu o relato que o filho lhe fez da sua experincia.
- No posso ir para casa, pai, a menos que haja mudana de Governo - disse.
Os pais ficaram desolados por ele no regressar a casa, mas gratos por estar vivo. Chiquita queria ver o filho, queria uma prova de
341
que ele estava de facto bem e tiveram de a tranquilizar muitas vezes at se convencer de que ele dizia a verdade. Passariam meses at Chiquita deixar de ter pesadelos.
Para Fernando, a sua experincia naquela pequena cela sem ar persegui-lo-ia durante muitos anos.
Dois meses depois da partida de Fernando, Santi conheceu Claudia Clice. Os pais tinham-lhe pedido que os representasse num jantar de caridade em Buenos Aires. Chiquita
sofria de stresse e sentia-se incapaz de enfrentar o mundo to pouco tempo depois da fuga do filho do que teria sido, sem dvida, as fauces da morte. Por isso,
Santi sentou-se  mesa, dominando um bocejo, a ouvir os discursos e a fazer conversa de sociedade com a senhora empoada, sentada  sua direita. Deixou os olhos errarem
pela sala, observando as caras alegres das mulheres cobertas de jias, prestando pouca ateno  voz montona que lhe irritava a pacincia, como o zumbido de um
mosquito a pairar perto do ouvido. Acenava de vez em quando, para ela ter a iluso de que ele lhe prestava ateno. Depois, os seus olhos pousaram numa jovem de
ar sossegado que, aparentemente, fazia a mesma coisa numa mesa do outro lado da sala. Ela sorriu-lhe com cumplicidade, com uma expresso de compreenso, antes de
se virar para o seu vizinho e acenar com ar atento.
Depois do jantar, Santi esperou que o homem sentado  esquerda da jovem sasse da cadeira e depois atravessou a sala. Ela acolheu-o puxando a cadeira e apresentando-se.
Sussurrou-lhe ao ouvido que o tinha visto empalidecer de aborrecimento.
- Para mim tambm foi terrivelmente maador - disse. - O homem  minha direita  um industrial. Eu no tinha nada para lhe dizer. No me fez uma nica pergunta sobre
mim.
Santi disse-lhe que o que mais gostaria era de a ouvir falar de si mesma.
Nas semanas seguintes, Soledad notou que Santi recomeava a sorrir. Sentia-se ligeiramente possessiva em relao a ele e no gostou da requintada e polida Claudia
Clice que j era uma visita regular em Santa Catalina. Preocupava-se por causa de Sofia, embora nada soubesse dela desde que tinha partido, em 1974. Claudia era
morena e acetinada, como uma foca molhada. Pintava-se muito bem, os seus
342
sapatos estavam sempre muito bem engraxados e nunca arrastava os ps. Soledad perguntava a si mesma como conseguia ela ter sempre um aspecto to arranjado. At no
campo, quando chovia torrencialmente, o seu chapu-de-chuva condizia com o cinto. No fundo, se gostava ou no da mulher era coisa sem importncia, a sua opinio
no contava, mas estava grata por uma coisa: Claudia Clice fazia Santi feliz. H muito tempo que ele no era to feliz.
Soledad tinha imensas saudades de Sofia, tantas que por vezes chorava alto, preocupada com ela, desejando que estivesse feliz. Desejava muito que escrevesse, mas
isso nunca aconteceu. No compreendia a total falta de comunicao da rapariga. Sofia era como uma filha para si. Porque no escrevia? Soledad tinha perguntado 
Seora Anna se podia escrever uma carta, s para que Sofia soubesse que era amada. Tinha ficado muito transtornada quando Anna se recusara a dar-lhe o endereo.
Nem sequer disse quando  que a menina regressaria a casa. A perturbao de Soledad foi to grande que La Vieja Bruja, a velha bruxa da aldeia, lhe tinha dado um
p branco para misturar no mate, que tinha de beber trs vezes por dia: parecia que dava resultado. Agora j conseguia dormir de noite e deixou de se preocupar tanto.
No dia 2 de Fevereiro de 1983, Santi casou-se com Claudia Clice na pequena igreja de Nuestra Seora de la Asuncin. A recepo teve lugar em Santa Catalina. Quando
Santi viu a noiva a avanar pela nave pelo brao do pai, no conseguiu impedir-se de imaginar que era Sofia. Por um momento, o seu estmago contraiu-se de saudade.
Mas depois, a noiva j estava ao seu lado, a sorrir-lhe tranquilizadoramente, e ele sentiu uma vaga de afecto por aquela pessoa que lhe tinha mostrado ser possvel
amar mais de uma mulher numa vida.

CAPTULO TRINTA
- Maria, como era Sofia? - perguntou Claudia numa manh de Vero. Santi e Claudia estavam casados h mais de um ano e ela ainda no tinha ousado fazer perguntas
a ningum acerca de Sofia e, por qualquer razo, ningum falava dela. Santi tinha-lhe falado da ligao. Contara-lhe que a tinha amado, que no fora um srdido contacto
sexual de acaso atrs dos limites dos pneis. No tinha escondido nada deliberadamente, mas a curiosidade de uma mulher sobre as ex-amantes do marido no tem limites,
e o desejo que Claudia tinha de obter mais informaes ainda no estava satisfeito.
- Como / ela - corrigiu Maria, mas com bondade. - No morreu. Ainda pode regressar - acrescentou, esperanosa.
-  s curiosidade, compreendes - disse Claudia, fazendo apelo ao lao feminino com Maria.
- Bem, no  muito alta, mas d a impresso de ser muito mais alta - comeou Maria, deixando o monte de fotografias espalhadas  sua volta, sobre a tijoleira vermelha,
e olhando para as plancies nubladas pelo calor do Vero. Claudia no estava interessada no aspecto fsico de Sofia. Conhecia o aspecto dela. Tinha visto bastantes
lbuns de fotografias, tinha analisado as fotografias que estavam espalhadas por toda a casa de Paco e Anna em molduras de prata. Sabia exactamente qual fora o aspecto
de Sofia desde beb at adulta. Era encantadora; acerca disso no havia dvida. Mas estava mais interessada na sua personalidade. Que tinha ela para conquistar o
corao de Santi? Porque  que, apesar dos esforos que ele fazia, Claudia estava convencida de que ela ainda era dona do corao dele? Mas
344
deixou que Maria continuasse a falar; no queria perder aquela oportunidade. Era raro conseguir estar sozinha com a cunhada, sem ter  volta marido, primos, irmos,
pais, tios, tias... Quando descobriu Maria sentada sozinha no terrao, naquele sbado de manh, tranquilamente a ver pilhas de fotografias antigas, tinha agarrado
o momento, na esperana de que ningum aparecesse  esquina para dar cabo dele.
O que no tinha percebido  que Maria estava ansiosa por falar de Sofia. Sentia a falta dela. Embora o sentimento fosse agora mais como uma dor surda provocada por
certas associaes que lhe recordavam a prima, os anos no tinham conseguido apagar o lao indissolvel que as duas mulheres haviam criado entre si ao longo da infncia
e da juventude. Mais ningum queria falar de Sofia e, quando falavam, era quase num murmrio, como se ela tivesse morrido. A nica pessoa com quem Maria podia trocar
recordaes era Sole-dad, que falava de Sofia em voz alta e zangada, no zangada com Sofia, claro, mas zangada com os seus pais que, segundo acreditava, tinham impedido
o seu regresso. Agora, Claudia queria ouvir. Maria estava mais que ansiosa por falar.
- Toda a gente falava de Sofia - disse com orgulho, como se falasse de uma filha. - Que iria ela fazer a seguir? A me era injusta com ela ou Sofia era pura e simplesmente
difcil? Tinha um namorado ou no tinha? Era to bela que todos estavam apaixonados por ela. Tinha sempre encontros com os homens mais interessantes que havia. Roberto
Lobito podia ter quem quisesse, mas no conseguiu domar Sofia. Ela usou-o e p-lo de lado como uma bola de plo. Nunca ningum o tinha mandado passear. Aposto que
lhe fez bem. Estava demasiado cheio de si mesmo.
Riu-se e depois continuou, como se estivesse sozinha a falar para consigo:
- Nada a assustava. Nesse aspecto, mais parecia um rapaz. No tinha fobias de menina mimada, como eu. Adorava aranhas e escaravelhos, rs, sapos e baratas e jogava
plo melhor que alguns rapazes. Andava sempre  bulha com Agustin por causa disso. Andava  bulha com todos. Fazia-o s para os irritar, mas nunca com m inteno.
Mas aborrecia-se e queria divertir-se um pouco. Eles ficavam
345
todos furiosos, claro; ela sabia exactamente como exasperar cada pessoa; conhecia-lhes os pontos fracos. As coisas eram muito mais divertidas quando ela andava por
aqui. Santa Catalina era um stio mais divertido quando ela c estava. Havia sempre sarilhos, excitao, riso. Agora que ela se foi embora, tudo parece muito morno,
agradvel, claro, Santa Catalina ser sempre agradvel, mas a centelha desapareceu. Porm, ela h-de regressar, s para ter a certeza de que ningum a esquece. Isso
ser tpico de Sofia. Sempre adorou ser o centro das atenes e, claro, era sempre o centro das atenes, de uma maneira ou de outra, porque as pessoas amavam-na
ou ento no podiam v-la. No tinha importncia; ela s precisava de sentir que reparavam nela.
- Pensas de facto que ela h-de voltar? - perguntou Claudia, roendo uma pele morta  volta de uma comprida unha pintada.
- Claro que volta - respondeu Maria, enfaticamente. - Sei que sim.
- Oh! - Claudia acenou e conseguiu fazer um sorriso amarelo.
- Amava isto demasiado para se ir embora para sempre - disse Maria, e comeou a ver fotografias outra vez. Claudia engoliu com fora. Sofia no podia deix-los para
sempre, pois no?
- Que ests a fazer?
- Ultimamente, no tenho tido tempo para arrumar estas fotografias todas nos lbuns. Esta manh est tudo sossegado, por isso lembrei-me de comear a separ-las.
- Depois, Maria reparou numa de Sofia e agarrou nela. - Olha, esta  uma fotografia tpica de Sofia - disse, e contemplou-a com tristeza. - Foi tirada no Vero em
que se foi embora.
No Vero em que ela estava apaixonada por Santi, pensou Claudia, amargamente. Agarrou na fotografia que a cunhada lhe estendia e olhou para a cara morena e radiosa
que parecia sorrir-lhe, triunfante. Claudia viu alguma complacncia no sorriso. Vestia umas calas brancas justas e calava umas botas castanhas, sentada num pnei
com ar descontrado, com um basto apoiado no ombro. O cabelo estava apanhado atrs num rabo-de-cavalo. Claudia odiava cavalos e tambm no apreciava muito o campo.
O facto de Sofia ter adorado as duas coisas sem reservas fazia com que gostasse ainda menos delas.
346
O esforo que Claudia tinha feito, antes de se casarem, para fingir que gostava, tinha sido uma total perda de tempo. Descobriu isso mesmo numa tarde em que Santi
a levou a dar um passeio a cavalo. Sentada muito hirta em cima do pnei, terrivelmente infeliz, acabara por se desfazer num ataque de soluos de raiva e confessara
que detestava at olhar para cavalos.
- Nunca mais quero andar a cavalo - fungara.
Para sua surpresa, Santi parecera quase feliz. Levou-a para casa, abraou-a e disse-lhe que nunca mais teria de aproximar-se de um pnei em toda a sua vida. Ao princpio,
ela sentira-se aliviada por no ter de continuar a fingir, mas, mais tarde, desejou no se ter sentido to satisfeita. Pneis, andar a cavalo, estar no campo - tudo
fazia parte do territrio de Sofia, e Claudia acreditava que Santi queria que fossem exclusivos dela.
- Santi foi sempre muito chegado a Sofia? - perguntou com cuidado.
Maria olhou para ela, alarmada.
- No sei - mentiu. -  melhor perguntares a Santi.
- Ele nunca fala dela - disse, encolhendo os ombros e baixando os olhos.
- Oh, compreendo. Bem, foram sempre chegados. Ele era como um irmo mais velho, ests a ver, e Sofia era como se fosse minha irm. - De repente, Maria sentiu-se
pouco  vontade, como se a conversa comeasse a fugir ao seu controlo.
- Importas-te se eu vir mais algumas? - pediu Claudia, mudando de assunto com muito tacto. Sentiu que talvez estivesse a ser demasiado indiscreta. No queria que
Maria fosse contar a Santi.
- Toma, porque no vs estas; j as separei - ofereceu Maria, aliviada, e entregou-lhe uma das pilhas cuidadosamente marcadas. - No as mistures com o resto, por
favor.
Claudia recostou-se na cadeira, pousando as fotografias no colo, e Maria olhou a cunhada de relance sem que esta desse por isso. S tinha mais alguns meses que Maria,
mas parecia muito mais velha. Sofia dizia sempre que as pessoas nascem com uma determinada idade; afirmava que tinha dezoito anos e dizia que Maria estava na casa
dos vinte. Bem, se fosse assim, provavelmente diria que Claudia tinha
347
quarenta. No tinha nada a ver com a cara, que era de um tom acastanhado intenso e suave - era naturalmente bela -, mas antes com a maneira como se vestia e se comportava.
Tinha-se oferecido para ensinar Maria a maquilhar-se de maneira a melhorar o aspecto.
- O que eu seria capaz de fazer com a tua cara - dissera sem nenhum tacto. Maria era demasiado gentil para se ofender. No queria maquilhar-se com aquelas cores
ricas que Claudia usava e, de toda a maneira, Eduardo detestaria. Perguntou a si mesma se ela dormiria maquilhada, e, se no dormisse, perguntou-se se Santi a reconhecia
de manh. Morria por fazer a pergunta, mas no ousou. Houve uma altura em que podia perguntar a Santi tudo o que quisesse, mas as coisas tinham mudado - subtilmente,
 certo, mas tinham mudado.
Ningum compreendia porque tinha Santi casado com Claudia. Todos gostavam bastante dela, pois era agradvel, gentil, bonita, mas o casal no parecia ter nada em
comum. Tal como leo e gua, no se misturavam. Chiquita tinha gostado imediatamente dela, mas isso foi s porque estava aliviada por ele se casar, fosse com quem
fosse. Sentia-se feliz por ver o filho sorrir e seguir em frente. Estranhamente, a nica pessoa com quem Claudia tinha alguma afinidade era com Anna. As duas possuam
um temperamento frio e ambas odiavam cavalos. Passavam muito tempo juntas e Anna dera-se ao trabalho de fazer com que se sentisse bem recebida.
- Para onde ests a olhar? - perguntou Claudia de repente, sem levantar os olhos das fotografias. Maria receou que ela tivesse tido sempre conscincia de que estava
a ser avaliada.
- S estou com curiosidade, a tua maquilhagem  muito bonita - respondeu, sem saber o que dizer.
- Obrigada. Eu ofereci - disse, e sorriu para Maria.
- Eu sei. Talvez um dia te recorde a oferta - respondeu Maria com um sorriso tnue.
- Dios, que fizeste  cara? - exclamou Eduardo, horrorizado, quando viu a mulher entrar para jantar com a cara de uma vendedora de um balco da Revlon.
- Claudia deu-me uma lio - respondeu em voz fraca, pestanejando com pestanas compridas, pesadas e pretas.
348
- Eu estava com curiosidade de saber o que vocs as duas estavam a fazer trancadas ali dentro - disse ele, tirando os culos para os limpar  camisa. Nesse momento,
Claudia apareceu atrs de Maria, com um vestido preto comprido, seguro nos ombros por duas delicadas alas prateadas.
- Mi amor, ests encantadora - disse Santi, pondo-se de p para beijar a mulher. Mal a tinha visto em todo o dia.
- No achas que devias tirar essas calas de ganga para o jantar? - ciciou ela entre dentes - Cheiras a cavalo.
- A minha me no se importa. Se ainda no se habituou a mim, nunca mais se habitua - disse-lhe ele e voltou a sentar-se. Claudia sentou-se junto dele, embora a
cadeira de braos no fosse para duas pessoas. Ele passou-lhe a mo pelo cabelo.
- Mi amor - queixou-se ela -, no podes lavar as mos para me tocares? Eu estou toda limpa.
Ele sorriu maliciosamente, puxou-a para si e abraou-a.
- No gostas do suor de um homem de sangue vermelho? - disse, troando dela.
- No, no gosto - respondeu a rir-se contra vontade, endirei-tando-se e empurrando-o. - Por favor, Santi, eu quero que me toques, s peo umas mos limpas.
Santi levantou-se com relutncia e saiu da sala. Regressou passados cinco minutos, com a barba feita e outra roupa.
- Melhor? - perguntou, erguendo uma sobrancelha.
- Melhor - respondeu ela, arranjando-lhe espao na cadeira de braos.
Jantaram no terrao  luz de quatro grandes lanternas  prova de vento. Miguel, Eduardo e Santi discutiam poltica, enquanto Chiquita, Maria e Claudia os discutiam
a eles. Chiquita apreciava a sua nova famlia alargada e observava os seus rostos animados  luz quente das lanternas. Trazia sempre no corao uma dor discreta
por causa de Fernando, a tantos quilmetros de distncia, do outro lado do rio, no Uruguai, mas tinham ido v-lo com frequncia.
Fernando ainda se sentia atormentado pela sua experincia. Tinha deixado crescer o cabelo preto, que agora estava muito comprido; pelo menos, estava limpo e brilhava
como a asa de um corvo.
349
Chiquita recordou com nostalgia as longas frias de Vero da meninice dele, quando a vida era inocente e as suas brincadeiras acabavam  hora de deitar. Agora estava
muito longe de casa, numa praia, a viver a vida de um co perdido. No era o mesmo que t-lo em Santa Catalina, mas ela compreendia que devia sentir-se contente
por o filho estar vivo e no se preocupar com coisas corriqueiras.
Panchito, agora um gil jovem de dezassete anos, passava tanto tempo quanto podia em casa de outras pessoas, com primos e amigos da sua prpria idade. Chiquita incentivava-o
a convidar amigos para sua casa, numa tentativa de lha tornar mais interessante, mas ele, se no brilhava no campo de plo, estava noutro stio e, muitas vezes,
ela nem sequer sabia onde ele estava nem com quem. Pouco o via.
- Como era Miguel quando o conheceu? - perguntou Claudia. Chiquita riu-se.
- Bem, era alto e...
- Cabeludo - intrometeu-se Santi, tentando ajudar. Todos se riram.
- Cabeludo. Mas no tanto como agora.
- Ele era lupino, me? Andava atrs de si e levava-a para o covil dele?
- Oh, Santi, s vezes s to ridculo.
Ela sorriu e os seus olhos cintilavam de felicidade.
- Pai, era o que fazia?
- Todos perseguiam a tua me. Aconteceu que eu tive sorte - disse ele, e piscou o olho a Chiquita, sentada  sua frente.
- Tiveram os dois muita sorte - disse Claudia, diplomaticamente.
- No teve nada a ver com sorte. Eu tive de fazer sacrifcios ao ombu - disse ele com uma risada funda.
- O ombu? - Claudia ficou confusa. Maria olhou de relance para Santi e reparou que o msculo da maxila lhe tremia. Ele tirou um mao de tabaco do bolso e acendeu
um cigarro.
- No me digas que o Santi no te levou ao ombu? - perguntou Chiquita, espantada. - Quando era rapaz, passava o tempo todo empoleirado l no alto da rvore.
350
- No, no me levaste. Que tem o ombu de to especial? - perguntou ela directamente a Santi, mas este no respondeu, limitando-se a expelir o fumo pela boca em silncio.
- Costumvamos ir l fazer pedidos. Pensvamos que tinha magia, mas na realidade no tem. No tem nada de especial - disse Maria muito depressa, desvalorizando o
assunto. Sentiu a perna de Eduardo, que fazia presso na dela, apoiando-a.
-  uma rvore muito especial - reclamou Miguel. - Faz parte da nossa juventude. Brincmos l em crianas, era para ali que marcvamos encontros quando crescemos.
De facto, sem querer ser indiscreto, foi no ombu que beijei a tua me pela primeira vez.
- Verdade? - disse Maria. Nunca ningum lhe tinha contado isso.
- Absolutamente. Para a tua me e para mim, , na realidade, uma rvore muito especial.
- Santi, levas-me l? Agora fiquei cheia de curiosidade - disse Claudia.
- Levo-te l numa altura qualquer - resmungou Santi com voz spera. A sua cara parecia plida como a morte  luz bruxuleante das lanternas, acentuando as suas feies
de forma grotesca.
- Mi amor, sentes-te bem? Ficaste muito plido - disse Claudia, preocupada.
- A verdade  que estou um pouco estonteado.  do calor. Estive todo o dia ao sol. - Apagou o cigarro antes de se levantar da mesa. - No, fica e come - disse ele
 mulher. - Eu estou bem, s preciso de dar uma volta.
Claudia ficou com uma expresso desolada, mas puxou a cadeira e voltou a pousar o guardanapo no colo.
- Como quiseres, Santi - respondeu em voz neutra, vendo-o desaparecer na escurido. Ouviu mais uma vez o riso de Sofia, vindo do espao escuro e vazio que os envolvia,
a provoc-la.
Santi atravessou a pampa e dirigiu-se para o ombu. A luz que vinha do cu limpo e estrelado era suficiente para ver o caminho sem tropear, mas, mesmo sem ela, conhecia
o terreno. Chegado  rvore, escalou-a at acima e depois deixou-se cair num ramo resistente e, cheio de infelicidade, encostou-se ao tronco. Sentia a garganta a
late-
351
jar, como se o colarinho estivesse demasiado apertado, mas estava desabotoado. Pousou ali a mo, numa tentativa para aliviar o aperto. Tambm sentia o peito comprimido
e desconfortvel. Tentou encher os pulmes de ar, mas s conseguiu uns arquejos pouco fundos. Sentia o estmago revoltado com nuseas e doa-lhe a cabea. Olhou
para a noite e recordou como costumava sentar-se ali com Sofia, a contemplar os planetas e as estrelas que cintilavam por cima deles. Perguntou a si mesmo se ela
estaria a ver o mesmo cu e se erguia os olhos para o alto e ainda pensava nele.
De repente comeou a soluar. Tentou controlar-se, mas os soluos vinham bem do fundo de si. H muito, muito tempo que no chorava. Desde que Sofia o tinha deixado,
ferido e destroado, h tantos anos. Pensava que tinha finalmente encontrado a felicidade com outra mulher. Claudia fazia-o sorrir, por vezes at o fazia rir. Era
quente e macia, era bom fazer amor com ela, bondosa e atenciosa e, por isso, era bom viver com ela. No era exigente e no era complicada. Fazia tudo o que podia
para lhe agradar e poucas vezes se deixava dominar pelo mau gnio. Era equilibrada, controlava as suas emoes, mas isso no queria dizer que no sentisse. Sentia
tudo, mas era cuidadosa com o que revelava. Era discreta e digna. Ningum podia dizer que no era bela. Cuidava de si mesma. Ento, porque raio ansiava ele pelo
caos, o egosmo, a paixo de Sofia? Porque ainda tinha ela o poder, ao fim de tanto tempo, quase dez anos, de o pr de joelhos, de o fazer chorar como uma criana?
- Raios partam isto tudo, Chofi! - gritou para o ar hmido da noite. - Demnios te levem!
Claudia queria iniciar a sua prpria famlia. Estava desesperada por ter um filho. Mas Santi ainda no estava preparado. Como podia pr uma criana no mundo, se
ainda tinha a esperana de que Sofia regressasse? Se ele assumisse esse compromisso com Claudia, seria na verdade um compromisso para toda a vida. O casamento devia
ser para toda a vida, mas os filhos eram irreversveis. Ainda esperava que, um dia, Sofia voltasse para ele e queria estar pronto. Todos pensavam que a tinha esquecido,
mas nunca esqueceria. Como podia esquecer quando a cara dela espreitava em todos os cantos da estancia i Havia recordaes suas agarradas a todos os pedaos do rancho,
352
a todas as peas de mobilirio. No tinha possibilidade de se afastar dela e a verdade  que, de certa maneira, tambm no queria; ela atormentava-o e reconfortava-o
ao mesmo tempo.
Quando regressou a casa, Claudia estava  sua espera, sentada na cama, em camisa de dormir, com a cara tensa e ansiosa. Tinha retirado toda a maquilhagem; sem o
batom, o rosto dela estava completamente sem cor.
- Onde foste? - perguntou.
- Dar um passeio.
- Ests transtornado.
- Agora estou bem. Precisava de um pouco de ar,  tudo - disse ele e comeou a puxar a camisa de dentro das calas e a desaboto-la.
Claudia olhou-o com expresso firme.
- Foste a esse ombu, no foste?
- Porque pensas isso? - perguntou, virando-se de costas.
- Porque era para onde tu ias sempre com Sofia.
- Claudia... - comeou ele a dizer com irritao.
- Vi as fotografias de Maria... havia muitas em que tu estavas em cima da rvore com Sofia. No estou a acusar-te, mi amor, quero ajudar-te - disse, aproximando-se
dele. Mas ele continuou a despir-se, atirando a roupa para o cho.
- No preciso de ajuda e no quero falar de Sofia - retorquiu numa voz sem expresso.
- Porque no? Porque nunca falas dela? - perguntou Claudia, com uma voz subitamente desconhecida.
Ele olhou para as feies rgidas da mulher.
- Preferias que eu falasse dela? Sofia isto, Sofia aquilo...  o que queres?
- No compreendes que, porque no falas nela, ela paira sobre ns como um fantasma? Sempre que me aproximo de ti, sinto que ela se mete entre ns - disse Claudia
com voz trmula.
- Mas que queres saber? Contei-te tudo.
- No quero que a escondas de mim.
- No estou a escond-la de ti. Quero esquec-la, Claudia. Quero fazer a minha vida contigo.
353
- Continuas a am-la? - perguntou ela de repente.
- De onde vem tudo isso? - perguntou, confuso, sentando-se na cama ao lado dela.
- Tenho sido paciente - disse ela com incerteza. - Nunca te fiz perguntas sobre ela, deixei essa parte da tua vida em paz.
- Ento, porque te sentes agora insegura acerca dela? - perguntou Santi, suavemente, agarrando-lhe na mo.
- Porque a sinto em todo o lado. Sinto-a nos silncios quando as pessoas param para respirar. Todos tm medo de falar dela. Que fez ela para tornar as pessoas to
furtivas? Nem Anna fala dela.  como se estivesse morta. No falar dela s a torna maior, mais ameaadora. Sinto que ela te afasta de mim. No quero perder-te a
favor de um fantasma, Santi - disse, e engoliu com fora, pois no estava acostumada a revelar as suas emoes.
- No vais perder-me. A favor de ningum. Acabou-se h muitos anos.
- Mas continuas a am-la - insinuou ela, de novo.
- Amo a recordao, Claudia.  tudo - mentiu ele. - Se regressasse, estaramos os dois mudados. Agora somos pessoas diferentes.
- De certeza?
- Que tenho de fazer para te convencer? - perguntou, puxan-do-a para os seus braos. Mas sabia.
De repente, apertou-a contra si e beijou-a profundamente, a lngua deslizou pelos dentes e pelas gengivas dela e comprimiu firmemente os lbios contra os dela. Ela
reteve a respirao. Santi nunca a tinha beijado assim, no com tanta premncia. Empurrou-a para trs, deitando-a na cama, e puxou-lhe a camisa de dormir de seda
at  barriga. Olhou para a suave ondulao do seu ventre e passou a mo por ele, contemplando-o em silncio. Ela abriu os olhos e notou a expresso estranha que
lhe cobria a cara. Quando olharam um para o outro e ela franziu as sobrancelhas, as feies dele suavizaram-se. Sorriu-lhe enquanto ela tentava descortinar os seus
pensamentos, mas depois enterrou a cara no pescoo dela e beijou-a e lambeu-a at ela gritar de prazer. As mos dele moviam-se com firmeza entre as pernas e sobre
os seios dela, com um toque confiante e vigoroso,
354
e ela ondulou, pois ele f-la sentir-se sensual como nunca tinha permitido a si mesma sentir-se. Depois ele desapertou as calas e libertou-se. Afastou-lhe as pernas
e entrou dentro dela.
- Mas no te protegeste? - perguntou ela, com a cara vermelha e travessa.
- Quero lanar uma semente, Claudia - replicou ele, ofegante, olhando-a muito srio. - Quero construir o futuro contigo.
- Oh, Santi, eu amo-te - suspirou ela, feliz, enrolando os braos e as pernas  volta dele, como um polvo, puxando-o ainda mais para si.
Agora vais deixar-me partir, Chofi, pensou Santi em silncio. Hei-de esquecer-te de vez.

CAPTULO TRINTA E UM
Inglaterra, 1982
Ribby ficou a olhar com um ar assombrado - Alguma vez viste uma coisa assim? Ento havia realmente uma forma para bolinhos?... Mas as minhas formas para bolinhos
esto todas no armrio da cozinha. Bem, essa no!... Na prxima vez que quiser dar uma festa - convido a prima Tabitha Twitchit! - disse Sofia suavemente e fechou
o livrinho de Beatrix Potter.
- Outra vez - disse Jssica, ensonada, sem tirar o dedo polegar da boca.
- Acho que chega uma, no achas?
- A Histria do Gatinho Tom? - sugeriu esperanosa, aninhan-do-se mais no colo de Sofia.
- No, s tens direito a uma. D-me um abrao - pediu, envolvendo a criana nos braos e beijando-lhe a cara suave e rosada. Jssica agarrou-se a Sofia, no querendo
larg-la.
- E as bruxas? - perguntou, quando Sofia a aconchegou na cama.
- As bruxas no existem, pelo menos aqui no existem de certeza. Olha, este  um urso mgico especial - disse, metendo o ursinho na cama, junto dela. - Se alguma
bruxa se aproximar de ti, este urso faz um feitio que faz desaparecer a bruxa numa nuvem de fumo.
- Urso esperto - disse a criana, toda satisfeita.
- Urso muito esperto - concordou Sofia e depois curvou-se e beijou-lhe a testa com ternura. - Boa noite.
356
Quando se virou para sair, David estava em silncio junto da porta semiaberta, a observ-la pela abertura. Sorriu-lhe com uma expresso pensativa.
- Que ests a fazer? - sussurrou ela, deslizando para fora do quarto para ir para junto dele.
- A ver-te.
- Ai ests? - disse a rir. - E porqu?
Ele puxou-a para os seus braos e beijou-lhe a testa.
- Tens jeito natural para crianas - disse ele em voz rouca. Ela sabia como a conversa ia acabar.
- Eu sei, mas, David...
- Amor, eu passo por tudo contigo, no estars sozinha. - Olhou para os olhos dela, cheios de medo. -  do nosso filho que estamos a falar. Um pedao de mim e um
pedao de ti, a nica coisa no mundo que faz parte de ns e que nos pertence exclusivamente. Pensei que era o que tu querias.
Ela levou-o pelo corredor, para longe do quarto da criana.
- Eu adoro crianas e um dia gostaria de ter uma... muitas. Um pedao de ti e um pedao de mim,  a coisa mais romntica e maravilhosa, mas ainda no. Por favor,
David, d-me tempo - pediu.
- Eu no tenho tempo, Sofia. No estou a rejuvenescer. Quero desfrutar de uma famlia enquanto posso - disse ele, sentindo o estmago s voltas com a estranha sensao
de dj vu. Tivera esta mesma conversa vezes sem conta com Ariella.
- Em breve. Muito em breve, amor, prometo - afirmou, afastando-se dele. - Deso daqui a pouco. Diz a Christina que a filha est metida na cama e  espera que ela
v dar-lhe as boas-noites.
Sofia entrou no quarto e fechou a porta. Ficou imvel por um instante, para ter a certeza de que David no a tinha seguido. O patamar estava silencioso; devia ter
descido para dar o recado a Christina. Ela dirigiu-se para a cama e, levantando a colcha, passou as mos por baixo do colcho. Depois puxou para fora um quadrado
de musselina branca muito encardido - a musselina de Santiguito. Sentou-se no cho e cruzou as pernas. Levou o tecido ao nariz e fechou os olhos, inspirando o cheiro
cedio que fora outrora o cheiro de Santiguito. Os anos tinham-no descorado e, de tanto lhe mexer, o cheiro e a textura tinham desaparecido. Mais parecia um trapo;
quem no
45
357
soubesse, deit-lo-ia fora com o lixo. Mas Sofia guardava-o como o mais precioso de todos os seus bens.
Quando o encostava  cara, era como carregar no interruptor de um projector de cinema. Fechava os olhos e via as imagens do seu beb, to frescas e cheias de vida
como se o tivesse visto no dia anterior. Recordava os seus ps minsculos, cada dedinho perfeito, cor-de-rosa e macio, o seu cabelo fofo, a sua pele suave, to suave...
Recordava a sensao que tinha quando ele mamava no seu seio, o olhar vidrado que tinha enquanto enchia a barriguinha redonda. Recordava tudo, tinha o cuidado de
recordar tudo. Voltava a ver a cena vezes sem conta, para no esquecer um nico pormenor.
Ela e David estavam casados h quatro anos, e o que toda a gente queria saber era quando teriam filhos. Ningum tinha nada a ver com o assunto, pensava Sofia, irritada.
Era entre ela e David, embora, por qualquer razo, Zaza achasse que tinha um estatuto especial. Sofia tinha-lhe falado duas vezes com brusquido, mas ela era resistente
como um pedao de couro velho com a pele igualmente grossa e no havia compreendido a aluso. S David, Dominique e Antoine compreendiam as suas razes para no
querer um filho. Dominique e Antoine tinham-se metido no avio para virem ao casamento, uma cerimnia discreta no registo civil, mas que no tinham querido perder.
Desde Genebra que eram melhores pais para ela que, no seu entender, os verdadeiros alguma vez tinham sido. Quando pensava em Anna e Paco, o que tentava no fazer
com muita frequncia, parecia que s se recordava dos seus rostos plidos, agora quase verdes de to glidos nas suas recordaes, dizendo-lhe que fizesse as malas
para o seu longo exlio. Dominique telefonava-lhe com frequncia, sempre compreensiva, sempre do seu lado. Lembrava-se do seu aniversrio, mandava-lhe presentes
de Genebra, postais de Verbier, e parecia pressentir quando as coisas no corriam bem, pois telefonava sempre no momento exacto.
- Eu quero um filho, Dominique, mas tenho medo - tinha Sofia confessado na vspera.
- Chrie, eu sei que tens medo, e David compreende os teus receios. Mas no podes ficar presa a uma recordao. Santiguito no  real. J no existe. Pensares nele
s pode trazer-te sofrimento.
358
- Eu sei. Estou sempre a dizer isso a mim mesma, mas  como se tivesse um bloqueio em qualquer lado. No momento em que imagino o meu ventre grande e pesado, entro
em pnico. No consigo esquecer a infelicidade que isso me trouxe.
- A nica maneira de esqueceres  teres um filho com o homem que amas ao teu lado. Quando essa criana te der muita alegria, esquecers o sofrimento que Santiguito
te trouxe, garanto.
- David  to meigo! No fala muito no assunto, mas eu sei que pensa constantemente nele. Vejo nos seus olhos quando olha para mim. Sinto-me to culpada - confessou,
enterrando-se nas almofadas da cama.
- No te sintas culpada. Um dia ds-lhe um beb e todos juntos sero uma famlia feliz. S paciente. O tempo  um curandeiro maravilhoso.
- Tu s uma curandeira maravilhosa, Dominique. J me sinto melhor - disse Sofia a rir.
- Como est David? - perguntou Dominique. Estava satisfeita por Sofia se ter apaixonado e deixado o passado para trs, quase, pelo menos.
- Como sempre. Tornou-me muito feliz. Tenho muita sorte - disse ela, com toda a franqueza.
- No te preocupes, s jovem, tens muito tempo para ter filhos - disse Dominique bondosamente, mas compreendia os receios de David e apoiava-o de todo o corao.
Sofia tinha vivido os ltimos cinco anos conscienciosamente. Nunca tinha tomado como certa a sua vida com David. Nunca, nem por um momento, esquecera a infelicidade
que pairara como um nevoeiro negro sobre os primeiros anos do seu exlio, ocultando em parte alguns dos acontecimentos que tinham sido demasiado dolorosos para serem
expostos. Santi tinha-a ensinado a viver no presente; David demonstrara-lhe que isso era possvel. O seu amor pelo marido era forte e inabalvel. Ele era seguro
e dominador e, no obstante, ela tinha descoberto, sob a sua reserva, uma vulnerabilidade que a atraa. Raramente lhe dizia que a amava, no era essa a sua maneira
de agir, mas ela sabia que a amava e quanto. Compreendia-o.
359
Sofia teve a pouca sorte de se encontrar com a sogra, Elizabeth Harrison, uma nica vez. David apresentou-as uma  outra na semana anterior ao casamento, no Basil
Street Hotel, onde tomaram ch. Tinha-lhe dito que era melhor encontrarem-se em terreno neutro - assim, a me no teria a possibilidade de a intimidar ou de fazer
uma cena.
Fora um encontro breve e embaraoso. Elizabeth Harrison, uma mulher de aspecto severo, de cabelo grisalho e espetado, lbios roxos e olhos bolbosos e lacrimejantes,
to impassvel e superficial como uma sepultura, estava habituada a conseguir o que queria e a tornar todos os que a rodeavam to infelizes quanto ela. Nunca perdoara
a David por se ter divorciado de Ariella, cuja atraco decorria mais do seu pedigree que da sua personalidade, e tambm no lhe tinha perdoado por usar o dinheiro
dele para produzir peas de teatro, quando ela o incitara a trabalhar no Ministrio dos Negcios Estrangeiros como o pai. Fungou de desaprovao ao ouvir Sofia falar
com sotaque estrangeiro e saiu to altivamente quanto pde, apoiada numa bengala, quando Sofia lhe disse que tinha trabalhado a lavar cabeas num salo chamado Maggie's
em Fulham Road. David viu-a partir sem correr atrs dela para lhe implorar que regressasse, o que a irritou mais que tudo o resto. David no precisava dela e no
parecia preocupar-se. Franziu os lbios amargos e regressou  sua fria manso vazia no Yorkshire, totalmente insatisfeita com o encontro. David prometera a Sofia
que nunca teria de voltar a v-la.
Por muito que Sofia vivesse conscienciosamente no presente, o passado tinha o hbito malvolo de surgir de repente, vindo do nada, desencadeado por uma qualquer
associao que mandava os seus pensamentos mais uma vez para a Argentina. Por vezes, era simplesmente a maneira como as rvores lanavam longas sombras sobre a relva
num fim de tarde de Vero ou, se a Lua estivesse particularmente brilhante, a maneira como fazia brilhar o orvalho sobre a erva, como diamantes de fantasia. Por
vezes, era o cheiro do feno na estao das colheitas ou as queimadas de folhas no Outono. Mas nada trazia tudo de volta como os eucaliptos e Sofia teve dificuldade
em suportar a lua-de-mel no Mediterrneo por causa do tempo hmido e dos eucaliptos. Sentiu o corao contrair-se e uma saudade enorme consumi-la at quase no conseguir
respirar. David abraou-a com
360
fora at a sensao passar. Depois conversaram. Ela no queria falar no assunto, mas David insistira que aferrolhar as coisas era mau hbito e obrigou-a a repetir
os mesmos acontecimentos vezes sem conta.
As duas ocasies a que Sofia regressava sempre eram a rejeio dos pais e o dia em que saiu de Genebra e abandonou Santiguito para sempre. <Ainda me lembro como
se fosse ontem, dizia a soluar. A me e o pai na sala de estar, o ambiente pesado e desagradvel. Eu estava to assustada... Sentia-me uma criminosa. Eram dois
estranhos. Eu tive sempre uma relao especial com o meu pai e, de repente, j no o conhecia. Depois expulsaram-me. Mandaram-me embora. Rejeitaram-me. E continuava
a chorar at o movimento provocado pelos soluos libertar a tenso do peito e conseguir respirar livremente mais uma vez. A desolao de deixar Santi era uma coisa
de que no conseguia falar com o marido, com receio de feri-lo. Essas lgrimas derramava-as para dentro e em segredo, permitindo involuntariamente que o desgosto
se entrincheirasse cada vez mais profundamente dentro do seu ser e lhe envenenasse o esprito.
Depois de se casarem, Sofia no pensou muito em Ariella. Esta foi mencionada uma ou duas vezes, como quando Sofia vasculhou o sto  procura de um candeeiro que
David tinha dito que l estava e descobriu um monte de quadros de Ariella, empilhados contra a parede e tapados com um lenol por causa do p. No se importou. David
foi at l acima para os ver e depois ps-lhes outra vez o lenol por cima. Pintava bem, foi tudo o que disse e Sofia no sentiu grande curiosidade. Encontrou
o candeeiro que queria, trouxe-o para baixo e fechou a porta do sto. Nunca mais l voltara, e Ariella nunca mais tinha figurado nos seus pensamentos. Uma festa
social em Londres era o ltimo stio onde esperava vir a conhec-la.
Sofia ficava nervosa com as festas. No queria ir, mas David insistiu. No podia esconder-se para sempre. Ningum sabe quanto tempo vai durar esta guerra - h-de
chegar o dia em que tens de enfrentar o mundo, dissera ele. Quando a Gr-Bretanha declarou guerra  Argentina por causa das ilhas Malvinas, Sofia sentiu-se desesperadamente
dividida. Era argentina e, por muito que tivesse afastado essa parte da sua vida, sempre tivera a certeza do que era - argentina da cabea aos ps. Cada cabealho
de jornal a feria, cada comentrio cruel a fazia sofrer. Era o seu povo. Mas no valia a pena defen-
361
d-lo deste lado do Atlntico - os Ingleses queriam cabeas espetadas em paus. David sugeriu carinhosamente que mantivesse a boca calada se no queria que tambm
espetassem a dela. Era difcil no desencadear pequenas escaramuas quando as pessoas tinham tanta falta de tacto - em jantares de festa, quando homens grosseiros
davam murros na mesa, escarnecendo dos malditos argies. Os Argentinos agora eram argies e o nome nada tinha de elogioso. Sem nunca antes se terem apercebido
de que as ilhas Malvinas existiam, de repente, no havia quem no tivesse uma opinio.
Sofia tinha de enterrar as unhas na palma das mos para se impedir de lhes dar a satisfao de a perturbarem. S depois se enrolava, encostada a David, e soluava
com a cara enterrada no peito dele. Perguntava a si mesma como  que a sua famlia lidava com a situao. Queria iar a bandeira no telhado em Lowsley e gritar tanto
quanto fosse humanamente possvel que era argentina e que tinha muito orgulho nisso. No abdicara da sua nacionalidade. No os tinha abandonado. Era um deles.
A festa era um jantar com baile numa noite de Maio invulgarmente abafada. Oferecida por Ian e Alice Lancaster, velhos amigos de David, era o gnero de festa de que
toda a gente falava durante meses antes de se realizar e comentava nos meses seguintes. Sofia tinha gasto uma pequena fortuna na Belville Sassoon para ter um vestido
sem alas vermelho-vivo que cintilava subtilmente em contacto com a sua pele cor de azeitona. David ficou to impressionado que no se preocupou com o preo, e sorriu
cheio de orgulho quando reparou que todos os outros convidados lhe lanavam olhares de admirao.
Normalmente, naqueles eventos, o casal separava-se e cada um tratava de si sem se preocupar com o outro. Mas Sofia teve receio de que algum iniciasse uma conversa
sobre a guerra, por isso agarrou na mo de David e seguiu-o, cheia de apreenso, pela sala. As mulheres estavam cobertas de diamantes e ostentavam penteados rgidos,
chumaos agressivos nos ombros e maquilhagens alarmantes. Sofia sentia-se leve, embora muito discreta, com um simples solitrio que cintilava sobre o seu despido
peito moreno. Presente de aniversrio
362
de David. Reparou que as pessoas segredavam quando ela passava e que as conversas perdiam o entusiasmo logo que se aproximava. Ningum mencionou a guerra.
Uma tenda s riscas azul-claras e brancas tinha sido montada no jardim por detrs da manso dos Lancaster, em Hampstead. Uma extravagante exposio de flores escorria
de todas as mesas, como fontes de folhas, e a tenda cintilava com a luz de mil velas. Quando o jantar foi anunciado, Sofia sentiu-se aliviada ao descobrir que estava
na mesma mesa que David - a mesa dos anfitries. Quando se sentou, piscou o olho a David, para que soubesse que ela se sentia feliz. Ele parecia conhecer a senhora
empoada  sua esquerda, mas o lugar  sua direita ainda estava vazio.
- Muito prazer em v-la de novo! - exclamou o homem sentado  esquerda de Sofia. Era careca e tinha uma cara redonda jovial, lbios finos e olhos claros e transparentes.
Sofia olhou de relance para o carto com o nome dele. Jim Rice. Sim, j o conhecia. Era uma daquelas pessoas indistintas que encontramos em todo o lado, mas cujo
nome nunca recordamos.
- Muito prazer em v-lo, tambm. - Sorriu, tentando silenciosamente lembrar-se de onde o conhecia. - Quando  que nos encontrmos pela ltima vez? - perguntou desprendidamente.
- No lanamento do livro de Clarissa - respondeu ele.
- Claro - disse Sofia, sem se lembrar de quem era Clarissa.
- Cus, o que  aquilo? - disse ele de repente, lanando o olhar para o outro lado da sala, onde uma mulher alta e flexvel deslizava graciosamente por entre as
mesas na direco deles. Sofia contraiu o maxilar, com medo de abrir a boca e nunca mais conseguir fech-la. Aquela requintada criatura, que vestia um simples vestido
branco, era Ariella, sem a menor dvida. Sofia viu-a aproximar-se da mesa. Tambm reparou que a cadeira  direita de David ainda no tinha sido ocupada. Por favor,
meu Deus, no ao lado de David.
- No  Ariella Harrison, a ex de David? - perguntou o homem  sua direita. - Que barraca! - resmungou, enquanto Ariella cumprimentava um David aturdido e se sentava
ao lado dele.
- George - disse Jim, em tom de aviso, tentando evitar o faux pas que se aproximava.
363
- Diabo, que raio de barraca! - disse o outro homem maliciosamente, lambendo os lbios. Depois, virando-se para Sofia, perguntou: - Acha que Ian e Alice fizeram
isto de propsito?
- George!
- Prazer em ver-te, Jim. Que barraca, hein? - repetiu, fazendo uma careta e acenando para ele com um ar sabido.
- George, apresento-te Sofia Harrison, a esposa de David Harrison. George Heavyweather.
- Merda - disse George.
- Estava mesmo a ver que ias dizer isso - suspirou Jim.
- Lamento imenso. A srio. Que idiota.
- No se preocupe, George - disse Sofia, com um olho em George Heavyweather, que estava agora da cor de um tomate maduro, e o outro em Ariella.
Ariella estava deslumbrante  luz favorvel das velas. O seu cabelo branco estava apanhado num carrapito muito bem feito, acentuando o seu pescoo comprido e o maxilar
bem definido. Parecia distante, mas bela. David inclinou-se para trs, como se quisesse aumentar o espao entre eles, enquanto Ariella se debruava para ele, com
a cabea inclinada para o lado, com uma expresso de pesar. David acenou para Sofia, e Ariella olhou para ela e sorriu delicadamente. Sofia conseguiu corresponder
vagamente ao sorriso, antes de se virar para o lado a tempo de esconder o medo que se via nos seus olhos.
- Peo desculpa por George. Pateta alegre sem tacto nenhum. Nunca foi capaz de pensar antes de falar. Podemos confiar sempre que George mete o p na argola. E ainda
por cima tem um raio de um p enorme - disse Jim, sorvendo o vinho. - Aqui h tempos, foi ter com Duggie Crichton e disse: Gostava de foder aquela loira porca que
est ali, de certeza que ela vai nisso, e s depois percebeu que ela era a mais recente namorada de Duggie. Fez uma tristssima figura. Palerma sem tacto.
Sofia riu-se cortesmente e ele comeou a contar outra histria acerca de George. Ela observava a linguagem corporal entre David e Ariella, que se tornava mais calorosa
e mais amistosa. Desejava que Ariella se engasgasse com o salmo ou entornasse vinho tinto no seu imaculado vestido branco. Imaginava a conversa entre eles: Ento
aquela  a pequena argie. Tem um aspecto meiguinho, parece um ca-
364
chorrinho. Odiou-a. Odiou David por ser to simptico para ela. Porque no se punha de p e recusava falar com ela? Afinal, ela tinha-o deixado. Olhou para Ian
Lancaster que conversava animadamente com uma senhora rosada e magrssima sentada  sua direita. Parece que esteve pendurada no tecto do chal de algum, a secar
como Bundnerfleisch pensou maliciosamente, antes de voltar a rir-se delicadamente com a histria de Jim.
O jantar parecia decorrer em cmara lenta. Toda a gente parecia comer, beber e conversar a um ritmo desnecessariamente lento. Quando, por fim, o caf foi servido
e comearam a acender-se cigarros, Sofia estava desesperada por ir para casa. Foi nessa altura que Ian Lancaster lanou um ataque contra os Argentinos e Sofia se
imobilizou na cadeira como um animal atordoado.
- Cambada, aqueles argies - disse ele, puxando uma fumaa do charuto com os seus lbios moles e gretados. - Cobardes,  o que so todos. A fugirem das balas inglesas.
- Todos sabemos que aquele palerma do Galtieri s atacou o nosso territrio para desviar as atenes do povo da sua desgraada poltica interna - escarneceu George.
Jim revirou os olhos.
- Parem com isso - disse David. - No estamos j todos um pouco fartos de discutir esta guerra? - Olhou para Sofia, que estava com ar indignado.
- Oh, sim. Desculpa. Esqueci-me de que casaste com uma argie - continuou o anfitrio com malevolncia.
- Argentina - disse Sofia, muito irritada. - Ns somos Argentinos, no somos argies.
- Mesmo assim, atacaram territrio britnico, tm de enfrentar as consequncias... ou fugir - acrescentou ele, e riu-se maldosamente.
- So crianas. Recrutas de quinze anos. Admira-se que estejam apavorados? - disse Sofia, tentando controlar a indignao.
- Galtieri devia ter pensado nisso antes de avanar. Pattico. Perfeitamente pattico. Havemos de estoir-los todos e depois atiramo-los ao mar.
Sofia olhou desamparada para David, que ergueu as sobrancelhas e suspirou. A mesa ficou em silncio; todos enfiaram o nariz nos pratos, embaraados. As mesas prximas,
que tinham estado a ouvir
365
o ataque de Ian, ficaram  espera para ver o que acontecia a seguir. E ento uma vozinha baixa insinuou-se na pausa.
- Devo elogiar a sua cortesia - disse Ariella, suavemente.
- Cortesia? - respondeu Ian, pouco  vontade.
- Sim, cortesia - repetiu ela, devagar.
- No percebo o que quer dizer.
- Ora, vamos, Ian, no seja tmido. - Soltou um riso encantador.
- Realmente, Ariella, no compreendo - disse ele, j irritado. Ariella olhou em volta para ter a certeza de que toda a gente estava a ouvir. Adorava ter uma boa
audincia em momentos como aquele.
- Quero elogiar a sua diplomacia. Aqui estamos, no meio de uma guerra contra a Argentina, e o Ian e Alice optaram por usar as cores da bandeira da Argentina para
a tenda. - Ergueu os olhos para as largas riscas azuis e brancas. Toda a gente lhe seguiu o exemplo e olhou em volta. - Acho que devemos todos fazer um brinde. S
espero que sejamos todos igualmente corteses. Aqui estamos ns, a zombar da Argentina e do seu povo quando estamos na presena de uma pessoa natural da Argentina.
Sofia  argentina e tenho a certeza de que ama o seu pas tanto como ns amamos o nosso. Como seria trgico se todos ns fssemos to pouco requintados que lhes
chamssemos argies e cobardes quando ela  uma convidada  sua mesa, Ian. Sua convidada,  sua mesa. Que vergonha que a gentileza com que comeou, ao escolher estas
cores para a sua tenda, tenha sido engolida  mistura com o vinho. Mas quero, mesmo assim, erguer a minha taa ao seu sentido de diplomacia e oportunidade, porque
a inteno est presente. Dizem sempre que a inteno  que conta, no dizem, Ian?
Ariella ergueu o copo antes de o levar aos seus lbios plidos. Ian voltou a engasgar-se com o charuto, ficou congestionado e a sua cara ganhou uma terrvel tonalidade
prpura. David olhou para Ariella, assombrado, bem como as outras pessoas sentadas  mesa e as que estavam nas mesas prximas. Sofia sorriu-lhe com gratido, engolindo
a fria com um gole de vinho tinto.
- Sofia, acompanha-me ao toucador? Penso que j basta de algumas companhias a esta mesa - disse ela em tom ligeiro, pondo-se de p. Os homens levantaram-se de um
salto, inclinando-se respeito-
366
smente, de boca aberta. Sofia dirigiu-se para junto da outra mulher, com a cabea to erguida quanto lhe era possvel. Ariella agarrou-lhe na mo e conduziu-a at
 porta, por entre as mesas de convidados sem fala. Quando saram da sala, Ariella comeou a rir.
- Que grande e pomposo idiota - disse. - Preciso de um cigarro, tambm quer?
- Nunca conseguirei agradecer-lhe o suficiente - afirmou Sofia, que ainda tremia. Ariella estendeu-lhe o mao. Sofia recusou.
- No me agradea. Adorei cada minuto. Nunca gostei muito de Ian Lancaster. Nunca percebi o que David via nele... e pensar no que a pobre esposa tem de sofrer! Todas
as noites do ano, a fanfarro-nar e a arquejar, com aquela cara vermelha e o cheiro do charuto. Nha
Dirigiram-se lentamente para um banco e sentaram-se. A tenda brilhava por dentro e o barulho tinha subido de tom outra vez, como brasas moribundas de uma fogueira
reanimadas com um fole. Ariella acendeu o cigarro e cruzou as pernas.
- No faz ideia do esforo que tive de fazer para manter a dignidade. A minha vontade era atirar-lhe o meu vinho  cara - disse Ariella, segurando o cigarro entre
os dedos compridos de unhas cor-de-rosa muito bem arranjadas.
- Foi muito digna. Ele ficou sem palavras e furioso.
- Ainda bem. Que ousadia a dele! - exclamou ela, inspirando o fumo do cigarro.
- Lamento, mas so todos assim. Eu no queria vir - disse Sofia com tristeza.
- Devem ser uns tempos horrveis para si. Lamento. Admiro-a muito por ter vindo. Parece uma gazela num campo cheio de lees.
- David queria vir - respondeu Sofia.
- Claro. Como eu disse, nunca percebi o que ele via naquele homem horrendo!
- Acho que, a partir desta noite, no ver grande coisa - disse Sofia a rir.
- No, no ver. Provavelmente, nunca mais lhe fala. - Expeliu o fumo pelo canto da boca e analisou a cara de Sofia por entre as
367
suas longas pestanas pretas. - David tem muita sorte por t-la encontrado. Agora  uma pessoa diferente.  feliz, realizado. Tem um ar jovem e belo.  muito boa
para ele. Quase tenho cimes.
- Obrigada.
- Fomos muito maus um para o outro, sabe. Muito maus mesmo - disse, sacudindo a cinza para a relva. - Ele estava sempre a resmungar comigo e eu era muito exigente
e mimada. Continuo a ser. Lamento t-lo feito sofrer, mas sinto-me feliz por nos termos separado. Se tivssemos ficado juntos, ter-nos-amos destrudo um ao outro.
H coisas que no correm bem e pronto. Mas voc e David... Eu sei distinguir quando uma parceria vai resultar. Consertou o corao dele como eu nunca teria conseguido.
- Est a ser muito dura consigo mesma - disse Sofia, sem perceber porque se tinha alguma vez sentido ameaada por Ariella.
- Tambm nunca gostei dos amigos dele. Zaza era um tormento. Queria David para ela. Se fosse a si, andava de olho nela.
- Oh, Zaza  bisbilhoteira e gosta de interferir, mas gosto dela - insistiu Sofia.
- Odiava-me. Est a ver? Voc e David foram feitos um para o outro. Se bem que, agora, temos em comum um dio contra Ian Lancaster. - E riu-se.
- Temos, sem dvida - suspirou Sofia. - Pensei que vivia em Frana.
- Vivi, com Alain, o encantador Alain - disse Ariella, e riu-se amargamente. - Mais um que no durou. No sei - suspirou pesadamente -, acho que no fui feita para
ser fiel.
- Onde est Alain agora?
- Continua na Provena, um fotgrafo em luta, sempre travesso e distrado. Muito, muito distrado. Acho que no reparou que eu me vim embora.
- No consigo imaginar algum que no repare em si, Ariella.
- Conseguiria, se conhecesse Alain. Seja como for, penso que fico melhor sem homens, sem ligaes, sem compromissos. No fundo, sou uma cigana, sempre fui. Pinto
e viajo, essa  a minha vida.
- Vi um dos seus quadros no sto em Lowsley.  muito bom.
- Que rapariga encantadora. Obrigada. Tenho de ir busc-lo. Talvez possamos lanchar juntas.
368
- Agrada-me a ideia.
- ptimo. - Sorriu. - A mim agrada-me muito a ideia. Voc e David vo ter filhos?
- Talvez.
- Oh, tenham! Eu adoro crianas... os filhos dos outros. Nunca quis ter filhos, mas David estava desejoso. Costumvamos discutir constantemente por causa disso.
Pobre David, como o fiz sofrer. No deixem para tarde, David est a caminhar para velho. Ser um pai maravilhoso. Deseja tanto ser pai!
Quando ouviu estas palavras, Sofia recostou-se e ergueu os olhos para as estrelas. Pensou em todos aqueles jovens que morriam nos montes de Las Malvinas. Todos tinham
mes, pais, irmos, irms, avs, que os chorariam. Recordou o seu pai a explicar-lhe a morte quando ela era criana; tinha dito que todas as almas se transformavam
em estrelas. Tinha acreditado nele. Ainda acreditava nele; pelo menos, queria acreditar. Contemplou todas aquelas almas que cintilavam na infinitude silenciosa.
O av O'Dwyer dissera-lhe que a vida era uma questo de preservao e procriao - que a vida tem de ser alimentada com amor porque, sem ele, no consegue sobreviver.
Ela tinha David e amava-o, mas, de repente, ao olhar para aqueles milhes de almas acima de si, compreendeu que o objectivo do amor era criar cada vez mais amor.
E decidiu que estava finalmente preparada para ter um filho. Santiguito pode bem ser uma daquelas estrelas, pensou tristemente, pois nunca voltarei a v-lo.
Recordou o conselho de Dominique e compreendeu que tinha de deix-lo partir.

CAPTULO TRINTA E DOIS
O aspecto mais satisfatrio de gostar de Ariella era o muito que isso atormentava Zaza. Sofia sentiu um enorme prazer ao relatar-lhe o discurso triunfante de Ariella
e ao v-la espetar no ar aquele seu nariz coscuvilheiro numa expresso de desdm. J tinha passado um ms desde a festa, mas a curiosidade de Zaza a respeito de
Ariella era insacivel e, sempre que se encontravam, obrigava Sofia a contar a histria vezes sem conta.
- Como pode gostar dela?  uma cabra! - ofegou Zaza, acendendo dois cigarros por engano. - Raios! - exclamou, atirando um para a lareira apagada. - Fui mesmo eu
que fiz isto?
- Mas foi fantstica. A maneira calma e fria como arrasou Ian Lancaster... Foi muito digna e contudo implacvel; devia t-la visto. Sabe que ele depois veio pedir-me
desculpa? O vermezinho. Claro que eu fui muito corts. No ia descer ao nvel dele, mas nunca mais quero voltar a v-lo - disse com arrogncia.
- E David garantiu, de facto, que nunca mais falava com ele?
- Acabou-se - respondeu ela, passando um dedo pelo pescoo, a fingir uma execuo. - Acabado. - Riu-se. - Ariella veio buscar os quadros dela na semana passada e
no s lanchou comigo como passou aqui a noite. Nunca mais parvamos de conversar, eu no queria que ela se fosse embora. - Ficou a olhar para Zaza, que se retorceu
toda.
- E David?
- O que l vai, l vai.
- Incrvel. Incrvel mesmo. - Suspirou, arrancando um bocado de verniz escarlate que tinha comeado a soltar-se da unha. - So uns excntricos, vocs.
370
- Oh, cus, as horas! Tenho uma consulta antes de ir ter com David ao escritrio s quatro horas - disse Sofia, olhando para o relgio. - Tenho mesmo de ir embora.
- Porque  a consulta? - perguntou Zaza, e depois calou-se. - Quero dizer, est bem, no est?
- Oh, sim, muito bem.  apenas rotina, dentista e limpeza dos dentes - disse Sofia, desinteressada.
- ptimo. Saudades minhas para David - disse Zaza, analisando Sofia por entre as plpebras pesadas pintadas de verde. Dentista, o tanas, pensou. Perguntou a si
mesma se o assunto teria de facto alguma coisa a ver com um certo ginecologista.
Sofia chegou ao escritrio de David s quatro e meia. Estava trmula e plida, mas sorria com o embarao de algum que guarda um segredo encantador. A secretria
pousou logo o telefone - estava  conversa com o namorado - e saudou entusiasticamente a mulher do patro. Sofia no esperou que ela a anunciasse e entrou de imediato
no gabinete do marido. Este levantou os olhos da secretria. Sofia encostou-se  porta e sorriu-lhe.
- Meu Deus, ests? - disse ele devagar, com a cara toda franzida num sorriso ansioso. - Ests mesmo? Por favor, diz-me que  verdade. - Tirou os culos com a mo
trmula.
- Estou - disse-lhe ela, rindo-se. - Nem sei o que fazer comigo.
- Oh, eu sei - disse ele, pondo-se de p de um salto e dirigindo-se para ela a passos largos. Tomou-a nos braos e apertou-a muito contra si. - Espero que seja uma
menina - confessou, com o nariz enterrado no pescoo dela. - Uma Sofia em miniatura.
- Deus nos livre! - exclamou com uma risada.
- Nem consigo acreditar - suspirou David, afastando-se e pousando a sua grande mo sobre a barriga dela. - Aqui dentro est um pequeno ser humano, a crescer um pouco
todos os dias.
- No podemos dizer a ningum antes de passarem dois meses... pelo sim, pelo no - avisou-o. Depois, lembrou-se da expresso da cara de Zaza. - Almocei com Zaza
em casa dela. Fingi que tinha de ir ao dentista. Mas conheces Zaza. Acho que ela tem uma desconfiana.
371
- No te preocupes, eu desvio a ateno dela - disse ele, bei-jando-lhe a testa.
- Mas gostava de dizer a Dominique.
- Muito boa ideia. Tens de dizer a quem quiseres.
Sofia no sofreu os habituais enjoos matinais. Na verdade, para sua surpresa, sentia-se incrivelmente bem e cheia de energia. David azafamava-se  sua volta, sem
saber bem como lidar com a situao, mas desejando envolver-se e apoi-la. A sua anterior gravidez tinha sido terrvel, mas agora tudo era completamente diferente.
Sentia-se to cheia de alegria que a recordao de Santiguito mergulhou na zona mais nebulosa da sua mente. David estragava-a com atenes. Comprou-lhe tantos presentes
que, passadas algumas semanas, ela teve de lhe dizer que no comprasse mais nada porque estava a ficar sem stios em casa para os pr. Falava com Dominique todos
os dias e esta prometeu vir v-la pelo menos uma vez por ms.
Quando, ao fim de trs meses, o casal quebrou o silncio, Sofia foi assaltada por carrinhas cheias de flores e presentes de amigos e familiares de David, todos entusiasmados.
Como no seu estado no podia andar a cavalo, Sofia regressou ao piano. Recebia trs lies por semana de uma octogenria muito animada, cuja cara lhe recordava uma
tartaruga. Fazia visitas peridicas ao seu ginecologista em Londres e gastava centenas de libras a comprar coisas para o beb que no podia de maneira nenhuma dispensar.
Na certeza de que ia ter uma menina, escolhia as coisas mais femininas que conseguia encontrar e pediu a Ariella que pintasse todas as personagens de Win-nie-the-Pooh
aos saltos pelas paredes do quarto do beb.
- Quero que seja um quarto leve e feliz - disse.
A qualidade artstica de Ariella fez tanto sucesso que deu origem a uma tendncia que a levou a todo o condado de Gloucester com os pincis na mo e ilustraes
de E. H. Shepard para copiar.
Em Fevereiro, uma Zaza exuberante chegou para lanchar, com o carro carregado com as roupas que tinham sido dos filhos. Sentou-se no sof o mais perto possvel da
lareira e acendeu um cigarro com um cintilante isqueiro de prata que Tony lhe tinha oferecido no Natal.
- Querida, esta casa est to fria! O que aconteceu ao aquecimento? - queixou-se, estremecendo.
372
- Eu estou sempre a ferver. Acho que tem a ver com estar grvida - disse Sofia, que se sentia perfeitamente confortvel, vestida com um plo sem mangas.
- Pode ser, mas, e as outras pessoas? Estou admirada por David no pr os ps  parede.
- David  um anjo. No domingo, teve de sair a correr para me comprar um frasco de azeitonas. Deu-me um desejo incontrolvel. Tinha de comer azeitonas.
- Nhac, nunca gostei muito de azeitonas. Que horror. - Zaza fez uma careta. - Agora vamos abrir esta mala para eu lhe mostrar o meu esplio. No, querida, voc no.
Fique sentada onde est e deixe-me fazer o trabalho pesado - disse, autoritria, quando Sofia tentou ajud-la a puxar a mala para cima da mesa de caf. Zaza correu
o fecho clair com cuidado, segurando-o entre a almofada do polegar e a articulao do indicador, para no partir uma unha.
- Estas eram de Nick - disse, erguendo umas calas de veludo vermelho. - Adorveis, no acha?
- Perfeitas para um rapaz de dois anos - disse Sofia a rir. - Mas vai ser uma rapariga. - Pousou a mo na barriga dilatada.
- No sabe - disse Zaza. - Essa forma parece um rapaz. Lembro-me que a minha barriga estava assim quando tive o Eddie. Era muito querido.
- No, eu sei que vai ser uma rapariga. Sinto-o.
- Seja o que for, desde que tenha dez dedos nas mos e outros tantos nos ps, o resto no importa.
- Para mim, importa - retorquiu Sofia, pedindo silenciosamente uma menina. - Este  lindo - disse, tirando um minsculo vestido branco. - Este  para uma menina.
- Esse era de Angela. To lindo! Claro que estas coisas deixam de lhes servir num instante.
-  muita gentileza sua emprestar-me estas roupas - disse Sofia, segurando um par de sapatos azuis miniaturais.
- No seja tola. No empresto... dou-lhe tudo. J no preciso destas roupas.
- E Angela? Um dia pode precisar delas.
373
- Ora... Angela! - disse com irritao. - Est a passar por aquela terrvel fase da adolescncia. Diz que no gosta de homens e que est apaixonada por uma rapariga
chamada Mandy.
- Provavelmente diz isso s para a irritar - argumentou Sofia, astutamente.
- Bem, a verdade  que consegue. No que eu esteja preocupada com Mandy.
- No est?
- No, antigamente, as mulheres agradavam-me; no que lhes tenha tocado desde que sa do liceu. Mas Angela anda com um humor to instvel.  brusca e mal-educada,
gasta todo o nosso dinheiro e depois pede mais, como se o mundo lhe devesse alguma coisa. Ou, pelo menos, como se ns lhe devssemos. Antes quero dez Eddies. Da
maneira que Angela est, no vai precisar disto - disse, metendo as unhas vermelhas em duas botinhas de malha. - No, confio que um dia Eddie far de mim uma avozinha,
mas s daqui a muitos anos, espero. Ainda sou nova e atraente de mais para ser avozinha. Tem visto Ariella ultimamente?
- H algum tempo que no, anda ocupada a pintar.
- Aquele quarto est um verdadeiro assombro. Ela tem muito talento - disse Zaza, erguendo as sobrancelhas finas e acenando com admirao.
- Vem c passar o ltimo fim-de-semana de Maro - informou Sofia. - Porque no vem com Tony tambm? David gostaria muito que viessem. Os meus pais adoptivos, Dominique
e Antoine, tambm vm. Vai ser muito divertido. Vai adorar Dominique.
- Oh, no sei. Ariella e eu nunca nos entendemos. Nunca gostei dela - murmurou com hesitao.
- Isso foi h anos. Agora, esto as duas diferentes. Se eu posso gostar de Ariella, tambm voc pode. Por favor, venham.  muito bom estar grvida, mas no posso
andar a cavalo e tenho muito pouco que fazer, excepto praticar escalas para a tartaruga. Preciso de boa companhia - suplicou ela.
Zaza pensou um pouco.
- Oh, est bem, eu fao o sacrifcio - concordou com satisfao. - Vou adorar. Fao uma folga de Angela. Podem ficar com a casa toda s para elas.
- Ento est combinado. ptimo - disse Sofia.
374
Enquanto o ms de Maro era lentamente expulso por uma Primavera impaciente que polvilhou o jardim com flocos de neve e narcisos precoces, a barriga de Sofia foi
aumentando com a bno em crescimento que trazia dentro de si e que decidia andar aos saltos sempre que ela queria ficar quieta. Por vezes, sentia um pequeno punho
moldar-se por um momento na sua pele, quando o beb esperneava e esbracejava na nsia de entrar no mundo. Por vezes, danava ao som da msica do piano que ela tocava
de modo to hesitante at que a tartaruga, Harry Humphreys, ficava com um ar to assustado que quase escondia a cara na concha, enquanto a blusa de Sofia se movia
misteriosamente ao seu lado. David gostava de pousar a cabea na barriga dela e ouvir o beb que se mexia no fluido amnitico. Passavam longas horas a discutir o
que pensavam que seria o aspecto dela, quais as feies que poderia herdar deles.
- Os teus profundos olhos castanhos - disse David, beijando as plpebras de Sofia.
- No, os teus belos olhos azuis - disse ela, beijando as dele.
- O teu nariz.
- A, estou de acordo - confessou a rir-se, beijando amorosamente o narigo dele.
- A tua boca - disse ele, pousando os lbios nos dela.
- Claro - concordou. - Mas os teus miolos.
- Evidentemente.
- O meu corpo.
- Espero bem que sim, se for uma menina. O teu domnio dos cavalos. A tua ousadia.
- A tua natureza doce em vez da minha teimosia.
- E o teu orgulho.
- Pronto, no exageres!
- A tua maneira engraada de andar.
- No  nada engraada.
- , sim... pareces um pato a andar. Ela riu-se.
- Pareo? - perguntou timidamente. Mas sabia que parecia e sabia como era atraente. Santi tinha-a acusado de ter ensaiado para
375
chamar a ateno; tinha dito que lhe dava um ar presumido e arrogante. Mas no o ensaiara, sempre tinha caminhado assim.
- Se for um rapaz...
- No vai ser um rapaz. Sei que  uma rapariga. Uma menina - disse ela, enfaticamente.
- Outra Sofia. Deus nos ajude!
Ela deitou-lhe os braos ao pescoo e beijou-lhe a pele suave atrs da orelha. David abraou-a com fora e, por amor dela, desejou que o beb fosse uma menina e
que fosse to adorvel como a sua mulher.
Ariella foi a primeira a chegar. Mal conseguiu ocultar a fria quando Sofia lhe disse que Zaza tambm vinha.
- Bem, vou fazer das tripas corao - afirmou em tom condescendente, enquanto David lhe levava a mala para o quarto. Sofia estava a ajud-la a desfazer a mala, com
as instrues que lhe ia dando da cama, quando os ces ladraram, anunciando a chegada de um automvel. Sofia olhou pela janela e acenou: a Zaza e Tony.
- David est l em baixo - disse Sofia, instalando-se outra vez na cama.
- Eles que se arranjem, est bem? - sugeriu Ariella. -  sempre estranho regressar a esta casa e j no ser dona dela.  uma bela casa. No consigo imaginar o que
me passou pela cabea para me ir embora - disse na brincadeira.
- Estou satisfeita por ter ido, por favor no mude de ideias.
- Est bem, j que insiste.
Nessa altura, entraram os ces, seguidos por David, Tony e Zaza.
- Querida Ariella, h tanto tempo... - disse Zaza, afectadamente, retorcendo a boca escarlate num sorriso artificial.
Ariella respondeu com um sorriso frio:
- Na verdade, foram anos. Como tens passado? Continuas com Tony, estou a ver - disse, olhando para Tony e David, que seguiam pelo corredor.
- Oh, o querido Tony! Eu distingo uma coisa que vale a pena quando a vejo - confessou Zaza, e sorriu com nervosismo. - Ests
376
com bom aspecto, Ariella - acrescentou. Podia chamar muitas coisas a Ariella, mas no podia negar a beleza luminosa por que era to famosa.
- Obrigada. Tu tambm - respondeu delicadamente Ariella, passando uma elegante mo branca pelo seu cabelo anglico.
- Aquele quarto, s inteligente.  brilhante - disse Zaza, referindo-se ao quarto do beb.
- Tenho sido inundada com encomendas. Mal consigo cumprir os prazos - contou-lhes Ariella.
- Foste inteligente, querida. s muito, muito inteligente. No sabia que pintavas to bem.
- Na verdade, a banda desenhada no  a minha especialidade, mas  uma novidade e eu gosto de novidades.
- Sim - disse Zaza.
Sofia levou Zaza ao quarto dela, deixando Ariella a acabar de desfazer a mala.
- Querida, nunca me disse como ela est requintada. Nunca a vi, bem... cintilar desta maneira. Cintilava,  certo, mas de uma maneira diferente. Est incrvel. Muito
mais agradvel do que eu me lembro - tagarelou excitadamente.
- ptimo - disse Sofia, vendo o controlo de Zaza transformar-se numa exuberncia infantil.
Dominique e Antoine foram os ltimos a chegar. O avio tinha-se atrasado, e eles saram do carro desgrenhados e exaustos, mas mantendo o sentido do humor.
- Antoine prometeu-me um jacto privativo - contou Dominique quando entrou no vestbulo, empurrando os ces para passar. - Diz que nunca mais terei de andar na aviao
comercial.  demasiado stressante e d cabo do meu aspecto.
- Ela tem razo - declarou Antoine com o seu forte sotaque francs. - Se lhe comprar um, at podem ser dez, e todos os amigos dela podem ter o mesmo prazer.
Sofia aproximou-se a gingar para os abraar, tanto quanto lhe foi fisicamente possvel.
- Daqui a umas semanas consigo aproximar-me mais - disse na brincadeira, inspirando o aroma familiar do perfume de Dominique.
377
- Quando chega o beb? - perguntou Antoine.
- Cher Antoine, j lhe disse vezes sem conta... s faltam dez dias. Agora  a qualquer momento.
- Espero que estejas preparado para arregaar as mangas, querido - disse Zaza a David. - Pode chegar a qualquer momento.
- Eu estou pronto para arregaar as minhas - interrompeu Tony, jovialmente. -J assisti ao parto de dois dos meus, embora esteja com um pouco de falta de prtica.
- No  a nica coisa que anda a precisar de prtica - disse Zaza entre dentes.
Ariella sorriu maliciosamente e lanou um olhar a Tony; no se espantava. Ele parecia ser o gnero de homem que se sentia mais  vontade a fumar um charuto com mais
uns tipos. A ateno dela foi desviada quando Quid enfiou agressivamente o nariz entre as pernas dela.
- Ora, faz favor! - queixou-se, tentando afast-lo. Ele empurrou ainda mais o nariz, a abanar loucamente a cauda.
- Quid, pra! - ordenou David, divertido. - Quid! Desculpa, Ariella, ele no est habituado a mulheres to cheirosas. Anda, Quid, porta-te bem. No podes tratar
as senhoras dessa maneira, tens de comportar-te como um cavalheiro.
- Por amor de Deus, David, no consegues aprender a falar com os ces como deve ser? - queixou-se Ariella. - No so pessoas. Francamente - suspirou, sacudindo as
calas e atravessando o vestbulo para ir para a sala de visitas.
Ali, descalou os sapatos e enrolou-se no sof, puxando os ps para cima para evitar o temvel Quid que, junto dos ps de David, olhava para ela com expresso lasciva.
Dominique, vestida com umas calas verdes largas e um alegre camisolo s flores que lhe chegava aos joelhos, encostou-se ao guarda-fogo, com as mos a brincar com
as contas que trazia ao pescoo, semelhantes a brilhantes besouros encarnados. Zaza ficou na outra ponta do guarda-fogo, fazendo pose, pelo menos foi o que Sofia
pensou. Segurava o cigarro bem alto, deixando-o fumegar na boquilha de bano. O seu cabelo castanho, curto, brilhava com um severo corte  garonne, e os seus olhos
verdes, estreitos, vigiavam a sala da sua grande altura. Observava Ariella com
378
desconfiana, tendo o cuidado de no baixar a guarda. Ariella tinha uma lngua to afiada como um dente de tubaro e era igualmente sanguinria, recordou a si mesma.
David, Antoine e Tony estavam ao p da janela, a discutir o jardim.
- Querem caar uns coelhos? - sugeriu David. - So uma praga, o jardim est cheio deles.
- No sejas mesquinho - gritou Sofia da cama. - Coitadinhos.
- Que queres dizer com coitadinhos? Comem os bolbos todos
- contestou David. - Que dizem?
- Est bem - disse Tony.
- Comme vous voulet. - Antoine encolheu os ombros.
O dia seguinte estava ameno para Maro. O Sol enxotou o nevoeiro do Inverno e brilhou entusiasticamente, satisfeito por sair. Enquanto o fato de cala e casaco de
Zaza, em tweed verde, era des-confortavelmente novo, Ariella apareceu com um conjunto tambm de tweed com uma saia plissada, que fora da av, e que tinha amolecido
e descorado com o passar dos anos. Zaza lanou um olhar de inveja a Ariella, enquanto esta sorria com a satisfao de algum que sabe que tem sempre um aspecto imaculado,
seja qual for a ocasio.
David foi buscar a chave a uma pequena gaveta do vestbulo e abriu o compartimento das espingardas. Escolheu uma para si e mais duas, uma para Antoine e outra para
Tony. Tinham pertencido ao seu pai, que havia sido um bom caador, e tinham uma elegante gravao das iniciais E.J.H., de Edward Jonathan Harrison.
Sofia enfiou um casaco de pele de cordeiro de David e foi ao vestirio buscar um basto comprido para manter os ces  distncia. Quando se juntavam no caminho de
brita diante de casa, Dominique apareceu com um casaco vermelho-vivo, um leno s riscas amarelas e azuis e uns tnis brancos.
- Vai assustar os animais, vestida dessa maneira - disse Tony, descaradamente, olhando para ela e fingindo-se horrorizado.
- Excepto os touros - disse Ariella com um sorriso radioso.
- Acho que est maravilhosa.
- Chrie, no ser melhor pedires um casaco emprestado a Sofia? - perguntou Antoine, gentilmente.
379
- Se quiser, pode - disse Sofia -, mas prefiro que venha assim para os avisar do perigo.
- Se Sofia me quer de vermelho, pois de vermelho estarei - decidiu Dominique. - Agora vamos. Preciso de uma boa caminhada, depois do po torrado com ovos mexidos.
Ningum prepara o pequeno-almoo como os Ingleses.
Seguiram pelo vale fora em direco ao bosque. De poucos em poucos minutos, os homens diziam s mulheres que tinham visto um coelho e toda a gente parava e ficava
muito quieta at eles dispararem. Tony, que tinha falhado os tiros todos, virou-se para as quatro mulheres e sibilou:
- Se estivessem caladas, talvez eu acertasse nalguma coisa.
- Desculpa, querido - disse Zaza. - Faz de conta que no estamos aqui.
- Pelo amor de Deus, Zaza, eles conseguem ouvir-te em Strat-ford!
O grupo seguia pelo caminho fora como um comboio lento que parasse em todas as estaes. Sofia mantinha os ces sob controlo, dando-lhes de vez em quando pancadinhas
no lombo com o bordo e dizendo Aqui!, o que eles pareciam compreender. Quando os coelhos desapareceram todos, assustados pelos tiros ou pelo casaco de Dominique,
David e Antoine meteram as espingardas debaixo do brao e deram a caada por terminada. Tony, que continuava a no acertar nem no primeiro, olhou furiosamente 
volta,  procura de alguma coisa para onde pudesse disparar. Finalmente, apontou para um pombo gorducho que voava baixo, carregou no gatilho e teve a satisfao
de ver algumas penas no ar. O pssaro continuou a voar.
- Aquele vem abaixo - afirmou, triunfante.
- Sim, vem - disse Ariella -, quando tiver fome.
- Pronto, acabou-se - disse Tony, mal-humorado. - Estou farto. Vamos caminhar, fazer um pouco de exerccio. H quem precise de andar mais e falar menos. - Virou-se
para Ariella, que se ria tanto que teve de se agarrar a Zaza para se segurar. - Mulheres - suspirou Tony. -  fcil diverti-las.
No domingo, j Zaza e Ariella eram amigas, mas o equilbrio da sua amizade era instvel. Zaza, ainda desconfiada de Ariella, deixava-
380
-se levar. Ria-se de todas as piadas e olhava para ela quando dizia alguma coisa, para avaliar a sua reaco. Ariella estava mais divertida que impressionada com
Zaza. Apreciava o poder que a sua beleza lhe concedia e dava-lhe prazer ver como deslumbrava Zaza, como uma raposa apanhada pela luz de uma lanterna. Sofia observava
a dinmica delas, muito divertida, e gostou ainda mais de Ariella por brincar com Zaza sem qualquer esforo.
Nessa noite, quando atravessava o patamar do andar de cima, ouviu Zaza e Tony a discutirem no quarto, enquanto faziam as malas para se irem embora. Parou para ouvir.
- Pelo amor de Deus, no sejas pattica. Para que serve isso? - dizia Tony, com uma voz complacente, como se estivesse a falar com a filha.
- Querido, desculpa, no posso esperar que compreendas - respondeu-lhe Zaza.
- Claro, como poderia compreender? Sou homem.
- No tem nada que ver com seres homem. David compreenderia.
- Ests s a exibir-te - afirmou Tony.
- Eu no queria discutir nesta casa - sibilou Zaza, obviamente com medo de que algum a ouvisse. Por um instante, Sofia sentiu-se culpada.
- Ento para que levantaste a questo?
- No consegui controlar-me.
- Ests a ser infantil, sabes. No s melhor que Angela, esto bem uma para a outra.
- No me metas no mesmo saco com Angela - ripostou Zaza, irritada.
- Tu queres fugir para Frana com Ariella. Angela est apaixonada por uma rapariga chamada Mandy; qual  a diferena?
- A diferena  que eu tenho idade para saber o que estou a fazer.
- Dou-te um ms. Vai, tenta, se quiseres, mas ela pe-te a andar quando estiver farta...
Nesse preciso instante, Sofia sentiu uma dor intensa no ventre. Gritou e encostou-se  parede para se apoiar. Tony e Zaza saram do quarto para ver que barulho era
aquele e correram em seu auxlio.
381
- Oh, cus,  o beb! - declarou Zaza, muito excitada.
- No pode ser - ofegou Sofia. - Ainda faltam dez dias. Au!
- gritou, dobrando-se.
Tony desceu a escada a correr, gritando por David, enquanto Dominique e Ariella saam a correr da sala de visitas. Antoine foi atrs de Tony, a berrar por David.
David, que estava a limpar as espingardas, saiu calmamente do compartimento das armas e deparou-se com a mulher que descia a escada ajudada por Zaza que tinha uma
expresso de ansiedade. Largou o pano e foi pr-se ao lado dela. Sam e Quid andavam aos saltos, todos excitados, na esperana de que os levassem a dar outro passeio.
- Dominique, v buscar o casaco dela. Onde esto as minhas chaves? - gaguejou ele, apalpando os bolsos. - Ests bem, amor?
- perguntou, pegando no outro brao de Sofia. Esta acenou, para que ele se sentisse melhor.
- Podes levar o meu - disse Ariella, estendendo-lhe as chaves, olhando desconfiada para Quid.
- Obrigada, fico a dever-te este favor - respondeu David, dei-tando-lhes a mo.
- Acho que no - disse, enquanto Quid avanava para ela com um olhar decidido.
Dominique ajudou Sofia a vestir o casaco.
- Vou com vocs - disse. - Antoine, tu voltas para Genebra sozinho. Eu fico.
- Enquanto quiseres, chrie - respondeu e encolheu amigavelmente os ombros.
- Quid, Quid, no! - guinchou Ariella, olhando em volta  procura de David, mas j tinham sado, deixando a porta de casa aberta. O som dos pneus na brita disseram-lhe
que teria de lutar sozinha contra o co. - Agora somos s ns os dois, cachorrinho! - disse ela entre dentes. E eu no fao prisioneiros!
- Que estranho - comentou Zaza. - Os primeiros bebs atrasam-se sempre.

CAPTULO TRINTA E TRS
Sofia estava assustada. No tinha nada a ver com dar  luz. Nem tinha sequer receio de que a criana estivesse em perigo. Sabia que estava tudo bem. Sabia que o
seu beb tinha simplesmente perdido a pacincia por estar  espera e no o criticava por isso. Tambm estava farta de esperar. Mas estava com medo de acabar por
ter um rapaz.
- Onde est Dominique? - perguntou ansiosamente quando a transportaram para a sala de parto.
- A espera l em baixo - respondeu David em voz trmula.
- Estou assustada - disse, meio engasgada.
- Amor...
- No quero um rapaz - disse ela, chorosa. David apertou-lhe a mo com fora. - E se for um rapaz, se for como Santiguito? Acho que no conseguirei suportar.
- Vai correr tudo bem, garanto - disse ele para a tranquilizar, fingindo ser forte. Nunca se tinha sentido to nervoso, o seu estmago estava todo em sobressalto.
Sofia estava com um ar to infeliz, e ele era impotente para a ajudar. No sabia o que dizer. Alm disso, ele prprio se sentia tonto. Lutou contra as nuseas, concentrando-se
em reconfortar a mulher. Mas Sofia continuava preocupada. Via a carinha redonda de Santiguito a olhar possessivamente para si. Como podia amar outra criana? Talvez
o melhor tivesse sido no ficar grvida, para comear.
- Estou assustada, David - disse outra vez. Tinha a boca seca, precisava de beber qualquer coisa.
383
- No se preocupe, Mistress Harrison. As mes ficam sempre um pouco apreensivas no primeiro parto.  perfeitamente natural - disse a enfermeira com bondade.
No  o meu primeiro parto! gritou mentalmente Sofia. Mas j no conseguiu pensar mais em Santiguito, porque estava a fazer fora e a gritar, agarrada  mo de David
com tanta fora que este acabou por fazer uma careta e teve de lhe abrir os dedos, pois tinha espetado as unhas na palma da mo dele. O nascimento anterior tinha
sido lento e doloroso. Para sua surpresa, este beb saiu de dentro de si e mergulhou na luz das lmpadas do hospital com a rapidez e a eficincia de algum que estava
ansioso por sair do stio donde vinha e chegar ao destino. A chegada da criana foi acolhida com uma palmada brusca e assinalada por um grito agudo, quando inalou
pela primeira vez um trago do ar de que dependia a sua vida.
- Mistress Harrison, tem uma linda menina - disse o mdico, entregando a beb  enfermeira.
- Uma menina? - suspirou Sofia, debilmente - Uma menina. Graas a Deus!
- Foi rpido! - disse David, entusiasticamente, tentando ocultar a emoo que se apoderava da sua garganta como um tampo de algodo. - Muito rpido.
A enfermeira deitou a beb, agora embrulhada numa fralda, junto do peito da me para que Sofia pudesse segur-la e olhar para a sua carinha vermelha e manchada.
Habituada aos pais dominados pela emoo, virou-se diplomaticamente para deixar o pai  vontade para dizer  esposa algumas palavras cheias de orgulho.
- Uma menina - suspirou ele, espreitando por cima da fralda para a ver. - A imagem da sua me.
- Francamente, David, se eu sou assim, mais vale desistir j - brincou ela em voz fraca.
- Querida, foste to corajosa. Fizeste um milagre - sussurrou, com os lbios a tremer, de olhos postos naquele minsculo ser humano que se remexia nos braos da
me.
- Um milagre - repetiu ela, beijando ternamente a testa hmida do seu beb. - Olha como ela  perfeita. Tem um narizinho to pequenino...  como se Deus se tivesse
esquecido de lho dar e lho tivesse espetado no ltimo momento.
384
- Como vamos chamar-lhe? - perguntou David.
- Sei o que no vamos chamar-lhe.
- Elizabeth? - perguntou ele, e riu-se.
- Como se chamava a me do teu pai? - perguntou Sofia.
- Honor. E a tua me, ou a tua av?
- Honor, gosto desse nome. Muito britnico. Honor. Honor, sem mais nada - disse, contemplando o beb com olhos brilhantes.
- Honor Harrison... Tambm gosto. A minha me  que no vai gostar... odiava a sogra.
- Ento sempre temos alguma coisa em comum - comentou Sofia, secamente.
- Nunca pensei que tivesses alguma coisa em comum com a minha me.
- Honor Harrison, sers bela, talentosa, inteligente e espirituosa. Ters o melhor de ns os dois e amar-te-emos para todo o sempre. - Sorriu para David com uma
expresso de felicidade. - Diz a Dominique que quero v-la. Tenho aqui uma pessoa que quero apresentar-lhe.
A seguir a Dominique, as primeiras visitas foram Daisy, Anton, Marcello e Maggie, que voltou a aparecer no segundo dia, carregada de flores e presentes. Anton trouxe
a sua tesoura para acertar o cabelo de Sofia e Maggie tinha trazido o seu conjunto de manicura para lhe pintar as unhas. Marcello esparramou-se numa cadeira e ali
ficou em silncio, mudo mas belo, como se estivessem a pintar o seu retrato. Daisy empoleirou-se na cama de Sofia, contemplando com uma expresso de adorao o bero
que estava ao seu lado.
- Somos os Trs Reis Magos, queridinha - disse Maggie. - Trazemos presentes para dar ao novo Messias. Embora parea que no somos os primeiros - acrescentou, olhando
para os ramos de flores e os presentes que estavam espalhados por todo o quarto.
- Mas vocs so quatro - comentou Sofia.
- No, Marcello no conta. Mal est presente, mesmo quando tudo corre bem - respondeu ela.
- Estamos aqui para amimar a mam - declarou Anton, esco-vando-lhe o cabelo. - No sei o que  dar  luz, fofinha, mas uma vez vi um documentrio e fiquei para morrer.
385
- Anton, no sei porque te preocupas; nunca vais passar por isto - disse Sofia, muito satisfeita, olhando as madeixas de cabelo preto que caam  sua volta como
penas.
- Graas a Deus... s imaginar todos aqueles gritos e lamrias - brincou Maggie, agarrando num verniz de cor prpura. - Se os homens tivessem filhos, at meio homens
como Anton, o preo seria intolervel. Para no falar no barulho. Esperemos que a cincia nunca chegue to longe, pelo menos enquanto eu for viva.
- Prpura no, Maggie, e se fosse um cor-de-rosa-claro? - pediu Sofia.
- Natural? - reclamou Maggie, horrorizada.
- Sim, por favor. Agora sou me - respondeu Sofia muito orgulhosa.
- Essa histria de seres me daqui a um tempo est gasta. Passadas umas semanas de berreiro, vais desejar devolv-la  procedncia. Eu sei, porque o Lucien me fazia
perder a cabea. Quase o pus na mesa com o assado do domingo. Acredita, vais ansiar pela tua independncia perdida, queridinha. Quando quiseres unhas prpura e cabelo
verde, ns estaremos  tua espera, no , Anton?
- Sem dvida, Maggie. Hoje em dia, as pessoas so to enfadonhas, tudo o que querem  reflexos. Reflexos! Qual  a graa de reflexos?
- Conta-me l, como ests, queridinha. Dorida, imagino. Estou espantada por conseguires sentar-te. - Maggie fez uma careta. - Eu ainda no recuperei de ter tido
o Lucien, e j l vo vinte anos. O corpo nunca mais volta ao stio, queridinha. Isso  que  triste. Viv venerava o meu corpo at eu ter Lucien. A, comeou a olhar
para um lado e para o outro,  procura de uma pessoa mais firme e mais rija, nos stios certos. Eles dizem que  como se fosse um elstico, que o corpo volta  primitiva
forma. A mim, isso nunca aconteceu. No h nada de borracha no meu corpo. Costumava chegar aos dedos dos ps, mas agora nem sequer os vejo, j nem sei onde param.
Atribuo tudo isso ao parto. Sim, culpo Eva. Se tivesse sido esse cobarde do Ado a comer a ma da rvore de Deus, agora no estaramos gordas e balofas, pois no?
386
- Fala por ti, Maggie. Sofia est em perfeita forma - disse Daisy, olhando para a amiga com um largo sorriso. - Como te sentes?  de facto to mau como a Maggie
diz?
- Maggie exagera sempre - disse ela, sorrindo para Maggie com malcia. - Na verdade, foi muito fcil. Note-se que a mo de David est um pouco dorida, mas, fora
isso, ele est muito feliz e orgulhoso. E eu tambm.
- Onde est o encantador David? - perguntou Anton, malicioso. - Sempre tive um carinho especial por maridos. - Olhou de relance para Marcello, que, desde que tinha
chegado, no voltara a mexer-se.
- Volta mais logo. Pobrezinho, est desfeito - respondeu Sofia.
- Ela  to querida - disse Daisy, entusiasmada, espreitando mais uma vez para o bero. - Parece um ratinho.
- Querida, no devias chamar-lhe rato. As mes acham sempre que os seus meninos so belos - criticou Maggie. - At Lucien crescer, eu achava que ele era belo.
- Se queres servir-te de um bicho, tenta ser um pouco mais imaginativa, fofinha. O rato est muito gasto - disse Anton, recuando para admirar a sua obra de arte.
Nesse momento, a porta escancarou-se. Elizabeth Harrison estava na soleira. Os seus olhos semicerrados percorreram rapidamente todo o quarto, passando por todas
aquelas caras desconhecidas, at localizar Sofia; o seu pescoo descarnado oscilava como o de um peru, por baixo do queixo decidido.
-  o quarto de Mistress Harrison? - rosnou. - E quem  esta gente?
Sofia olhou de relance para Maggie, que soprava nas unhas para secarem.
-  a bruxa m do Norte - sussurrou ela. Maggie levantou os olhos.
- Tens a certeza? Parece mais um dos amigos drag queens de Anton.
- Vim conhecer a minha neta - disse a mulher, sem cumprimentar a nora. Arrastou-se pelo quarto, com um ar irritado. - Isto  um hospital, no um horrvel salo.
- Fungou com ar severo.
387
- No era mau se cortasse o cabelo, fofinha - disse Anton, chupando as bochechas quando ela passou por ele. - Sabe, esse look est muito passe, mostra a idade que
tem.
- Deus do Cu, quem  voc? - Ela recuou. - Quem so estas pessoas?
- So meus amigos, Elizabeth. Anton, Daisy, Maggie e, bom, ignore Marcello, ele no quer que lhe digam nada, s quer que o admirem - respondeu Sofia, soltando uma
risadinha baixa. - Esta  a minha sogra, Elizabeth Harrison.
Elizabeth passou diante de Marcello a arrastar os ps, pondo tanta distncia entre a cadeira dele e a sua pessoa quanta lhe foi humanamente possvel. Debruou-se
sobre o bero.
- O que ?
- Uma menina - respondeu Sofia, puxando o bero para junto de si, numa reaco protectora. No queria que a sogra se aproximasse de mais, podia trazer m sorte 
criana.
- Nome?
- Honor - disse Sofia, jubilosamente.
- Honor? - perguntou Elizabeth muito irritada. - Que nome medonho. Honor, com franqueza.
-  um nome lindo. Demos-lhe o nome de Honor em honra da av de David, a sua falecida sogra. Ele gostava muito dela, segundo me disse.
- Honor  o nome de actriz, ou cantora, no achas, Anton? - disse Maggie, malvolamente.
- Sem dvida, uma artista do palco - acrescentou Anton, pelo sim, pelo no.
- Onde est David? - perguntou Mrs. Harrison.
- Saiu - respondeu Sofia com frieza. Provavelmente sabia que tu vinhas, sua truta feia e malcheirosa, pensou com os seus botes.
- Ento diga-lhe que eu vim - disse ela, e depois pousou os olhos esbugalhados em Sofia. Observou-a pensativamente. - David  o meu nico filho - falava, numa voz
profunda que crepitou devido s excrees nos pulmes. - E esta criana  a minha nica neta. Teria preferido que ele casasse com uma pessoa do seu prprio pas
388
e da sua prpria classe. Ariella era perfeita, s David no via isso, o louco... tal como o pai. Mas voc deu-lhe um filho. Eu teria preferido um rapaz, mas para
a prxima ter um rapaz para transmitir o seu nome. No gosto de si e gosto ainda menos dos seus amigos. Mas deu um beb ao meu filho, tem pelo menos isso a seu
favor. Diga a David que eu vim - repetiu, antes de sair do quarto.
Depois, quando eles estavam prestes a explodir num comentrio venenoso, a porta abriu-se e ela reapareceu na soleira.
- Ups, esqueceu-se da vassoura - disse Anton.
- Ou esqueceu-se de lanar um feitio - acrescentou Sofia.
- Tambm pode dizer a David que no chamarei Honor  criana. Ele ter de pensar noutro nome. - Depois, a porta fechou-se e ela foi-se embora.
- Que mulher agradvel - disse Daisy, sarcasticamente.
- O que eu conseguia fazer com o cabelo dela - afirmou Anton com desdm.
- Se fosse a ti no me ralava, queridinha - disse Maggie. - H-de morrer daqui a pouco.
Depois, para surpresa de todos, Marcello mexeu-se.
- Porca misria! - disse langorosamente. - H anos que est morta.
Quando, mais tarde, David regressou, Sofia estava a dar de mamar  filha. Ele ficou aos ps da cama a ver. Sorriram um para o outro num entendimento silencioso.
No havia palavras que exprimissem adequadamente o deslumbramento de David perante o poder da natureza e no quis estragar o momento, trazendo aquela cena para a
terra com lugares-comuns. Por isso, ficou ali de p, com uma expresso terna, quase melanclica, a observar o misterioso lao entre me e beb. Sofia contemplava
o rosto da sua menina, saboreando cada movimento que ela fazia, maravilhada com a requintada perfeio das suas feies.
Quando Honor acabou de mamar, Sofia embrulhou-a muito bem na fralda e p-la delicadamente no bero para dormir.
- Mal consigo larg-la - murmurou, passando um dedo sobre a cabea aveludada do beb.
389
- Tenho notcias surpreendentes - informou David, sentando-se na beira da cama e beijando-a.
- Tambm eu - disse Sofia. - Mas diz tu primeiro.
- Bem, nem vais acreditar. Zaza deixou Tony e fugiu para a Provena com Ariella.
- Tens razo, no acredito! - ofegou Sofia, assombrada. - Sabes, eu ouvi Tony e Zaza a discutirem no quarto, no fim-de-semana passado, mas no percebi de que falavam.
Agora tudo encaixa. Tens a certeza?
- Tony telefonou h pouco e disse-me.
- Que disse ele?
- Que tinham fugido juntas. Que ela estaria de regresso no mximo dentro de um ms, quando Ariella arranjasse outra coisa para se divertir.
- Estava zangado?
- No. Zangado no, sobretudo irritado. Diz que Angela est aterrada e furiosa por a me a ter ultrapassado. Declarou que, na verdade, no est apaixonada por Mandy;
ao que parece, nunca esteve. De facto, est apaixonada por um rapaz chamado Charlie. Eddie, pelo contrrio, parece ter aceite bem o caso.
- Isso no me surpreende muito - disse Sofia.
- Seja como for, Tony diz que no se importa que ela tenha fugido para experimentar outras coisas. Estar presente para juntar os pedaos quando tudo der para o
torto, como  inevitvel que d. Ariella est apenas a brincar com ela para se divertir. Como um astuto gato branco com um grande rato suculento. Isto deve dar-lhe
muito prazer. Nunca gostou muito de Zaza.
- Achas que elas vo contactar-nos? - perguntou Sofia, morta por saber mais.
- Sem a menor dvida. Ho-de querer dar-te os parabns. E quais so as tuas notcias? - perguntou, agarrando-lhe na mo para a acariciar.
- A sogra vinda do Inferno apareceu aqui esta manh - disse
ela.
- Oh! - respondeu David, cautelosamente.
- Adivinha quem estava aqui quando ela chegou? - perguntou Sofia, sorrindo maliciosamente.
390
- No sei, quem?
- Anton, Maggie, Marcello e Daisy.
- Deus do Cu! - Suspirou. - Deve ter ficado horrorizada.
- Ficou. Diz que no gosta do nome de Honor, por isso tens de pensar noutro nome, como se eu no tivesse nada a dizer sobre o assunto.
- Segundo ela, no tens.
- Assustmo-la, acho eu, e fugiu.
- No te preocupes. Eu trato do assunto - disse David, resignado por ter de procurar a me para travar mais uma batalha inconsequente na sua guerra em curso. Uma
guerra tola, nascida da incapacidade dela para o controlar e alimentada por uma amargura cada vez maior que corroa o esprito dela como um fantasma insacivel.
Uma guerra que s terminaria com a morte dela. Imaginou o seu pobre pai a tremer nos cus,  espera que um dia a mulher invadisse aquilo tudo como uma nuvem negra
maldisposta, para ir ter com ele.
O telefone tocou.
- Zaza - exclamou Sofia, excitada, ao atender. David ergueu uma sobrancelha.
- Querida. Muito bem! Uma menina, ouvi dizer. Que nome lindo. Deve estar nas nuvens - disse Zaza, entusiasmada.
- Estou. Estamos muito felizes. Como est? Onde est? - perguntou com impacincia, mais interessada em ouvir as notcias de Zaza que em relatar as suas. J estava
a ficar farta de repetir a histria do nascimento de Honor a todas as amigas que lhe telefonavam.
- Estou em Frana.
- Com Ariella? - perguntou Sofia.
- Sim: Calculo que Tony tenha posto a boca no trombone e contado tudo a David. Tpico. Neste momento, j Londres inteira deve saber. - Suspirou melodramaticamente.
- No, penso que no, David  muito discreto - objectou Sofia, piscando o olho para o marido.
- Oh - disse Zaza em tom desiludido. - Bem, Ariella est aqui e quer falar consigo. Estamos a passar um tempo maravilhoso - continuou, falando muito depressa. -
Pensamos em si e no seu beb. D saudades minhas a David. Agora no posso falar com ele, Ariella est aqui. - Baixou a voz. - Sabe o que quero dizer.
391
- Eu sei, eu digo-lhe. Passe o telefone a Ariella - disse Sofia e ouviu Zaza a gritar por ela, com a voz a saltar no nome dela: Ari-ellaaaa!
- Sofia, parabns - disse Ariella, calmamente.
- Que anda a tramar? - perguntou Sofia, cheia de curiosidade.
- Oh, tirei umas frias - respondeu ela, descontraidamente.
- Quando regressam?
- Quanto tiver divertido Alain o suficiente para reconquistar a ateno dele. Depois mando Zaza para casa, para junto de Tony. Assim, ela vai poder carregar um pouco
no tempero, imagino. - Ariella riu-se levianamente.
- Que perversa! - disse Sofia, que estava claramente divertida.
- Perversa, no. Estou a fazer um favor aos dois. Zaza precisa de uma aventura. Tony precisa de uma Zaza nova. Zaza precisa de uma Zaza nova, acredite no que lhe
digo.
- Se fosse a si, protegia a retaguarda - disse Sofia a rir.
- No se preocupe, Sofia, no  o meu gnero.  inteligente de mais. No, consigo no seria nada divertido.
Nessa noite, enquanto dormia, Sofia sonhou. Estava sentada na cama do hospital a conversar com Ariella e Zaza, que tentavam convenc-la a deixar David e ir com elas
para a Provena. Ela abanava a cabea, a rir, dizendo que no faria tal coisa e as outras tambm se riam, dizendo-lhe que ia adorar. Depois, a porta abriu-se de
repente e entrou por ali dentro uma mulher vestida de preto. Tinha o corpo curvado e retorcido, parecia um corvo, e tinha um andar trmulo, como se arrastasse um
p. Cheirava mal, porque Ariella e Zaza recuaram e taparam o nariz, antes de desaparecerem no nada. Depois, de repente, a mulher estendeu a mo para o bero e agarrou
na sua menina. Sofia gritava, agarrada a Honor, tentando desesperadamente no a largar. A mulher era to feia e deformada que j nem sequer parecia um ser humano,
mais parecia um morcego. Comeou a dizer Prometeste desistir do teu filho. Agora, no podes mudar de ideias. E transformou-se em Elizabeth Harrison, olhando fixamente
para ela com aqueles olhos lacrimejantes e bolbosos que nadavam nas rbitas como ostras.
392
A enfermeira sacudiu Sofia para a acordar. Esta estava muito perturbada, a transpirar e a gritar por socorro. Quando acordou, olhou fixamente para a enfermeira com
os seus grandes olhos assustados e demorou um pouco a compreender que estava, de facto, acordada e no presa dentro do pesadelo.
- Est bem, Mistress Harrison? Teve um pesadelo - disse a enfermeira, com pena dela.
- Quero o meu marido - soluava Sofia. - Quero ir para casa agora.
No dia seguinte, David veio buscar Sofia para a levar para casa. J instalada entre as paredes seguras de Lowsley, Sofia esqueceu o sonho e a estranha bruxa que
tinha tentado roubar-lhe a sua menina. Ficou sentada ao p da lareira com Sam e Quid, que abanavam as suas grossas caudas, a tagarelar muito satisfeita com Hazel,
a enfermeira, que tinha Honor ao colo, embalando-a suavemente enquanto dormia. David trabalhava no escritrio ao lado, e Sofia pensou como era agradvel que a vida
tivesse voltado  normalidade. Depois, pensou em Zaza e Tony e perguntou a si mesma se a vida alguma vez voltaria a ser a mesma para ambos.

CAPTULO TRINTA E QUATRO
Honor gatinhava  volta da mesa da sala de jantar, vestida com o fato peludo de leo que Sofia lhe tinha comprado no Hamleys, rugindo ferozmente  sua amiga Molly,
que corria  frente dela a guinchar, fingindo-se aterrorizada. As outras crianas que tinham vindo para o terceiro aniversrio de Honor estavam na cozinha com Sofia,
timidamente agarradas s pernas das respectivas mes. Mas Honor no tinha medo de nada. Por vezes, desaparecia durante tempos infinitos, e a sua ansiosa me acabava
por encontr-la deitada de barriga para baixo na erva, a estudar uma lagarta ou uma lesma que, por acaso, tivessem despertado a sua curiosidade. Ficava fascinada
com tudo, em especial a natureza, e confiava que, se se afastasse durante tempo suficiente, a me ou a ama acabariam por encontr-la.
Aquele era um dia muito especial, tinha-lhe dito a me. Era o seu aniversrio. Sabia cantar Parabns a Voc e cantava-o muitas vezes nos aniversrios de outras
pessoas, mas hoje no seria ela a cantar, porque todas as suas amigas lho cantariam. Depois, ia soprar as velas, uma coisa que adorava fazer e que fazia muitas vezes
nos bolos das outras crianas, o que deixava a me muito embaraada, pois o aniversariante desfazia-se em lgrimas e era preciso ir  procura de fsforos para voltar
a acender as velas. Hoje era uma celebrao de trs anos de alegria que ela tinha dado a Sofia e David, e tambm uma desculpa para que a sua filha tivesse a alegria
da sua prpria festa com todos os seus amigos.
O corao de Sofia tinha-se dilatado ao longo dos trs ltimos anos, tal como o universo. O av O'Dwyer sempre dissera que o ob-
394
jectivo da vida era criar cada vez mais amor. Sofia pensava que ele se sentiria muito orgulhoso dela, pois o seu corao latejava literalmente de tanto amor. O seu
amor pela filha crescia em cada novo dia, em cada nova mudana que ocorria  medida que a criana crescia e desenvolvia a sua to forte personalidade. Passava longas
horas a desenhar com ela, a ler para ela, a lev-la a passear pelos campos, a p ou sentada no seu pequeno pnei, Hedgehog, e a percorrer para trs e para diante
o caminho para os bosques. Honor era curiosa e destemida. Levava o seu amigo Hoo, o lencinho de seda azul que David lhe tinha dado, para todo o lado, e Hoo fazia-a
sentir-se segura. Se Hoo se perdia, era preciso fazer uma busca sistemtica em casa at ele aparecer, geralmente atrs de um sof ou debaixo de uma almofada, e devolv-lo
 sua amiga cheia de ansiedade que no conseguia dormir sem ele.
- Honor! - gritou Hazel o melhor que conseguiu, o que na sua idade no era muito. Tinha vindo quando Honor nasceu, contratada por um ms, mas acabara por ficar para
sempre, depois de David e Sofia lhe terem implorado que ficasse a tempo inteiro. Ela tinha considerado o pedido como um cumprimento e concordado. No pouco tempo
de convivncia com Honor e os seus pais, tinha-lhes ganho uma enorme amizade.
Mais tarde, festejara a sua deciso ao conhecer o malicioso Freddie Rattray, o vivo que geria a quinta de criao de cavalos com a ajuda da filha Jaynie. Sofia
chamava-lhe Rattie, mas Hazel no conseguia ganhar coragem para to grande falta de cerimnia, embora todas as outras pessoas tambm lhe chamassem Rattie. Para ela,
ele era Freddie, mas s depois de ele lhe suplicar que no lhe chamasse Mr. Rattray. Faz-me sentir to velho, dissera ele. Freddie faz com que me sinta ainda
a meio da encosta. S quero ver o outro lado daqui a muitos anos.
Hazel tinha-se rido recatadamente, passando uma mo hmida pelo seu brilhante cabelo branco apanhado na nuca num carrapito muito bem feito. Parecia passar muito
tempo a levar Honor a ver os cavalos e acompanhava Freddie muitas vezes, quando ele levava a menina a dar um passeio montada em Hedgehog. Sofia, que geralmente detectava
rapidamente o evoluir de um afecto como o deles, andava demasiado ocupada a vigiar a filha para reparar nos olhares ternos e no riso ligeiro que vinha dos estbulos.
395
- Honor, hora do lanche! - gritou Hazel, dirigindo-se para a sala de jantar, onde as duas meninas corriam alegremente em volta da mesa, como se imaginassem o seu
carrossel privativo. Apanhou Honor quando esta passou ao seu lado a galope e ajudou-a a tirar o fato de leo. Honor tinha pedido especificamente um vestido bonito
para o seu lanche de aniversrio. Sofia tinha-se rido com aquele seu sentido precoce de oportunidade. - Vamos l ver o que a tua mam fez para o lanche - disse Hazel.
- Chocolate Crispies! - gritou Honor, com os olhos azuis dilatados de jbilo.
- Chocolate Crispies! - imitou Molly, seguindo-a a bater com os ps com fora no cho.
Na cozinha, Sofia ajudava as outras mes a sentarem os filhos. Johnny Longacre estava a chorar porque Samuel Pettit lhe tinha batido, Quid j tinha lambido a cara
da pequena Amber Hopkins - facto que a me dela considerou extremamente insalubre.
- Honor, querida, vem sentar-te - disse Sofia com toda a calma no meio do caos. - Olha, estas sanduches no so inteligentes? So do feitio de borboletas.
- Posso comer um chocolate Crispie, por favor? - pediu Honor, estendendo a mo para o agarrar.
- S depois de comeres o teu po com Marmite - disse Sofia, fazendo uma careta ao sentir o cheiro de Marmite agarrado aos dedos.
- Sofia, por favor, pode tirar o co daqui? Est a tentar comer a sanduche de Amber - disse a me de Amber, exasperada.
Sofia pediu a Hazel que fechasse Quid no escritrio, para no se meterem em sarilhos.
- Tambm pode meter-me l a mim - disse a rir. - Estou to enterrada em sarilhos que a Hazel mal consegue ver-me.
- Sofia, no deu suspiros de alteia ao Joey. Parece que j no h nenhum. E suspiro de alteia  o doce de que ele mais gosta - disse a me de Joey, com a sua cara
simples franzida de apreenso, temendo que o seu amado menino ficasse sem suspiros de alteia. Sofia pensou que ela parecia um daqueles ovos em que Honor desenhava
caras ao pequeno-almoo.
Nesse mesmo momento, a porta abriu-se e entrou Zaza, com umas calas de camura castanho-claras e um casaco de tweed; os seus
396
lbios franziram-se numa careta encarnada ao ver a cozinha cheia de crianas aos gritos, acompanhadas pelas suas superansiosas mes.
- Deus do Cu, que se passa aqui? - perguntou, engasgada de horror, quando Sofia saltou por cima de uma criana aos gritos para a cumprimentar. - Se estes so os
amigos de Honor, espero que ela se torne mais selectiva quando crescer.
Afinal, Zaza s tinha ficado seis semanas na Provena com Ariella, e depois tambm com Alain. Eu percebi que j no era desejada, tinha dito a David. Alain foi
adorvel, embora muito vago - quase nunca reparava em ns. Mas Ariella est de cabea perdida por ele e, depois de eu lhe ter sido til para os seus objectivos,
deixei-os entregues  sua vida e regressei a casa. Depois, Tony disse-lhe que ela se tinha tornado uma mulher muito mais interessante - v l saber-se o que isso
queria dizer - e que estava a ponderar a possibilidade de a mandar outra vez no ano seguinte, para fazer um curso de actualizao. Sofia sentia-se muito satisfeita
por as coisas terem regressado ao normal. Tinha ficado espantada por ter sentido tanto a falta de Zaza.
- Esta festa est a transformar-se num pesadelo - suspirou Sofia a olhar para as crianas que se empanturravam de chocolate. - Um deles vai vomitar a qualquer momento,
tenho a certeza.
- No para cima das minhas calas de camura, seno toro-lhe o delicado pescocinho - disse Zaza, recuando.
- Porque no vai sentar-se na sala de estar, l  mais seguro - sugeriu Sofia.
- Na verdade, vim dizer que Tony vai oferecer-me uma festa de anos este Vero, quando eu fizer cinquenta anos - Zaza sorriu de orelha a orelha. - No sei se deva
festejar ou suicidar-me; mesmo assim, ser uma festa de Vero com almoo e gostvamos muito que fossem os dois.
- Claro que vamos. Nem sequer  muito longe, pois no? - disse Sofia a rir.
- Agora, se no se importa, eu vou sentar-me para outro lado. Venha ter comigo quando estiver tudo acabado, ou pelo menos quando todos tiverem lavado as mos e a
cara.
Na festa, a cara de Honor estava coberta de pedaos de chocolate e bolo. O seu cabelo louro cheio de caracis estava salpicado de
397
Smarties, colocados por Hugo Berrins, docemente enamorado dela, que estava agora a atirar gelatina s outras crianas, j no to docemente. Sofia revirou os olhos
e encostou-se ao aparador, ao lado de Hazel.
- Acha que Honor alguma vez recuperar o aspecto habitual? - perguntou em voz fatigada. Tinha notado que, ultimamente, se sentia muito cansada.
Hazel sorriu e apoiou as mos nas ancas, largas como convm a uma ama de meninos.
- Se no fosse aquele macaquinho - disse, apontando para Hugo Berrins - parecia que tinha acabado de sair do banho. Logo que eles se forem embora, levo-a para a
casa de banho e lavo-a toda.
- Mas ela gostou, no gostou?
- Ela adora ser o centro das atenes. Ningum adora ser adorada mais do que Honor.
- Valha-me Deus, e eu sei de quem herdou isso. - Sofia riu-se maliciosamente.
Por fim, as mes vestiram s crianas os seus casacos grossos e saram com eles para a noite de Maro, gritando a Sofia Encontramo-nos na escola na segunda-feira.
Sofia acenou-lhes em despedida, encantada por v-las ir embora e decidida a fazer uma coisa diferente no quarto aniversrio de Honor.
- Acho que no consigo aguentar isto no ano que vem - disse a Hazel. - Talvez uma festa pequena com lanche...
- Oh, h-de passar pelo mesmo muitas mais vezes, Mistress Harrison. Sempre me surpreendeu a maneira como as mes mergulham nestes caos ano aps ano. Mas as crianas
adoram, no ?
Hazel agarrou na mo de Honor, j cheia de sono, e subiu a escada com ela para lhe dar banho. Sofia beijou-lhe o narizinho, que era a nica parte da cara que no
estava coberta de chocolate e gelatina, e depois atravessou o vestbulo, em busca de Zaza.
Zaza estava junto da lareira, a ouvir msica, a fumar um cigarro e a ler um livro sobre as estancias argentinas.
- O que  isso? - perguntou Sofia, sentando-se ao lado dela.
-  um livro chamado Estancias Argentinas... pensei que gostasse de l-lo.
398
- Onde o arranjou?
- Oferta de Eddie. Veio agora de l. Passou um tempo maravilhoso, a jogar plo.
- Verdade? - comentou Sofia em voz neutra.
- Que belo livro. A sua casa era como estas?
- Sim, exactamente como essas.
- Sabe, penso que Eddie andou a jogar com um amigo seu - disse Zaza. - A verdade  que jogou, porque Eddie disse que tinham falado em si. Agora, esto aqui em Inglaterra.
Ele  jogador profissional. Disse que a conhecia.
- Quem  ele? - perguntou Sofia, sem a certeza de que queria saber.
- Roberto Lobito - respondeu Zaza, semicerrando os olhos  espera da reaco de Sofia. Eddie tinha dito que, ao que parecia, Sofia tinha tido um caso escandaloso
com algum que os pais dela no aprovavam e que fora essa a razo da sua sada da Argentina. Gostaria de saber quem teria sido o homem. Sofia descontraiu os ombros
e Zaza riscou Roberto Lobito da lista de suspeitos.
- Oh, ele - disse ela, e riu-se entre dentes. - Sempre foi um bom jogador, j ento era.
- Est casado... com uma mulher requintadamente bela. Acho que ficam c at ao Outono. Espero que no se importe, pois convidei-os para a minha festa.
- Tudo bem - disse Sofia.
Zaza expeliu o fumo pelo nariz e depois sacudiu a mo  sua frente para o afastar de Sofia, que odiava cigarros.
- Acho que nunca vi uma mulher mais bela que Eva Lobito - disse ela com um suspiro, puxando outra fumaa funda.
- Eva Lobito? - Sofia ainda se recordava de Eva Alarcon e ficou a pensar se seria a mesma pessoa. S tinha conhecido aquela Eva. - Qual  o aspecto dela? - perguntou
com curiosidade.
- Cabelo louro quase branco... cabelo de anjo. Cara comprida, pele morena de azeitona. Um riso bonito. Pernas compridas, muito elegantes, fala ingls com um sotaque
muito forte. Encantadora.
No tinha dvida, a descrio s podia ser de Eva Alarcon, e Sofia ia voltar a v-la, e a Roberto, ao fim de todos aqueles anos. Sabia
399
que v-los lhe traria  memria recordaes felizes e que na sua esteira viria uma inevitvel melancolia, mas estava curiosa, e a curiosidade era mais forte que
a sua ansiedade. Ansiava pelo dia da festa como se pode ansiar por uma bebida, mesmo sabendo que a dor de cabea e o enjoo esto  espreita.
Sofia puxou Honor para o colo e passou-lhe os braos  volta do corpo, abraando-a, o seu ritual da hora de deitar, e beijando-lhe a imaculada pele branca.
- Mam, quando for grande quero ser como tu - disse a menina.
- Queres? - perguntou Sofia com um sorriso.
- E depois, quando for maior, quero ser como o pai.
- Acho que no.
- Oh, quero, sim - disse ela com toda a certeza. - Quero ser tal como o pai.
Sofia riu-se baixo ao ver como a criana compreendia a evoluo de uma pessoa.
Quando se meteu entre os lenis, s nove e meia, David fez-lhe uma festa na testa e beijou-a.
- Ultimamente tens andado muito cansada - comentou.
- Sim... no sei porqu.
- No achas que possas estar grvida?
Sofia olhou para ele a pestanejar, cheia de esperana.
- No tinha pensado nisso. Tenho andado to ocupada com Honor e com os cavalos que nem tenho contado os dias. Oh, David, talvez tenhas razo. Desejo que tenhas.
- Tambm eu - disse ele, inclinando-se para beij-la outra vez. - Mais um milagre.

CAPTULO TRINTA E CINCO
Sofia sentou-se no cepo baixo de uma rvore que outrora dominara os montes. Tinha sido abatida por um malvolo vento de Outubro, no Inverno anterior. Nada  invencvel,
pensou. A natureza  mais forte que todos ns. Olhou  sua volta, contemplando a luminosa manh de Junho e saboreou o esplendor de mais uma madrugada efmera.
Colocou a mo sobre a barriga, maravilhada com o milagre que crescia dentro de si, mas o seu corao estremeceu de tristeza, por saber que a sua famlia ignorava
a vida que ela tinha agora, do outro lado do mar. Relembrou nervosamente Roberto Lobito e Eva Alarcon tal como os tinha conhecido, havia mais de dez anos, e tentou
imagin-los com o aspecto que deviam ter hoje.
Mais do que v-los, preocupava-a no os ver. Se, no ltimo instante, eles decidissem no assistir  festa de Zaza, a desiluso seria enorme. Tinha-se preparado mentalmente
para aquela tarde e a sua curiosidade aumentara ao longo dos ltimos meses. Tendo aceite o facto de que ia ter notcias de casa, o pensamento de que essas notcias
lhe fossem negadas era insuportvel. Estava desesperada por saber o que tinha acontecido a Santi.
Chegou a casa a tempo de tomar banho e preparar-se para a festa de Zaza. Passou uma hora a experimentar roupa, enquanto Sam eQuid a miravam, assombrados, abanando
as caudas a tudo o que ela vestia.
- Vocs no esto a ajudar nada! - disse ela, atirando outro conjunto para cima da cama. Quando David apareceu  porta, Sofia estava de costas e lutava furiosamente
para fazer passar um vestido
401
pelas ancas. Ele ficou a observ-la por uns momentos, at que os ces o denunciaram.
- Estou gorda - resmungou, irritada, dando um pontap ao vestido que o atirou pelo quarto fora.
- Qual  o problema? - perguntou ele, abraando-a por trs. Miraram os dois o seu reflexo no espelho.
- Estou gorda - disse ela outra vez.
- No ests gorda, amor, ests grvida.
- No quero estar gorda. Nada me serve.
- Como te sentes mais confortvel?
- De pijama - respondeu, amuada.
- Ento vai de pijama - disse ele, dando-lhe um beijo, entrando, depois, na casa de banho.
- De facto, no  m ideia - respondeu, satisfeita, tirando um pijama de seda branca da cmoda. Quando David voltou para o quarto, Sofia ps-se diante dele, com
as calas que apertavam com um cordo e uma T-shirt. - David, s um gnio - disse, radiante, admirando a sua imagem no espelho. David acenou, navegando por entre
o amontoado de sapatos e vestidos para chegar  sua cmoda. Sam e Quid fungaram a sua aprovao.
Tony tinha armado uma tenda branca no jardim para o caso de chover, mas, como o dia estava limpo e quente, os convidados ficaram ao sol, exibindo vestidos s flores
e fatos, bebendo copos de champanhe epimms, admirando a manso de tijolos gastos e as flores que se derramavam com abundncia para onde quer que se lanasse o olhar.
Zaza correu para abraar David e Sofia, antes de ir atrs de um dos empregados que tinha sado da casa cedo de mais com um tabuleiro de salmo fumado.
Zaza no tinha um estilo prprio, mas era suficientemente perspicaz para reconhecer bom gosto quando o via. Tinha gasto milhares das libras que Tony ganhara to
arduamente e contratara decoradores e jardineiros-paisagistas para transformarem a casa deles, tornando-a digna de ornamentar as pginas da revista Homes & Gardens.
Sofia apreciou a perfeio esttica de Pickwick Manor, mas achou que Zaza se tinha esforado demasiado. Mal foi apanhada pela multido, os olhos de Sofia comearam,
cheios de temor, a procurar os rostos de Eva e Roberto.
402
- Sofia, muito gosto em voltar a v-la - disse, sorridente, um desconhecido que se curvou para lhe dar um beijo. O seu hlito cheirava a uma desagradvel mistura
de salmo e champanhe. Ela recuou e franziu a cara sem expresso. - George Heavyweather - disse ele, num tom que traiu a sua desiluso pela falta de memria dela.
- Ora, de certeza que se lembra de onde nos conhecemos - disse em tom brincalho, dando-lhe uma leve cotovelada.
Sofia suspirou, irritada, recordando o idiota sem tacto que havia ficado sentado ao seu lado havia quatro anos.
- O jantar de Ian Lancaster - respondeu, impassvel, olhando para a multido por cima do ombro dele.
- Pois claro. J l vai tanto tempo. Onde tem estado escondida? Provavelmente, no reparou que a guerra acabou! - disse ele, rindo-se da sua prpria piada sem graa.
- D-me licena - interrompeu-o Sofia, mandando as boas maneiras  fava. - Estou a ver uma pessoa com quem prefiro falar.
- Oh, sim... est bem - gaguejou ele, jovialmente -, voltamos a encontrar-nos depois.
S se eu no puder evitar, pensou Sofia que foi imediatamente engolida pela turba.
Sofia e David tinham chegado tarde. Depois de Sofia passar mais de meia hora a percorrer o espao sem sucesso,  procura de Eva e Roberto, resignou-se tristemente
 realidade de que eles tinham, sem dvida, decidido no vir. Encontrando um banco  sombra de um cedro, longe dos outros convidados, sentou-se, desanimada. O tempo
passava devagar. Queria ir para casa e ps-se a pensar se algum repararia se se escapulisse discretamente.
E ento...
- Sofia? - Uma voz calorosa e rouca atrs de si. - Temos andado  tua procura.
- Eva? - arquejou Sofia, pondo-se de p e pestanejando, surpreendida, a olhar para a elegante mulher de cabelos quase brancos que a pouco e pouco foi distinguindo.
- Hace anos! - disse aquela para o pescoo de Sofia, beijando-a afectuosamente. A cabea de Sofia pareceu andar  roda quando inalou a gua-de-colnia de Eva, o
mesmo aroma de limo que usava h doze anos. Sentaram-se as duas.
403
- Pensei que no viessem - disse Sofia em espanhol, agarrando na mo de Eva e apertando-a com fora, como se temesse que ela desaparecesse se a largasse.
- Chegmos atrasados. Roberto perdeu-se - explicou Eva e soltou uma risada agradvel.
- Que bom ver-te. No mudaste nada - disse Sofia, com sinceridade, passando o olhar pela eterna juventude de Eva com admirao.
- Tu tambm no.
- Quando casaste com Roberto? - perguntou. - Onde est
ele?
- Por a algures, no meio de tanta gente. Casmos h trs anos. Eu fui viver para Buenos Aires quando deixei de estudar e conheci Roberto numa festa. Temos um filhinho,
que tambm se chama Roberto...  um anjo. Ah, ests grvida - disse Eva, pousando a mo livre na barriga de Sofia, que ainda mal se notava.
- J tenho uma menina com trs anos - respondeu e sorriu quando o rosto de Honor se destacou claramente atravs da nvoa que, misteriosamente, turvara a sua cabea
enquanto falava com Eva.
- Cmo vuela el tiempo!. - suspirou Eva, nostlgicamente.
- No h dvida de que o tempo voa. J passaram doze anos desde que nos conhecemos naquele Vero. Doze anos. Vendo-te agora, podia ter sido ontem.
- Sofia, no posso andar a jogar s escondidas contigo, fingindo que no sei por que razo saste da Argentina e nunca mais regressaste. Se fingir, no teremos uma
amizade honesta - disse Eva, com os olhos claros fixados interrogativamente em Sofia. Ps a mo de Sofia entre os seus longos dedos cor de mel e apertou-a expressivamente.
- Imploro-te que regresses - disse com suavidade.
- Estou feliz aqui, Eva. Casei com um homem maravilhoso. Tenho uma filha e outro beb a caminho. Agora, no posso regressar. Perteno aqui - insistiu Sofia, alarmada.
No esperava que Eva falasse no passado to de repente.
- Mas no podes, pelo menos, fazer-lhes uma visita, inform-los de que ests bem? Pe o passado para trs. Tanta coisa aconteceu na ltima dcada... se deixares
as coisas assim por mais tempo,
404
pode ser demasiado tarde. Talvez nunca mais consigas restabelecer o contacto com eles. Afinal, so a tua famlia.
- Diz-me ento, como est Maria? - perguntou Sofia, desviando a conversa de um assunto que Eva nunca compreenderia.
Eva retirou as mos e pousou-as no colo.
- Casou - respondeu.
- Com quem?
- Eduardo Maraldi, o doutor Eduardo Maraldi. No vejo Maria muitas vezes, mas a ltima vez que a vi, tinha dois filhos, penso, e talvez outro a caminho, no me lembro.
Neste momento, toda a gente est a ter filhos,  difcil lembrar-nos de todos. Sabes que Fernando est a viver em exlio no Uruguai?
- Exlio!
- Misturou-se na guerrilha contra Videla. Est bem e podia ter regressado  Argentina quando o Governo mudou, mas, com franqueza, penso que ficou to abalado com
a experincia que teve, torturaram-no, sabes, que agora vive e trabalha no Uruguai.
- Torturaram-no? - gaguejou Sofia, horrorizada. Ouviu Eva contar a histria tal como a conhecia, que a casa de Miguel e Chiquita tinha sido assaltada, que Fernando
fora raptado e, no se sabia como, tinha milagrosamente fugido para o Uruguai. Sofia estava petrificada pelo que ouvia, lamentando no ter l estado para dar o seu
apoio.
- Foi horrendo - prosseguiu Eva, gravemente. - Roberto e eu ficmos com ele uma vez. Tem uma casa em Punta del Este, na praia.  um homem diferente - disse ela,
reflectindo no jovem taciturno que vivia agora como um hippie, escrevendo artigos para vrios jornais uruguaios.
- E Santi? Est bem? - perguntou Sofia ansiosamente, pergun-tando-se como tudo aquilo o tinha afectado.
- Casou. s vezes vejo-o na cidade. Continua a ser extraordinariamente bem-parecido. - Eva corou. No tinha esquecido os beijos dele. Distraidamente, passou um dedo
comprido pelos lbios - Por alguma razo, coxeia mais e envelheceu. Mas fica-lhe bem. Continua a ser o mesmo Santi.
- Com quem casou ele? - perguntou Sofia, tentando disfarar o tremor da voz, para no se denunciar. Desviou os olhos e olhou para um ponto vago  distncia.
405
- Claudia Clice - disse Eva, cuja voz se elevou numa interrogao no fim do nome.
- No, no a conheci. Como  ela? - perguntou Sofia, lutando com o vazio to seu conhecido que agora ameaava engoli-la mais uma vez. Estava esmagada pela notcia
de que ele tinha assumido um compromisso com outra pessoa e recordou, mais uma vez, aquele momento debaixo do ombu, quando ele lhe tinha suplicado que fugisse e
casasse com ele. O eco fantasmagrico das suas palavras continuavam a ressoar pelos corredores da sua memria.
-  muito elegante. Cabelo escuro brilhante. Muito cuidada. Tipicamente argentina - disse Eva, desconhecendo a fora da ligao de Sofia. -  encantadora. Gosta
de conviver, mais na cidade que no campo. Penso que no gosta do campo. Pelo menos, confidenciou-me uma vez que odeia cavalos. Disse que tinha de fingir com Santi
que, como todos ns sabemos, vive para eles. - Depois, Eva acrescentou num tom mais suave: - No sabias que ele tinha casado?
- Claro que no. Nunca mais falei com ele desde... bem, desde que me vim embora - replicou Sofia em voz rouca, baixando os olhos.
- Com certeza no  por causa de Santi que no voltaste?
- No, no. Claro que no - disse Sofia, um pouco depressa de mais.
- Nunca comunicaste com ningum?
- No.
- Nem sequer com os teus pais?
- Especialmente com os meus pais.
Eva recostou-se no banco e estudou as feies de Sofia com assombro.
- No tens saudades? - perguntou, horrorizada. - No tens saudades deles?
- Ao princpio tive. Mas  incrvel como conseguimos esquecer quando estamos longe - mentiu ela, tristemente. Depois acrescentou: - Obriguei-me a esquecer.
Ficaram sentadas em silncio, Eva a meditar nas possveis razes do exlio de Sofia, e Sofia a reflectir tristemente sobre Santi e a vida
406
dele com Claudia. Tentou imagin-lo mais velho, a coxear mais, mas no conseguiu. Na sua mente, ele estava tal como quando o deixou, eternamente jovem.
- Sabes que Agustin agora vive na Amrica, em Washington? Casou com uma americana - disse Eva passado um bocado.
- De verdade? E Rafa? - perguntou Sofia, tentando parecer interessada; mas s conseguia pensar em Santi e desejava que Eva voltasse a falar dele.
- Casou com Jasmina Pena h alguns anos. Na verdade, pouco depois de tu vires embora. Agora, so extremamente felizes. No os vejo muito. Passam a maior parte do
tempo em Santa Catalina, pois ele toma conta da quinta. Sempre gostei de Rafa, achava-o seguro quando os outros berravam por sangue. Podamos confiar sempre nele,
no era como Agustin - disse, recordando as atenes indesejveis de Agustin. Enquanto estivera em Buenos Aires, ganhara fama por sair com raparigas, muitas vezes
umas poucas ao mesmo tempo. Era o gnero de rapaz acerca do qual as mes avisavam as filhas e, mais tarde, as raparigas avisavam as amigas. No admira que tenha
casado com uma americana, pensou Eva. Um caminho completamente novo para explorar.
- Santi  feliz? - perguntou Sofia de repente, mordendo o lbio inferior.
- Sim, penso que sim. Mas sabes como , as pessoas casam, tm filhos e acabamos por perder o contacto com elas. Vejo-os de vez em quando, mas Roberto e eu viajamos
muito. O plo leva-o para todo o lado e eu vou com ele. Raramente estou em Buenos Aires e, desde que Fernando partiu, no voltei a Santa Catalina. Fernando e Roberto
eram muito chegados e, agora, parece que no temos tempo nem para o ver a ele. Mas a ltima vez que vi Santi foi num casamento na cidade - recordou.
- Fala-me disso, sim? - pediu Sofia, arriscando-se a expor os seus sentimentos s para ter uma viso de relance de Santi. Eva olhou para ela com curiosidade. Sabia
que tinham mandado Sofia embora para recuperar de uma paixoneta que tinha tido pelo primo, mas Eva no fazia ideia da profundidade do sentimento entre eles. Como
podia ela saber que, por dentro, Sofia ainda chorava silencio-
407
smente por Santi, que o tinha largado como um balo e que, afinal, descobrira que ele errava eternamente entre as nuvens da sua memria.
- Bueno, foi o casamento de um primo de Roberto. Tm uma bela estancia perto de Santa Catalina, a cerca de duas horas de Buenos Aires. Eu no conhecia Claudia, mas
ela e Santi estavam casados h cerca de dois anos. Sim, deviam ser bem mais de dois anos, porque julgo que eles casaram em 1983, e foi no Vero passado. Seja como
for, Santi estava muito tenso... havia uma mala honda entre ambos; era evidente que estavam zangados porque mal falavam um com o outro. Claudia passou o tempo todo
com as crianas. Tem muito jeito para lidar com crianas. Reparei que todas a seguiam de um lado para o outro, como o Flautista de Hamelin. Eu tambm gosto muito
de crianas; nessa altura, Roberto e eu tentvamos ter um beb. Acho que eles tambm estavam a tentar, porque estavam casados h dois anos e era evidente que ela
desejava ter filhos.
Seja como for, eu falei com Santi - continuou Eva. - Ele continua a jogar plo, no profissionalmente como Roberto... na realidade, penso que ele no gosta muito
de Roberto. - Sorriu para si mesma, perguntando-se se a circunspeco dele com o marido era porque, a certa altura, a tinha cobiado para si. Recordou mais uma vez
o seu beijo e as mas do seu rosto cobriram-se de um tom rosado. - No penso que este seja um bom exemplo, porque sei que ele  feliz.  muito feliz com Claudia.
Provavelmente, o dia correu-lhes mal. Ele estava preocupado. No podia ter sido mais encantador. Alis, ambos foram encantadores. A propsito, os teus pais tambm
l estavam. Sempre gostei dos teus pais, em especial da tua me.  acolhedora e bondosa.
Se Sofia estivesse a prestar ateno, teria franzido o sobrolho ao ouvir aquela descrio da me, mas estava nas nuvens com o seu balo, a pensar em Santi.
- S no compreendo porque no podes voltar - disse Eva em tom premente. - O mais difcil seria voltar a ver toda a gente, mas, depois dos cumprimentos iniciais,
de certeza que tudo voltaria  normalidade. Sei que todos ficariam felizes por voltarem a ver-te.
- Ah, ali est Roberto - disse Sofia, ao ver Roberto a dirigir-se para elas. Tinha envelhecido um pouco. O seu aspecto atraente era li-
408
geiramente prejudicado por uma mandbula pesada que parecia arrastar-lhe a boca para baixo. Mas ainda era belo.
- Vejo que encontraste a minha mulher - disse ele, fazendo uma festa no cabelo de Eva.
- J nos conhecamos.
- Nunca estive apaixonado por ningum como estou pela minha mulher - confessou sem rodeios. - Fez de mim um homem inteiro.
Sofia sorriu. Este sempre foi transparente, pensou, pois ele estava a tentar dizer-lhe indirectamente que o romance que tivera consigo, h tantos anos, no tinha
qualquer significado. No precisava de se incomodar; para ela tambm no tinha tido nenhuma importncia. Passado um bocado, j no sabia que mais havia de dizer-lhe.
Eva e Roberto observaram Sofia, que se dirigia para a tenda onde o almoo volante estava a ser servido.
- Ela continua a ser muito bela - disse Eva. -  uma rapariga estranha, sabes. Imagina, sair de casa como ela, sem dizer uma nica palavra. Que gnero de pessoa
ser ela?
- Sempre foi casmurra at mais no poder. - Roberto encolheu os ombros. - Foi sempre mimada e independente. Fercho no a suportava.
- Bem, para mim foi muito gentil. Fez, de facto, um esforo quando estive em Santa Catalina. Nunca vou esquecer. Gosto muito dela... gosto de toda a famlia dela.
- Vais dizer-lhes que estiveste com ela? - perguntou ele.
- Claro. Vou dizer a Anna. No quero remexer no assunto, pois parece ser delicado. - Depois, acrescentou pensativamente: - Posso estar enganada, mas desconfio de
que ela continua a gostar de Santi. Fez-me muitas perguntas.
- Ao fim de tantos anos? No acredito que seja possvel.
- Oh,  possvel. No pensas que ela se recusa a regressar por causa dele?
- No. Fercho disse que ela se desentendeu com Anna e Paco e os culpou por a obrigarem a ir para Genebra. Disse que ela estava apenas a marcar a sua posio e que
acabaria por regressar. Que, quando se sentisse farta de estar aqui, voltaria para Santa Catalina, s
409
para os aborrecer. Acredita no que te digo, eu conheo Sofia. No  capaz de levar uma vida discreta. Sempre arranjou sarilhos e no vai mudar agora, por muito maravilhoso
que seja o marido.
- Roberto, ests a ser duro - ralhou Eva, abanando a cabea. - Eu vou dizer a Anna que ela est bem e  feliz. Penso que talvez Zaza me d o endereo dela e, assim,
pelo menos Anna poder escrever-lhe, se quiser.  tudo to desnecessrio - disse suspirando, ao pr-se de p. - Eu nunca te deixaria por nada deste mundo - acrescentou,
abraando-o.
- Amorcita, nunca me deixarias porque eu no permito - afirmou ele com um sorriso afectado, e deu-lhe um beijo. Eva observou Sofia por cima do ombro de Roberto quando
esta saiu da tenda com um homem que devia ser o marido. Cada um trazia um prato de frango e salada. Uma expresso perturbada ensombrou o rosto tranquilo de Eva ao
pensar no sofrimento que o exlio de Sofia lhe provocava, sem dvida, e decidiu pr-lhe fim.
As intenes de Eva eram boas - mas subavaliava os destinatrios da sua boa vontade. Quando Anna recebeu uma carta de Eva, relatando a conversa que tinha tido com
Sofia e enfeitada com os pormenores da vida de Sofia em Inglaterra, os seus dedos compridos fartaram-se de dar voltas ao endereo que vinha junto. Eva no previra
que a me podia ser to casmurra como a filha.
Anna sentira-se profundamente ferida pela rejeio da filha. Por que demnio havia de ser ela a primeira a iar a bandeira branca? Ora, Sofia nem sequer telefonara
durante a guerra das Malvinas, no telefonara para lhes dizer que eram avs - nunca tinha telefonado. Sabia onde eles estavam, o nmero de telefone no tinha mudado,
e, agora, esperava que eles estendessem o ramo de oliveira. Bom, a vida no era assim to fcil.
Pensava que eles no tinham corao? Pensava que eles no se importavam? Sempre fora difcil e obstinada, mas desaparecer do outro lado do mundo sem sequer escrever
uma carta de explicao era muita crueldade. Paco nunca tinha recuperado. Tinha envelhecido e estava mais introvertido. Era como se Sofia tivesse morrido. S que,
provavelmente, a morte teria sido prefervel, compreensvel, me-
410
nos dolorosa. Pelo menos, podiam t-la chorado devidamente em vez daquele sofrimento interminvel de nada saberem. A morte no  uma rejeio. O desaparecimento
de Sofia era uma profunda rejeio. Tinha ferido toda a famlia, abalando as suas prprias fundaes, e os estilhaos da sua unidade, outrora to valorizada, estavam
espalhados pelas plancies e nunca poderiam ser recuperados. No, no cabia a Anna fazer as pazes, mas sim a Sofia. Por isso, dobrou a carta e meteu-a na gaveta
que continha as suas coisas mais ntimas, decidindo nada dizer a Paco. Ele iria tentar convenc-la a contactar a filha, e ela no queria desencadear mais uma zanga
com Sofia.

CAPTULO TRINTA E SEIS
Novembro, 1997
Como  estranho que uma pessoa possa amar algum durante toda a vida. Que, por muito longe que estejam uma da outra, por muito tempo que estejam separadas, a memria
de uma possa estar guardada no corao da outra para toda a eternidade. Com Sofia, sempre fora assim. Nunca tinha deixado de amar Santi e o pequeno Santiguito. Sabia
que no devia e, de muitas formas, tinha fechado o livro, escrito a ltima linha, arrumado. Tinha-os deixado partir. Como uma arca de tesouro, tinha-os largado como
todos os seus segredos no fundo do oceano. Mas algumas coisas nunca morrem; apenas ficam em silncio durante algum tempo.
Sofia sara desacreditada da Argentina no Outono de 1974. Nunca pensara, nem por um instante, que s regressaria passados quase vinte e quatro anos. Nunca projectara
que as coisas fossem assim. Nunca. Mas, sem que se apercebesse, os anos tinham-se avolumado em dcadas e depois, um dia, o passado chamou-a a casa.
Buenos Aires, 14 de Outubro de 1997 Muito querida Sofia,
Presumo que tu e Maria tenham deixado de comunicar h muitos anos.  por isso que te escrevo. No h uma maneira fcil de te dizer isto, mas Maria est a morrer
de cancro. Vejo-a definhar dia a dia - no fazes ideia de como  difcil ver uma pessoa que amamos desaparecer pouco a pouco diante dos nossos prprios olhos, quando
nada podemos fazer para ajudar. Sinto-me perfeitamente intil.
412
Sei que as vossas vidas seguiram rumos diferentes, mas ela ama-te muito. A tua presena seria maravilhosamente calmante. Quando te afastaste de ns, ficou um terrvel
vazio e uma profunda tristeza que todos ns partilhmos. Nunca espermos que nos exclusses para sempre. Lamento que ningum se tenha esforado devidamente para
te convencer a regressar. Na verdade, no sei por que razo nenhum de ns o fez. Devamos t-lo feito - eu culpo-me por isso. Conheo-te, Sofia, e sei que sofreste
muito no teu exlio.
Por favor, querida Sofia, vem para casa, Maria precisa de ti. A vida  preciosa: Maria ensinou-me isso, s lamento ter demorado tanto tempo a escrever.
Com o meu profundo amor,
Chiquita
A carta de Chiquita rebentou um abcesso que continha as recordaes reprimidas de Sofia. Numa torrente febril de imagens, caram  volta dela, trazendo  superfcie
amargura e arrependimento pela sua longa hibernao. Maria est a morrer. Maria est a morrer. As palavras andavam s voltas na sua cabea at se transformarem em
slabas vazias, sem sentido. Mas continuavam a significar morte. Morte. O av O'Dwyer sempre tinha dito que a vida era demasiado curta para arrependimentos e dio.
O que l vai, l vai, e o que est no passado est no passado e  a que deve ficar. Sentia a falta do av. Em ocasies como aquela, sentia tanto a falta dele!
Mas era incapaz de seguir o conselho dele quando o passado invadia o seu presente atravs de todos os seus sentidos. Desejava agora ter tido h anos a coragem de
regressar. Eva tinha razo, adiara de mais. Tinha quarenta e um anos. Quarenta e um! Para onde tinham ido todos aqueles anos? Agora, Maria parecia-lhe uma estranha.
Sofia releu a carta com uma hesitao no corao. Gostava de saber como Chiquita a tinha encontrado. Olhando para o envelope, reparou que o endereo estava correcto,
at ao pormenor do cdigo postal. Pensou no assunto, revirando a carta com as mos trmulas. Depois lembrou-se; Eva devia t-lo pedido a Zaza. Sentiu o estmago
s voltas. Ao fim de todo aquele tempo, a Argentina tinha-a finalmente encontrado. No precisava de continuar a esconder-se e, por isso, sentiu-se grata.
Tinham passado onze anos desde que se tinha sentado  sombra do cedro com Eva. Onze anos. Como as coisas teriam sido diferen-
413
tes se lhe tivesse dado ouvidos e tivesse voltado a casa como ela sugerira, deixando para trs o que j era passado. Mas, agora, onze anos de afastamento a juntar
aos doze anteriores davam vinte e trs anos. Toda uma vida. Agora, j to tarde, a decomposio das relaes poderia ser invertida? Lembrar-se-iam sequer dela?
Sofia montou a cavalo e seguiu para os montes cobertos de gelo. Todo o campo parecia ter sido polvilhado com um cintilante p azul-claro quando o Sol se ergueu atrs
da floresta para derreter a geada. Por cima da sua cabea, o cu resplandecia como uma gua-marinha, sem uma nica nuvem  vista para manchar a sua perfeio. Reflectiu
nos ltimos dez anos da sua vida. ndia tinha nascido no Inverno de 1986, dando a Honor uma irmzinha para brincar, se bem que, ao princpio, esta no estivesse
muito interessada no beb. Mas agora eram grandes amigas e faziam tudo juntas, apesar da diferena de trs anos e meio entre elas. Honor era independente e franca;
ndia era mais calada, mais caseira.
Os anos tinham passado depressa. Tinham sido anos felizes - anos soalheiros. No obstante, por baixo da frgil superfcie da sua felicidade estava a recordao obsessiva
de Santi. Raramente se passava um dia em que no acontecesse alguma coisa que lho trouxesse  memria. Por muito passageiro que fosse o pensamento, por muito brevemente
que tivesse conscincia dele, continuava a record-lo. E continuava a ter o paninho de Santiguito debaixo do colcho. Mais por hbito que por dedicao. Tinha duas
filhas que ocupavam o seu corao. Santiguito estava perdido algures no mundo e ela sabia que nunca o encontraria. Mas no conseguia libertar-se dele. O paninho
de musselina era tudo o que lhe restava dele e, de uma certa maneira estranha, era tudo o que lhe restava de Santi. Por isso, permanecia entalado entre a cama e
o colcho, apesar da pouca ateno que lhe prestava.
Enquanto galopava pelos montes, Sofia tinha uma conscincia aguda de estar viva. Pensou na vida. A vida com toda a sua energia, com toda a sua emoo - com toda
a sua aventura. Maria ia deixar tudo isso. De repente, o passado tornou-se incrivelmente importante porque no poderia partilhar o futuro com Maria. Sofia queria
agarrar-se a ele, mas, como areia nas suas mos, o passado escorregava-
414
-lhe entre os dedos, deixando-a sem outra alternativa: s podia seguir em frente. Tinha de ir ter com ela.
Lamento que a tua prima esteja doente, mas fico satisfeito por ter finalmente sucedido alguma coisa que te obriga a recuperares o bom senso, foi a reaco de David
 notcia. Sofia tinha relutncia em deixar as crianas, mas David insistiu; ele mesmo podia tomar conta delas; a viagem que ela ia fazer era demasiado importante.
Ela queria ir e, ao mesmo tempo, estava preocupada com o que l iria encontrar. David s conhecia metade da histria; no fazia ideia de que o homem que ela tinha
amado e perdido vivia em Santa Catalina. Se soubesse, duvidava que David se sentisse to satisfeito por a deixar ir. Sofia perguntou a si mesma se a sua deciso
de no lhe contar tudo acerca de Santi teria sido influenciada por um desejo subconsciente de manter a porta aberta. Por essa mesma razo, decidiu no falar a Dominique
sobre a viagem.
David insistiu para que ela fizesse imediatamente as malas. No havia tempo a perder a pensar sobre o que sucederia quando l chegasse. Disse-lhe que fosse prtica.
Ia voltar para ver Maria, no devia pensar para alm disso. Levou-a ao aeroporto com Honor e ndia, a quem os aeroportos sugeriam frias e climas soalheiros, e comprou-lhe
demasiadas revistas para ler durante a longa viagem. Sofia sabia que ele se sentia comovido. Adoptava sempre um tom animado quando estava ansioso, falava depressa
de mais, perdia tempo com pormenores desnecessrios.
- Querida, tambm queres um romance? - perguntou, agarrando num livro de Jilly Cooper e virando-o para ler a contracapa.
- No. Estas revistas chegam perfeitamente - disse Sofia, agradecendo a ndia, que tinha aparecido com uma embalagem enorme de SNickers. - Queridinha, no consigo
comer tudo isso. Se pedires ao pai, com gentileza, talvez ele te deixe escolher qualquer coisa para as duas - disse ela, observando Honor que abria um saco de passas
de uva com chocolate que ainda no estava pago.
Era difcil separar-se deles. Demorou demasiado nas despedidas, o que deixou ndia em lgrimas por causa do stresse. Com quase onze anos, ainda dependia da me e
nunca tinha estado separada dela mais de dois dias de cada vez. Honor, que era ferozmente indepen-
415
dente e cheia de confiana em si mesma, passou o brao  volta da irm e prometeu anim-la no automvel.
 No vou por muito tempo, meu amor. Estou de volta antes de sentires a minha falta  disse Sofia, abraando a sua chorosa menina.  Oh, amo-te muito  sussurrou,
beijando-lhe a face hmida.
 Eu tambm te amo, mam  soluou ndia, agarrada ao pescoo de Sofia como um coala.  No quero que te vs embora.
 O pap toma conta de ti e daqui a pouco esto de frias. Vai correr tudo bem  respondeu, limpando a cara da criana com os polegares. ndia acenou e tentou ser
corajosa.
Honor riu-se quando beijou a me e desejou-lhe boa viagem, en-direitando-se como uma pessoa crescida e dando palmadinhas no ombro trmulo de ndia. David abraou
a mulher e desejou-lhe sorte.
 Telefona-me quando chegares, sim?  pediu, pousando os lbios nos de Sofia durante um longo momento, durante o qual rezou em silncio para que ela lhe fosse devolvida
em segurana.
Sofia acenou  sua pequena famlia antes de desaparecer no controlo dos passaportes. ndia tinha conseguido fazer um sorriso forado, mas, logo que a me desapareceu,
desfez-se mais uma vez em lgrimas. David agarrou-lhe na mo e o grupo saiu do aeroporto e dirigiu-se para casa.
Foi s quando estava prestes a aterrar em Buenos Aires que Sofia comeou a tomar conscincia da realidade da sua situao. Havia vinte e trs anos que no punha
os ps em solo argentino. Durante todo esse tempo, no vira nenhuma pessoa da sua famlia, embora soubesse por Dominique que, ao princpio, os pais tinham tentado
desesperadamente localiz-la. Mas, Sofia tinha cortado por completo com eles. Profundamente ressentida por a terem mandado embora, tinha sentido um certo prazer
perverso em faz-los sofrer. Dominique tinha-a protegido. Mas,  medida que o tempo passava, descobrira que as saudades da sua terra natal eram cada vez mais difceis
de suportar, at que teve de reconhecer, para consigo, que o orgulho era a nica coisa que a impedia de regressar.
David tentara em incontveis ocasies encoraj-la a fazer uma visita.
416
Eu vou contigo, fico ao teu lado. Vamos juntos. Tens de te libertar dessa amargura, dissera ele. Mas Sofia no fora capaz. No fora capaz de se despojar do seu
orgulho. Interrogava-se, agora, como a sua famlia iria reagir quando a visse.
Mentalmente ainda conseguia ver e cheirar a Argentina tal como a tinha deixado havia todos aqueles anos; no estava preparada para a mudana. Mas, quando o avio
aterrou no aeroporto de Eseisa, pelo menos o contorno da cidade, mergulhada no rosa-flamingo da manh, ainda era muito semelhante ao que tinha visto  partida. Sentiu-se
subjugada pela emoo. Estava de regresso a casa.
No estava ningum  sua espera no aeroporto, mas porque havia de estar? No dissera a ningum que vinha. Sabia que devia ter telefonado, mas, a quem? Tinha optado
por dispens-los a todos; no havia ningum a quem pudesse recorrer  ningum. Outrora, teria contactado Santi. Esses dias tinham passado.
No momento em que saiu do avio para o aeroporto de Eseisa, inspirou profundamente e deixou que lhe entrasse pelas narinas o intoxicante aroma familiar de ar hmido
e caramelizado. A sua pele ficou imediatamente hmida e os seus sentidos nadaram no mar agitado das suas recordaes. Olhou em volta e pousou os olhos nos funcionrios
de pele escura que percorriam o aeroporto, cheios de importncia, impantes de autoridade com os seus uniformes engomados. Enquanto esperava pela bagagem, foi lanando
um olhar aos outros passageiros, ouvindo as suas conversas em espanhol, com o borbulhante sotaque argentino, e sentiu que estava verdadeiramente em casa. Despindo
a sua pele inglesa como uma cobra, passou sorrateira pela alfndega, como boa Portea que costumava ser.
Do outro lado, azafamava-se e acotovelava-se um oceano de rostos morenos, alguns com cartazes com os nomes de pessoas que vinham buscar, outros com as crianas e
at com os cachorros que gritavam e ladravam no ar abafado,  espera de familiares e amigos que regressavam de terras longnquas. Os seus olhos escuros observaram
Sofia que empurrava o seu carrinho pelo meio da multido que abria alas, como o mar Vermelho, para a deixar passar.
- Taxi, seora?  perguntou um mestio de cabelo preto, retorcendo as pontas do bigode com dedos preguiosos. Sofia acenou que sim.
417
 Al Hospital Aleman  respondeu.
 De donde es usted?  perguntou o homem, empurrando o carrinho para a luz intensa do exterior. Sofia no soube se se encolheu por causa da intensidade do sol ou
porque o condutor do txi acabava de lhe perguntar donde ela era.
 Londres  respondeu hesitante. Era evidente que falava espanhol com sotaque estrangeiro.
Entrando para o banco de trs do txi preto e amarelo, sentou-se junto da janela que desceu o mais que pde. O condutor acendeu um cigarro e ligou o rdio. Antes
de ligar o motor, as suas mos castanhas e secas passaram bruscamente pela figura fria da Madona pendurada no espelho.
 Costuma ver o futebol?  gritou ele para trs.  A Argentina bateu a Inglaterra no Campeonato do Mundo de 1986. J ouviu falar de Diego Maradona?
 Oua, eu sou argentina, mas vivi em Inglaterra nos ltimos vinte e trs anos  respondeu ela, exasperada.
 No!  disse ele engasgado, arrancando o som do O da garganta como se fosse um longo sibilo.
 Sim  disse ela com firmeza.
 No!  arfou o homem pela segunda vez, no querendo acreditar que algum quisesse abandonar a Argentina.  Como se sentiu durante a guerra de Las Malvinas?  perguntou,
observando a cara dela no espelho retrovisor.
Preferia que ele visse por onde ia, mas os anos de Inglaterra tinham refinado os seus modos. Se fosse uma argentina autntica, ter-lhe-ia gritado com brusquido.
Ele apitou ruidosamente para um carro que seguia  sua frente, ultrapassou-o pelo lado contrrio e mostrou o punho ao outro condutor, tambm zangado, espetando o
brao para fora da janela e agitando-o furiosamente.
 Boludo!  suspirou, abanando a cabea e inalando o fumo do cigarro que lhe caa molemente do canto da boca.  E ento como  que se sentiu?
 Foi muito difcil. O meu marido  ingls. Foi uma poca difcil para os dois. Nenhum de ns queria aquela guerra.
 Eu sei, foi entre governos, no teve nada a ver com o que as pessoas queriam. Aquele monte de trampa, o Galtieri... eu estive
418
l, na Plaza de Mayo em 1982, com milhares de outros, a aplaudi-lo por ter invadido as ilhas e depois, alguns meses depois, a urrar pelo sangue dele. Uma guerra
desnecessria. Tanto sangue derramado para qu? Uma diverso. Foi o que foi, uma diverso.
Enquanto subiam com dificuldade a auto-estrada serpenteante que os levava directamente para o centro de Buenos Aires, ela olhava pela janela, para um mundo que lhe
parecia um velho e bem conhecido amigo, mas com uma expresso nova. Era como se algum tivesse construdo sobre as suas recordaes, limpando a ferrugem com que
tinha crescido e que amava to profundamente. Quando percorriam a cidade, ela reparou que os parques estavam perfeitamente limpos e cobertos de canteiros bem cuidados.
Belas molduras de lato brilhante contornavam as montras das lojas, que expunham as mais recentes coleces europeias. Mais parecia Paris que uma cidade sul-americana.
- Esta cidade tem um aspecto verdadeiramente assombroso  disse ela.  Tem um aspecto to... bem, acho que a palavra  prspero.
 Diz que no vem c h vinte e trs anos, qu barbaridad! Perdeu os anos de Alfonsin, quando a inflao atingiu alturas tais que eu tinha de imprimir uma tabela
de preos nova todos os dias, quando no duas vezes por dia. Chegou a um ponto em que eu pedia dlares, era a nica maneira de no perder dinheiro. Sabe, as pessoas
perdiam as economias de uma vida inteira de um dia para o outro. Terrvel. Mas agora as coisas melhoraram. Menem tem sido um bom presidente, um bom presidente -
repetiu, acenando com a cabea, para mostrar a sua aprovao.  O austral foi substitudo pelo peso, um peso por dlar. Isso mudou tudo. Podemos confiar de novo
na nossa moeda e orgulharmo-nos dela. Um peso por dlar, imagine!
 As ruas tm um aspecto fantstico... olhe para aquelas butiques.
 Devia ver os centros comerciais. Patio Bulrich e agora aquele elegante Paseo Alcorta. Ia julgar que estava em Nova Iorque. As fontes, os cafs, as lojas. Agora,
h muito investimento estrangeiro,  incrvel.  Sofia olhou pela janela quando passaram por um parque muito bem tratado.  As empresas tratam dos parques,  uma
boa
419
publicidade para elas e os parques andam limpos, podemos levar l os nossos filhos para brincarem  disse ele com orgulho.
A cabea de Sofia andou  roda por inspirar o cheiro do gasleo misturado com o dos arbustos e das flores do parque e o aroma adocicado do chocolate e dos churros
que vinha dos kioscos. Reparou num rapaz de pele morena que atravessava a rua em direco ao parque com cerca de vinte ces puro-sangue pela trela que trotavam entusiasticamente
atrs dele. Quando o condutor sintonizou o rdio para o jogo de futebol entre o Boca, que era evidente que ele apoiava, e o River Plate, Sofia compreendeu que o
taxista se tinha isolado. Quando o Boca marcou golo, ele deu uma guinada to violenta pela estrada que teria batido se os outros automveis no tivessem feito o
mesmo. Mais uma vez, espetou o punho fora da janela e apitou aos outros carros, para mostrar o seu jbilo. Sofia olhou para a pequena Madona de porcelana que oscilava
pendurada no espelho e, passado um pouco, deu por si atrada pelo seu ritmo hipntico.
Por fim, o txi parou diante do Hospital Aleman e ela pagou-lhe com pesos que no conhecia. Em tempos, o passageiro s saa do carro depois de o condutor tambm
sair, para o caso de ele arrancar com as malas ainda na bagageira, mas Sofia estava demasiado ansiosa por sair. Sentia-se enjoada. O condutor pousou as suas duas
malas no passeio e depois regressou ao rdio. Ela ficou a v-lo subir a rua com grande barulho e desaparecer no turbilho de veculos zumbidores.
Cansada do voo de treze horas e extremamente emocionada, Sofia entrou imediatamente, com malas e tudo, e perguntou por Maria Solanas. Quando disse o nome, a enfermeira
franziu momentaneamente o sobrolho e depois reconheceu-o e acenou.
 Ah, sim  disse. No estava habituada s pessoas usarem o apelido da famlia de Maria.  Deve ser a prima... ela tem falado muito de si.  Sofia sentiu-se corar,
perguntando a si mesma o que lhe teriam dito exactamente.  Tem sorte, ela vai para casa esta tarde. Por pouco no a encontrava.
 Oh!  respondeu Sofia, sem expresso. No sabia que dizer.
 Veio muito cedo... normalmente no permitimos visitas antes das nove da manh.
420
 Vim de Londres  disse ela em tom cansado.  Maria no est  minha espera. Gostava de estar um bocado sozinha com ela antes de a famlia chegar. Decerto que compreende.
 Claro.  A enfermeira acenou, compreensiva.  Tenho visto fotografias suas. Maria adora mostrar-nos fotografias. A senhora parece...  Hesitou, desconfortvel,
como se tivesse compreendido de repente que estava prestes a cometer uma indiscrio.
 Mais velha?  sugeriu Sofia, tentando ajud-la.
 Talvez  murmurou a enfermeira, com as faces muito coradas.  Eu sei que ela ficar muito feliz por v-la. Porque no sobe?  no segundo andar, quarto 207.
 Como est ela?  perguntou Sofia, cautelosamente, desejando preparar-se um pouco antes de ver a prima.
  uma senhora muito corajosa, e muito popular. Toda a gente ganhou uma estima imensa pela Seora Maraldi.
Sofia dirigiu-se para o elevador. Seora Maraldi  o nome soava-lhe a estrangeiro e, de repente, sentiu que Maria estava ainda mais longe do seu alcance, como
um barquinho que desaparecesse no nevoeiro. Em Inglaterra, Sofia tentara absorver a notcia da doena da prima, mas parecera to afastada da sua vida que no a tinha
tocado como a tocava naquele momento. O cheiro de detergente, o som dos seus sapatos nos brilhantes soalhos de plstico, que forrava os compridos corredores do hospital,
as enfermeiras de expresso decidida que andavam para trs e para diante com tabuleiros de medicamentos, a melancolia que sempre paira naqueles lugares penetraram
no seu entendimento e, de repente, sentiu medo. Medo de ver a prima depois de tanto tempo. Medo de no a reconhecer. Medo de no  a reconhecer. Medo de no ser bem-vinda.
Sofia hesitou  porta, sem saber o que ia ver do outro lado. Com alguma dificuldade, reuniu a sua pouca coragem e entrou. A meia-luz matinal viu uma figura que no
reconheceu deitada debaixo de lenis brancos. Pensou que tinha tolamente invadido o quarto de alguma pobre invlida que dormia tranquilamente na sombra. Embaraada,
sussurrou uma desculpa rpida. Mas, quando estava para se virar e sair, uma vozinha fraca chamou-a pelo nome.
 Sofia?
421
Sofia virou-se e pestanejou para ver melhor. Deitada na cama estava realmente a sua anglica amiga, magra e com mau aspecto, que lhe sorria. Sufocada, correu aos
tropeos para a beira da cama e, ajoe-lhando-se no cho, enterrou a cara na mo estendida de Maria. Maria estava demasiado abatida para dizer mais alguma coisa e
Sofia estava demasiado comovida para olhar para ela. Ficou ali durante muito tempo, esmagada pelo que via. A doena de Maria tinha-a mudado: parecia to diferente
que Sofia nem sequer a tinha reconhecido.
Sofia demorou um bocado a recuperar a calma. A certa altura, conseguiu levantar os olhos para a prima, mas perdeu outra vez o controlo; entretanto, Maria mantinha-se
calma e serena, enquanto Sofia se entregava ao desgosto. Plida e emaciada, Maria estava ali deitada a sorrir, apesar do destino cruel que lhe roubava a vida.
 Desejei tanto que voltasses. Senti tanto a tua falta, Sofia  sussurrou ela, no porque no tivesse fora para falar, mas porque o momento era demasiado sagrado
para o agredir com palavras ditas em voz alta.
 Oh, Maria, tambm eu senti a tua falta. No fazes ideia  fungou Sofia.
 Que engraado, falas espanhol com sotaque  exclamou.
 Falo?  perguntou Sofia com tristeza. Mais um pedao do seu lar que perdera pelo caminho.
 Quem te disse?  perguntou Maria, olhando para os olhos plidos de Sofia.
 A tua me... escreveu-me.
 A minha me? Nem sequer sabia que ela tinha o teu endereo. Deve ter guardado segredo, para o caso de tu no vires. Qu divina  disse ela, e sorriu, aquele sorrisinho
de gratido de uma jovem que valoriza cada gesto de bondade porque, frente  morte, o amor  o nico conforto.  Ests com to bom aspecto!  Passou a mo pela face
de Sofia, limpando-lhe as lgrimas.  No estejas triste, estou mais forte do que pareo.  porque fiquei sem cabelo.  Sorriu com malcia.  Agora no tenho de
preocupar-me a lav-lo...  um alvio!
 Vais ficar boa  insistiu Sofia. Maria abanou a cabea com tristeza.
 No vou ficar boa, agora no. Na verdade, sou um caso desesperado, vo mandar-me para casa, para Santa Catalina.
422
 Mas ho-de poder fazer alguma coisa! No podem desistir. Tens tantas razes para viver.
- Eu sei. Os meus filhos, para comear. Preocupo-me constantemente com eles. Mas eles vo crescer rodeados de amor. Eduardo  um bom homem. No vamos ficar aqui
s a ver o lado negativo, no vale a pena. Vieste para casa,  tudo o que interessa. Neste momento, sinto-me muito feliz.  E os seus grandes olhos brilhavam de
lgrimas.
 Fala-me do teu marido. Sinto que te perdi ao longo dos anos. Por favor, fala-me dele.
 Bem,  mdico,  alto, desajeitado e bondoso. No poderia amar homem nenhum mais do que amo Eduardo. Faz-me sorrir por dentro. Tem sido muito forte durante todo
este sarilho.
 E os teus filhos?
 Temos quatro.
 Quatro!  exclamou Sofia, impressionada.
 No h nada neste pas, com certeza que te lembras...
 Custa a acreditar que o teu corpo to pequeno conseguisse produzir tantos.
 Nessa altura no era pequeno, garanto-te. Nunca fui pequena.  Maria riu-se.
 Quero v-los a todos. Quero conhec-los a todos. Tambm so meus primos.
 Vais conhec-los, sim. Vais conhec-los a todos em Santa Catalina. Eles vm ver-me todos os dias. Eduardo vai chegar de um momento para o outro. Vem de manh e
depois de almoo e passa a maior parte do sero comigo. Tenho de dizer-lhe que v para casa ou trabalhar. Anda com um ar to cansado! Preocupo-me com ele. Preocupo-me
ao pensar como vai ele lidar com a situao quando eu partir. Ao princpio, ele foi o rochedo a que me agarrei, mas agora, apesar da minha doena, acho que sou eu
o rochedo dele. No suporto a ideia de deix-lo sozinho.
 No posso acreditar na calma com que falas acerca de morreres  disse Sofia em voz baixa e o seu corao foi inundado de amor e tristeza. Humilhada pela coragem
de Maria, reflectiu no seu prprio orgulho egosta, na mesquinhez que agora lhe parecia to
423
grosseira. Oh, a frustrao da percepo que nos permite ver o erro das nossas atitudes quando  demasiado tarde para as corrigir, pensou ela, desgostosa. Nenhuma
delas ousou falar de Santi.
 E que aconteceu  Sofia com quem cresci? Quem domou o teu esprito?
 Maria, no costumavas ser to forte. Por Dios, eu  que era sempre a forte.
 No, sempre fingiste ser forte, Sofia. Eras marota e rebelde porque ansiavas que a tua me te prestasse ateno. Ela dava-a toda aos teus irmos.
 Talvez.
 Tive os meus momentos de desespero, de medo, acredita. Perguntei Porqu eu? Que fiz eu para merecer um fim to desgraado? Mas, no fim, temos de enfrentar, aceitar
e tornar os nossos ltimos dias to felizes quanto possvel. Pus a minha confiana em Deus. Sei que a morte no passa de uma passagem para outra vida. No  adeus,
mas sim at qualquer dia. Tenho f  disse serenamente, e Sofia acreditou que a prima tinha, de facto, encontrado uma forma de paz interior.
 E tu, casaste com um produtor teatral?  disse Maria vivamente.
 Como sabes?  perguntou Sofia, surpreendida.
 Porque apareceu num jornal um artigo sobre ti durante a guerra das Malvinas.
  verdade?
 Sim, uma argentina a viver em Inglaterra durante o conflito. Tinha uma fotografia. Todos ns a vimos.
 Que estranho. Pensei tanto em vocs nessa altura. Sentia que estava a trair o meu pas  confessou Sofia, recordando aquele perodo difcil em que estivera dividida
entre a sua terra natal e a sua nova terra de adopo.
 V como ests inglesa. Quem diria? Como  ele?
 Oh,  muito mais velho que eu. E bondoso, muito inteligente, um pai maravilhoso. Trata-me como uma princesa  disse Sofia, orgulhosamente, e recordou a imagem
do rosto inteligente de David.
 Que bom. Quantos filhos?
424
 Duas meninas. Honor e ndia.
 Que nomes lindos. Honor e ndia  repetiu.  Muito britnicos.
 Sim, so  respondeu e recordou ndia a chorar no aeroporto. Sentiu-se momentaneamente debilitada por um aperto de ansiedade, at que as perguntas de Maria a trouxeram
de novo para o presente.
 Sempre soube que terias alguma coisa a ver com o teatro. Foste uma prima-dona desde que nasceste, lembras-te de todas as peas que representmos quando ramos
crianas?
 Eu era sempre o rapaz  disse Sofia a rir.
 Pois, os rapazes nunca queriam juntar-se a ns. Como era embaraoso!  suspirou.  Lembras-te de obrigares os adultos a pagarem para nos verem?
 Lembro, sim. O que fizemos ao dinheiro?
 Bem, destinava-se a aces de caridade. Acho que o gastmos no kiosco.
 Lembras-te quando Fercho subornou Agustin para atravessar todo nu a nossa dana final?
 Sim, lembro. Querido Fercho. Sabes que est no Uruguai?  Maria suspirou com tristeza.
 Sim, sei. Estive com Eva Alarcon... lembras-te de Eva, no lembras?
 Claro. Casou com o teu Roberto.
 Nunca foi o meu Roberto  disse Sofia, na defensiva.  Seja como for, estiveram em Inglaterra e contaram-me algumas coisas.
 Agustin continua em Washington. Vem visitar-nos mais ou menos uma vez por ano, embora a mulher no goste muito. Pobre Agustin... quando tem autorizao para vir
a casa, vem sozinho. Acho que a mulher dele no  muito simptica. Agustin merecia melhor. Mas Rafa est c com Jasmina. Tem filhos to lindos! Vais adorar Jasmina.
Maria contou a Sofia tudo o que conseguiu acerca do passado. Queria contar. Achou que, se contasse  prima, talvez ela se sentisse mais integrada e que, talvez assim,
os anos no parecessem tantos e o tempo to longo. Sofia ouvia, muitas vezes comovida, por vezes di-
425
vertida, enquanto a prima lhe contava a sua vida e as vidas da sua famlia desde que Sofia lhes tinha sido tirada.
Quando acabou, Sofia ainda estava ajoelhada ao lado da cama, segurando com fora a mo descarnada da prima. Maria costumava ser cheia de curvas, feminina, como
Paco uma vez lhe chamara. Agora estava magrssima e tinha ficado sem cabelo, mas o seu sorriso continha todos aqueles momentos inocentes que haviam partilhado em
Santa Catalina e ansiava por recuar no tempo e reviv-los de novo.
 Sofia, todos estes anos...  suspirou Maria com tristeza.
 Oh, Maria, nem sei por onde comear a contar-te.  Maria calou-a com um aceno da mo.
 Sofia, lamento tanto.
 Tambm eu. Nunca devia ter ficado longe durante tanto tempo. Devia ter...
 Deixa-me falar, no sabes toda a verdade.  A cara de Maria estava coberta de vergonha.
 Que queres dizer, Maria? Que verdade?
Os olhos cor de avel de Maria, grandes como berlindes, brilhavam de remorso. Engoliu com fora, tentando controlar as suas emoes que lutavam para chegar  superfcie,
trazendo com elas a culpa que, durante anos, lhe tinha atormentado a conscincia como veneno.
 Eu menti-te, Sofia. Menti-te e menti a Santi.  Virou a cara para o lado; no conseguia olhar para a prima; estava demasiado envergonhada.
 Como? Que queres dizer?  De repente, Sofia sentiu uma corrente de ar frio a entrar pela fenda da porta e estremeceu. Por favor, tu no, Maria. Tu no!, rezou
em silncio.
 Quando descobri que tu e o meu irmo tinham sido amantes, fiquei zangadssima. Costumavas contar-me tudo e, nesse assunto, tinhas-me deixado completamente de fora.
Eu fui uma das ltimas a saber e considerava-te a minha melhor amiga.  Lgrimas gordas rolaram-lhe pelas faces abaixo, caindo na almofada.
 Maria, eu no podia dizer-te. No podia dizer a ningum. V a reaco que tiveram. No havia possibilidade de me deixarem casar com o meu primo direito. Era uma
vergonha!
 Eu sei, mas senti-me to excluda, e depois tu foste-te embora. Nunca escreveste. S escreveste a Santi. Nem nunca te deste ao
426
trabalho de me mandar uma linha. Foi como se eu no significasse nada para ti. Absolutamente nada.
De repente, Sofia compreendeu o que Maria tentava dizer.
 Arranjaste maneira de ele no receber as minhas cartas, no foi?  perguntou devagar, mas a sua cabea era um torvelinho. Nunca teria acreditado se Maria no lhe
dissesse pessoalmente. Era to pouco caracterstico dela ser vingativa! Mas, mesmo assim, no conseguia odi-la. Estava a morrer. No podia odi-la.
 Eu vi como a me estava perturbada. Estava inconsolvel. Todos ns nos sentimos trados. Entristecidos. Isto desfez a nossa famlia. A me e Anna mal falaram uma
com a outra durante um ano! E demorou anos, literalmente, at que a vida regressasse ao normal. Santi tinha um futuro brilhante. O pai estava desesperado por ele
ir deitar tudo fora por tua causa. Por isso escrevi e...
 Disseste-me que ele se tinha apaixonado por Mxima Marguiles. A carta que tinha destrudo todos os sonhos de Sofia, como um
espelho que reflectisse os seus mais intensos desejos e se desfizesse em mil pedaos. O ano que passara, a -seguir, em Londres, fora o mais triste de toda a sua
vida. No admirava que Santi nunca tivesse escrito; estava  espera de receber notcias dela. No tinha maneira de saber como contact-la. Afinal, devia ter esperado,
tal como ela. No tinha deixado de am-la.
O peso destas revelaes esmagou-lhe o esprito e sentou-se no cho, muda de descrena, vazia de qualquer sentimento. Tinha dado o filho porque acreditara que ele
no os queria. Mas ele tinha-os querido. Os ltimos vinte e trs anos tinham sido vividos em resposta a um mal-entendido, em resposta a uma mentira. Maria nunca
saberia o que tinha feito.
 Por favor, perdoa-me, Sofia. Por favor, tenta compreender porque fiz o que fiz. Menti. Ele nem sequer conhecia nenhuma Mxima Marguiles. Estava infelicssimo sem
ti.  Maria inspirou fundo e fechou os olhos. Que frgil era o seu aspecto e como parecia cansada! A pele dela estava macilenta e sem vida; quando tinha os olhos
fechados, parecia quase morta,  excepo do delicado subir e descer do peito quando respirava.
427
Sofia deixou-se cair no cho de linleo frio, recordando aquelas longas horas passadas a desejar e a rezar para que ele viesse e a encontrasse. No admirava que
nunca tivesse vindo.
 Mas tu podias ter regressado, Sofia. No precisavas de fugir para sempre.
 Maria, eu nunca fugi! Eu fui mandada embora  disse Sofia em voz brusca, irritada.
 Mas no voltaste. Porqu, este tempo todo? Por favor, diz-me que no foi s por minha causa.  Maria abriu os olhos e olhou para a prima, numa splica.  Por favor,
diz-me que no foi por causa do que te disse.
 Eu no voltei porque...
 Tinhas tudo aqui, toda a gente te amava, porque deitaste tudo fora?
- Porque...  disse Sofia, engasgada, desesperada.
 Quando o tempo atenuou os vossos sentimentos um pelo outro, porque no regressaste? Senti-me to culpada durante tanto tempo! Por favor, diz-me que no foi porque
me desprezaste. Porqu, Sofia, porqu?
 Porque, se no podia ter Santi, no queria a Argentina nem Santa Catalina. Sem ele, aqui no havia nada para mim.
Maria olhou para Sofia e a sua expresso passou de autopiedade para assombro.
 Tu amavas o meu irmo assim tanto? Lamento  disse em voz baixa.
Sofia no conseguia falar. A sua garganta estava toda contrada, deixando-a atordoada de angstia. Maria olhava para a prima com uma expresso solcita nos olhos.
 Nesse caso foi culpa minha  disse tristemente.  Eu enganei-me. No tinha o direito de me imiscuir na tua vida. No tinha o direito de te tirar o teu amor.
Sofia abanou a cabea e sorriu amargamente.
 Ningum mo tirou, Maria. Amarei Santi at  morte.
Estas palavras mal tiveram tempo de assentar quando a porta se abriu e Santi entrou. Sofia ainda estava sentada no cho. A luz do Sol
428
inundava agora o quarto e ela franziu a cara por causa da sua intensidade. Ao princpio, ele no a reconheceu. Sorriu educadamente, mas os seus olhos verdes revelavam
uma certa tristeza que antes no estivera neles. O fulgor da juventude tinha sido substitudo por linhas e rugas que davam ao seu rosto uma sabedoria e um encanto
de homem maduro. Tambm estava mais pesado do que nos outros tempos, mas continuava a ser Santi, o mesmo, o insubstituvel Santi.
Depois, uma centelha de reconhecimento atingiu-lhe a cara e as suas faces ficaram muito coradas antes de perderem toda a cor.
 Sofia?  gaguejou.
 Santi.
Sofia queria correr para os braos dele e mergulhar no seu cheiro familiar, mas uma mulher pequena, de cabelo escuro, entrou no quarto atrs dele, seguida por um
homem alto e magro, e ela no teve outra alternativa que no fosse ficar ao lado de Maria.
 Sofia, apresento-te Claudia, a mulher de Santi, e Eduardo, o meu marido  disse Maria, detectando o desconforto da prima.
Nada podia ter preparado Sofia para aquele momento. Embora soubesse h anos que ele tinha casado, tal como ela, nos seus sonhos Santi estava sempre disponvel para
ela. Afogada em desiluso, controlou-se. Apertou-lhes a mo, ignorando deliberadamente o costume argentino dos beijos. No seria capaz de beijar a mulher que tinha
ocupado o seu lugar no corao de Santi.
 Tenho de ir, Maria  disse, desesperada por sair do quarto. Tinha de sair. Tinha de ficar sozinha para pensar maduramente em tudo aquilo.
 Onde vais ficar?  perguntou a moribunda, preocupada.
 No Alvear Palace Hotel.
 Talvez Santi te leve a Santa Catalina, no levas, Santi? Acenou que sim, perplexo, sem tirar os olhos de cima dela.
 Claro  disse entre dentes. Quando, ao sair, Sofia passou por ele, fixaram os olhos um no po eum segundo, como tinha sucedido tantas vezes no passado, e neles
ela reconheceu o Santi com quem tinha crescido e que amava. Naquele breve instante compreendeu que ia sofrer, agora, ainda mais do que quando tinha partido, h vinte
e trs anos.

CAPTULO TRINTA E SETE
Quinta-feira, 6 de Novembro de 1997
Sofia regressou ao Alvear Palace Hotel emocionalmente esgotada. Chegada ao quarto, despiu a roupa, engelhada e transpirada da viagem, e meteu-se debaixo do chuveiro.
Deixou que a gua lhe fustigasse a pele e a envolvesse em vapor. Queria perder-se. Queria que a cara de Santi desaparecesse no vapor. E, mesmo assim, as lgrimas
vinham-lhe aos olhos com a mesma rapidez que a gua, e a cara de Santi mantinha-se agarrada aos seus pensamentos. Sabia que devia parar, mas deu-se ao luxo de soluar
alto e em privado. Quando saiu do chuveiro, a sua pele estava enrugada como a de um rinoceronte e tinha os olhos doridos de tanto chorar.
Sofia no esperara ver Santi. No sabia quando esperava v-lo, mas decerto no na primeira hora que passasse no pas. Os seus nervos no estavam preparados para
o duplo choque. O corpo moribundo de Maria seria suficiente sem o aparecimento do homem que nunca tinha deixado de amar. Esperava v-lo mais tarde, depois de ter
tempo para se preparar. Devia estar com um aspecto horrvel. Encolheu-se toda. Sempre fora vaidosa e, embora as suas vidas tivessem seguido caminhos diferentes,
ainda queria que ele a desejasse.
Pelo que Maria lhe dissera, cada um deles acreditara que o outro o tinha trado. Agora que a verdade era conhecida, que estaria ele a pensar? Suponhamos que tivesse
esperado at se ter, de facto, convencido de que ela o tinha esquecido. Suponhamos que ele esperava o seu regresso e que os anos tinham passado sem uma palavra.
Sofia
430
mal conseguia pensar nisso, sem se sentir doente de desejo de abra-lo e falar-lhe dos meses que esperara as cartas dele, at que, nunca tendo recebido nada, acabara
por desistir por completo. Tantos anos perdidos. E agora?
Estendeu a mo para o telefone. Queria falar com David, s para ouvir a voz dele. Pressentia o perigo de voltar a ver Santi e no confiava em si mesma. Ia para marcar
o nmero quando o telefone tocou. Suspirou e levantou o auscultador.
 O Seor Rafael Solanas est na recepo para falar com a senhora  disse o recepcionista.
 Na recepo?  As notcias corriam em Buenos Aires: o irmo tinha-a encontrado.   melhor dizer-lhe que suba  respondeu.
Sofia enfiou o roupo de pano turco do hotel e escovou o cabelo hmido para o tirar da cara. Estudou os olhos inchados ao espelho. Como podia esperar que Rafael
a reconhecesse se no se reconhecia a si mesma? Que diria ele? No o vira nem soubera nada dele durante tanto tempo que lhe parecia uma vida inteira.
Ele bateu  porta, mas ela ficou  espera. Ficou ali por uns instantes, a olhar para a porta como se esta se abrisse sozinha. Quando ele voltou a bater, agora com
impacincia, teve mesmo de abrir. Quando o irmo entrou, ficaram a olhar um para o outro por um momento. Os anos no o tinham mudado. Era obviamente feliz e a sua
felicidade irradiava  sua volta como uma aura que se estendeu para ela e a engoliu. Ele sorriu e abraou-a, levantando-a no ar. Sofia sentiu-se como uma criana,
com os ps a baloiar no ar. Respondeu involuntariamente com igual afecto e beijou-o. O fosso que o tempo tinha aberto entre ambos parecia s ter existido na cabea
dela.
Passado algum tempo, riram-se os dois cada um com a cara enterrada no corpo do outro.
 Que bom voltar a ver-te  gaguejaram em unssono e, depois, riram-se outra vez. Ele agarrou-a pela mo e puxou-a para a cama, onde passaram as duas horas seguintes
sentados a falar dos velhos tempos, dos tempos presentes e dos anos perdidos. Rafael era um homem muito feliz. Falou-lhe de Jasmina e contou que se tinha apai-
431
xonado por ela no incio dos anos 70, quando Sofia ainda estava em Santa Catalina. Lembrou-lhe que ela era filha do eminente advogado Ignacio Pena.
 A mam teve uma quebreira de tanta satisfao  disse ele.  Sempre tinha admirado Alicia Pena.
Sofia recordou o pretensiosismo da me e contraiu-se, mas Rafael parecia flutuar acima dessas trivialidades, como s uma pessoa verdadeiramente feliz consegue. Tinha
cinco filhos  a mais velha com catorze anos, o mais novo apenas com dois meses. Sofia achou que ele no parecia ter idade para ter uma filha de catorze anos.
 Sabes que vo levar Maria para Santa Catalina logo  tarde?  perguntou ele, por fim. Tendo evitado o assunto, foram cruelmente atirados de novo para o presente.
 Sei  respondeu, sentindo que o prazer do seu reencontro se desfazia ao recordar a sua visita matinal ao hospital.
 Lamento, mas ela vai morrer, Sofia, porm ser um alvio para ela. Tem estado to doente! Tem tido tantas dores!
 Sinto-me culpada, Rafa. Se soubesse que ela ia ter uma vida to curta, nunca teria sido to egosta. No devia ter-me mantido afastada tanto tempo. Quem me dera
ter vindo mais cedo.
 Tiveste as tuas razes  disse ele sem amargura.
 Quem me dera ter partilhado a vida dela. ramos as melhores das melhores amigas. Sinto uma perda to grande!
 A vida  demasiado curta para arrependimentos, costumava dizer o nosso av. Lembras-te?  Ela acenou.  Ests aqui agora, no ests?  Olhou a irm com ternura
e sorriu.  No precisas de voltar para Inglaterra. Agora ests em casa.
 Oh, acabo por ter de ir, as meninas vo encostar David  parede!
 So minhas sobrinhas, fazem parte da minha famlia, tambm tm de vir para casa, Sofia. O teu lugar  em Santa Catalina. Devem vir todos para aqui, viver aqui.
 Falava tal como o pai, pensou ela.
 Rafa, isso  impossvel, agora a minha vida  em Inglaterra. Sabes isso.
 No tem de ser. J viste o Santi?
Sofia sentiu as faces a arder  meno do nome dele. Tentou ter uma atitude natural.
432
 Sim, por uns instantes, no hospital  disse em tom descontrado.
 Conheceste a Claudia?
 A mulher dele? Sim. Pareceu-me... muito simptica.
O irmo no notou a dificuldade que ela tinha em falar de Santi, para j no referir a mulher dele. Para Rafael, o caso dela com Santi fazia parte de outra vida
que todos tinham partilhado outrora, mas que agora estava to longe que j no contava. No suspeitou, nem por um segundo, do amor que ardia nela sempre que pensava
em Santi, como se, com os muitos anos passados, tambm isso tivesse passado para a memria distante.
 Vou a Santa Catalina hoje  tarde. Vens comigo?  perguntou ele, despreocupadamente. Ela sentiu-se aliviada por no ter de ir com Santi. Ainda no estava pronta
para o confronto.
 No sei. H anos que no vejo a me e o pai, nem sequer sabem que estou aqui.
 Nesse caso ser uma surpresa.  O rosto dele brilhou de alegria.
 Mas no agradvel, acho. Mas sim, vou por causa de Maria.
 ptimo. Almoamos tarde. Jasmina e as crianas j esto na quinta. Como  quinta-feira, tivemos de ir busc-las  escola para poderem l estar quando Maria chegar.
 Estou ansiosa por conhec-las a todas  disse ela muito depressa, tentando parecer entusiasmada.
 Vo adorar-te, tm ouvido falar muito de ti.
Sofia perguntou a si mesma o que teriam exactamente ouvido. Mais tarde, antes de seguir para o campo, telefonou a David. Disse-lhe que tinha saudades dele, o que
era verdade, tinha mesmo, e de repente desejou que ele tivesse vindo com ela.
 Querida, ests melhor sozinha. Precisas de tempo para estar sozinha com a tua famlia  respondeu David, comovido por saber que ela precisava de si. E no sabia
quanto...
 No sei se afinal quero isso  disse ela, roendo o polegar ansiosamente.
 Querida, claro que queres, s que ests assustada.
 Ests to longe.
433
 Agora ests a ser tola.
 Quem me dera que estivesses aqui. No quero passar por isto sozinha.
 Vai correr tudo bem. De toda a maneira, se for assim to mau, podes apanhar o prximo avio de regresso.
 Tens razo... posso, no posso?  respondeu ela, aliviada. Se as coisas se tornassem difceis, podia ir-se embora; simples! Afinal, j o tinha feito antes. David
passou o telefone s filhas que tagarelaram entusiasticamente, sem conscincia do preo da chamada. Dougal, o novo cachorro spaniel, j tinha comido a maior parte
das meias de David e conseguiu chegar ao fio do telefone para o roer tambm.
 Foi um milagre conseguires ligar  disse Honor, s gargalhadas. Quando Sofia pousou o auscultador, sentia-se muito mais forte.
Buenos Aires perturbava-a. Sentia-se uma turista na cidade em que antes estivera integrada. Conhecia todas as ruas secundrias e via as sombras do passado que perseguiam
os passeios e as praas, reproduzindo cenas de h muito. Interrogava-se se Santa Catalina evocaria as mesmas sensaes; esse pensamento perturbava-a.
Mas, para seu encanto, o percurso para o campo foi-se-lhe tornando cada vez mais familiar. Deixaram para trs a cidade esparramada e doentia, passando cada vez por
menos casas, at chegarem s longas estradas rectas da sua juventude que cortavam as plancies como cicatrizes antigas. Respirou mais uma vez os conhecidos aromas
da sua infncia. A erva adocicada, a poeira e os inconfundveis eucaliptos embriagadores.
Quando chegaram aos portes de Santa Catalina, foi como se aqueles vinte e trs anos no tivessem passado de um sonho. Nada tinha mudado. Os cheiros, o sol filtrado
em raios transparentes por entre a avenida de aceres, assentando no caminho poeirento, os ces escanzelados, os campos cheios de pneis e, quando se aproximaram,
a prpria casa, o seu lar, estava exactamente igual  que deixara.
Nada tinha mudado.
Abrandaram diante da casa e estacionaram  sombra de um dos eucaliptos altos. Sofia reparou num grupo de crianas a brincarem nos baloios do parque; reconheceram
o carro e aproximaram-se
434
a correr. Quase atiraram Rafael ao cho no seu entusiasmo por abra-lo. Sofia percebeu imediatamente que duas eram filhos dele. A menina era loura e tinha uma expresso
maliciosa; o seu irmo mais novo tinha o cabelo arruivado como a av.
 Clara, Felix, cumprimentem a tia Sofia.
O rapazinho, embaraado, enrolou-se  volta das pernas do pai, por isso Sofia s lhe sorriu. Mas a menina avanou ousadamente para ela e beijou-a.
 Se s minha tia, como  que nunca te tinha visto?  perguntou, olhando-a olhos nos olhos.
 Porque vivo em Inglaterra  respondeu ela.
 A av viveu na Irlanda, sabes? Conheces a av?
 Sim, conheo a av...  a minha me. Sabes, o teu pai e eu somos como tu e o Felix, irmo e irm.
Clara semicerrou os olhos e analisou-a em pormenor.
 Ento, como  que nunca ningum falou de ti at agora? Sofia olhou de relance para Rafael e, pela expresso da cara dele,
ficou a saber que a pequena Clara era uma ameaa.
 No sei, Clara, mas garanto que agora todos vo falar de mim. Os olhos da criana arregalaram-se com a lufada de escndalo e,
agarrando na mo de Sofia com todo o entusiasmo, anunciou que os avs estavam a tomar ch no terrao.
De uma estranha maneira, aquela criana, talvez de dez anos, transmitiu confiana a Sofia. Recordava-lhe ela prpria com a mesma idade  mimada e imprevisvel. Sentiu
que as vidas daquelas crianas reflectiam a sua prpria infncia. Lembrou-se de que costumavam brincar nos baloios, correndo em grupos de um lado para o outro,
tal como elas. Santa Catalina no tinha mudado absolutamente nada, s as pessoas mudavam sempre que surgia uma nova gerao que crescia ali, como uma pea de teatro
que evolusse diante de um cenrio permanente.
Sofia seguiu Clara, que deu a volta at  frente da casa. Mais tarde, rir-se-ia ao recordar as expresses dos rostos dos seus pais, sentados na tranquilidade das
longas sombras da tarde, contemplando, de olhar perdido como sempre, as plancies distantes. Um caracterstico dia na quinta, nada de invulgar, nada que perturbasse
a sua rotina ou,
435
pelo menos, assim pensavam. Ao v-los, tudo lhe voltou  memria e, cheia de confiana, dirigiu-se a eles.
Quando Anna viu Sofia, largou a chvena de ch nas lajes de terracota, partindo a loua em pedaos grandes. Os seus compridos dedos brancos foram direitos ao colar
 volta da garganta e retorceu-o, agitada. Olhou para Paco em busca de orientao. A cara de Paco ficou muito vermelha e ps-se de p, a cambalear. A viso dos seus
olhos tristes e cheios de remorsos foi quanto bastou para abalar o corao distante de Sofia.
 Sofia, no acredito. s mesmo tu?  perguntou em voz rouca, e avanou atabalhoadamente para a beijar. Tal como com Rafael, sentiu-se reagir com um afecto irreprimvel.
 No sabes quanto ansimos por este momento. Tanto, sentimos tanto a tua falta! Sinto-me to feliz por estares em casa  disse ele com genuna alegria.
O seu pai tinha envelhecido de forma to dramtica desde a ltima vez que o vira que Sofia sentiu a sua amargura a desvanecer-se.
Anna manteve-se sentada. Queria beijar a sua menina, tinha imaginado que o faria, mas agora, de repente, a filha estava  sua frente com um olhar distante e ela
no sabia o que fazer.
 Ol, me  disse Sofia em ingls. Como Anna no se tinha posto de p para saudar a filha, Sofia no se aproximou dela.
 Sofia, que surpresa. Gostava que nos tivesses avisado  disse, confusa, depois desejou no ter dito aquilo. No era o que queria dizer. Alisou ansiosamente o cabelo
cor de ferrugem, preso na nuca num carrapito severo. Sofia tinha esquecido como os seus olhos azuis eram frios. Apesar dos muitos anos que deviam ter esbatido as
suas diferenas, no sentiu qualquer afecto por Anna. Para ela, era uma estranha. Uma estranha que evocava algum do seu passado e que tinha sido sua me.
 Eu sei. Mas no houve tempo  respondeu com frieza, sem saber como interpretar a aparente indiferena daquela mulher.  Seja como for, vim por causa de Maria.
 Claro  replicou a me, recuperando a compostura. De repente, Sofia teve a certeza de ter visto desiluso nas faces de Anna, que ganharam uma cor vermelha que,
depois, se espalhou pela pele difana da garganta.
436
 J a viste? Est to mudada  disse Anna com tristeza, lanando um olhar para a plancie como se desejasse estar muito longe, entre a erva alta e os animais da
pampa.
 Sim, vi  respondeu Sofia, sentindo-se criticada. Baixou os olhos e, de repente, uma avassaladora sensao de perda comprimiu-lhe o peito. Maria tinha-lhe mostrado
como a vida humana era frgil e precria. Olhou para a me e o seu ressentimento diminuiu.
Nesse momento, Soledad entrou de rompante para limpar os cacos, avidamente seguida por uma Clara sobreexcitada.
 Devias ter visto a cara da abuelita. Ficou branca e depois deixou cair a chvena... imaginte...
Soledad no tinha envelhecido, mas tinha-se expandido como uma vaca premiada numa festa da aldeia. Quando viu Sofia  sua frente, os seus olhos castanhos desfizeram-se
num rio de lgrimas que lhe caam em cascata pela cara abaixo e sobre o sorriso rasgado da sua boca escancarada de surpresa.
Puxou Sofia para aquele peito que ela conhecia to bem e soluou descontroladamente.
 No acredito. Obrigada, meu Deus. Obrigada por me teres devolvido a minha Sofia  exclamou.
Clara ps-se aos saltos com a excitao, enquanto as outras crianas que tinham estado a brincar com ela nos baloios se juntavam  sua volta, assombradas.
 Clara, vai dizer a toda a gente que Sofia voltou  disse Rafael  filha, que se dirigiu imediatamente aos primos e delegou neles a tarefa. Eles saram com relutncia,
a arrastar os ps, seguidos por alguns ces escanzelados que lhes farejavam os calcanhares.
 Tia Sofia, toda a gente est muito satisfeita por te ver  disse ela a rir-se, enquanto Soledad apanhava a loua partida com mos trmulas.
Sofia sentou-se  mesa  a mesma a que se sentara tantas vezes h tantos anos  e puxou a menina para os seus joelhos. Anna observava-a com circunspeco, enquanto
Paco segurava a mo da filha entre as suas, agora sem conseguir encontrar palavras para dizer. Estavam os dois sentados em silncio, mas as lgrimas de Paco comunicaram
com Sofia mais do que todas as palavras que ele pudesse dizer. Rafael serviu-se calmamente de bolo.
437
 Porque est o abuelito a chorar?  sussurrou Clara para o pai.
 So lgrimas de alegria, Clara. A tia Sofia esteve fora durante muito tempo.
 Porqu?
Sofia reparou que a pergunta lhe era dirigida.
  uma longa histria, gorda. Talvez um dia eu te conte  respondeu, e cruzou o olhar com a me.
 Isso seria altamente incorrecto, no achas?  disse Anna em ingls, mas no estava a critic-la. Estava a tentar exibir algum sentido de humor.
 Eu compreendi isso  disse Clara, a rir e claramente divertida com a cena. Quanto mais intriga pressentia, mais gostava da sua nova tia.
Antes que a conversa a metesse em maiores sarilhos, comearam a chegar pessoas de todos os cantos da quinta. Grupos de crianas curiosas, sobrinhos e sobrinhas de
Sofia, Chiquita e Miguel  um Panchito muito alto e, para seu horror, uma bela e radiosa Claudia. Sofia ficou comovida com a recepo, cujo calor nunca poderia ter
previsto ou esperado. A sua tia Chiquita abraou-a durante muito tempo. Nos seus olhos Sofia viu que lhe estava grata por ter vindo a casa para reconfortar Maria
e acompanh-la nos seus ltimos dias. Tinha um aspecto cansado e tenso e a expresso do seu rosto era sombria, quando outrora tinha sido de uma suave beleza. Chiquita
sempre fora serena, como se o mundo cruel nunca tivesse invadido a sua existncia benevolente. A doena de Maria tinha-a praticamente desfeito.
Sofia no podia deixar de notar o encanto de Claudia; era tudo o que Sofia no era. Era feminina, vestia um vestido do mesmo estilo do que Sofia usara para dar as
boas-vindas a Santi quando ele regressara da Amrica e que ele tinha detestado. O seu cabelo preto era comprido e usava-o solto e estava maquilhada, mas sem exagero.
Se Santi tinha tentado encontrar uma mulher nada parecida com ela, no poderia ter feito melhor trabalho. Sofia desejou ter-se esforado mais para recuperar a linha
depois do nascimento de ndia.
Embora Claudia se mantivesse a uma certa distncia, Sofia pressentia todos os seus movimentos. No sabia se Santi lhe tinha conta-
438
do a histria toda, mas os cimes faziam com que desejasse que ela a soubesse. Queria que ela compreendesse que Santi estivera sempre destinado para si, que Claudia
fora a sua segunda escolha, uma substituta. No suportava falar com ela, por isso desviou a ateno para as crianas, mas, tal como um animal que marca o territrio,
Claudia estava encrespada de desconfiana por detrs daqueles olhos frios e sorridentes.
Sofia reconheceu imediatamente um dos filhos de Santi pela maneira como caminhava. Lento, inclinado para trs e cheio de confiana. Devia ter cerca de dez anos.
Sussurrou qualquer coisa ao ouvido de Clara, que o chamou com ar autoritrio.
 Deves ser filho de Santi  disse Sofia, sentindo uma dor mordente no peito, pois nesta criana via como podiam ter sido os filhos dela.
 Sou, sim. Quem s tu? - respondeu ele com arrogncia, afastando o cabelo louro dos olhos.
 Sou a tua prima Sofia.
 Como  que podes ser minha prima?
 E minha tia. Tia Sofia  disse Clara a rir, agarrando afectuosamente na mo de Sofia e apertando-a.
O rapaz ficou com ar receoso e semicerrou os seus grandes olhos verdes, desconfiado.
 Ah, s aquela que vive em Inglaterra  disse.
  isso  respondeu Sofia.  Sabes que nem sequer sei o teu nome?
 Santiago.
A cor fugiu do rosto de Sofia.
 Isso faz um pouco de confuso, no faz?
 Acho que sim.
 Ento como  que te chamam?
 Santiguito  respondeu ele.
Sofia engoliu com fora, tentando manter o controlo dos seus sentimentos.
 Santiguito?  repetiu devagar.  s um bom jogador de plo como o teu pai?  perguntou em voz spera, vendo-o mudar o peso de um p para o outro.
439
 Sou. Amanh  tarde jogo com o meu pai. Podes ir ver, se quiseres.
 Gostava muito  respondeu ela. O garoto esboou um sorriso, baixando os olhos.  Que mais fazem vocs? Sabes, quando eu era criana, costumvamos desejar coisas
debaixo do ombu. Tambm fazem isso?
 Oh, no, o pap no nos deixa ir para l. Est para alm dos limites  disse ele.
 Para alm dos limites, quais limites?  perguntou ela com -curiosidade.
 Eu estive l  murmurou Clara, toda orgulhosa.  O pap diz que o tio Santi est zangado com a rvore porque uma vez fez um pedido que no se realizou.  por isso
que no nos deixa ir visit-la. Deve ter sido um pedido muito importante para ele ficar to zangado.
De repente, Sofia sentiu-se enjoada e a precisar de espao. Afastou suavemente Clara dos seus joelhos e dirigiu-se em passo rpido para a cozinha, embatendo de frente
em Santi.

CAPTULO TRINTA E OITO
 Santi  disse, engasgada, pestanejando para afastar a nvoa dos olhos.
 Sofia, ests bem?  perguntou ele, rapidamente. As mos dele seguraram-lhe os antebraos com mais fora do que queria e os seus olhos analisavam o rosto dela,
como se sondassem as suas feies, em busca dos seus pensamentos.
 Oh, estou bem  gaguejou ela, resistindo ao impulso de se lanar nos seus braos, como se aqueles vinte e trs anos tivessem sido um simples pestanejar de olhos
do tempo.
 Calculo que tenhas vindo com Rafa. Telefonei para o hotel, mas j tinhas sado  disse ele, incapaz de disfarar a desiluso da sua voz.
 Oh, sim  respondeu Sofia.  Desculpa, eu no...
 No tem importncia, no te preocupes  tranquilizou-a ele. Seguiu-se um desconfortvel momento de silncio, durante o qual nenhum deles conseguia lembrar-se de
nada para dizer. Sofia olhou desamparadamente para ele, pestanejando, e ele respondeu com um sorriso tmido, sentindo-se incorrecto.  Para onde vais com tanta pressa?
 acabou por perguntar.
 Queria ver Soledad. Na verdade, ainda no tive possibilidade de conversar com ela. Lembras-te de como ns ramos chegadas?
 Sim, lembro-me, de facto  disse ele, e os seus olhos verdes como o mar fixaram-se nos dela como a luz de um farol a encaminh-la para casa.
Foi a primeira referncia ao passado. Ela sentiu a garganta seca ao recordar com tristeza que fora Soledad a entregar-lhe a nota de-
441
sesperada que ela lhe enviou, naquela noite em que se tinham encontrado pela ltima vez. Sentiu-se mergulhar no olhar dele. Ele tentava comunicar qualquer coisa
sem conseguir encontrar as palavras prprias. Ela queria falar do passado , mas ainda no era o momento certo. Sentindo vinte pares de olhos que os observavam do
terrao, acautelou-se a si mesma contra o risco de revelar de mais. Viu o sofrimento e os anos de solido gravados em rugas na testa dele e  volta dos olhos e desejou
passar os dedos sobre elas para as apagar. Queria que ele soubesse que tambm ela tinha sofrido.
 Conheci o teu filho... Santiguito.  to parecido contigo  disse,  falta de melhor assunto. Os ombros dele descaram de desiluso por a conversa ter sido, mais
uma vez, reduzida a temas sociais. De repente retirou-se para a indiferena. Uma parede ergueu-se de imediato entre eles, e Sofia no sabia porqu.
 Sim,  um bom rapaz, joga plo bastante bem  respondeu em voz neutra.
 Disse-me que iam jogar os dois amanh  tarde.
 Depende do estado de Maria.
Sofia tinha estado to cega com as suas prprias preocupaes que se esquecera completamente de Maria; afinal, Maria era a razo da sua vinda.
 Quando  que a trazem para casa?  perguntou.
 Ao fim da tarde. Tu vens, no vens? Sei que ela vai querer ver-te.
 Claro.
Ele arrastou os ps desconfortavelmente e olhou para as lajes do cho.
 Quanto tempo vais ficar?  perguntou.
 No sei. Vim ver Maria antes de... passar algum tempo com ela. No pensei para alm disso. Lamento  disse, tocando-lhe instintivamente na mo.  Deves estar a
passar um momento horrvel.
Ele recuou e fixou-a com um olhar distante que ainda h um instante transbordava de emoo.
 Bueno, Sofia, at logo  e dirigiu-se para o terrao.
Sofia notou que coxeava mais. Ficou a olhar para ele por um momento. De repente, sentiu-se muito sozinha. No queria entrar ime-
442
diatamente na cozinha, por isso encaminhou-se para o que tinha sido outrora o seu quarto  e descobriu que estava tal como o tinha deixado h vinte e trs anos.
Nada tinha mudado.
O seu corao latejou de excitao. Era como se tivesse aberto uma porta para o passado. Vagueou de um lado para o outro, agarrando em objectos, abrindo armrios
e gavetas; at as loes e os perfumes que ela tinha usado continuavam em cima do toucador. O que mais a sufocou foi o cesto com as fitas vermelhas que sempre tinha
usado no cabelo. Sentou-se diante do espelho e segurou uma entre os dedos. Lentamente, soltou o cabelo at cair sobre os ombros. No estava to comprido como antigamente,
mas conseguiu entran-lo. Atou-o com a fita e ficou sentada, a contemplar a sua imagem.
Passou os dedos pela cara, que outrora resplandecera com o dom da juventude. Agora, a pele era mais fina, mais seca e as rugas  volta dos olhos revelavam os anos
de tristeza e os anos de alegria. Cada emoo estava gravada nas suas feies, como uma espcie de passaporte fsico que revelasse os muitos lugares que tinha visitado
na sua vida. Os fundos lugares de tormento e os altos lugares de jbilo. O riso, as lgrimas, a amargura e, por fim, a humilde resignao que chega quando uma pessoa
compreende que o que se ganha em lutar contra a vida  sempre ftil e autodestruidor. Ainda era bem-parecida, isso reconhecia. A juventude  uma coisa que se toma
como certa e que s se aprecia quando se perde. J tinha sido jovem, jovem, corajosa e obstinada. Olhou para o espelho e desejou poder mergulhar nele e entrar no
passado, para o reviver todo.
Tudo o que estava no quarto a arrastava para aqueles dias lnguidos em Santa Catalina e ela mergulhou no prazer melanclico que lhe davam. No armrio, cada pea
de roupa contava uma histria, como um museu da sua vida. Riu-se ao ver o vestido branco que tinha vestido para o regresso de Santi e que ainda estava enrolado numa
bola no fundo da prateleira, e a pilha de calas de ganga que vestia todos os dias. Claro que, mesmo que quisesse, no caberia em nada, j no usava o nmero 38.
Mas as blusas e as camisolas talvez lhe servissem. Apetecia-lhe vestir tudo e ir para o terrao.
 Quando te mandmos embora, sempre esperei que voltasses.  Sofia voltou-se e deparou-se com a me no limiar da porta com
443
uma expresso de desconforto.  Por isso deixei o teu quarto tal como estava.  Falava em ingls, parecia que sentia alvio em falar a sua prpria lngua. Dirigiu-se
para a janela e passou a mo pelos cortinados  Quando no regressaste, no consegui suportar a ideia de despejar o quarto. Havia sempre a possibilidade de mudares
de ideias. No sabia o que fazer com as tuas coisas. No queria deitar nada fora, para o caso...  A voz dela baixou de intensidade.
 No, est tudo como deixei  respondeu Sofia, sentando-se na cama.
 Sim, aconteceu assim. Nunca tive de desfazer o teu quarto. Agustin vive nos Estados Unidos, agora Paco e eu estamos sozinhos. Podes ficar aqui enquanto quiseres.
A menos que prefiras ficar noutro lado?
 No, na verdade, nem tinha pensado no assunto, portanto assim est muito bem. Obrigada.  Depois, no conseguiu resistir a acrescentar:  Tal como nos velhos tempos.
 Virou-se e, para sua surpresa, a expresso agreste da me suavizou-se e detectou o esboo de um sorriso.
 Esperemos que no  respondeu Anna.
Quando, ao fim do dia, fechou a porta do quarto e se dirigiu para casa de Chiquita, Sofia recordou aqueles dias idlicos em que o seu romance com Santi ainda no
tinha sido descoberto e ela e a me eram amigas. Esse Vero tinha sido o mais feliz da sua vida. Recordou esses dias, e o seu corao encheu-se mais uma vez com
a esperana secreta de que, de alguma forma, pudesse reviv-los.
Maria estava sentada na cama com uma camisa de dormir azul-clara. Tinha um aspecto celestial. Embora no tivesse cabelo, a sua pele estava to translcida como gaze
e os seus olhos castanhos brilhavam de prazer.
 Parece magia, estar em casa  disse ela, arrebatadamente, puxando os dois filhos mais novos para junto de si e beijando as suas caras morenas amorosamente.  Eduardo,
d o lbum de fotografias a Sofia, quero mostrar-lhe os anos que ela perdeu.
Ao contrrio do hospital, o ambiente era de felicidade. A casa de Chiquita estava cheia de calor humano, msica e riso e a noite mer-
444
gulhava nos perfumes doces de erva hmida e jasmim. Santi e Claudia no tinham uma casa de campo prpria, por isso ficavam com os pais nos fins-de-semana e durante
as frias escolares. Sofia compreendia que Santi nunca quisesse ir-se embora dali. Aquela casa era o lar dele e os ecos de uma infncia encantada ainda reverberavam
das paredes.
Santi e Sofia mal trocaram algumas palavras; ela sentou-se a conversar com a me e a irm dele, enquanto as horas iam passando. Mas tinham perfeita conscincia da
presena um do outro. As mulheres riam-se das aventuras deles e cada histria desencadeava a recordao de outra; assim, a pouco e pouco, os anos de separao comearam
a desvanecer-se. Quando deixaram Maria a dormir no seu quarto alegremente decorado e cheio de flores, Sofia teve a sensao de que nunca se tinham separado.
 Sabes, Chiquita,  to bom estar outra vez com Maria  disse ela, quando entraram na sala de estar.  Estou contente por ter vindo.
 Fizeste muitssimo bem a Maria. Ela sentia muito a tua falta. Penso que lhe deste a vontade de viver talvez um pouco mais.
Sofia abraou a tia. O medo e a incerteza dos ltimos meses tinham esgotado o esprito de Chiquita e esticado as suas emoes at ao limite. Estava to frgil como
o rebento de uma planta.
 Tu e a tua famlia so os maiores amores de Maria. Tu ds-lhe a vontade de viver. Olha como ela est feliz em casa. Os seus ltimos dias sero tranquilos e cheios
de alegria.
 Tens muita razo, minha querida Sofia  e depois olhou para ela por entre as lgrimas e sussurrou:  E que vamos fazer contigo, hein?
 Que queres dizer? Vou regressar para junto da minha famlia, claro.
Chiquita acenou, compreensiva.
 Claro  disse suavemente, mas sorriu e o seu olhar percorreu as feies de Sofia, como se estivesse a ler os sentimentos que elas denunciavam.
Santi e Claudia estavam calmamente sentados a ler revistas. Panchito, agora um homem robusto de trinta anos, estava enterrado no
445
sof, a ver televiso. Recordou-lhe Santi quando jovem. As suas pernas compridas e magras abanavam sobre o brao do sof. Tinha um carisma que Sofia achava sedutor.
Tal como Dorian Gray, Panchito parecia uma imagem mais jovem, imaculada, do irmo. Os seus olhos eram do mesmo verde-mar, contudo, faltava-lhes a intensidade dos
do irmo. A sua cara no tinha rugas e era lisa, mas no possua o carcter da de Santi, cujo rosto mostrava que tinha sofrido e sobrevivido.
Sofia olhou para Santi e amou-o mais pela sua pele enrugada e pelos seus olhos melanclicos. Outrora, respirava confiana em si mesmo, como se acreditasse que podia
dominar o fluxo e o refluxo da mar da vida e ensin-la a fazer o que ele quisesse. O destino ensinara-o que ningum pode conquistar o que est fora do seu controlo;
s pode aprender a viver em harmonia com a vida. Santi tinha-se despido da sua arrogncia da maneira mais dura.
 Santi, traz um copo de vinho para Sofia... branco ou tinto?  perguntou Chiquita.
 Tinto  disse Santi, respondendo automaticamente por ela. A cor vermelha tinha sido sempre a preferida de Sofia... mesmo no vinho.
 Sim, obrigada  respondeu ela, surpreendida.
Claudia levantou os olhos da revista que estava a ler e viu o marido servir o vinho. Sofia esperou pelo olhar de ansiedade que decerto se seguiria, mas nunca apareceu.
Se Claudia no tinha gostado, teve o cuidado de no mostrar.
 Ento, Sofia, quanto tempo vais ficar?  perguntou ela, com os seus olhos azuis indiferentes demasiado sorridentes, numa tentativa de esconder o medo que tremia
por detrs deles.
 No sei, no fiz planos  respondeu Sofia com um sorriso de igual sinceridade.
 No tens filhos e marido?
 Sim, tenho. Neste momento, David est muito ocupado com uma pea de teatro, por isso no pde vir. Seja como for, seria difcil para ele, no conhece ningum aqui
e no fala espanhol. No se importa que eu fique o tempo que quiser.
 Todos ns lemos a teu respeito nos jornais  disse animadamente a tia.  Uma fotografia to boa... estavas linda. Ainda a tenho
446
algures. Hei-de procur-la para ta mostrar. Sim, ainda devo t-la algures.  Santi trouxe-lhe o vinho. Sofia olhou-o nos olhos, mas ele no reagiu.  Devias ter
sido actriz. Eras uma prima-dona, mesmo em criana  recordou Chiquita , estavas sempre a chamar a ateno. Admiro-me que o teu marido no te tenha metido numa
das peas dele! Sabes, Claudia, ela era muito exibicionista. Lembro-me de uma pea que foi representada em San Andrs, Sofia, e tu recusaste-te a entrar porque no
eras a figura principal. Lembras-te, Santi? Deve ter chorado durante uma semana. Dizias que eras melhor que todos os outros.
 Sim, lembro-me disso  respondeu ele.
 Conseguia sempre o que queria, Claudia. O pobre Paco nunca conseguia dizer que no.
 Nem o av  reconheceu Sofia, acanhada, rindo-se um pouco.  A minha me perdia a cabea com a maneira como conspirvamos contra ela.
 O teu av... esse era um homem extraordinrio.
 Sabes, ainda sinto a falta dele. Tenho saudades do sentido de humor dele  disse Sofia com melancolia.  Nunca me esqueo daquela vez que ele esteve nos Cuidados
Intensivos do hospital em Buenos Aires, por ter contrado uma doena altamente infecciosa. Deus sabe o que ele teve, mas, fosse o que fosse, confundiu os mdicos.
Acho que era uma espcie de ameba. Lembras-te, Chiquita?  perguntou Sofia.
Chiquita franziu a cara e abanou a cabea.
 Acho que no me lembro.
 Bem, o mdico disse que o av no estava autorizado a sair do quarto. A certa altura, ele quis ir  casa de banho e, depois de tocar a campainha duas vezes sem
resultado, saiu do quarto e vagueou por todo o andar at encontrar os baos. Na volta, reparou que havia um aviso na porta que dizia que ningum, fosse em que circunstncia
fosse, estava autorizado a entrar sem vigilncia  doente altamente infeccioso, dizia o aviso. O av entendeu que no podia entrar de maneira nenhuma, pois no tinha
cumprido as regras. E que acham que ele fez? Correu todas as enfermarias, a arrastar os ps, infectando toda a gente com quem contactou, at que encontrou uma enfermeira
pa-
447
ra o acompanhar ao quarto. Ao que parece, o caso provocou uma ligeira situao de pnico. Conhecendo o av O'Dwyer, com certeza fez tudo aquilo de propsito. A partir
de ento, quando ele tocava a campainha, aparecia logo algum.
- Devem ter dado graas a Deus no dia em que ele saiu  disse Santi com uma risada e abanando a cabea.  Lembro-me daquela vez em que te zangaste com Anna e fizeste
as malas e vieste para nossa casa, declarando que querias que a minha me te adoptasse. Lembras-te, Sofia?  Santi riu-se, pois o vinho adormecera-lhe os sentidos
e descontrara-lhe os msculos doridos de tanto disfarar as suas emoes.
 Acho que prefiro no me lembrar dessa,  um pouco embaraosa  disse Sofia, desajeitadamente.
 No, no foi. Santi e Maria ficaram entusiasmados. Alimentaram toda a questo  disse Chiquita.
 Que fizeram os meus pais?  perguntou. Nunca tinha investigado aquela questo at ao fundo.
 Bem, deixa-me pensar.  A tia suspirou e semicerrou os olhos.  O teu pai... sim, Paco veio e apanhou-te. Lembro-me de que te disse que havia orfanatos muito bons
para onde podias ir se no querias viver em casa. Disse que eras demasiado levada da breca para que te vendesse a algum da famlia!
 Ele disse isso?  perguntou Sofia por entre risadas.
 Sempre foste levada da breca. Estou satisfeita por teres assentado  disse Chiquita com carinho. Claudia no tinha falado durante todo aquele tempo. Tinha-se limitado
a escutar.
 Costumavas jogar plo com os rapazes  continuou Chiquita, acenando com a cabea.
 Dios... j l vai h anos. No sei se ainda me lembro de como se joga.
 Jogavas to bem como os rapazes?  perguntou Claudia, por fim, tentando entrar na conversa.
 No to bem como Santi, mas sem dvida to bem como Agustin  disse Chiquita com toda a veemncia.
 Eu queria fazer tudo o que os rapazes faziam. Pareciam divertir-se sempre muito mais que as raparigas  recordou Sofia.
448
 Eras uma espcie de rapaz honorrio, no eras, Chofi?  perguntou Santi com um sorriso malicioso. Sofia hesitou. Era a primeira vez que o ouvia chamar-lhe Chofi.
Chiquita fingiu no reparar, mas Sofia sabia que os seus olhos saltavam ansiosamente de Santi para ela. Claro que Claudia manteve a compostura e beberricou o vinho
como se o marido no tivesse dito nada de extraordinrio.
 Sofia era uma ameaa. Sinto-me muito feliz por ela ter assentado, casado com um homem simptico... sabia que farias isso mesmo  disse Chiquita, nervosamente,
tentando preencher o silncio.
Claudia olhou para o relgio.
 Santi,  melhor darmos as boas-noites s crianas  props com firmeza.
 Agora mesmo?  perguntou ele.
 Sim. Vo ficar desiludidas se no lhes deres as boas-noites.
 Bom, e eu tenho de voltar para casa dos meus pais. Foi um longo dia e estou cansada. Vejo-os a todos amanh  disse Sofia, pondo-se de p.
Claudia e Santi puseram-se de p para sair. Santi no a beijou. Fez-lhe apenas um aceno desajeitado antes de sair da sala, seguido pela mulher. Chiquita beijou-a
ternamente.
 Conversa com Anna  disse ela.
 Que queres dizer?
 S isso, conversa com ela. As coisas no tm sido fceis... para nenhuma de vs.

CAPTULO TRINTA E NOVE
Sofia regressou lentamente a casa, recordando as muitas vezes que tinha percorrido aquele pedao de terra. Este era o seu lar. O cheiro dos eucaliptos pairava no
ar hmido e ela ouvia os pneis a resfolegarem nos campos. Os grilos emitiam o seu rudo rtmico  imaginava que havia grilos desde que a Argentina existia. Faziam
parte daquele lugar, tanto como o ombu. No conseguia imaginar o campo sem eles. Inspirou os cheiros da pampa e deixou-se errar pelas suas recordaes e pelos ecos
agridoces da sua infncia.
Quando chegou a casa, sentia-se doente de nostalgia. Precisava de tempo para estar sozinha, para pensar. Tinha imaginado que Santa Catalina tinha mudado e sentia-se
perturbada por descobrir que estava tudo na mesma. Podia imaginar-se novamente criana e, contudo, ali estava, no corpo de uma mulher madura, cheia de experincias
de outro pas, de outra vida. Olhou  sua volta e apercebeu-se de que Santa Catalina estava imobilizada num tempo distorcido, como se o mundo exterior no a tivesse
tocado. Seguiu lentamente at ao poo e andou  volta dele. Mas as recordaes vinham em cascata, persistentes; tudo aquilo em que pousava os olhos a levava de novo
para o passado. O campo de tnis, onde ela e Santi tinham jogado tantas vezes, assomava ao longe como uma miragem atravs da escurido e ela quase conseguia ouvir
as suas vozes fantasmagricas a rir e a brincar na brisa.
Sofia sentou-se  beira da gua e pensou em David. Imaginou a expresso dele, os seus olhos azul-claros, o seu aristocrtico nariz direito que ela tantas vezes beijava.
Imaginou aquelas feies amadas.
450
Sim, amava-o, mas no da mesma maneira que amava Santi. Sabia que era errado. Sabia que no devia desejar os braos de outro homem, os lbios de outro homem, as
carcias de outro homem e, mesmo assim, nunca tinha deixado de amar aquele ser humano que estava, de uma estranha forma, agarrado  sua alma. Tinha saudades de Santi
e as saudades sufocavam-na. Passados vinte e trs anos, o sofrimento ainda era uma ferida to aberta como sempre tinha sido.
J era noite quando chegou a casa. Tinha acalmado, caminhado um pouco, respirado fundo, todas aquelas coisas sensatas que o av O'Dwyer lhe ensinara quando os irmos
troavam dela, deixando-a rouca de fria. Entrou na cozinha onde Soledad a saudou, dando-lhe a provar o dulce de leche antes de ter esfriado. Sentando-se no seu
lugar habitual  mesa da cozinha, enquanto Soledad cozinhava, tagarelaram como amigas. Sofia tinha de se distrair e Soledad era a distraco perfeita.
 Seorita Sofia, como pde estar tanto tempo longe? Nem sequer me escreveu. Em que estava a pensar? Pensava que eu no sentia a sua falta? Pensava que eu no me
importava? Claro que me importava. Sentia-me desanimada. Pensei que j no se importava comigo. Depois de tudo o que fiz por si. Chorei durante anos. Devia estar
furiosa consigo. Ainda agora devia estar furiosa. Mas como posso eu estar furiosa consigo? Estou demasiado feliz por v-la para me zangar  disse ela em tom de censura,
escondendo a cara no vapor que saa do panelo de sopa de Capallo. Sofia estava com uma enorme pena dela. Soledad tinha-a amado como se fosse sua filha, e Sofia
mal se tinha lembrado dela.
 Oh, Soledad, nunca te esqueci. S que era impossvel voltar. Fiz a minha vida em Inglaterra.
 O Seor Paco e a Seora Anna... nunca mais foram os mesmos desde o dia que a menina partiu. No m epergunte o que aconteceu, no gosto de me intrometer, mas as
coisas nunca mais voltaram ao mesmo entre eles. Mudou tudo. No gostei da mudana; no gostei do ambiente; ansiava por que voltasse para casa e a menina nem nunca
sequer escreveu. Nem uma palavra. Nada.
 Perdoa-me, fui muito irreflectida. Soledad, para ser honesta, e contigo sempre fui honesta, pensar em Santa Catalina era um sofri-
451
mento. Sentia tanto a falta de todos que no conseguia escrever. Sei que devia ter escrito, mas acabava por ser mais fcil tentar esquecer.
 Como podes esquecer as tuas razes, Sofia? Como podes?  perguntou ela, abanando a sua cabea grisalha.
 Acredita, quando se est do outro lado do mundo, a Argentina parece estar muito longe. Continuei com a minha vida o melhor que pude. Deixei o regresso para demasiado
tarde.
 s to cabeuda como o teu av.
 Mas agora estou aqui  disse, como se, de alguma maneira, isso pudesse consol-la.
 Sim, mas no ficas. J no tens nada aqui. O Seor Santiago est casado. Eu conheo-te, no vais ficar c.
 Eu tambm sou casada, Soledad. Tenho uma famlia  minha espera, um marido que adoro.
 Mas o teu corao est aqui connosco  disse ela.  Eu conheo-te. No te esqueas de que te criei.
 Como  Claudia?  ouviu-se a si mesma a perguntar.
 No gosto de falar de ningum, e muito menos de um Solanas... eu sou a maior defensora da famlia Solanas. No h ningum to leal como eu; seno ter-me-ia ido
embora h muitos anos. Mas, como estou a falar contigo, vou dizer o que penso. Ela no  Solanas. Penso que ele no a ama. Penso que ele amou uma nica pessoa. No
quero saber pormenores, no costumo intrometer-me. Depois de te ires embora, ele andou por a a vaguear como um fantasma. La Vieja Bruja disse que a aura dele estava
fraca. Pediu para v-lo, para perceber o que se passava, mas ele nunca se interessou pelo mundo oculto. Depois daquele assunto horrvel com o Seor Fernando, o Seor
Santiago comeou a convidar a Seora Claudia para vir passar fins-de-semana a Santa Catalina e recomeou a sorrir. Eu pensava que ele nunca mais ia sorrir. Depois,
casou com ela. Acho que, se ela no tivesse concordado logo, ele teria desistido. Deixaria de lutar, pura e simplesmente. Mas no penso que a ame. Eu vejo o que
se passa... vejo as coisas. Claro que no tenho nada a ver com isso. Ele respeita-a;  a me dos filhos dele. Mas ela no  a alma gmea dele. La Vieja Bruja diz
que cada pessoa s tem uma alma gmea.
Sofia ouviu as divagaes dela. Quanto mais ouvia, mais ansiosa estava por libert-lo da sua desolao. Ficou divertida por Soledad
452
saber tanto. Devia ter ouvido os mexericos das outras criadas e dos gachos. Mas sabia que aqueles mexericos eram apenas uma aproximao  verdade.
Rafael e a mulher, Jasmina, juntaram-se a Sofia e aos pais para jantarem no terrao. Sofia gostou da companhia deles. Jasmina era calorosa e sensual, o seu corpo
cheio transbordava de fertilidade madura, aquela que faltava  fria Claudia, e Sofia sentiu-se grata pelo seu humor terra-a-terra. Tinha trazido o filho de dois
meses ao colo, embrulhado num xaile e deu-lhe de mamar discretamente  mesa. Sofia notou que a me no aprovava, mas que se esforava muito por ocultar o seu desagrado.
Jasmina conhecia a sogra o suficiente para distinguir os sinais e teve a inteligncia de os ignorar.
 Rafa no quer mais filhos, diz que cinco chegam. Na minha famlia somos treze irmos... imaginte! E teve um sorriso rasgado, enquanto os seus olhos verde-claros
cintilavam de malcia  luz da vela.
 Realmente, mi amor, hoje em dia, treze no seria nada prtico. Tenho de educ-los a todos  disse Rafael, sorrindo-lhe amorosamente.
 Veremos. No vejo razo para pararmos  respondeu a rir, entreabrindo a blusa para ver se o beb estava bem.  Quando so assim pequeninos, entrego-lhes o corao.
Quando crescem j no precisam tanto de ns.
 No concordo  disse Paco, pousando a sua grande mo spera sobre a de Sofia.  Acho que se, como pais, erguermos uma casa de amor, os nossos filhos vo sempre
regressar a ela.
 Tens filhos, no tens, Sofia?
 Sim, duas filhas  respondeu, deixando ficar a mo debaixo da do pai; mas, ao contrrio de outros tempos, tinha perfeita conscincia de que ela estava l.
 Que pena que no as tenhas trazido contigo. Clara e Elena gostariam de conhec-las. Seriam todas da mesma idade, no , mi amor? E eu adoraria que elas praticassem
o ingls.
 Deviam praticar mais comigo, Jasmina  disse Anna.
 Sim, mas sabe como so as crianas, no podemos obrig-las a fazerem o que no querem.
453
 Talvez devesse ser um pouco mais dura  insistiu Anna.  As crianas no sabem o que  melhor para elas.
 Oh, no, eu no suportaria contrari-las. Depois do horrio escolar esto em casa, e a casa  para brincar.
Sofia via perfeitamente que a me no conseguiria vencer aquele conflito e admirou a maneira gentil como Jasmina lidava com ela. Por baixo daquela pele de cordeiro
batia um corao de leo.
Soledad aproveitava todas as oportunidades para vir ao terrao, para servir a comida, retirar travessas, trazer a mostarda, encher o jarro da gua, at meteu a cabea
duas vezes pela porta com o pretexto de que tinha ouvido a Seora Anna tocar a sineta. Todas as vezes se desfez num rasgado sorriso desdentado. Passado um bocado,
Sofia j no conseguia dominar o riso, que teve de abafar no guardanapo. Era bvio que Soledad queria observ-la com os pais. Mais tarde, discutiria as reaces
deles com todas as outras criadas da quinta.
As onze horas, Jasmina foi para casa com o filho, desaparecendo no parque como um anjo. Paco e Rafael ficaram sentados  conversa no meio das moscas e das borboletas
nocturnas que se tinham juntado  volta das lanternas contra o vento. Anna foi-se deitar, protestando que estava velha, quando Paco tentou convenc-la a ficar. Sofia
ficou satisfeita por ela se ir embora, pois no sabia de que falar com a me. Estava demasiado ressentida com ela para falar sobre o passado e, por rancor, no queria
envolv-la no presente. Logo que Anna se foi embora, para sua surpresa, Sofia sentiu-se animada e deu por si a conversar com o irmo e o pai, tal como nos velhos
tempos. Com eles tinha prazer em recordar. As onze e meia, afastou-se discretamente e foi para o quarto.
No dia seguinte, Sofia acordou cedo devido  diferena horria. Tinha dormido a noite toda, um sono sem sonhos que nem Santi tinha conseguido interromper. Sentiu-se
grata por isso. Quando se deitou estava exausta, no s devido  viagem de avio mas tambm s emoes. Mas logo que acordou, no foi capaz de ficar quieta. Entrou
silenciosamente na cozinha, onde a luz branca da alvorada iluminava a mesa e o cho lajeado. E assim regressou queles tempos em que ia ao frigorfico sempre bem
fornecido arranjar qualquer coisa para co-
454
mer antes de sair a correr para praticar plo com Jos. Rafael tinha-lhe dito que Jos tinha morrido h dez anos. Partira e ela nunca se despedira dele. Sem Jos,
Santa Catalina era como um sorriso a que faltava um dente da frente.
Tirou uma ma do frigorfico e aproveitou para enfiar um dedo na taa de dulce de leche. Nada sabia melhor que o dulce de leche de Soledad. Fazia-o com leite e
acar que levava ao lume a ferver. Por muito que Sofia tentasse faz-lo em Inglaterra para as filhas, nunca tinha o mesmo sabor. Ps uma colherada na ma e seguiu
vagarosamente para a sala de estar, saindo pelo terrao. Este estava imvel e fantasmagrico  sombra das rvores altas,  espera de que o Sol nascesse e o descobrisse.
Trincou a ma e saboreou o doce gosto a caramelo. Ps-se a olhar para a nvoa matinal que pairava sobre as plancies distantes e, de repente, sentiu um desejo intenso
de trazer um pnei para fora e galopar pelo campo fora. Atravessou o parque em passo rpido e dirigiu-se ao puesto, o pequeno grupo de barracas onde Jos tinha sempre
tratado dos pneis.
Pablo cumprimentou-a quando ela se aproximou, limpando as mos a um trapo sujo. Sorriu, pondo  mostra os seus dentes escuros e retorcidos. Ela apertou-lhe a mo
e deu-lhe os sentimentos pela morte do pai. Ele acenou gravemente e agradeceu-lhe com timidez.
 O meu pai gostava muito de si, Seora Sofia  disse ele, e sorriu envergonhado. Reparou que ele agora lhe chamava seora em vez de seorita. Cham-la assim marcava
um distanciamento entre eles que no existira outrora, quando tinham praticado plo juntos.
 Eu gostava imenso dele. Santa Catalina no  a mesma sem ele  respondeu com sinceridade, olhando em volta para os rostos castanhos desconhecidos que a olhavam
por detrs das janelas.
 Quer montar, Seora Sofia?  perguntou Pablo.
 No vou jogar. S vou galopar um bocado por a. Apanhar vento no cabelo. Vai j tanto tempo...
 Javier!  gritou ele. Um homem mais novo saiu a correr da casa, vestido com umas bombachas, com as moedas penduradas no cinto a cintilarem  luz plida.  Una
ygua para Seora Sofia, ya.  Quando Javier avanou para uma gua escura, Pablo gritou-lhe:  Azteca no, Javier, La Pural Para a Seora Sofia  a melhor. La Pura
 a melhor  disse, sorrindo outra vez para ela.
455
Javier trouxe um pnei castanho-claro e Sofia fez-lhe uma festa no nariz aveludado, enquanto ele o selava em silncio. Montou e agradeceu-lhe antes de seguir a galope
para o campo. Soube-lhe bem. Conseguia respirar outra vez. A presso acumulada no peito e na garganta desvaneceu-se devagar e sentiu que o seu corpo se descontraa
com o movimento suave do galope. Olhou para a casa de Chiquita e pensou em Santi a dormir com a mulher. Na altura no soube, ele  que lhe disse depois, mas Santi
estava  janela a v-la atravessar a plancie, perguntando a si mesmo como conseguiria viver aquele dia. Com a chegada dela, tudo tinha mudado.
Sofia no viu Santi em todo o dia. Quando chegou a casa dele para visitar Maria, ele tinha ido para a cidade com os filhos e s regressou depois de ela sair. Sempre
que um carro percorria o trilho, Sofia ficava com a esperana de que fosse ele. Tentou no se importar, mas no conseguia deixar de se preocupar, pensando que o
tempo ia desfazer-se ao seu alcance e que, dentro em breve, regressaria a Inglaterra. Estava desesperada por estar sozinha com ele. Queria falar sobre o passado
 o passado deles. Queria enterrar os fantasmas de uma vez para sempre.

CAPTULO QUARENTA
Chiquita tinha convidado Sofia para jantar. Embora Maria no pudesse comer com eles, queria que Sofia estivesse por perto.
 No quero perder nem um segundo da tua estadia. Em breve, vais-te embora e quem sabe quando voltarei a ver-te  dissera Chiquita.
Como Sofia tinha jantado com os pais na vspera, no pensou que eles se importassem.
O jantar foi ao ar livre, entre grilos e ces predadores. Eduardo parecia plido  luz misteriosa das velas. Falou muito pouco e escondeu-se por detrs dos culos
finos e redondos. O seu desgosto estava gravado nas rugas  volta dos olhos, desgosto que nem os culos conseguiam disfarar. Santi e Sofia conversaram com Chiquita
e Miguel, recordando tempos passados  mais uma vez, Claudia limitou-se a ouvir com um sorrisinho que no ficava bem na sua cara solene. Era evidente que no queria
parecer demasiado interessada, mas tambm no queria que a acusassem de indelicadeza. Por isso, ficou sentada, reservada, comendo a massa com um garfo, limpando
de vez em quando os cantos da boca com um guardanapo branco.
Sofia raramente se servia do guardanapo. Anna sempre tinha tentado incentivar a filha a comportar-se mais como uma senhora. Mas o av O'Dwyer tinha-a defendido
sempre.
O que  um guardanapo, Anna Melody? Pessoalmente, acho que a minha manga  mais digna de confiana  pelo menos sei sempre onde est, dizia ele. Queixava-se de
que os guardanapos passavam a maior parte das suas vidas a cair dos joelhos para o cho. Sofia
457
olhou para o colo  o av O'Dwyer tinha mais uma vez razo. O seu guardanapo tinha desaparecido debaixo da mesa. Curvou-se para o recuperar. Panchito, que estava
sentado  sua direita, riu-se para ela e puxou-o para cima com o p.
Chiquita e Miguel tinham um enorme orgulho em Panchito. Era alto e belo, com o encanto de Santi. O seu sorriso era muito semelhante ao do irmo, pela maneira como
as linhas se aprofundavam  volta da boca. Era fcil ver que as vidas turbulentas dos irmos tinham afectado a sua. Ao crescer, tinha-se revelado a criana perfeita,
para compensar as falhas dos irmos. Vira a me praticamente mirrar em consequncia da ligao escandalosa de Santi e da partida apressada de Fernando para o Uruguai
e, por isso, fizera todos os esforos para lhe dar felicidade. Era muito ligado a Chiquita  todos eram. Ela adorava-os e eles sabiam que a me os punha acima de
tudo. Permitia literalmente que a vida dos filhos moldasse a sua. Eles eram a sua vida e vivia para eles.
Panchito jogava plo (nove golos de handkap) e, embora essa no fosse considerada uma actividade profissional adequada, os pais tinham-no autorizado a continuar.
Dificilmente podiam recusar-lhe uma carreira no plo, quando o seu talento lhe exigia que jogasse. A me envolvia-se demasiado na vida dele. Era evidente pelas suas
conversas que Chiquita no queria que o seu Panchito crescesse. Quase toda a famlia j lhe chamava Pancho em vez de Panchito (o pequeno Pancho) mas, para a
me, ele seria sempre Panchito. Era o beb e ela continuava agarrada  sua infncia; se deixasse de se lhe agarrar, descobriria que tinha estado agarrada apenas
ao ar. H muito que o seu Panchito tinha voado para fora do ninho.
Soledad contara a Sofia que ele tinha uma relao discreta com a filha de Encarnacin, Maria (Maria em honra de Maria Solanas), que no s era casada, como tinha
uma filha cujo pai quase podia ser qualquer homem do pueblo. Um jovem simptico como Pancho no quer ir a um bordel. Est apenas a aprender a lidar com as mulheres,
tinha ela dito em sua defesa. Quando Sofia olhou para o jovem Pancho, imaginou que ele andava a aprender a lidar com as mulheres desde que tinha descoberto para
que lhe servia o pnis.
Durante o jantar, Santi e Sofia falaram sem constrangimento. A primeira vista, ningum imaginaria a tenso que ambos sentiam no
458
peito, o esforo que representava fingir que apenas sentiam o calor de uma amizade antiga. Riam-se quando queriam chorar e conversavam quando apenas queriam gritar
Como te sentes?.
Por fim, Sofia despediu-se dos primos com um beijo. Claudia ficou rigidamente diante das janelas de sacada, ansiosa por sair do terrao e ir para dentro de casa
com o marido.
 At amanh, Sofia  disse com um sorriso, mas os seus olhos mantinham-se distantes.
Foi ento que Santi enfiou um pedao de papel na mo de Sofia. Olhou para ela com uma expresso de desejo e deu-lhe um beijo na cara. Claudia no deu por nada, porque
Santi estava de costas para ela que o esperava.
Sofia saiu para a noite, apertando o pedao de papel contra o peito. Estava impaciente por abrir o bilhete, mas, quando o olhou, amarrotado e estragado, reconheceu-o:
era o mesmo bilhete que ela lhe tinha mandado por Soledad h vinte e trs anos. Lutou com as suas emoes e abriu-o, para voltar a ler as palavras escritas: Vai
ter comigo ao ombu  meia-noite. Mais uma vez, dominada pela sua j conhecida sensao de arrependimento, encostou-o ao peito e continuou a caminhar. No podia sentar-se
como seria normal fazer at recuperar o controlo  estava demasiado agitada. Continuou a andar.
Os sentimentos de Santi no haviam mudado. Tinha guardado o bilhete dela, tinha-o guardado ciosamente. E, agora, entregava-lho com a mesma urgncia e em segredo,
tal como ela tinha feito naquela noite terrvel. Queria-a. Ela nunca tinha deixado de quer-lo. Era superior  sua vontade. Sabia que era errado, mas era incapaz
de se controlar. O seu corao doa ao pensar como a vida deles poderia ter sido.
Sentiu-se mais uma vez criana, a quebrar as regras. Enquanto escovava e entranava o cabelo diante do seu velho toucador, era como se tivesse voltado aos dezoito
anos. Estava a milhares de quilmetros de distncia, transportada para uma vida que nada tinha a ver com a que partilhava com o marido e as filhas, tanto que era
quase como se vivesse uma fantasia em que eles no tinham lugar. Naquele momento, nada interessava a no ser Santi. Era assim que estava certo. Ele pertencia-lhe.
Tinha esperado vinte e trs anos por ele.
459
Estava quase a sair do quarto quando algum bateu hesitantemente  porta. Olhou para o relgio. Meia-noite menos um quarto.
 Entre  disse em voz irritada. A porta abriu-se devagar.  Pap.
Paco estava na soleira da porta, com uma expresso hesitante. Ela no queria dizer-lhe que entrasse, estava ansiosa por chegar ao ombu. No suportaria chegar atrasada
ao encontro com Santi, no depois de ter esperado tanto tempo.
 S queria ter a certeza de que estavas bem  disse ele com voz spera; e os seus olhos correram pelo quarto, como se estivesse demasiado nervoso para olhar para
os dela.
 Estou bem, pap, obrigada.
 Sabes, a tua me e eu estamos felizes por estares em casa. Esta  a tua casa  continuou desajeitadamente. Tinha um ar frgil, ali de p, sem saber bem o que havia
de dizer. Ele que sempre soubera exactamente o que dizer.
 Uma parte de mim pertencer sempre aqui  respondeu Sofia. Depois, lamentou que aquele fosso existisse entre eles. Que fosse to fcil as pessoas mudarem por causa
das suas prprias vidas. Dirigiu-se para ele e abraou-o. Enquanto o teve nos braos, olhou de relance para o relgio de pulso. Naquele momento, nada a desviaria
do seu amor.
 Agora v deitar-se e durma. Temos todo o tempo do mundo para conversar. Estou cansada, foi um longo dia  disse ela, gentilmente, mas com firmeza, acompanhando-o
at  porta.
 Bueno, Sofia. Despeo-me ento  sussurrou ele, desiludido. Tinha vindo dizer-lhe alguma coisa, alguma coisa que tinha lanado uma sombra na sua conscincia durante
muitos anos. Mas teria de esperar. Dir-lhe-ia noutra ocasio. Saiu do quarto com relutncia. J ia pelo corredor a arrastar os ps quando ela tomou conscincia da
lgrima que tinha deixado na sua face ao beij-la.
Nessa noite, Sofia no precisou de lanterna; a Lua estava to fosforescente que lanava sombras de prata sobre a erva e os campos, uma sensao estranhamente surrealista
quando corria por eles fora. Recordou a noite em que seguiu o mesmo caminho para ter o seu lti-
460
mo encontro com Santi. Essa noite estava escura e agoirenta. Ouviu alguns ces que ladravam  distncia e uma criana a chorar. Foi s quando viu a sombra do ombu
recortada contra o cu azul-escuro, cintilante, que comeou a sentir medo.
Ao aproximar-se, abrandou para um passo rpido. Olhou para a rvore,  procura dele, mas no o viu em lado nenhum. Tinha imaginado que veria a lanterna dele a saltitar
de um lado para o outro como da ltima vez. Esse momento ficaria para sempre gravado na sua memria. Mas, hoje, ele no precisava de lanterna, havia luz suficiente
que a deixava distinguir os ponteiros do relgio. Estava atrasada. No teria ele esperado? Enregelou. Sentiu que a garganta se lhe contraa de impacincia. E ento
ele apareceu-lhe de repente, como uma sombra negra, saindo de detrs da rvore. Ficaram a olhar um para o outro. Sofia tentou distinguir a expresso dele, mas no
conseguiu v-la claramente, apesar do luar. Ele estivera sem dvida a fazer o mesmo. E ento o instinto dominou-os, libertando-os de qualquer pensamento racional.
Caram nos braos um do outro, tocando-se, cheirando-se, respirando, chorando. As suas aces diziam palavras que nunca poderiam ter feito justia aos anos de desejo
e desgosto. Sofia sentiu ento que tinha, em verdade, regressado a casa.
Sofia no sabia que horas eram quando, por fim, se encontraram deitados, realizados, delirantes, na erva de cheiro doce, e, em boa verdade, no queria saber. S
tinha conscincia da mo dele que brincava com as madeixas de cabelo que se tinham soltado da trana. Inspirou o cheiro a especiarias que era dele e enterrou a cara
no seu peito. Sentia a respirao quente dele na sua testa e a aspereza do queixo dele contra a sua pele. Mergulhou no prazer sensual do momento. Para ela, nada
mais interessava, nada mais existia, sequer, a no ser ele.
 Fala comigo, Chofi. Que aconteceu quando partiste?  perguntou ele, por fim.
 Dios, nem sei por onde comear.
 Perguntei a mim mesmo tantas vezes, que poderia eu ter feito?
 No, Santi, no te tortures. Eu quase enlouqueci a fazer as mesmas perguntas a mim prpria e continuo a desconhecer as res-
461
postas  respondeu, apoiando-se nos cotovelos e pousando os dedos nos lbios dele. Ele pegou-lhe na mo e beijou-a, pestanejando ao olhar para ela.
 Porque tiveram eles de te mandar embora? Quero dizer, podiam ter-te mandado para um colgio interno... qualquer coisa, mas mandar-te para a Sua foi um pouco
drstico, e depois eu sem saber onde encontrar-te...
Sofia observava a cara angustiada de Santi, aqueles olhos verdes atormentados que olhavam para os seus em busca de uma resposta. Parecia to vulnervel como uma
criana e o seu corao estremeceu por ele.
 Mandaram-me embora, Santi, porque eu ia ter um filho teu  disse ela em voz baixa e trmula. Ele ficou a olhar para ela, quase sem acreditar.  Lembras-te de quando
estive doente? Bem, chamaram o doutor Higgins. A minha me ficou de cabea perdida. O meu pai foi mais compreensivo, mas estava furioso. S havia uma coisa a fazer,
visto que, claro, eu no podia ficar com o beb. A nossa ligao era imprpria; nunca conseguiriam aceit-la. A minha me, claro, s estava preocupada por eu cobrir
a famlia de vergonha e isso era mais importante que tudo o mais. Acho que, naquela altura, ela olhava para mim e via o demnio. Nunca esquecerei, por muito que
viva.
 Devagar, Chofi... ests a falar sem nexo. Que disseste?
 Querido Santi, eu estava grvida.
 Estavas grvida de um filho meu?  gaguejou ele devagar, incapaz de interiorizar a notcia. Depois, sentou-se de repente e esfregou a testa com a palma da mo.
 Sim  disse ela, com uma enorme tristeza, sentando-se e deixando que ele a abraasse.
 Oh, Chofi, porque no me disseste?
 A me e o pai tinham-me obrigado a prometer que no diria a ningum. Mandaram-me para Genebra para fazer um aborto. No queriam que ningum soubesse. Eu receei
que, se te dissesse, tu exigisses vir comigo, reivindicasses os teus direitos de pai, enfrentasses os meus pais. No sei... tive medo. Tive medo de ir contra os
desejos deles. Naquela noite eram pessoas diferentes. Decidi escrever-te logo que estivesse longe, quando os meus pais no pudessem fazer nada.
462
No podia dizer-lhe que tinha tido o filho e o tinha entregue para adopo. Tinha demasiada vergonha. Como podia dizer-lhe que lamentara ter abdicado dele desde
que cara em si, naquela glida manh de Inverno em Londres? Acreditaria ele, se lhe dissesse, que no passara um nico dia sem que ela pensasse em Santiguito, perguntando
a si mesma onde ele estava e o que fazia? Como podia dizer-lho sem parecer insensvel ou leviana? No era essa a recordao que Santi tinha dela. Por isso, deixou
que ele partisse do princpio de que ela tinha abortado e, suprimindo a dor, guardou-a s para si.
 Maria  murmurou ele em voz neutra.
 Foi h muito tempo  disse Sofia em voz baixa, sentindo que seria incorrecto criticar a prima, agora que esta estava a morrer. Santi apertou-a contra si e ela
compreendeu que o facto de ter tido no ventre um filho dele os aproximava de forma irreversvel. Santi estava a pensar no que poderia ter sido. Sentia o seu desgosto
porque reflectia o dela.
 Foi por isso que nunca mais regressaste? Porque tinhas perdido o nosso filho?  perguntou ele, com a boca no cabelo dela.
 No. Nunca voltei, porque me convenci de que tu no me querias, que tinhas seguido com a tua vida e que tinhas encontrado outra pessoa. No queria a Argentina
sem ti. Cheguei a um ponto em que o meu orgulho me impedia de voltar para casa. Acho que adiei por demasiado tempo.
 Como podias no ter confiado em mim?
 Eu queria, mas, passado algum tempo, perdi a esperana. Estavas to longe... no sabia o que tu pensavas. E esperei. Esperei durante anos!
 Oh, Chofi, devias ter regressado. Se ao menos tivesses voltado, terias visto como eu ansiava pelo teu regresso. Estava perdido sem ti. J nada era o mesmo. Sentia-me
totalmente intil. No sabia onde podia encontrar-te. No sabia onde estavas, seno teria escrito.
 Sei isso agora. Nunca, nem por um minuto, pensei que Maria podia ter destrudo as minhas cartas.
 Eu sei. Como no as recebi, no podia responder. No sabia onde tu estavas. Maria confessou-me isso h anos, mas, ento, era demasiado tarde. Sei que, na altura,
ela pensou que estava a fazer
463
o que devia. Torturou-se com remorsos durante anos, foi por isso que deixou de te escrever. No conseguia ganhar coragem para te dizer nem para te enfrentar.  Sorriu
amargamente.  No consigo acreditar que tenhamos sido derrotados com tanta facilidade  disse em voz rouca, abanando a cabea.  No fim, desisti. Tive de desistir,
sob pena de enlouquecer. Pensei que tinhas conhecido outra pessoa. Por que outra razo no terias voltado para casa? Depois, apareceu Claudia e eu fui confrontado
com a deciso de construir uma vida com ela ou esperar por ti. Escolhi a vida com ela.
 s feliz?  perguntou Sofia, devagar.
 A felicidade  relativa. Pensei que era feliz at ontem, quando apareceste no hospital.
 Santi, lamento.
 Agora sou feliz.
 Tens a certeza?
 Tenho a certeza absoluta  respondeu ele, agarrando-lhe o rosto entre as mos e beijando-lhe a testa.  Di-me pensar que sofreste sozinha na Sua. Quero saber
o que aconteceu. Temos anos para pr em dia. Quero partilhar cada minuto de todos esses anos contigo. Quero sentir que conheo a tua vida to bem que quase poderia
l ter estado contigo.
 Falar-te-ei da Sua. Contar-te-ei tudo.
 Tens de descansar um pouco.
 Quem me dera passarmos a noite toda juntos.
 Eu sei. Mas voltaste. Sonhei com o teu regresso uma centena de vezes.
 Sonhaste que seria assim?
 No, imaginei que estaria furioso. Mas, quando te vi, foi como se nos tivssemos separado ontem. No mudaste nada, absolutamente nada.  Olhou para ela com tanta
ternura que Sofia sentiu as lgrimas virem-lhe aos olhos.
 Amo esta velha rvore  disse ela, virando a cara para o lado, para esconder a emoo.  Viu-nos crescer, viu as nossas dores, o nosso amor, o nosso prazer. Ningum
sabe tudo como este velho ombu.
Santi suspirou profundamente e apertou-a.
464
 Que tolice, de facto. E pensei que ele me tinha abandonado. No queria que os meus filhos vivessem num mundo fantstico de magia e pedidos como ns vivemos.
Ela apertou-o tambm.
 Eu sei, mas, para mim, foi sempre mais que isso. Era o nosso lugar secreto. Era o nosso pequeno reino. Para mim, o ombu representar sempre uma infncia idlica.
 o cerne de todas as nossas recordaes. Todas. V, acabmos de lhe entregar mais uma.
Riram-se e a sua tristeza desapareceu.
 Acho que fui um tolo.
 No, mas acho que no faz mal nenhum se deixares os teus filhos virem para aqui. Lembras-te de como gostvamos de trepar por ele?
 Sim, eras uma atleta naqueles tempos.
 Naqueles tempos! Se me deres alguns pesos, sou capaz de a escalar agora.
E ento subiram juntos  rvore. E, quando chegaram ao cimo, viram a aurora que surgia no horizonte, com os seus raios vermelhos como sangue infiltrando-se na noite
e transformando-a em ouro.

CAPTULO QUARENTA E UM
Sbado, 8 de Novembro de 1997
Sofia acordou ao meio-dia com o coro de chingolos e, por um instante, teve a sensao surrealista de que os ltimos vinte e trs anos no tinham passado de um longo
sonho. Os cheiros da pampa, dos eucaliptos e da humidade agarravam-se s suas narinas; ficou deitada a prolongar aquele ambiente enquanto conseguiu guard-lo. Foi
transportada de novo para a sua infncia e entregou-se ao prazer das suas recordaes. Tivera medo de enfrentar o passado, com receio de que, ao ceder  nostalgia,
os seus anseios a consumissem por inteiro. Mas, agora, os seus temores pareciam-lhe infundados. Ficou deitada, como em transe, e deixou que a sua mente fosse invadida
pelas imagens fugazes dos primeiros captulos da sua vida  as pginas passavam to depressa que no conseguia concentrar-se em nenhuma com preciso. Tinha-as afastado
durante tanto tempo que agora arremetiam sobre ela; por puro comodismo, permitiu-lhes que regressassem mais uma vez  vida. No queria levantar-se. O seu corao
desejava intensamente que o passado se tornasse presente e que Jos estivesse  sua espera nos estbulos com a sua gua e o taco.
Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi a sua mala. Mas quando sentiu o cheiro de Santi na sua pele, nos seus lbios e nas suas mos, recostou-se e cobriu
a cara com elas, cheirando lentamente o cheiro dele, saboreando cada instante de reminiscncia. Tinha regressado. Santi continuava a am-la. Mas Maria estava a morrer
e, de repente, com um sobressalto, Sofia voltou  realidade.
466
A hora do pequeno-almoo tinha passado e nem se lembrou de que o pai pudesse estar sentado no terrao, esperando ansiosamente que ela fosse ter com ele, como Soledad
lhe disse depois. Os seus pensamentos estavam apenas com Santi. Ficou triste por no ter ido ter com o pai, mas apenas por um instante; depois, o sentimento desapareceu,
enquanto marchava decididamente para casa de Chiquita. Passou por Anna que lia ao sol, protegida por um grande chapu. Como os hbitos das pessoas mudam pouco,
pensou. Anna levantou os olhos e sorriu. Ela devolveu o sorriso, um pouco desajeitada, e acenou. A me sabia para onde ela ia, no era preciso explicar. Tinha voltado
aos velhos hbitos.
As melodias de Strauss chegaram-lhe aos ouvidos antes de chegar  casa. A msica vertia alegria no corao e ela quase desatou aos saltos sob o sol deslumbrante.
Maria estava no terrao, debaixo de um cobertor, com a cabea discretamente tapada por um pequeno chapu-de-sol s flores. Sofia reparou que as faces dela mostravam
os primeiros sinais de cor e que os seus olhos brilhavam de felicidade. Estendeu a mo quando Sofia apareceu  esquina.
 Sofia  disse ela, e sorriu-lhe ternamente, com uma expresso calorosa.
 Ests com muito melhor aspecto  respondeu Sofia, encantada, e curvou-se para a beijar.
 Sinto-me melhor.
Ao olhar para a sua cara magra mas radiosa, Sofia teve a certeza de que Maria ia viver. No podia simplesmente acreditar que uma pessoa to boa como Maria lhes fosse
tirada. Em especial agora que tinha acabado de a redescobrir.
Chiquita andava pela casa, a tratar das plantas, enquanto os filhos mais novos de Maria brincavam nos baloios com os primos.
 Os outros esto no campo de tnis e deitados  beira da piscina  disse Maria.  Podes ir ter com eles, se quiseres.
 No te cansas, com toda a gente a andar  tua volta?  perguntou Sofia. No queria que Maria pensasse que tinha de falar com ela.
 Um pouco. No quero toda a gente de roda de mim,  espera que eu morra.  Soltou uma risada triste e baixou os olhos.
467
 Sabes que os milagres acontecem. Ests com muito melhor aspecto  disse Sofia, esperanosa.
 Adorava que acontecesse um milagre. Seria uma surpresa encantadora.  Maria suspirou.  Mas  verdade que me sinto melhor. Aquele hospital faz-nos sentir como
se j estivssemos mortos.
 No vamos falar disso, Maria. Vamos falar dos tempos passados  sugeriu Sofia.
 No, quero que me fales do que andaste a fazer nos ltimos vinte e trs anos. Eu fecho os olhos e podes contar-me uma histria de encantar.  E ento Sofia recostou-se
na cadeira e Maria dormitou enquanto ela tagarelava acerca da vida que deviam ter passado juntas.
Tal como era costume ao sbado, o almoo foi asado. Os cheiros familiares de lomo e chorizo a cozinhar pairavam na brisa, e ela ficou a ver como toda a famlia se
reunia debaixo dos altos eucaliptos cheios de folhas. Clara pediu para se sentar ao lado da sua nova tia. Pegou-lhe na mo e conduziu-a para as mesas cobertas de
pratos a transbordar de comida. Sentiu muito prazer em dizer-lhe como se faziam as coisas. Primeiro, tinha de escolher um pedao de carne no churrasco  podia tirar
o pedao que quisesse, disse Clara, generosamente , depois ia servir-se de salada e batatas que estavam na mesa. Sofia baixou os olhos para aquela preciosa criatura
e de repente sentiu uma profunda saudade das suas prprias filhas. Clara reparou na sua expresso de ternura e sorriu-lhe interrogativamente, antes de se escapar
aos saltos para ir buscar comida.
Se Sofia se tivesse permitido o luxo de continuar a pensar na famlia que tinha deixado em Inglaterra, provavelmente teria ouvido a vozinha da sua conscincia, mas
no havia, simplesmente, tempo e ela no ouviu a tal vozinha. Santi apareceu com Panchito e, enquanto conversou com eles junto do churrasco, teve conscincia de
todos os movimentos e gestos de Santi. Mal reparou no que ela prpria dizia; as palavras tinham vida prpria.
Santi e Sofia continuavam a conseguir comunicar em segredo sem que mais ningum reparasse, atravs do movimento dos olhos. Gestos que eram vulgares para todos tinham
um significado especial para eles. Sofia deu por si a viver um estado permanente de dj vu.
468
Ela e Santi estavam a reviver o passado, enquanto todas as pessoas que os rodeavam tinham mudado e avanado. Sofia tinha os mesmos sentimentos, Santa Catalina tinha
o mesmo aspecto, os mesmos cheiros e, no obstante, no era a mesma. Mas Sofia ainda no estava preparada para enfrentar esse facto. Quando estava perto de Santi,
havia uma certa aparncia de normalidade.
Clara estava fascinada por ela. Porm, como todas as crianas, s estava interessada em falar de si mesma. Queria contar tudo a Sofia. Queria desesperadamente impression-la,
ao ponto de saltar da mesa e andar sobre as mos, a fazer o pino, ao lado da mesa toda. A me limitou-se a rir e disse-lhe que guardasse as palhaadas para depois
de almoo, quando houvesse menos possibilidade de a comida que tinha engolido reaparecer sem ser convidada. Sofia admirou a maneira calma como ela lidou com a filha.
Clara riu-se e voltou para o seu lugar, sempre aos saltos. Claro que Sofia no resistiu a contar-lhe algumas histrias. No podia desejar melhor audincia. Com os
olhos dilatados de admirao, Clara arquejava, deliciada e descrente, por Sofia, uma pessoa crescida, poder alguma vez ter sido to marota. Mas a diverso durou
pouco; Clara voltou a desempenhar o papel principal, despejando palavras com tal rapidez que Sofia mal conseguia compreend-las.
A ateno de Sofia no estava completamente centrada em Clara. Deixou-a tagarelar, foi fazendo os rudos certos nos momentos exactos, mas, ao mesmo tempo, observava
e escutava as outras conversas que decorriam  sua volta. Tinha perfeita conscincia de Claudia, toda engomada e brilhante numa blusa azul-gelo e calas de ganga.
Sabia que Claudia tambm tinha conscincia dela. Apanhou-a duas vezes a mir-la, mas Claudia desviou imediatamente os olhos, como se tivesse ficado embaraada por
ter sido apanhada a olhar.
Maria era o assunto de todas as conversas. Chiquita disse-lhes que hoje ela tinha muito melhor aspecto e que no havia nada como o seu lar para lhe devolver a vida.
O seu rosto pequeno exprimia esperana, mas Sofia distinguia o total desnimo no fundo dos seus olhos. Depois, todos comearam a recordar o passado. Sofia achou
muito perturbador ficar sentada a ouvir falar de coisas acerca das quais nada sabia. Logo que a ateno de Clara se desviou, ela pde
469
entrar na conversa e rir-se das histrias que contavam. Mas os velhos tempos deles no eram os seus e Sofia teve a estranha sensao de ser uma intrusa. Por um lado,
achava que se tinha encaixado de novo, mas, por outro, tinha perdido tanta coisa que, na verdade, no conseguia estabelecer ligao com ningum  excepo de Santi.
Todos os seus primos queriam saber como ela tinha passado as ltimas duas dcadas, mas a sua vida era to diferente da deles que algumas frases satisfaziam a sua
curiosidade; afinal, tinham muito pouco a dizer uns aos outros. S Santi e Sofia no tinham mudado. A sua dinmica era exactamente a mesma de h vinte e trs anos.
Por isso, quando ele lhe props treinarem um pouco com taco e bola depois do jogo de plo, ela sentiu alvio. Claudia s podia ficar a olhar, desamparada. Santi
declarou que tambm no ia  missa, pois queria ficar ao p da irm. Mas Sofia sabia qual a razo que estava por detrs da deciso. Notou que a cara plida de Chiquita
se franzia. Pensou que tambm ela devia saber, ou pelo menos suspeitar. No tinha esquecido o passado, como Rafael, e Chiquita conhecia o filho melhor que ningum.
Sofia no deu importncia aos olhares de suspeita e retirou-se para a frescura do seu quarto para dormir a siesta. Da janela via as crianas mais velhas que se dirigiam
para a piscina com os fatos de banho vestidos. Estava demasiado calor e estava demasiado sonolenta, por causa do vinho e da humidade, para ir ter com eles. De repente,
sentiu-se bastante velha. Ser adulto em Santa Catalina era uma estreia para si.
 Santiguito joga bem, no joga?  perguntou Santi, cheio de orgulho, enquanto o filho galopava pelo campo.
 Tal como o pai  respondeu Sofia.
 Faz lembrar outros tempos, no ?
 Sem dvida  disse ela, e ficou a v-lo afastar-se a meio galope, com as costas nuas contradas quando ergueu o taco. Desejava ser a rapariga que tinha sido noutros
tempos e saltar para o lombo de um pnei, mas agora era mais velha. Perguntou a si mesma se ainda saberia sequer jogar.
Sofia sentou-se na erva com Chiquita e, para sua surpresa, Anna apareceu e foi ter com elas. Ao princpio, havia uma certa tenso no
470
ambiente, mas logo que Clara as descobriu, a sua ateno desviou-se umas das outras para a ginstica da menina. As trs riram-se quando ela comeou aos saltos como
um macaquinho.
 Sabes, Sofia, eras exactamente assim  disse Chiquita quando Clara passou por elas a toda a velocidade.
 Eras, de facto  concordou a me.  Eras to exibicionista que eu no sabia o que havia de te fazer.
 Era horrvel, eu?  perguntou ela, satisfeita por Anna entrar na conversa. Esta acenou com ar severo, mas Sofia reparou que a me estava a fazer um esforo enorme
para ser agradvel.
 Eras difcil  reconheceu.
Sofia no achava fcil conversar com a me. Havia muitos assuntos que elas no podiam discutir, por isso contornavam-nos como um par de patinadores com receio de
partirem o gelo e mergulharem na gua, onde encontrariam os demnios que teriam de enfrentar. No fundo, para Sofia, a me continuava a ser responsvel pela partida
dela. Tinha-lhe roubado tudo aquilo. A vida que podia ter tido estava bem  mostra a toda a sua volta. Nunca poderia perdoar-lhe isso. E assim tagarelaram delicadamente
com a ajuda de Chiquita, que actuou como rbitro, mudando de assunto sempre que sentia que estavam a arranhar a superfcie um pouco perto de mais da gua.
 Como so as tuas filhas, Sofia?  perguntou Chiquita.
 Oh, adorveis, claro. Muito britnicas. David  um pai fantstico e estraga-as terrivelmente com mimo. So as princesinhas dele e, aos seus olhos, nada do que
fazem est mal.
 E aos teus olhos?  perguntou a me.
 Bem, podem ser marotas, alm de encantadoras  respondeu a sorrir, recordando os rostos delas.  Honor  indomvel como eu era, na verdade, praticamente incontrolvel,
e ndia gosta mais de ficar em casa e de estar com os cavalos.
 Portanto, agora sabes o que eu tive de aturar  disse Anna, e sorriu para a filha.
 Sim, sei. No h nenhuma poo mgica para crianas, pois no? Tm as suas prprias personalidades, que ns no podemos controlar.
471
 Sem dvida  acenou Anna e, de repente, as duas mulheres aperceberam-se de que, ao fim de todos aqueles anos, tinham finalmente descoberto alguma coisa em comum.
Ambas eram mes.
 No ests a ver, abuelita  lamentou-se Clara para a av, antes de dar outro salto sobre as mos.
A conversa mudou mais uma vez e Clara deitou-se com as costas apoiadas no peito da tia e adormeceu ao sol. Sofia conversava com Chiquita acerca de Maria; a tia tentou
fazer-lhe perguntas pessoais, mas, como era inevitvel, a conversa regressava sempre a Maria  era assim que Sofia queria. Falaram das suas recordaes dos velhos
tempos e sentiu-se feliz porque tambm eram os seus velhos tempos.
Logo que o jogo terminou, um Santi imparvel veio ter com elas a meio galope.
 Mam, s um anjo e empresta-me Sofia durante um bocado.
 Olhou para ela e riu-se.  Vou arranjar-te um pnei.
 Bueno, Santi  respondeu a me, pondo-se de p. Ia para dizer qualquer coisa, mas conteve-se e inspirou de repente.  No, nada  disse entre dentes, em resposta
ao olhar interrogativo de Sofia.
  melhor ir ver como est Maria. At logo.  E, levando consigo Clara, ainda sonolenta, meteu-se pelo meio das rvores.
Santi acompanhou Sofia at onde Javier a esperava com Ym Pura. Sofia montou sozinha com facilidade. Javier entregou-lhe um taco e Santi afastou-se a meio galope
com um brilho nos olhos, batendo a bola  sua frente. Era fantstico estar mais uma vez na sela, com o vento no cabelo e com aquela sensao h muito esquecida do
galope forado atrs da bola. Riam-se como outrora, erguendo os tacos e fintando-se um ao outro.
  como andar de bicicleta  gritou Sofia, excitada, descobrindo que, afinal, no se tinha esquecido de como se jogava.
 Ests um pouco enferrujada, gorda  provocou-a ele, ao passar a voar ao lado dela.
 Eu mostro-te... viejo.
 Viejo? Estou velho, ? Vais pagar isso, Chofi!  e voltou para trs, carregando sobre ela. Ela virou o pnei e atravessou o campo a meio galope, dirigindo-se para
o ombu. Santi percebeu para onde
472
ela o levava e entrou no jogo de boa vontade. Sofia lanou-se a galope pelas sombras compridas do fim do dia, sobre a erva orvalhada, enquanto os campos passavam
por si a grande velocidade. O cu imenso cintilava num laranja enevoado e o Sol descia como um enorme e radioso pssego. Santi alcanou-a e continuaram a galopar
lado a lado, trocando sorrisos, mas mudos de felicidade.
Finalmente abrandaram para um meio galope tranquilo e pararam debaixo dos ramos to seus conhecidos. Os pneis tremiam de excitao e, quando eles desmontaram, deixaram-se
ficar a respirar ruidosamente  sombra. Os grilos cantavam como sempre nos seus esconderijos secretos. Sofia inspirou aquelas caractersticas nicas da Argentina
que tanto amava.
 Lembras-te da tua histria do Presente Precioso?  perguntou ela, espreguiando-se com prazer.
 Claro.
 Pois bem, eu estou verdadeiramente a viver no presente, aqui e agora.
 Tambm eu  disse ele, suavemente, aproximando-se por detrs e passando os braos  volta dela. Ficaram ambos a olhar para o horizonte, que mudava lentamente de
cor diante dos seus olhos.
 Agora reparo em tudo. Os grilos, o cu imenso, a plancie to lisa, os cheiros. Vejo agora como senti a falta de tudo.
Ele beijou-lhe o pescoo, esfregando a cara na dela.
 Lembro-me de quando regressei da Amrica  recordou.  A Argentina parecia diferente. Ou antes, era a mesma, mas eu reparava em tudo. Via-a de uma maneira diferente.
 Agora compreendo o que queres dizer.
 Bem, estou satisfeito por te ter ensinado alguma coisa  brincou ele. Mas no se riram. Ficaram durante algum tempo em silncio. Embora Sofia no quisesse enfrentar
a ideia naquele momento, no seu corao sabia que chegaria o momento em que teria de abandonar tudo outra vez.
Por fim, ele virou-a para si. Ao contemplar os seus meigos olhos verdes, Sofia sentiu que podia contemplar a sua prpria alma e ele a dela. Sabia o que ele estava
a pensar e compreendeu a profundidade do seu amor. Tinha uma expresso triste, aquela tristeza que, por ve-
473
zes, o amor d, e ambos se entregaram egoistamente  melancolia das suas emoes. Quando a beijou, foi de tal maneira absorvente que, se no se tivessem encostado
 rvore, as pernas dela no a teriam suportado. Ele sabia a suor e cheirava a esforo e, como no conseguiu descalar as botas, fizeram amor com elas caladas.
 assim que fazem os amantes, ou os adlteros, pensou Sofia. At certo ponto, tinha alguma coisa de brutal. Talvez porque, desta vez, tinham mais a perder, os
seus momentos juntos seriam apressados e roubados. A inocncia da juventude fora substituda por um mundanismo que Sofia achava incrivelmente excitante  e tambm
trgico.
 Dios, sabia-me bem um mergulho  disse ele, puxando as calas para cima.
 Que ideia fabulosa. Achas que est l algum?
- Espero que no.  Encostou a palma da mo  face hmida dela e beijou-a outra vez.  Sinto-me inteiro de novo, Chofi  disse, e sorriu para ela.
Quando devolveram os pneis e seguiram disfaradamente para a piscina, o Sol j se tinha posto. A humidade transformava o ar em acar e transportava nas suas partculas
hmidas os cheiros dos eucaliptos e do jasmim. Para seu alvio, no estava l ningum. A piscina estendia-se  sua frente em silncio, de guas imveis. Despiram
as roupas com cuidado, abafando o riso, lutando para arrancar as botas dos ps de Santi. Mergulharam com jeito, para no fazerem barulho, e encontraram-se no fundo,
na escurido pesada.
 Onde vais dizer que estiveste?  perguntou-lhe ela passado um bocado. Nenhum deles fazia a menor ideia das horas que eram.
 A minha me vai saber exactamente onde eu estive. Eu conto-lhe a verdade, mas deixo de fora as ilegalidades  disse ele com um ar afectado.
 Que dir Claudia?  perguntou Sofia, rindo-se maliciosamente. Mas ele abanou a cabea com ansiedade.
 Sabes que detesto enganar as pessoas desta maneira. Ela sempre foi boa para mim.
Sofia arrependeu-se de ter falado em Claudia.
 Eu sei, tambm no gosto de enganar David. No pensemos nisso. Lembras-te do Presente Precioso?  perguntou alegremente,
474
mas o momento estava estragado. Nadaram em silncio durante um bocado, lutando com as suas conscincias, antes de se sentarem nas lajes para secarem.
 C de culpa, no ?  sussurrou, compreensiva.
 Exactamente  respondeu ele, pondo o brao  volta dos ombros dela e puxando-a para junto dele.  Mas no A de arrependimento.
 Nenhum?
 Nenhum. Amanh vem cedo, est bem?
 Claro, mas quero passar tanto tempo quanto possvel com Maria. Ela est com muito melhor aspecto que no hospital.
 Est, sim. Mas, Chofi...
 Sim?
 Ela vai morrer.  A voz dele tremeu.
 Milagres...
 Acontecem, eu sei  disse, engasgado, e Sofia puxou-o para si quando ele se desfez em soluos fundos e doridos. No conhecia palavras que o reconfortassem. No
havia palavras. E, de toda a maneira, as palavras que ele queria ouvir, essas no podia oferecer-lhe. Por isso, apertou-o contra o peito e deu-lhe tempo para chorar
e assim libertar-se de alguma dor.
 Santi, meu amor, liberta-te de tudo. Sentir-te-s muito melhor depois.
Deu por si a chorar tambm, silenciosamente, mas com uma conteno que lhe fazia doer a garganta. Sabia que, se se entregasse, seria inconsolvel  e, pior que isso,
as suas lgrimas no seriam s por Maria.

CAPTULO QUARENTA E DOIS
Quando Sofia voltou para casa j era tarde; os pais estavam  espera dela no terrao, com Rafael e Jasmina. Explicou que era melhor tomar banho e mudar de roupa,
depois perguntou se podia telefonar para casa. Na verdade, no queria telefonar, mas sabia que David ficaria preocupado se no o fizesse.
 Como est a tua prima?  perguntou-lhe o marido.
 No h nada a fazer  respondeu Sofia com tristeza , mas pelo menos posso passar algum tempo com ela.
 Ouve, querida, podes ficar a o tempo que quiseres. As meninas esto ptimas, est tudo a correr bem.
 E os cavalos?
 Nada de novo. Mas as meninas tm saudades tuas.
 Tambm eu tenho saudades delas  disse Sofia, envergonhada porque o tumulto em que andava o seu corao tinha vencido a falta que sentia delas.
 Este ano, a Honor  a figura principal da pea da escola. Est absolutamente encantada porque o elenco inclui raparigas de dezassete anos e ela s tem catorze.
Acho que anda a gabar-se de mais.
 Imagino...  respondeu.
 Olha, ela quer falar contigo  disse ele.
Ao ouvir a voz de Honor a chilrear ao telefone, a garganta de Sofia comeou a doer-lhe com uma combinao de culpa e saudades.
 Ol, me. Sou a actriz principal da pea A Bruxa Branca  exclamou ela, deliciada.
 Eu sei, o pai disse-me. Muito bem!
476
 Tenho de decorar o papel.  muito grande.  o maior de todos os da pea. Miss Hindlip est a fazer-me um fato especial e estou a ter lies de elocuo para aprender
a projectar a voz.
 Nesse caso, vais estar muito ocupada, no ?
 Muito. No vou ter tempo nenhum para estudar.
 At a, nada de novo  disse Sofia, soltando uma risada.  Como est ndia?
 O pai diz que  melhor ela no falar contigo, porque fica muito triste  anunciou Honor com o seu melhor tom de voz de filha-mais-velha-e-mais-responsvel.
 Compreendo. Nesse caso, diz-lhe que mando um beijo muito especial para ela, dizes? Sinto muito a falta das duas.
 Mas voltas para casa em breve, no voltas?
 Claro, minha querida. Muito em breve  disse Sofia, tentando esconder a emoo.  Passas o telefone outra vez ao pai? Um grande beijo para as duas.
Honor repenicou um beijo ao telefone antes de o passar ao pai.
 ndia est bem?  perguntou com ansiedade.
 Est ptima. Sente a tua falta,  tudo. Mas no te preocupes, est muito bem. Pela voz pareces estar muito em baixo, amor. Lamento muito. Quem me dera estar a
contigo.  A voz dele era compreensiva, mas incomodativa. Sofia sentiu-se irritada.
  melhor desligar.  caro. D muitas saudades minhas s meninas.
 Claro. E toma conta de ti, querida.
Por um instante, Sofia sentiu algum desconforto. O telefonema deixou um resduo amargo. Sentiu-se hipcrita e odiou-se pela capacidade de mentir com tanta convico.
A ideia dos rostos inocentes e confiantes das filhas fez com que achasse a sua falsidade ainda mais desprezvel. David tinha sempre sido extremamente carinhoso para
si. A sua voz carinhosa, as suas palavras carinhosas fizeram-na sentir-se baixa e mesquinha como nunca. Mas quando apareceu no terrao alguns minutos depois, j
com roupa limpa e pronta para jantar, a Inglaterra recuou mais uma vez para os bastidores e ela voltou a viver no Presente Precioso da noite quente e hmida, respirando
o mesmo ar que Santi.
477
O jantar foi muito agradvel. Dois candeeiros de velas iluminavam a mesa, e as melodias do Rquiem de Mozart ressoavam pelas janelas abertas da sala de estar. Gostava
muito de Jasmina e conversaram agradavelmente como velhas amigas.
 Vivemos num limbo terrvel  disse Jasmina.  Para as crianas, a vida continua. Regressam  escola na segunda-feira. Acho que nem sequer sabem o que est a passar-se.
Mas, para ns, com esta espera, as nossas vidas esto suspensas at Maria ser levada de junto de ns. E no sabemos daqui a quanto tempo isso vai suceder.
 Que vo fazer? - perguntou Sofia.  Voltam para Buenos Aires, como costumam?
 No. As crianas vo com Juan Pablo, o motorista, amanh  noite, mas ns ficamos...  espera, acho eu.
 Vou ter pena quando Clara se for embora; ganhmos muita estima uma pela outra.
 Ela vai ter pena de sair de junto de ti... acho que gosta muito de ti.  E riu-se,  sua encantadora maneira feminina.  Regressa no prximo fim-de-semana. Nessa
altura, provavelmente, j estars farta dela.
 Acho que no. Ela  adorvel.
 Rafa diz que ela  como tu eras naquela idade.
 Espero que no acabe como eu  brincou, com voz triste.
 Terei orgulho dela se assim for  declarou Jasmina, enfaticamente.  Sabes, Maria est felicssima por teres vindo. Sentia muito a tua falta. Falava muitas vezes
de ti.
 ramos muito chegadas.  triste quando a vida no corre como ns espervamos  disse ela com melancolia.
 A vida  sempre inesperada, mas  isso que faz dela uma aventura. No penses no que perdeste, Sofia, pensa no que tens.
Nesse momento, entrou Soledad com a sobremesa preferida de Sofia, crepes de banana e dulce de leche.
 Para si, Seorita Sofia  anunciou, radiosa de orgulho, colocando-a na mesa.
 s divina, Soledad. No sei como sobrevivi sem isto durante vinte e trs anos  disse Sofia para lhe agradar.
 Nunca mais vai passar sem ela, Seorita Sofia.
478
 Quanto tempo pensas ficar?  perguntou Rafael, servindo-se de uma grande dose de crepes, sem esperar por ningum.
 No sei  respondeu ela, francamente.
 Sofia est a acabar de chegar, mi amor, no lhe perguntes quando parte  censurou Jasmina.
 Deves ficar enquanto quiseres  disse Paco.  Este  o teu lar, Sofia,  aqui que deves estar.
 Concordo, pai. Eu disse-lhe que devia trazer o marido e as filhas para aqui.
 Rafa, sabes que isso  impossvel. Que faria David?  disse ela a rir.
 A questo no  essa. No podes desaparecer durante anos, regressar e depois deixar-nos outra vez!
Sofia olhou de relance para a me. Quando o fez, Anna ergueu os olhos e os seus olhares cruzaram-se. Sofia tentou perceber o que ela estava a pensar mas, ao contrrio
do pai, a expresso de Anna no revelou nada.
 Sinto-me lisonjeada. A srio  respondeu, servindo-se da sobremesa.
 Agustin deixou-nos e foi para a Amrica... no percebo os jovens de hoje  disse o pai, abanando a cabea prateada.  No meu tempo, a famlia mantinha-se junta.
 No teu tempo, pai, a situao deste pas era tal que a famlia tinha de se manter junta. Nunca sabamos quando um membro da famlia nos era arrancado mesmo debaixo
do nosso nariz  disse Rafael, sombriamente, a pensar em Fernando.
 Foram tempos difceis.
 Lembro-me de que, quando era criana  continuou ele , a vossa preocupao em saberem onde estvamos era quase doentia.
 Os raptos eram comuns. Estvamos sempre preocupados com vocs  disse Anna.  Em especial com Sofia, sempre a desaparecer com Santi e a querida Maria.
 Que h de novo?  troou Rafael, e Sofia no percebeu se o irmo estava a referir-se ao presente ou ao seu desaparecimento h tantos anos.
 Nunca compreendi porque se preocupava tanto, me. Achava que era parania - confessou Sofia.
479
 No, no compreendias. S achavas que eu era desmancha-prazeres. Fizeste-me passar maus bocados, Sofia.  Disse as palavras simplesmente, sem a menor sugesto
de humor, embora no tivesse querido parecer to amarga.
 Lamento, me.  Sofia ficou surpreendida consigo mesma, porque estava a ser sincera. Nunca tinha olhado para si mesma pelos olhos da me. Mas, agora, tambm era
me e preocupava-se constantemente com as filhas. Uma pequena centelha de compreenso acendeu-se no seu esprito. Olhou para a me e sentiu tristeza.
Nessa noite, Sofia foi cedo para o quarto. Deixou-os a conversar no terrao, com as caras iluminadas pela luz bruxuleante das velas e as vozes misturadas com o coro
suave dos grilos que enchia o silncio da pampa, e foi lentamente para o quarto, atravessando o ptio cheio de vasos suspensos de gernios iluminados pelo luar.
Deitou-se e tentou dormir, mas em vo. Ansiava pela presena de Santi. Perguntou a si mesma quanto tempo ainda teriam para estar juntos. Sabia que chegaria o momento
em que teria de deix-lo. Ou existiria uma hiptese de viverem a vida juntos? Sem dvida que a mereciam, depois de tanto tempo. A sua mente remexia aqueles pensamentos,
numa tentativa de lhes dar sentido.
Por fim, frustrada, afastou os lenis com os ps. Precisava de ver Santi. Precisava de saber que no ia acabar tudo, agora que se tinham reencontrado. Enfiou o
roupo e saiu em silncio para a noite. A Lua estava cheia e fosforescente. Como uma r, Sofia foi saltando de sombra em sombra, com os ps descalos humedecidos
pelo orvalho. No sabia o que ia fazer para o encontrar, ou como ia acord-lo sem acordar a mulher.
Chegada  casa, Sofia contornou-a, sempre perto das paredes. Espreitando pelas janelas, tentou descobrir qual era o quarto deles. Ao contrrio da casa dos seus pais,
a de Chiquita era de um s piso, pelo que no tinha de enfrentar escadas nem de lutar contra plantas trepadeiras. A maioria dos quartos era protegida por persianas
 tinha-se esquecido de que os Argentinos adoravam persianas. Claro que no via nada por elas, por isso no tinha maneira de saber o qu ou quem estava do outro
lado. Foi at ao terrao e parou em cima das lajes lisas, sem saber o que fazer. Estava prestes a desistir quando
480
uma pequena luz vermelha por baixo da varanda lhe atraiu o olhar. Olhou com mais ateno e viu que era a ponta de um cigarro.
 Deixei de fumar h anos  disse uma voz na outra ponta.
 Santi! Que ests a a fazer?  disse ela, com um arquejo de alvio.
 Esta  a minha casa. Que ests tu a fazer aqui?
 Vim ver-te  respondeu ela num sussurro alto. Em bicos de ps, foi sentar-se ao lado dele no banco.
 s doida  disse ele a rir.  Mas  por isso que te amo.
 No conseguia dormir.
 Eu tambm no.
 Que vamos fazer?
 No sei.  Ele suspirou e apagou o cigarro. Puxou-a para junto de si e encostou a cara  dela. A barba dele, j com um dia, picava.
 No suporto que acabe tudo, agora que nos reencontrmos  murmurou ela.
 Eu sei... tenho andado a pensar a mesma coisa  disse-lhe ele.  Quem me dera que tivssemos fugido juntos naquela altura.
 Tambm eu. Se ao menos...
 Talvez nos tenha sido dada uma oportunidade e no a aproveitmos.
 No digas isso, Santi. Ns criamos as nossas prprias oportunidades  respondeu com azedume.
  mesmo maldade tua, vires aqui desta maneira.  Esfregou-lhe a cabea afectuosamente.  S espero que no aparea mais ningum que no consegue dormir.
 Tu e eu sempre estivemos em sincronia.
  esse o problema. E isso nunca vai desaparecer, seja qual for o lado do mundo em que estivermos.
 Quanto tempo temos, Santi?  perguntou Sofia com uma calma forada, pois no queria mostrar at que ponto estava desesperada.
 Amanh  noite, Claudia vai levar as crianas para Buenos Aires  respondeu ele. Sofia ficou sem saber se ele tinha interpretado a sua pergunta deliberadamente
mal.
481
 Ento vamos poder passar algum tempo juntos?
 Para ela est a ser difcil.
 O qu?
 Tu teres aparecido de repente.
 Ela sabe o que h entre ns?  perguntou Sofia com curiosidade, sentindo-se secretamente satisfeita por ela saber.
 Sabe que fomos amantes. Eu disse-lhe. Toda a gente sabia. Como podes imaginar, era difcil calar um escndalo destes. Eu no queria mant-la na ignorncia de uma
coisa que todos os outros sabiam. Tambm queria ser honesto. Ela merecia saber. Queria que compreendesse que no tinha sido uma histria srdida, que nos amvamos.
Ela preencheu um vazio na minha vida, Chofi. Tornou-me feliz numa poca em que eu pensava que nunca mais seria feliz.
 Que ests tu a querer dizer?  perguntou devagar, mas sabia. Santi beijou-lhe a tmpora e ela sentiu o peito dele dilatar-se quando respirou fundo.
 No sei, Chofi. No quero feri-la.
 Bem, no pensemos nisso agora  disse ela, corajosamente. Acreditava que, se no encarassem a situao de frente, ainda havia esperana.  No temos de tomar decises.
Aproveitemos o prazer de estarmos juntos, com Maria.
 Claro... no temos de tomar decises  repetiu ele.
Sofia desejou que a incerteza o atormentasse tanto como a atormentava a ela.
Quando regressou silenciosamente ao seu quarto, a madrugada j transformava o cu num espectro de tons de azul e rosa. Sofia desviou os pensamentos do futuro, pois
tinha demasiado medo de enfrentar o que era inevitvel.
Como  natural, Sofia acordou tarde, mas, desta vez, sabia exactamente onde estava. Enfiou um vestido curto e fresco e saiu resolutamente para a manh radiosa. Estava
muito calor sob o implacvel sol argentino. Lembrava-se de que costumava passar a maior parte do Vero estendida numa cadeira de repouso  beira da piscina, a torrar.
Desde que vivia em Inglaterra, sentia a falta do calor e tinha-se esquecido daquele cu azul lmpido que agora cintilava por cima dela.
482
Quando apareceu no terrao, Jasmina e Rafael estavam a ler ao p de Anna e Paco, protegidos por chapus-de-sol, enquanto as crianas, deitadas de barriga para baixo,
faziam desenhos com os primos. Era uma cena de tranquilidade e Sofia sentiu inveja. Teria sido assim se ela tivesse regressado? Ela e Santi teriam afinal podido
ter a sua vida com Santiguito? Por um momento, o seu corpo doeu com a falta de Santiguito e das suas filhas. Perguntou a si mesma onde estaria agora o seu filho.
Teria vinte e trs anos, um homem novo. Nem sequer a reconheceria se a visse. Seriam simples desconhecidos.
Dominando aquela dor sua conhecida, cumprimentou a famlia e sentou-se  mesa. Pouco depois, Soledad apareceu com ch, torradas, membrillo e queijo. Reparou que
o beb de Jasmina estava deitado sobre o peito dela, parcialmente coberto por um belo xaile branco. Tinha uma mo sobre a cabea da criana, enquanto a outra segurava
o livro. Se soubesse pintar, Sofia podia t-la representado assim, serena e bela como em Me e Filha, de Sorolla.
Todo o tempo que esteve ali sentada, Sofia desejou estar com Santi. Estava ansiosa por que chegasse a noite, para que Claudia desaparecesse, fosse para a cidade,
deixando-os sozinhos e juntos. Ningum falava. Cada pessoa parecia perdida no seu pequeno mundo, e Sofia recordou aqueles dias inocentes da sua juventude, quando
fazia parte do mundo dos outros. Olhou para a me, lendo tranquilamente  sombra, com um chapu na cabea; o chapu era uma das suas marcas registadas. Sofia no
se recordava do que ela usava no Inverno; as suas recordaes pareciam ser s do Vero. Paco lia os jornais dominicais, com uns pequenos culos redondos empoleirados
na ponta do seu grande nariz adunco. Sentindo-se observado, levantou os olhos e sorriu para ela. Os seus olhos cintilaram amorosamente. Contudo, Sofia no se enquadrava
no cenrio. Cada um tinha o seu lugar ao sol. Partilhavam uma familiaridade fcil que no precisava de palavras. Estavam inseridos no seu meio. Sofia j estivera
inserida, mas agora a recordao dessa pertena estava desvanecida e no se lembrava de como tinha sido.
Bebeu o ch em silncio. Passado um bocado, Clara aproximou-se dela aos saltos para lhe mostrar a sua pintura. Era muito boa para uma criana da sua idade, cheia
de cores vivas e rostos felizes. As suas pinceladas eram ousadas e cheias de confiana. Sofia admirou-a.
483
 s uma bela artista!  exclamou, entusiasmada. A cara de Clara iluminou-se de orgulho.  Quem te ensinou a desenhar?
 Ningum. Gosto. Sou a melhor da minha classe na escola. Sofia sorriu para a cara de elfo da criana.
 Vais ser uma artista quando cresceres?
 No  respondeu ela com toda a certeza.  Vou ser actriz.  E sorriu, um sorriso largo e feliz.
 Acho que sers muito boa actriz, Clara.
 Achas?  exclamou, saltando de um p para o outro.
 Qual  o teu filme preferido?
 Mary Poppins.
 E quem gostarias de ser, a menina?
 No. Mary Poppins. Sei as palavras todas  e comeou a cantar:  A spoonful of sugar...
  verdade, sabes as canes todas  disse Sofia a rir.
 A mam diz que  uma boa maneira de aprender ingls.
 E tem razo,  de facto.
 Vou voltar para Buenos Aires esta noite  lamentou-se a criana, fazendo uma careta.
 Mas gostas da escola e voltas no prximo fim-de-semana, no ?
 E tu estars c?
 Claro que estarei  respondeu Sofia, no querendo desiludi-la. No sabia quando se iria embora. No queria pensar nisso.
 Agora ficas aqui? O pap diz que ficas.
Sofia olhou para Rafael, que ergueu os olhos do jornal e sorriu com ar culpado.
 Acho que no fico  disse, com franqueza.  No para sempre. Mas tens de ir ter comigo a Inglaterra. Gostars de l estar. O melhor teatro  em Inglaterra.
 Oh, eu sei tudo sobre Inglaterra. Mary Poppins vivia em Inglaterra  disse ela, muito sria.
 Muito bem.
 Olha, ali est o carroX
Do meio das rvores saiu a carroa puxada por cavalos, com Pablo a segurar as rdeas. Sofia recordou que, h muitos, muitos anos, tinha dado um suave passeio pela
quinta com a av. A abuelita Sola-
484
nas sempre dissera que um dos maiores prazeres da sua vida era dar um passeio pela pampa, confortavelmente instalada no assento de couro gasto da carroa, a contemplar
o campo  sua volta. Sempre que se aproximavam de um buraco no caminho, ordenava a Jos, na sua voz fraca mas firme, que tivesse cuidado e, de vez em quando, mandava-o
parar se avistasse um pssaro ou um animal interessante. Tinha dito a Sofia que, quando era mais nova, costumavam ir  cidade na carroa. Quando Sofia comentara
que devia demorar horas, a av respondera que a vida passava a um ritmo muito mais lento quando ela era nova. Nada como a maneira como corre agora. Assim, chegas
a velha antes de gozares a tua juventude, dissera ela em tom de desaprovao. Contudo, Sofia recordava que o romantismo se esgotava depressa, pois ansiava por que
Jos desse um pouco mais de rapidez aos cavalos. Mas a av no deixava que fossem mais depressa e era evidente que se deliciava com o panorama  e ia cumprimentando
os gachos que passavam por ela.
Paco foi para junto dos cavalos lustrosos. Deu-lhes umas palmadas com mo firme e tagarelou com Pablo.
 Sofia, queres vir comigo?  perguntou-lhe o pai.
 Eu tambm, eu tambm!  guinchou Clara, atirando o caderno de desenho ao cho e correndo para junto do av.
 Vou adorar  respondeu Sofia, que foi tambm ter com eles. Pablo desmontou e Paco ergueu Clara com as suas grandes mos, como se levantasse um cachorrinho. Sentaram-se
uma de cada lado dele,  frente, e ele entregou as rdeas a Clara, explicando-lhe pacientemente como guiar. Sofia olhou para Pablo que voltou para trs por entre
as rvores. Acenaram para Rafael e Jasmina e tambm para Anna, que pousou o livro e sorriu para eles por baixo da aba do chapu.
 Eles esto a ver? Eles esto a ver?  sibilou Clara enquanto virava os cavalos, com a cara cheia de concentrao.
 S tm olhos para ti, minha querida  disse Paco, e Sofia recordou que era precisamente o gnero de coisas que ele costumava dizer-lhe.
Saram do parque a trote. Sofia no conseguiu impedir-se de ter um aperto de pena quando se dirigiram na direco contrria  casa de Chiquita. Estava desesperada
por ver Santi e era-lhe difcil pensar
485
noutra coisa. Tal como com a av, h tantos anos, a novidade esgotou-se passado um bocado e Sofia desejou estar noutro lado. O pai ouvia com pacincia a tagarelice
da neta que no parava para respirar. Por fim, quando surgiu uma pausa na conversa, desviou a ateno para Sofia.  Tu costumavas gostar de guiar os cavalos  disse.
 Lembro-me bem, pap. Jogavas plo melhor. Ela riu-se.
 Gostava mais de plo.
 Lembras-te de La Copa Santa Catalina?  perguntou ele, sorrindo com a recordao.
 Como podia esquecer? Graas a Deus, Agustin caiu, seno nunca me teriam deixado jogar.
 Sabes que sempre quis deixar-te jogar, desde o princpio.
 Quiseste?
 Mas sabia como a tua me detestava que tu jogasses. Ressentia-se do facto de tu te inserires to bem, Sofia. Ela nunca conseguiu.  Virou-se e olhou-a nos olhos.
Ela viu pena nos olhos dele.
 Ela optou por viver aqui  resmungou, virando-se para o outro lado.
 Clara, olha, os outros meninos esto nos baloios  disse Paco, notando que a criana estava a ficar cansada da brincadeira, agora que ningum lhe prestava ateno.
 Porque no vais ter com eles?
 Posso?  perguntou ela, alegremente. Quando ele parou os pneis, saltou para o cho e correu alegremente pelo parque fora, para ir ter com os primos.
Sofia pressentia que o pai queria falar consigo a ss e esperou cautelosamente que comeasse. Ele mandou os pneis avanar e o tinido dos arreios encheu a pausa
desconfortvel que se seguiu.
 No foi fcil, sabes  disse ele passado um bocado, com os olhos fixados no caminho  sua frente.
 O que  que no foi fcil?  perguntou ela, confusa.
Paco ficou a meditar um bocado, baloiando para um lado e para o outro com o movimento da carroa.
 Eu amo a tua me. Tivemos tempos difceis. O facto de te teres ido embora e nunca mais teres voltado fez com que ela se fechas-
486
se. Sei que parece fria. Sente desconforto em relao a si mesma. Tu pioraste essa insegurana.
 Que quer dizer?  perguntou, surpreendida.
 Ela no se inseria, tu sim. Toda a gente te amava. Ela tinha dificuldade em amar.
 Mas dantes amava-me?  E depois considerou as palavras, assombrada, como se no as tivesse dito.
 Continua a amar-te. Mas...
 Sim?  Sofia observava o perfil do pai e viu nele a expresso de um homem prestes a revelar um terrvel segredo.
 Receio que tenha alguma responsabilidade na... relao perturbada que tiveste com a tua me  disse ele, gravemente.  H muito tempo que queria falar-te disto.
 Como podia ter? Sempre viu o meu lado. Sempre esteve presente quando eu precisei. Na verdade, fazia-me quase sempre todas as vontades.
 Sofia, quando a tua me estava grvida de ti, as coisas no eram fceis entre ns.  Lutou para encontrar as palavras certas e Sofia pressentiu o que estava para
vir.  A situao era tensa. Eu no consegui enfrentar as dificuldades. Fomos os dois muito infelizes.
 O pai teve uma ligao?  interrompeu Sofia. Os ombros dele descaram; sentiu-se provavelmente aliviado por ela o ter poupado a dizer ele mesmo as palavras.
 Sim  respondeu, e ela viu que os remorsos ainda o atormentavam. Parece ser uma espcie de hediondo padro familiar, pensou Sofia. Meu Deus, que estou eu a
fazer?
 Quando me apaixonei pela tua me  prosseguiu Paco , nunca tinha conhecido ningum como ela. Era fresca, descuidada... era de uma naturalidade difcil de descrever.
Quando a trouxe para a Argentina, as coisas comearam a mudar. Transformou-se noutra pessoa. Tentei manter-me prximo dela, mas ela tornou-se cada vez mais distante.
Encontrei a pessoa que tinha perdido nos braos de outra mulher. A tua me nunca recuperou daquela traio.
Ficaram sentados num silncio pesado. Sofia comeou ento a compreender porque tinham sido to severos consigo quando ela tinha cometido o seu delito sexual. Ao
castigar Sofia, a me estava
487
a punir o pai por ter amado outra mulher. O seu pobre pai estava demasiado emaranhado em sentimentos de culpa para discordar.
 Como podia ela culpar a sua prpria filha por ter nascido durante um perodo difcil?  perguntou Sofia.  No acredito que me odiasse porque lhe recordava a infidelidade
do pai.
 Ela nunca te odiou, Sofia. Apenas sentia dificuldade em ligar-se a ti. Tentou. Tinha cimes de ti porque eu te amava to incondicionalmente, tal como o teu av,
o av O'Dwyer. Sentia que tu lhe tinhas roubado os dois homens mais importantes da sua vida.
 Os dois homens mais importantes na vida da me foram sempre Rafa e Agustin  disse, amargamente.  Acho que ela no tentou absolutamente nada.
 Ela olha para o passado com um profundo arrependimento.
 De verdade?
 Ansiava por que regressasses a casa.
 No compreendi, pap. Eu era uma criana quando me mandaram embora. Senti-me to desgraada! No queria voltar as costas a todos, mas sentia que todos as tinham
virado a mim. Sentia-me muito culpada por me ter metido num sarilho to grande. Estavam to desiludidos comigo! Pensei que o sofrimento seria menor se nunca mais
visse os dois.
 Lamento, hija. No podemos voltar atrs no tempo. Se eu pudesse, garanto que pagaria todo o dinheiro do mundo. Mas temos de viver com os nossos erros, Sofia. Eu
tenho vivido duramente com os meus.
 E eu com os meus  disse ela em voz rouca, e contemplou as plancies hmidas.
 Queres que te deixe em casa de Chiquita? Assim podes ir ver Maria  disse ele, virando os cavalos na direco de casa.
Quando chegaram a casa de Chiquita, Sofia virou-se para o pai. Para sua surpresa, viu nos olhos dele aquela antiga cintilao que lhe era familiar e, pela primeira
vez desde que chegara, houve uma fcil comunicao silenciosa entre ambos. Pensava que nunca mais voltaria a senti-la. E, mesmo assim, quando ele lhe sorriu ternamente,
deu por si a lutar contra as lgrimas. Quando lhe tocou na mo, ela sentiu que, mais uma vez, fazia parte dele. Inclinou-se para a frente e abraou-o amorosamente
e sem inibio. E ele apertou-a contra o peito, como costumava fazer.

CAPTULO QUARENTA E TRS
Sofia observou Paco, enquanto este dava a volta  carroa e se dirigia para o meio das rvores. Em criana, tinha estado convencida de que os pais estavam ligados
por qualquer coisa superior a eles prprios. Era seu direito divino, como crianas, que os pais estivessem presentes e  sua disposio e, embora o seu relacionamento
com a me fosse tenso, nunca suspeitou, nem por um momento, que a relao entre marido e mulher fosse difcil. Na verdade, nunca se tinha preocupado a pensar em
mais ningum; sempre estivera demasiado ocupada a sentir pena de si mesma.
Estava muito calor, o sol do meio-dia assentava implacvel na terra, e ela olhou de lado para se proteger da luz intensa. Tambm havia muita humidade. Sentia a pele
pegajosa e desconfortvel. Sabia-lhe bem um banho de chuveiro ou nadar um bocado. Recordou-se dos seus tempos de criana, quando aquele ar pesado se acumulava dias
seguidos, culminando numa tempestade de um dramatismo fantstico. As tempestades na pampa so nicas, aterrorizadoras. Em criana, Sofia acreditava que os troves
eram os passos de uma centena de monstros cinzentos que travavam uma assustadora batalha celestial por cima da sua cabea.
Entrou em casa. Estava silenciosa e imvel, transmitindo uma sensao de tranquilidade, com as suas sombras frescas longe da luz do Sol. Os seus olhos demoraram
alguns instantes a adaptar-se. Depois ouviu o sussurro de vozes baixas ao fundo do corredor. Dirigiu-se para o quarto de Maria. Uma das portas  sua direita estava
aberta, mas ela s deu por isso quando uma mo firme a agarrou e puxou
489
para dentro. Reteve a respirao, mas no teve tempo para entrar em pnico: a boca de Santi cobriu a dela, abafando um grito que podia ter-lhe escapado se ele no
a tivesse silenciado. Ele quase a arrastou para a escurido. Era uma situao que dificilmente podia ser levada a srio, mas o riso dela foi abafado pela sua boca
quente e sensual. Tambm ele estava coberto de transpirao.
 Disseste que vinhas cedo, onde estiveste?  sussurrou-lhe ao ouvido.
 Fui dar uma volta no carro com o meu pai  respondeu e depois riu-se quando ele a beijou no pescoo.  Fazes-me ccegas.
 Estive  tua espera toda a manh  disse ele, ardentemente.  No h dvida de que sabes provocar!
 Santi, eu no fiz isto para te provocar. O meu pai queria que eu fosse com ele. E estou muito satisfeita por ter ido.
Ele meteu as mos por baixo do vestido dela e percorreu-lhe o corpo. Sofia contorceu-se de prazer.
 Correu bem, nesse caso!  disse, com a cara metida no cabelo dela.
 Sinto-me outra vez prxima dele, Santi. Ele no entrou em grandes explicaes,  tpico dele, mas voltmos a compreender-nos um ao outro.
Santi levantou-lhe o vestido at  cintura e enterrou a cara no pescoo dela, apertando o corpo quente contra o dela.
 Quero-te agora, Chofi  sussurrou, empurrando-a contra a parede. Ela sentiu-a fria contra as costas.
 No podemos. No debaixo do mesmo tecto que Maria  protestou ela, fracamente.
Os dedos dele percorreram o corpo dela com a urgncia de uma pessoa que sabe que pode ser descoberta a qualquer momento, mas que acha a excitao dessa possibilidade
demasiado tentadora para poder resistir-lhe. Aquelas mos to suas conhecidas encontraram o caminho at aos lugares secretos do corpo dela e, subjugada pelo toque
das suas mos, Sofia j no conseguia falar nem opor-se. Os nicos sons eram a respirao profunda dele e o rumor do vestido dela. Sofia sentiu-se dissoluta. A excitao
sexual torna uma pessoa destemida; no se importava que algum os descobrisse, pois naquele
490
momento queria gritar de prazer. Santi fazia-a sentir-se jovem de novo. Vibrante, confiante  a Sofia que ela tinha deixado para trs com as suas recordaes. Era
estimulante ser mais uma vez essa pessoa. Retorceu-se quando as mos dele lhe percorreram a pele. Santi tinha uma forma firme e impudente de tocar o seu corpo que
ela achava insuportavelmente excitante. Todas as partes do seu corpo que faziam dela uma mulher o excitavam. Queria cheirar, saborear e desfrutar dela de uma maneira
que era verdadeiramente animal e vergonhosamente desinibida. Enquanto fez amor com ela encostada  parede, nada mais existiu para alm daquele quarto pequeno.
 No posso ir ver Maria assim  sussurrou ela ofegante, no fim.
 Chiu.  Ele pousou uma mo sobre a boca dela e contraiu os olhos, desconfiado. Passos. Empurrou-a contra a parede sem desviar os olhos dos dela. Sofia mal ousava
respirar. Os passos aproximaram-se mais, leves, pelo corredor fora. A sua imaginao j elaborava a cena. O horror na cara de Claudia. A desiluso nos olhos do seu
pai. Outra partida ignominiosa. O seu corao batia descontrolado, cheio de terror. Mas os passos passaram, inocentes, diante da porta e continuaram at deixarem
de se ouvir.
Deixou-se cair molemente contra ele. Santi respirou fundo e beijou-lhe a testa hmida.
 Que sorte!  sussurrou.
 Oh Dios, Santi. Que andamos ns a fazer?
 Decididamente o que no devamos. Agora, vamo-nos embora daqui.
 Mas eu quero ir ver Maria  disse ela com toda a franqueza.  Sabes, eu vim ver Maria.
Ele sorriu-lhe afectadamente e abanou a cabea com carinho.
 Pois, e viste-me a mim. Meu Deus, que aspecto tu tens  acrescentou amorosamente.  Ningum pode ver-te enquanto estiveres com esse aspecto.
 Para onde havemos de ir? Corremos o risco de algum nos ver.
Ele pensou um bocado.
 Olha, corre para a casa de banho e arranja-te, o teu cabelo est todo despenteado. Tens um aspecto maravilhosamente sensual.
491
Adoro ver-te assim, mas Maria ia logo desconfiar. Encontramo-nos no quarto dela.
 Combinado.
 Vamos ento ver se a costa est livre.  Mas ficou ali sem se mexer.
 Ento, vai  disse ela. Ele agarrou-lhe na cara e beijou-a outra vez.
 No quero ir. Olha  disse, pousando a mo dela nas calas.  Podia faz-lo outra vez.
Ela riu-se silenciosamente sobre o peito dele.
 Que tonto, tambm no podes sair daqui nesse estado... estamos presos!
Riram-se os dois descontroladamente por causa do absurdo da situao. Estavam em risco de serem apanhados e darem cabo de tudo e, mesmo assim, no paravam de rir
como dois midos da escola. Por fim, Santi foi cautelosamente  porta e espreitou para fora.
 Vem  sibilou.
Seguiram juntos pelo corredor, em bicos de ps, retendo a respirao, agora j sem vontade de rir. Logo que chegaram  porta seguinte, ela enfiou-se na segurana
da casa de banho. Ele continuou a andar e dirigiu-se para o quarto da irm.
Chegada  casa de banho, Sofia encostou-se  porta e respirou outra vez. Ainda sentia as mos de Santi no seu corpo e a sua pele brilhava, exultante. Quando se viu
ao espelho, compreendeu o que Santi queria dizer. Tinha as faces vermelhas e os olhos a cintilar. Uma expresso suspeita e dissoluta. Sentiu prazer em ver-se com
aquele aspecto. Lavou a cara e tentou arranjar-se o melhor possvel.
Maria ficou satisfeita ao v-la. Os seus olhos castanhos iluminaram-se quando Sofia entrou no quarto. De repente, Sofia sentiu-se culpada por ter permitido a si
mesma fazer amor com Santi debaixo do tecto da sua prima moribunda. No estava certo. Pressentiu o padre Julio a apontar o dedo ossudo para ela do seu assento dourado
no cu.
Santi estava languidamente sentado numa cadeira de braos, a beber goles de um copo de vinho; na sua expresso no se via qualquer
492
culpa. Eduardo estava sentado aos ps da cama de Maria. Claudia no estava  vista em lado nenhum, para grande alvio de Sofia. Cumprimentou Santi como se no o
visse desde a vspera. Quando se curvou para o beijar, ele apertou-lhe o brao duas vezes  sempre tinha sido um cdigo secreto entre eles. Ela fez-lhe o mesmo.
Eduardo estava com um aspecto doentio e, apesar do sorriso, os seus olhos denunciavam desnimo. Sofia sentiu um aperto no corao por causa dos dois. Como podia
ela sentir prazer com Santi no meio de tanta tristeza?
Maria estava fraca mas feliz. Tagarelavam todos e ningum mencionou a doena dela. Todos queriam manter a esperana de que ia melhorar; ningum queria enfrentar
a dura realidade de que ela estava a enfraquecer. Falaram do regresso dos seus filhos  escola. Maria no queria que fossem, mas era melhor para eles que as suas
vidas adquirissem uma certa aparncia de normalidade. Iriam com Claudia e os filhos desta. Sofia trocou um olhar com Santi quando o nome de Claudia foi mencionado
e detectou que ele estava to ansioso como ela por poderem passar algum tempo sozinhos.
Maria cansou-se depressa. Quando os seus olhos comearam a fechar-se, resolveram deix-la dormir e foram para o terrao. Claudia estava elegantemente sentada no
banco por baixo da varanda com a filha enrolada junto de si como um co afectuoso. Sofia sorriu-lhe com rigidez, esperando uma recepo glida. Para sua surpresa,
os olhos da outra mulher revelaram uma ansiedade que antes no estava presente. Claudia endireitou-se no banco e afastou suavemente a filha com um gesto. Todos os
outros ficaram a servir-se de bebidas, demorando algum tempo a vir ter com elas. Sofia tinha de conversar com Claudia; era inevitvel.
 Ento  disse com cautela , vais voltar para Buenos Aires esta noite.
 Sim  respondeu Claudia, baixando os olhos. Fez-se um silncio desconfortvel, durante o qual Sofia andou de um lado para o outro sem destino, sem saber se devia
ficar de p ou sentar-se.
 Que escola frequentam as crianas? San Andrs?  perguntou.
 Sim  disse Claudia, inutilmente.
493
 Tambm l andei.
 Eu sei, Santi disse-me.
 Claro.
 Santi e eu temos uma relao linda, ele conta-me tudo  disse ela na defensiva.
 Eu sei. Disse-me que tens sido muito boa para ele. Que o tornaste muito feliz  confirmou Sofia com entusiasmo, mas de dentes cerrados.
 Ele tem sido bom para mim... eu no podia desejar melhor marido nem melhor pai para os meus filhos.  E fixou Sofia com olhos de ao.  Ele quer ficar aqui por
causa de Maria. Adora-a. Vai ficar inconsolvel quando ela partir, mas a vida acaba por regressar  normalidade. Com certeza voltas para junto da tua famlia?
 Sim, com certeza.  Mas o que Sofia mais desejava era ficar.
 Como  que achaste tudo isto, depois de estares fora durante tantos anos?  perguntou a outra mulher, com um sorrisinho de triunfo nos lbios.
  como se nada tivesse mudado.  assombroso como voltamos a encaixar.
 Mas tu... voltaste a encaixar?  perguntou Claudia, numa voz suave como seda.
 Claro.
 Mas as pessoas mudam, no ? Por fora parece que continua a ser o teu lar, mas provavelmente sentes-te como uma estranha tanto num lado como no outro.
 No, de facto, no. No me sinto uma estranha em nenhum dos lados  mentiu Sofia.
 Bem, tens sorte.  muito comum. Admiro-me de te sentires em casa. H tantas caras novas... uma nova hierarquia. J no fazes parte deste local. Santi contou-me
que costumavas dominar as conversas de todos em Santa Catalina; agora, ningum diz nada a teu respeito.
Sofia sentiu-se agredida pela rudeza de Claudia e estremeceu por dentro.
 Na verdade, Claudia, no quero que falem a meu respeito  replicou em tom glido.  Vim por causa de Maria. Temos uma
494
amizade que tu nunca poderias compreender. O que tu pensas  irrelevante. As minhas razes so mais fundas que as tuas alguma vez sero.
 Mas eu vivo aqui, Sofia, e Santi  o meu marido. No fim, tu vais-te embora e regressas para junto da que  a tua famlia. J nada tens aqui.
Nesse momento, Santi apareceu no terrao, seguido por Miguel, Panchito, Eduardo e Chiquita. Reparou imediatamente nas faces coradas de Claudia e uma expresso de
preocupao espalhou-se na sua cara, enquanto os seus olhos passavam rapidamente da mulher para a amante.
 Ficas para almoar, Sofia?  perguntou Chiquita.  Ou preferes jantar?
 Agora vou comer com os meus pais, Chiquita, mas terei muito prazer em jantar convosco.  Depois virou-se para Claudia e acrescentou:  Penso que no nos veremos
mais logo.  O pescoo de Claudia ficou encarnado com a sua raiva interior e Sofia sorriu para ela com satisfao.  Desejo-te uma boa viagem para Buenos Aires.
Sofia seguiu pelo meio das rvores e quase saltou de satisfao. Sentia-se vitoriosa. Claudia tinha tomado a ofensiva. Se se sentia ameaada por ela, isso indicava
decerto que as coisas no corriam bem entre marido e mulher. Encheu o vazio que eu deixei, mas agora estou de volta, pensou Sofia triunfante.
Deviam ser cerca das cinco horas da tarde quando os automveis partiram para Buenos Aires. Os filhos de Rafael e Jasmina foram com o motorista, os de Santi e Claudia
seguiram com os de Maria. Quando a poeira do caminho assentou, brilhando ao sol, Sofia dirigiu-se vitoriosamente para casa de Chiquita.
Depois de jantar com a famlia de Santi, sentaram-se todos no terrao. Com a humidade, sobre os seus coraes desceu tambm um peso. Ficaram sentados no escuro,
observados pelos olhos ocultos dos animais da pampa e conversaram abertamente acerca de Maria. Sofia mal conseguia olhar para a cara meiga de Eduardo. Mas o facto
de estarem todos ali juntos, a conversar sobre ela, era at certo ponto
495
uma catarse. Por uma vez, foram realistas. Ela no ia viver muito mais. Miguel tinha telefonado a Fernando, que decidira regressar a Santa Catalina pela primeira
vez desde que tinha sido preso, para se despedir da irm. Ultrapassaria o medo por amor dela e talvez se libertasse das sombras que o obcecavam.
Chiquita e Miguel estavam sentados de mos dadas, em busca de consolo. No seria fcil, apesar dos meses de preparao. Literalmente, podiam faltar dias. Naqueles
momentos, Sofia sentia-se muito prxima dos primos. Todos partilhavam o passado, todos partilhavam o amor por Maria. Aqueles acontecimentos estabeleciam um lao
entre eles. Um lao que, acontecesse o que acontecesse depois, nunca poderia ser desfeito.
Mais tarde, quando os outros se foram deitar, Santi e Sofia sentaram-se no banco como na noite anterior. Ficaram em silncio. No sentiam necessidade de falar. Sentiam-se
reconfortados pelo facto de estarem to prximos. Ele pegou-lhe na mo e puxou-a para si. Sofia no sabia quanto tempo estiveram assim sentados, mas, passado um
bocado, o corpo comeou a doer-lhe por causa da posio.
 Tenho de me mexer, Santi - disse, e espreguiou-se. Sentia-se rgida e sonolenta e melanclica.   melhor ir dormir. Mal consigo ter os olhos abertos.
 Eu quero passar a noite contigo, Chofi. Esta noite preciso de estar junto de ti  disse ele. Ela olhou para a cara transtornada dele. Era um homem grande, contudo
naquela noite tinha um ar vulnervel.
 No posso ficar aqui  objectou ela.
 Eu sei, no seria correcto. Eu vou contigo.
 Tens a certeza?
 Absoluta. Preciso de ti, Chofi. Sinto-me to desgraado.  Sofia abraou-o como se abraa uma criana e ele agarrou-se a ela. Era tocante a maneira como a abraava.
Sofia sentiu pena dele. - No h nada que nenhum de ns possa fazer  lamentou-se.  Sinto-me to intil. E depois penso e se isto acontecesse a um dos meus filhos?
Como enfrentaria eu a situao? Como esto os meus pais a enfrent-la?
 Tu enfrentas a situao porque tens de enfrent-la. Sofres e nunca vais deixar de sofrer, Santi. Mas tens de ser forte. Estas coi-
496
sas so-nos enviadas para nos porem  prova. No sabemos porque acontecem, mas Deus quer que Maria volte para Ele. Temos de estar gratos por ela nos ter sido emprestada
pelo tempo que foi  disse ela, pestanejando para limpar as lgrimas. Ficou a pensar nas palavras que tinha dito, verificando como eram semelhantes s que a me
diria. Apesar de toda a sua rebeldia, tinha absorvido mais filosofia da me do que pensava.  Vem, vamos para a cama. Ests mais sensvel por estares cansado. Amanh
de manh vais sentir-te mais forte.
Seguiram pelo meio das rvores de mos dadas. Deviam estar exultantes porque podiam passar a noite juntos, mas os seus coraes estavam pesados e vazios, com uma
solido inexplicvel.
 Nunca pensei na morte, sabes. Nunca precisei de enfrent-la. Mas assusta-me. Somos todos to terrivelmente vulnerveis.
 Eu sei  concordou Sofia em tom neutro.  Todos ns temos de ir um dia.
 Olho para as caras dos meus filhos. Que hei-de dizer quando eles me perguntarem para onde ela foi? J no sei em que acredito.
  porque ests zangado com Deus. Eu passei a minha infncia zangada com Deus, simplesmente porque a minha me era fantica; isso irritava-me. Mas agora acredito.
Tudo isto tem de ter alguma finalidade.
 Eu tenho de ser forte por causa da minha me, mas, por dentro, sinto-me fraco e intil  confessou ele, muito triste.
 No precisas de ser forte  minha frente, Santi. Ele apertou-lhe a mo.
 Estou feliz por teres vindo... vieste quando mais precisava de ti.
Sofia fechou a porta quando entrou e foi direita  janela para trancar as persianas e correr as cortinas.
 Ouve os grilos  disse.
Sentia-se nervosa. Tinham feito amor antes, mas aquela noite seria lenta e ntima. Ouviu Santi que se aproximava por trs e depois ele passou os braos  volta da
sua cintura e puxou-a para ele. Beijou-lhe suavemente o pescoo. Ela inclinou-se para ele e fechou os olhos. As mos dele deslizaram por baixo da camisa dela e Sofia
sen-
497
tiu as palmas speras das mos dele sobre o seu ventre. O ar estava hmido e a sua pele molhada. Depois, as mos dele j estavam nos seus seios, com tanta suavidade
que mal as sentia. A barba crescida picou-lhe o pescoo e ela retorceu-se de prazer. Virou-se para ficar de frente para ele e a boca de Santi desceu e pousou sobre
a dela com o fervor de algum que quer apagar a dor do presente e esquecer-se de si mesmo nos braos de uma mulher amante. Por fim, abandonaram-se um ao outro e,
no secretismo da noite, no o partilhou com ningum.
 Estou velha?  perguntou-lhe depois, quando reparou que ele contemplava o seu corpo.
 Tu? Velha, nunca  disse ele com ternura.  Apenas mais velha.

CAPTULO QUARENTA E QUATRO
Segunda-feira, 10 de Novembro de 1997
Fernando sentia o suor a escorrer-lhe pelas costas quando desembarcou do ferry-boat que atravessara as guas turvas e o trouxera do Uruguai para a Argentina. Tinham
passado quase vinte anos desde a ltima vez que estivera em solo argentino. Vinte anos desde que tomara parte em manifestaes polticas contra o governo militar
que se tinha apoderado do poder em 24 de Maro de 1976. Embora o golpe militar no tivesse provocado derramamento de sangue, os cinco anos seguintes tinham assistido
ao desaparecimento de quase dez mil pessoas. Fernando quase tinha sido uma delas.
Olhou para trs, para alm das guas castanhas, e recordou a sua fuga, j l iam tantos anos. Aterrorizado e derrotado, tinha feito o voto de nunca mais pr os ps
na Argentina. Vira demasiada violncia para querer, sequer, voltar a estar perto da morte.
Durante esses anos, Fernando tinha aprendido muito acerca de si mesmo. No gostara do que tinha aprendido. Era um cobarde. No era como aqueles homens e mulheres
corajosos que arriscavam a vida e muitas vezes a sacrificavam pelo bem do seu pas, pela democracia e pela liberdade. Que vinham s centenas para protestar contra
o general Videla e os seus sequazes na Plaza de Mayo. Esses eram os heris sem rosto dos Desaparecidos da Argentina, arrancados das suas camas a meio da noite
e que nunca mais tinham sido vistos, de quem nunca mais se soubera. Pensou que talvez tivesse sido melhor se tivesse desaparecido com eles, talvez num tmulo de
gua, no fun-
499
do do mar, em vez de fugir e esconder-se no Uruguai. Se a polcia tivesse compreendido at que ponto ele era afinal incuo, como os seus desfiles e as suas gabarolices
exibicionistas eram apenas representao, s para se sentir e parecer importante, para compensar os anos vividos ao lado de um irmo cuja luz brilhava tanto que
no havia lugar onde Fernando pudesse cintilar. At fazer amizade com Carlos Riberas e aderir ao movimento clandestino da guerrilha. Aquele era um canto to escuro
que ele conseguira brilhar com brilho prprio.
Chegado ao Uruguai, tinha comprado uma casa pequena e arruinada na praia, deixara crescer a barba e o cabelo, quase no se lavava, excepto quando nadava no mar.
Tinha perdido todo o respeito por si mesmo. Odiava-se, por isso esforava-se por se perder sob o denso cabelo preto que lhe crescia por todo o corpo como a floresta
de espinhos da Bela Adormecida. S que no havia nenhuma princesa para o acordar com um beijo. Evitava as mulheres. No era suficientemente bom; porque o amaria
algum?
Tinha escrito artigos para vrias revistas e jornais uruguaios, tentando continuar a luta do outro lado da gua. Mas no precisava de dinheiro  a sua famlia providenciava
para que ele tivesse tudo o que precisava. Na verdade, tinha mais dinheiro que merecia. Por isso, dava-o a pedintes sem abrigo que vagueavam pelas ruas poeirentas
estupidificados pelo lcool, agarrados s suas garrafas de bebida metidas em sacos de papel castanho. Mas no se sentia melhor consigo mesmo. Apenas se sentia morto
por dentro.
Ento acordara uma noite, depois dos seus pesadelos habituais, com o suor a escorrer para o colcho, deixando-o ensopado como um pntano, e decidiu que no podia
suportar por mais tempo aquela tortura mental. Levantou-se, meteu meia dzia de coisas numa mochila e trancou a porta de casa. Durante os cinco anos seguintes, viajou
prolongadamente por toda a Amrica do Sul: Bolvia, Mxico, Equador. Desde os lagos do Chile at s montanhas do Peru. Mas para onde quer que fosse, era sempre seguido
de perto pela sombra do seu tormento.
De p no topo do Machu Pichu, apenas com o cu acima da sua cabea e a nvoa na terra abaixo dos seus ps, compreendeu que no
500
tinha mais lado nenhum para onde pudesse fugir. Tinha chegado ao topo. Restavam-lhe duas opes: continuar a subir at chegar ao reino dos deuses ou descer de novo
e aprender a viver consigo mesmo. Foi uma escolha difcil. A nvoa rodopiava por baixo dele, numa dana hipntica, chamando-o para que se lanasse no doce silncio
e no esquecimento que ela lhe prometia. O silncio da morte. O esquecimento que permite que nos esqueamos at de ns mesmos. Olhou para baixo, oscilando  beira
do mundo. Mas tambm isso seria fugir. No seria melhor que antes, quando tinha fugido da Argentina, seria apenas um desertor. Seria to fcil, talvez demasiado
fcil. No teria nenhum mrito, pensou, no havia nada de corajoso em morrer assim.
Deixou-se cair na erva e segurou a cabea entre as mos. O mais difcil da vida  viver, pensou, no cmulo da infelicidade, resignan-do-se ao facto de que, provavelmente,
ainda o esperavam muitos anos. Posso viv-los inconscientemente, como um espectro,  espera de morrer, ou posso atirar-me  vida e torn-la to boa quanto for possvel.
Quando regressou a casa, o telefone estava a tocar. Era o pai, que tentava localiz-lo h vrias semanas. Maria estava a morrer cancerosa. Estava na hora de regressar
a casa.
Quando Fernando chegou a Buenos Aires, pediu ao motorista, enviado pelos pais, que o levasse  Casa Rosada, na Plaza de Mayo. S queria dar a volta  praa. Queria
ver se ainda o assombrava como nos seus sonhos. A casa do Governo, pintada de cor-de-rosa com uma mistura de sebo de boi, sangue e cal, domina a praa, flanqueada
pelo Banco de la Nacin, a Catedral Metropolitana, o Consejo Municipal e o Cabildo.  uma bela praa, orlada por altas palmeiras exticas, animados jardins cobertos
de flores e edifcios coloniais. Mas, para Fernando, tinha-se transformado numa praa sombria e ameaadora, o cenrio de muitas iluses perdidas.
Quando o automvel se aproximou da praa, Fernando sentiu que o medo lhe subia da barriga e se instalava na garganta, como um sapo gordo que quase o impossibilitava
de falar sem coaxar. Os seus punhos contrados encheram-se de suores frios e a sua respirao
501
tornou-se superficial e irregular. Mas quando entrou na praa, o brilho do Sol estival caa inocentemente sobre as plantas e as flores, e Fernando sentiu que o seu
terror se desvanecia, como se tivesse sido expulso pelo prprio Deus. As sombras tinham desaparecido. A Argentina era agora uma democracia e ele cheirava-a no ar
doce e via-a nos rostos descuidados das pessoas que por ali passavam. Olhou  sua volta e viu o novo rosto da cidade e reparou na sua prosperidade, no seu sorriso.
O medo j no  pesava sobre ele, tinha cado dos seus ombros como um casaco velho que j no servia para aquele clima novo, mais quente.
 Chega  disse ao motorista.  Leve-me para Santa Catalina.
A chegada de Fernando foi uma ocasio momentosa para a sua famlia. Recordando o regresso de Santi depois da sua viagem pelo estrangeiro, h bem mais de vinte anos,
tinham-se reunido todos no terrao da casa, pesquisando o dia soalheiro, para avistarem o carro de Fernando. S que a sua chegada era esperada com tristeza, pois
regressava para se despedir da irm.
 Ele mudou muito, Sofia  disse Chiquita com tristeza.  Acho que no vais reconhec-lo.
Sofia olhou para a tia com um sorriso compreensivo.
 Acha que ele veio para ficar?  perguntou, para dizer alguma coisa.
Na verdade, no lhe interessava se ele regressava de vez ou no. Olhou de relance para Santi, que falava com o pai e com Eduardo. A chegada de Fernando estava ensombrada
pela apreenso. Miguel temia que ele no chegasse a tempo. Maria estava a enfraquecer rapidamente. Ningum conseguia estar quieto. Arrastavam os ps ou caminhavam
para a frente e para trs pela erva. At os ces estavam deitados, ofegantes,  sombra, com as caudas descadas e imveis.
Quando o carro de Fernando fez a curva e subiu lentamente o caminho com a dignidade e a sobriedade de um carro fnebre, o pequeno grupo suspirou de alvio, mais
que de alegria. Fernando olhou pela janela e sentiu que o seu corao se dilatava com afecto e uma suave melancolia. Era aqui que tinha crescido. Era isto que tinha
sacrificado durante tantos anos e no tinha mudado absolutamente nada.
502
Saiu do automvel para ser logo rodeado pelos braos frgeis da me. Abraou o pai, Panchito, as tias e os tios, que comentavam o seu cabelo comprido e a barba preta.
Estava quase irreconhecvel. Quando viu Sofia, abriu a boca de assombro.
 Nunca pensei voltar a ver-te  disse, baixando os olhos para aquela mulher que lhe lembrava uma prima que outrora tinha detestado. Mas agora eram ambos pessoas
diferentes, como se a sua infncia tivesse sido uma longa pea de teatro h muito sada de cena, cujos papis tinham sido deitados fora com o guio.
 Que bom ver-te, Fercho. Sinto-me feliz por teres voltado a casa  respondeu ela, sem saber que dizer. Sentia-se desconfortvel. Para ela, Fernando era como um
estranho.
Quando viu Santi, Fernando fez uma coisa que os surpreendeu aos dois. Chorou. Em Santi viu o amigo que tinha sado naquela fria noite de Inverno para punir Facundo
Hernandez. Mas no chorava porque Facundo lhe tinha salvo a vida, nem porque os dois tivessem salvo a de Maria, mas porque olhou para os honestos olhos verdes do
irmo e viu apenas os anos perdidos por causa de cimes, ressentimento e medo. Chorou porque tinha regressado a casa e porque estava no seu lar para ficar. Olhou
para trs e a sombra tinha desaparecido.
Chiquita levou Fernando para dentro, para ver Maria. Santi cruzou o olhar com Sofia e ambos compreenderam que aquele momento no era para eles; Fernando precisava
de tempo para estar sozinho com a irm.
 Vamos  cidade  disse ele solenemente.  Ningum vai reparar. Esta  agora a casa de Fercho.
 Est to diferente. Parece outra pessoa... uma pessoa que nunca conheci  disse ela, pensativa, seguindo atrs dele pelo meio das rvores.
 Eu sei. Para ns tambm est diferente.
 Eu devia sentir qualquer coisa por ele, mas no sinto  disse ela, reflectindo sobre a inconstncia do tempo, que permite estabelecer uma ligao com algumas pessoas
ao fim de muitos anos de separao e no com outras.
503
Quando Fernando viu a irm, sentiu-se humilde com o seu sorriso corajoso e os seus olhos cintilantes, mas ao mesmo tempo arrasado pela destruio que a doena tinha
provocado. O rosto dela estava esqulido, os maxilares espetados, recordando aquelas fotografias dilacerantes tiradas nos campos de prisioneiros alemes da Segunda
Guerra Mundial, e o cabelo tinha-lhe cado, o que salientava a forma do crnio, todo visvel sob a fina camada de pele agarrada a ele. Mas o seu esprito era to
grande que esmagava o seu aspecto e parecia iluminar o quarto. Estendeu a mo magra e deu-lhe as boas-vindas a casa; ele caiu de joelhos e beijou-lha, sentindo um
temor respeitoso pela coragem da irm, perfeitamente consciente da sua prpria falta dela.
 Olha para ti  disse ela a rir, com os olhos sorridentes cheios de ternura.  Que fizeste de ti, Fercho?  Fernando no conseguia falar. Os seus lbios tremeram,
mas no saiu nenhum som. Os seus olhos escuros encheram-se de lgrimas.  Tenho este efeito terrvel em todas as pessoas que me vem. Reduzo-as todas a nufragos
destroados  disse ela, mas o seu humor no conseguiu esconder as lgrimas que comearam a encher os seus olhos e a escorrer-lhe pelas faces chupadas.  s um pateta,
um pateta louco  continuou com voz trmula , por nos teres abandonado durante tanto tempo. Que estiveste a fazer por l, quando ns, que te amamos, estvamos todos
aqui com saudades tuas? Tambm tiveste saudades nossas? Vens para ficar?
 Estou aqui para ficar  crocitou ele.  Quem me dera...
 Chiu.  Maria mandou-o calar.  Agora tenho uma regra. Nada de arrependimentos. Nada de remorsos. Nada de lamrias nem de cabelos arrancados porque gostarias de
ter feito as coisas de maneira diferente. J passei por isso com Sofia; vocs so dois patetas loucos. Nesta casa vivemos no presente e saboreamos a presena uns
dos outros sem olhar para trs, a menos que seja para falar dos bons velhos tempos. Foram bons, no foram, Fercho?  Ele acenou em silncio.  Ah, lembras-te daquela
minha amiga por quem tiveste uma paixo... a minha amiga da escola, lembras-te com certeza. Silvia Diaz, era o nome dela. Costumavas escrever-lhe cartas de amor.
Gostava de saber o que foi feito dela.
504
 Ela nunca me correspondeu  disse ele, a sorrir com a recordao daqueles dias inocentes.
 Oh, correspondeu, sim. Mas era tmida. Costumava ler e reler as tuas cartas durante as aulas. Lia-mas em voz alta. Eram muito romnticas.
 Acho que no.
 Oh, eram! Muito romnticas. Tu eras um cavalo negro. Nunca sabamos por onde andavas. Mas Sofia e eu espreitmos-te uma vez quando beijaste Romina Blaquier na
piscina.
 Eu sabia que vocs estavam l  confessou ele com um grande sorriso.
 No te denunciaste.
 Claro que no... apreciei a ateno.  E riu-se.
 Assim est melhor. O riso cura, as lgrimas s nos do tristeza  disse ela, e riram-se em coro.

CAPTULO QUARENTA E CINCO
 Lembras-te, costumvamos vir aqui  missa todos os sbados  noite?  A voz de Sofia ressoou nas paredes de pedra fria da igreja de Nuestra Seora de la Asuncin.
 Antes de irmos para a discoteca  recordou Santi com uma risada.  Muito irreverente.
 Nunca pensei nisso  respondeu ela.  Para ser franca, a missa era mais uma tarefa.
 Costumavas rir-te  socapa durante todo o tempo.
 Era difcil manter uma cara sria com o padre Julio a gaguejar e a ciciar.
 Morreu h alguns anos.
 No posso dizer que lamento.
 Devias dizer que lamentas, ests na igreja dele  disse Santi a rir.
 Queres dizer que ele pode ouvir? Pergunto a mim mesma se as pessoas gaguejam no cu... nunca ouviste falar de anjos gaguejantes, pois no?
Seguiram pela nave lateral; as suas alpargatas arrastavam-se suave e silenciosamente pelas pedras. A igreja era muito despida, em nada semelhante s igrejas catlicas
da cidade. O altar erguia-se na sua simplicidade humilde, com um pano branco limpo enfeitado com flores murchas. O ar era bafiento e sentia-se o cheiro caracterstico
do incenso por no haver nenhuma janela aberta por onde pudesse sair. Os raios de sol entravam pelo vitral atrs do altar, lanando longos feixes de luz no cho
e nas paredes, revelando a poeira que, se no
506
fosse a luz do dia, no se notaria. Das paredes pendiam imagens da Virgem Maria, por entre as muitas esttuas de santos e velas, cujo brilho se destacava na obscuridade.
Os bancos estavam tal como Sofia os recordava, suficientemente austeros e desconfortveis para impedir que os seus utilizadores adormecessem durante o sermo.
 Lembras-te do casamento de Pilar, a sobrinha de Soledad?  perguntou Sofia com um sorriso.
 Como poderia esquecer?  respondeu Santi, batendo com a palma da mo na testa e rindo-se alto.
 O padre Julio confundiu-a com a irm e fez toda a perorao acerca de Lcia.
Tentaram abafar o riso.
 Foi s no fim, quando abenoou o feliz casal Roberto e Lcia, que as pessoas perceberam que a noiva que ele tinha estado a descrever no tinha nada que ver com
Pilar!  acrescentou ela, mal conseguindo dizer as palavras.  Que coisa horrvel. Ela ficou muito transtornada e ns no conseguamos parar de rir!
Quando chegaram junto do altar, o silncio cobriu-os como um encantamento. Instintivamente deixaram de passear ao acaso. Havia duas pequenas mesas, uma de cada lado
do altar, cobertas de velas de todos os tamanhos e feitios. Os seus pensamentos viraram-se para Maria. Santi pegou num fsforo e acendeu uma.
 Para a minha irm  disse ele, e fechou os olhos numa orao.
Sofia comoveu-se. Acendendo tambm uma, fechou os olhos e pediu silenciosamente a Deus que preservasse a vida da prima. Sentiu a mo de Santi que procurava a dela
e a agarrava, tentando reconfort-la. Apertou-a duas vezes e ela respondeu  mensagem no mesmo cdigo. Ficaram ali durante um bocado. Ela nunca tinha rezado com
tanta intensidade. Mas as suas oraes no eram totalmente altrustas. Enquanto Maria fosse viva, tinha uma desculpa para ficar.
 Pergunto-me se Deus se importa por s recorrermos a Ele nas aflies  disse Santi em voz baixa.
 Imagino que Ele esteja habituado  respondeu ela.
 Espero que resulte.
 Tambm eu.
507
 Mas no tenho muita f que resulte. Bem gostaria que resultasse. Sinto-me culpado por ter vindo aqui como ltimo recurso. Acho que no mereo um milagre.
 Vieste. Acho que no importa que tenhas vindo como ltimo recurso. Ests aqui agora.
 Talvez. Nunca consegui compreender aquelas pessoas que vinham  igreja a toda a hora. Acho que, agora, j as compreendo. Reconforta-as.
 Est a dar-te algum conforto?  perguntou ela.
 Mais ou menos  respondeu, e sorriu-lhe melancolicamente.
 Sabes, teria gostado de casar contigo nesta igrejinha.
 Com o padre Julio a gaguejar <A.aaaceitttas Ssssooofffia... Ele riu-se com a imitao dela.
 Nada teria tido importncia, mesmo que ele fizesse o sermo acerca de Fercho!  disse ele, puxando-a para os seus braos e bei-jando-lhe a testa com afecto.
Ela sentiu-se to amada nos braos dele! O cheiro de Santi trouxe-lhe  memria recordaes de outros tempos e desejou manter aquele momento para sempre. Abraou-o
tambm e ficaram assim durante algum tempo, sem que nenhum deles sentisse necessidade de falar. Sofia sentia-se terrivelmente melanclica e, ao mesmo tempo, estava
feliz porque estava com Santi. Tinha conscincia de que aqueles momentos eram passageiros, por isso, agarrou-os e viveu-os mais intensamente que alguma vez tinha
vivido.
 Alguma vez confessaste ao padre Julio que ramos amantes?  perguntou ele, afastando-se.
 s doido? No! Tu confessaste?
 No. Alguma vez confessaste alguma coisa?
 No, inventava tudo. Ele ficava chocado com tanta facilidade que era uma tentao inventar.
 Tu s mesmo m, sabes?  disse ele, com um sorriso um pouco triste.
 Pensava que no era to m como costumava ser at vir aqui. Agora, ultrapassei as minhas prprias limitaes.
 Eu devia sentir-me culpado... ao princpio senti. Mas agora j no. Sinto que est tudo to certo!  Abanou a cabea como se os
508
seus sentimentos estivessem agora fora do seu controlo e j no fossem responsabilidade sua.
 Est certo  insistiu ela, agarrando-lhe na mo.  Devia ter sido assim.
 Eu sei. Sinto-me culpado por no me sentir culpado.  aterrador, como conseguimos esquecer.
 Claudia?
 Claudia, as crianas. Quando estou contigo, deixo de pensar nelas.
 Como eu  respondeu Sofia.
Mas, no fundo, no era verdade. Sempre que a cara de David vinha  superfcie com as das filhas, ela fazia um esforo enorme para as suprimir. Quase tinham desistido
de aparecer. Mas David era muito persistente quando queria.
 Vem. Vamos sair daqui antes que o padre Juan nos apanhe  disse ele, encaminhando-se para a nave.
 No fizemos nada de mal. Somos primos, lembras-te?
 Chofi, no posso esquecer. Acho que Deus te fez minha prima para me castigar de alguma coisa que eu fiz numa outra vida.
 Ou talvez Ele tenha um sentido de humor doentio!
Na rua tiveram de proteger os olhos do sol intenso. Sofia sentiu-se tonta at os seus olhos se adaptarem  luz. A humidade era sufocante.
 Vamos ter uma tempestade infernal, Chofi. Sentes?
 Sim, sinto. Adoro tempestades. Acho-as muito excitantes... A primeira vez que fizemos amor foi durante uma tempestade.
 Sim, eu lembro-me. Como podia esquecer?
Dirigiram-se para a praa. A estrada continuava a ser um caminho de terra batida, inalterado desde os tempos dos seus avs. Contornava sonolentamente a praa que,
por sua vez, era rodeada por rvores altas. Sofia reparou que continuavam a pintar a parte inferior dos troncos com cal viva, para afastar as formigas. Pequenas
casas e montras de lojas davam para a luz do Sol, mostrando os seus interiores oblquos atrs de janelas com os vidros cobertos de poeira. O boliche ainda estava
no mesmo stio,  esquina. Era o caf onde todos os gachos se reuniam para beber ch-mate e jogar s cartas. Pa-
509
co costumava passar ali as manhs de domingo, a ler os jornais diante de uma chvena de caf. Sofia calculou que continuasse a fazer o mesmo, pois era uma pessoa
de hbitos.
Como era o princpio da tarde, todas as lojas estavam fechadas para a siesta, e a praa estava imvel e silenciosa sob o calor do dia. Vaguearam pela praa, dirigindo-se
para um dos bancos  sombra. Iam para se sentar quando uma voz os chamou de um dos outros bancos. Para seu horror e espanto, era a famosa Vieja Bruja.
 Buen da, Seora Hoffstetta  disse Santi, baixando a cabea delicadamente.
 No sabia que a Velha Bruxa ainda estava viva!  sibilou Sofia enquanto sorria.
 Acho que as bruxas no morrem  respondeu Santi.
La Vieja Bruja estava sentada, de costas curvadas, com um vestido preto comprido  no admira que lhe tivessem dado a alcunha de Velha Bruxa. Sofia recordava-se
de que, em criana, a achara apavorante. A sua cara era mida e seca, como uma noz velha. Os seus olhos eram to pretos como os dentes e sentia-se o cheiro dela
a metros de distncia. Nos seus dedos compridos e nodosos segurava um saco de papel castanho.
Os primos sentaram-se e tentaram ignor-la, mas, enquanto conversavam, Sofia sentia os olhos da mulher cravados nas suas costas.
 Ela ainda est a olhar para ns?  perguntou a Santi.
 Est, sim. Faz de conta que ela no est ali.
 Sinto-a. Quem me dera que se fosse embora.
 No te preocupes, afinal no  bruxa.
 No acredites nisso. Ela faz com que as bruxas dos livros de histrias paream a Branca de Neve.  Riram-se os dois, com as mos a tapar a cara.  Provavelmente
sabe que estamos a falar dela.
 Se  bruxa, sabe de certeza.
 Vamos embora, no consigo suport-la! Levantaram-se para se ir embora.
 Bah!  guinchou. Ignoraram e continuaram a andar em passo rpido.  Bah!  insistiu ela.  Mala suerte. Tiveram a vossa oportunidade. Mala suerte. Bah! Pararam
os dois e olharam um para o outro, assombrados. Santi ia para voltar atrs para lhe pedir contas,
510
mas Sofia conseguiu agarrar-lhe no brao e pux-lo para que continuasse a andar.  Almas gmeas. Eu vejo nas vossas auras, almas gmeas! Bahl continuou ela.
 Oh Dios, assustou-me. Vamos embora daqui  insistiu Sofia e continuaram a andar a toda a pressa.
 Como ousa ela falar-nos assim, a mexeriqueira!  disse Santi, muito zangado.  So pessoas como ela que andam a arranjar sarilhos a toda a gente.
 Sabes, ela  mesmo uma bruxa, no tenhas dvida.
 Nesse caso, porque no monta no pau de vassoura e desampara a loja?
Riram-se os dois nervosamente.
De repente, quando pensavam que se tinham visto livres dela, ela apareceu  sua frente, curvada e malcheirosa, parecendo um descomunal morcego peludo. Aproximou-se
de Sofia e, inesperadamente, meteu-lhe o saco de papel castanho nas mos. Ela segurou-o com repugnncia, como se tivesse nas mos um saco de entranhas gotejantes,
pois era uma coisa mole e hmida que tinha entre os dedos. Olhou para os olhos pretos da mulher e entrou em pnico, mas La Vieja Bruja acenou-lhe tranquilizadoramente
e fechou-lhe as mos  volta do saco. Sofia contorceu-se e recuou, numa tentativa v de se livrar dela. La Vieja Bruja sorriu e resmungou o nome dela, Sofia Solanas,
antes de voltar a desaparecer na praa.
Logo que entraram na carrinha e se sentiram em segurana, Sofia bateu com a porta e subiu o vidro da janela. Estava a tremer.
 O que est no saco?  perguntou Santi, impaciente, comeando a achar toda aquela situao divertida.
 No sei porque ests to divertido, no teve graa nenhuma. Abre tu!  gritou ela, e atirou-lhe o saco.
Ele abriu o saco devagar e espreitou com desconfiana, como se esperasse encontrar uma coisa grotesca l dentro. Depois riu-se alto, com alvio.
- Ento, o que ?  perguntou ela.
 Nem vais acreditar.  um rebento. Um ombu para tu plantares.
 Um ombu? Que demnio vou eu fazer com um ombu?
511
 Bem, no vai dar-se em Inglaterra.  Ele recomeou a rir-se.
 Que mulher estranha. Que idade tem ela? H vinte anos j achava que ela era velhssima  exclamou Sofia, exaltada.  A esta hora j devia estar enterrada e fria.
 Porque te ter dado o ombu?  murmurou Santi, franzindo as sobrancelhas.  Estou espantado por ela saber quem tu s.
Ps o motor a trabalhar e Sofia sentiu-se aliviada quando deixaram a cidade para trs e se dirigiram para Santa Catalina.
 Que queria ela dizer com aquilo das almas gmeas?  perguntou Sofia passado um bocado.
 No sei.
 Ela tem razo, somos almas gmeas. Mas no  preciso ser clarividente para ver isso. Ela  to arrepiante! O problema  que as pessoas acreditam nela  disse,
zangada.  Soledad, por exemplo.
 Oh, e tu no acreditas?  disse ele, com a boca retorcida num incio de um sorriso de troa.
 Claro que no  fungou ela.
 Ento, porque estamos a discuti-la? Se no acreditasses, nem sequer te darias ao trabalho de pensar nela.
 Isto no faz sentido. No acredito nela, ela  incmoda e acho que no devia andar por a a assustar as pessoas. No acredito em bruxas.
 Mas acreditas na magia do ombu.
 Isso  diferente.
 No, no !
 E. Ela  louca. Devia ser internada. O ombu  uma coisa completamente diferente. A magia da natureza.
 Chofi?
 Sim  disse ela, irritada.
Depois, olhou para ele e reparou no esboo de sorriso que lhe aflorava o rosto.
 Alguma vez o ombu tornou realidade um desejo teu?  perguntou Santi, com o olhar concentrado na estrada, como se precisasse de alguma coisa que o impedisse de
rir.
 Tornou, sim.
 Qual?
512
 Uma vez pedi que tu te apaixonasses por mim  disse ela, e sorriu triunfante.
 Acho que isso no tem nada a ver com o ombu.
 No sabes nada do assunto!  exclamou ela.  Nem sequer compreendes o poder da natureza e, sabes que mais, aposto que este rebento h-de dar-se em Inglaterra.
 Virou-se e apanhou-o a sorrir.  Ests a rir-te de mim?  queixou-se.  Pra o carro.
 O qu?
 Pra o carro. J!
Ele saiu da estrada e seguiu por um trilho at umas rvores viradas para um campo. Desligou o motor e virou-se de frente para ela. Os seus grandes olhos verdes e
o seu riso malicioso eram irresistveis. Ela sentiu que a sua irritao desaparecia.
 Olha... ela era arrepiante  insistiu Sofia.
 Sem dvida. Mas qual  o mal em dizer que somos almas gmeas?  perguntou, beijando-lhe o pescoo.
 Ela disse que tivemos a nossa oportunidade.
 Que sabe ela? No passa de uma velha bruxa - disse ele com uma risada, desabotoando-lhe o vestido.
Logo que os seus lbios quentes pousaram sobre os dela, Sofia esqueceu os devaneios da velha da praa. Ele sabia a sal e tinha aquele cheiro exclusivamente de Santi
que tanto amava. Ps-se em cima dele, com uma perna para cada lado, retendo a respirao enquanto se encaixava entre o volante e a alavanca das mudanas. Ele puxou-lhe
o vestido para cima e passou a mo pela pele delicada do interior das coxas. Estavam os dois pegajosos de suor. Ele puxou-lhe as cuecas para o lado e deslizou para
dentro dela. Pousando as mos no fundo das costas dela, puxou-a contra si, guiando os seus movimentos. Ao fazerem amor semivestidos, ela sentiu, mais uma vez, a
excitao de quebrar as regras.

CAPTULO QUARENTA E SEIS
De regresso a Santa Catalina, atiraram-se para a piscina. O Sol da tarde j descia a ocidente, ardente como uma brasa moribunda no cu lmpido. Os mosquitos esvoaavam
por cima das rvores e da erva, e os perfumes das rosas de Antonio e da madressilva chegavam at eles por cima da gua. Deitados com os braos pousados na borda
da piscina, olhando os campos, conversaram sobre as coisas que tinham mudado durante os anos que tinham estado separados.
 Sabes, sinto a falta de Jos  disse Sofia.  Pablo  gentil, mas eu tinha uma ligao especial com Jos.
 Ele era um passaro esperto.
 Quem  esse Javier?  muito belo.
  filho de Soledad e de Antonio. Ela no te disse?  respondeu ele, espantado.
 Filho de Soledad? Tens a certeza?
 Claro que tenho a certeza. No acredito que ela no te tenha dito. Provavelmente, partiu do princpio que sabias.
 Que horror. S falei de mim desde que cheguei.
 Ele  uma espcie de heri.
 E? Como assim?
Santi contou-lhe que, h alguns anos, Javier andava a ajudar o pai a tratar das plantas em redor da piscina, enquanto a famlia estava a apanhar sol e a conversar
no terrao  volta da gua. Clara e Felix tinham estado a brincar em silncio na relva com os outros primos pequenos. Ningum reparou em Felix, que rastejou at
 beira da gua para a sentir nas mos. Por acaso, Javier olhou para a piscina e viu
514
o que parecia uma pequena mancha cinzenta pousada no fundo, sem se mexer. No perdeu um segundo. Mergulhou e descobriu que o tal objecto era o pequeno Felix. Puxou
o menino para fora da gua, a arquejar e a cuspir para respirar. Salvou a vida dele. Se no fosse Javier, Felix teria morrido afogado. Paco deu-lhe uma sela nova
com as suas iniciais gravadas numa placa de prata como recompensa por ter salvo a vida do neto. Nunca ningum esqueceu o que Javier fez. Paco sempre tivera uma estima
muito especial por Javier.
Logo que saram da piscina, Sofia voltou para casa e foi directa  cozinha onde Soledad preparava o jantar.
 Soledad, nunca me disseste que tinhas um filho  disse ela, entusiasmada, tentando compensar a sua anterior falta de interesse.  E  lindo!
 Tal como Antonio  disse Soledad a rir.
 Bem, mais como tu, Soledad  disse Sofia.  Sinto-me terrivelmente mal, vi-o andar pelo campo nestes ltimos dias e nunca disse nada.
 Pensei que sabias.
 Bem, agora sei. Santi disse-me que ele tinha salvo a vida de Felix. Deves ter muito orgulho nele.
 Tenho. Temos os dois. Javier puxa o lustro  sela todos os dias.  o seu bem mais precioso. O Seor Paco  um homem muito generoso  disse ela com reverncia.
Javier  muito merecedor da generosidade dele  respondeu Sofia.
Sofia foi para o quarto, onde ps a correr gua fria para tomar banho. Enquanto se despia, pensou em Santi e perguntou a si mesma o que lhes reservava o futuro.
Pensou tambm em David, como a tinha salvo quando ela se sentia vulnervel e perdida. Fora extraordinariamente bondoso com ela. Sentiu alvio quando Soledad bateu
 porta. Precisava de desviar a ateno das questes que lhe invadiam a mente sempre que ficava sozinha.
Soledad entrou apressadamente. Para surpresa de Sofia, a sua cara redonda estava plida e manchada de lgrimas e retorcia as mos com angstia. Sofia levou-a imediatamente
para a cama, onde se sentou ao seu lado, pousando um brao sobre os seus ombros largos para a consolar.
515
 Que se passa?  perguntou, olhando para o corpo volumoso da outra mulher sacudido por soluos.
Soledad tentava falar, mas ia-se abaixo todas as vezes, desfazendo-se sempre em lgrimas. Por fim, depois de muito acarinhada, disse que tinha um segredo que a tinham
feito jurar que guardaria.
 Mas tu s a minha Sofia  disse a chorar.  No posso esconder-te nada.
Em boa verdade, Sofia no estava muito interessada no seu segredo. Tinha guardado muitos dos segredos de Soledad no passado e nenhum deles valia nada. Mas detestava
ver a sua velha amiga to perturbada, por isso ouviu o seu segredo para a consolar.
  acerca de Javier  comeou Soledad por dizer em voz baixa.
 Ele est bem, no est?  perguntou Sofia, preocupada, imaginando que ele pudesse estar doente.
 No  isso, Seora Sofia. Ns amamo-lo, Antonio e eu. Demos-lhe um bom lar, vimo-lo crescer e fazer-se homem. Temos orgulho nele. A Seora Sofia ficaria satisfeita.
 Ento porque ests a chorar?  um bom filho. Tens sorte.
 Oh, eu sei, Seora Sofia. No est a compreender.  Fez uma pausa e respirou fundo com um suspiro trmulo.  O Seor Paco disse-nos que nunca contssemos a ningum.
Nunca contmos. Guardmos o segredo dele durante vinte e trs anos. Pensmos que a Seora Sofia voltaria mais cedo para casa. Dizamos a ns prprios que s ramos
os seus tutores. A Seora Sofia sempre foi a me dele.
 De que ests tu a falar, Soledad?  sussurrou Sofia.
 Por favor, no me censure. S fiz o que o Seor Paco me pediu que fizesse. Ele trouxe o seu beb da Sua. Disse que queria que ele tivesse um bom lar. Que a Seora
Sofia voltaria e que lamentaria o que tinha feito. No queria que o seu neto fosse criado por estranhos.
 Javier  o meu filho?  perguntou Sofia muito devagar. Sentia-se estranhamente separada do seu corpo, como se as suas palavras sassem da boca de outra pessoa.
Javier  o seu filho  repetiu Soledad e comeou a gemer como um animal ferido.
516
Sofia ps-se de p e ficou diante da janela a olhar para a pampa crepuscular.
 Javier  Santiguito?  perguntou, no querendo acreditar. Via no vidro as suas mozinhas, os seus pezinhos, o seu pequeno nariz que tinha beijado to poucas vezes.
Sentiu o sabor a sal na boca. Observou o seu reflexo na janela, contorcido de dor, at que os seus olhos ficaram to desfocados que deixou de ver fosse o que fosse.
 O Seor Paco e eu... e Antonio, claro, somos as nicas pessoas que sabemos disto. Ele no queria que a Seora Anna soubesse. Mas a Seora Sofia tem o direito.
 a me dele. Se quiser dizer a Javier, no posso impedi-la. Talvez ele deva saber quem so os seus verdadeiros pais. Que  um Solanas.

CAPTULO QUARENTA E SETE
Sofia correu para o parque, deixando Soledad a gemer sozinha no quarto. Era quase noite. No sabia o que ia dizer-lhe, mas tinha de v-lo, tinha de dizer-lhe. Afinal,
no tinham todas as crianas o direito de saber quem as tinha dado  luz? Imaginava-se a abra-lo e a respirar sobre o corpo dele. Meu filho, s Santiguito, o
filho que eu pensava que tinha perdido, o filho que eu pensava que nunca mais veria. As lgrimas tinham deixado de correr e no seu lugar ela sentia uma estranha
leveza em todo o seu ser. Era inebriante.
Ao aproximar-se das cabanas, distinguiu as chamas vermelhas de uma fogueira. Os sons vibrantes de uma guitarra chegaram-lhe aos ouvidos, depois vozes a cantar, cada
vez mais altas  medida que se aproximava. Ficou consternada ao encontrar um grupo de gachos sentados  volta da fogueira, a rir e a beber, com as suas caras morenas
iluminadas pelas chamas ondulantes. Parou de repente e ficou atrs de uma rvore a observ-los. Eles no a viam. Esforou os olhos, observando as caras, para encontrar
o filho. Depois viu-o. Estava sentado no meio, entre Pablo e outro homem que no reconheceu, a cantar entusiasticamente com os outros. De vez em quando, sorria e
os seus dentes brancos cintilavam  luz das chamas. No o distinguia suficientemente bem para ver se era parecido consigo ou com Santi e no conseguia lembrar-se
das suas feies, pois poucas vezes o tinha visto. Frustrada, semicerrou os olhos, tentando ver melhor.
De repente, uma mulher elegante abriu a porta de casa e saiu para ir ter com o grupo, transportando um tabuleiro cheio de pratos. Sofia
518
distinguiu um co escanzelado aos saltos  volta dela. Quando se mexeu para ver melhor, o co deve ter pressentido algum ao p das rvores, pois comeou a ladrar.
Correu para ela, de cauda espetada para cima, como um javali pronto a atacar. A mulher olhou para onde Sofia estava. Disse alguma coisa aos homens e dois deles puseram-se
de p de um salto, com as mos nos facones. Sofia foi obrigada a sair do seu esconderijo. Avanou, envergonhada por ter sido apanhada. Notou que uma vaga de moderao
os percorria, pois o tocador pousou a guitarra e deixaram de cantar.
Javier, j de p, tirou a mo da faca e avanou para ela.
 Boa noite, Seora Sofia. Est bem? Precisa de alguma coisa?  perguntou delicadamente, franzindo a testa com curiosidade.
Ela observou-o a caminhar em passadas largas. Era alto, tinha uma boa postura, tinha ombros largos como o pai. Tambm tinha um andar semelhante ao de Santi, com
os joelhos virados para fora, mas isso no era de admirar, pois passara a vida em cima de um cavalo. Quando ele se aproximou mais, reparou que tinha cabelo escuro
como o seu. Parou diante dela,  espera que falasse. Sofia estava prestes a dizer-lhe que era a sua me, mas as palavras no saram. O seu entusiasmo desfez-se.
Olhou para trs dele, para o pequeno grupo de gachos, os seus companheiros, e apercebeu-se de que ali ele era feliz. Era feliz em no saber. Possua uma coisa que
lhe escapara durante muitos anos; uma sensao de pertena. Pertencia ali e a Santa Catalina. Que ironia, ele pertencia mais ali que ela e, sem dvida, mais que
a me de Sofia alguma vez pertencera. Compreendeu com tristeza que seria cruel e egosta destruir tudo aquilo em que ele acreditava desde sempre. Engoliu as palavras
e sorriu levemente.
 Costumava vir muito aqui em criana, quando Jos ainda era vivo  disse, tentando iniciar uma conversa.
 A minha me disse-me que esteve fora muito tempo, Seora Sofia  disse ele.
 Sim, estive. No fazes ideia das saudades que tive.
  verdade que em Inglaterra est sempre a chover?  perguntou ele, com a boca aberta num sorriso tmido.
 No tanto como poderias imaginar. Alguns dias so lmpidos e de cu azul como aqui  respondeu, esperando que ele no reparasse na ateno com que ela contemplava
as suas feies.
519
 Nunca sa de Santa Catalina  disse ele.
 Bem, se fosse a ti, deixava ficar as coisas como esto. Vi muitas partes do mundo e posso dizer-te que no h nada, em lado nenhum, mais belo que Santa Catalina.
 Vai ficar aqui? A minha me gostava que ficasse.
 No sei, Javier  disse, abanando a cabea.  A tua me  uma velha sentimentalista.
 Eu sei.  Riu-se.
 Aposto que tem sido boa me para ti.
 Tem, sim.
 Tambm foi boa para mim quando eu era criana. Era a minha parceira no crime.
Passado um bocado, Sofia viu que ele estava ansioso por voltar para junto dos amigos. Afinal de contas, ela era a filha do patro, eram de dois mundos diferentes.
Nunca falaria com ela de igual para igual. Fazer-lhe as vontades fazia parte do seu trabalho.
Viu-o regressar antes de seguir para casa por entre as rvores. Era, sem a menor dvida, o seu filho. Embora no conseguisse distinguir a cor dos seus olhos na escurido,
imaginava que eram castanhos. Se fossem verdes como os do pai, achava que j teria notado. O aspecto dele no tinha nada de extraordinrio. Era belo, mas tinha sido
criado como gacho. Era um perfeito produto do meio que o envolvia. No, no seria justo dizer-lhe.
Quando regressou ao quarto, Soledad ainda estava ali sentada, curvada e derrotada, com as mos contradas no colo. Quando entrou, Soledad olhou para ela a pestanejar,
com os olhos de uma pessoa a quem tivesse sido arrancada a sua prpria razo de viver. Estavam congestionados de chorar e tristes de desgosto. Sofia tambm se sentia
desolada. Mas, ao ver Soledad naquele estado, a sua deciso ganhou ainda mais fora.
Quando Sofia lhe disse que no tinha conseguido dizer-lhe, a cara de Soledad iluminou-se com uma luz vinda de dentro e os seus ombros, at ento curvados de tenso,
descontraram-se de alvio. Voltou a chorar, mas agora as suas lgrimas eram de felicidade. Apertou Sofia contra o peito, agradecendo-lhe vezes sem conta por lhe
devolver o seu filho. Disse-lhe que no tinha passado um nico dia
520
sem que tivesse recordado a si mesma que Javier no lhe pertencia, que ela era uma mera tutora, que o criava da melhor maneira que sabia at ao dia em que a sua
verdadeira me viria reivindic-lo. Mas Sofia disse-lhe tristemente que ele era o filho de Soledad. Era irrelevante quem o tinha dado  luz.
 Javier at  parecido contigo, Soledad  disse, sentando-se ao seu lado na cama e permitindo que a sua velha amiga lhe colocasse um brao reconfortante  volta
dos ombros.
 No sei, Seorita Sofia, mas  um belo rapaz, isso  verdade  disse ela, suprimindo um sorriso de orgulho, sabendo que no havia lugar para o seu orgulho naquele
pequeno quarto.
 Como aconteceu?  perguntou Sofia com curiosidade.  Como pode ser que ningum tenha reparado quando, de repente, tu e Antonio apareceram com um filho cado do
cu aos trambolhes?
 Bem, o Seor Paco veio a nossa casa falar connosco. Disse-nos que ns ramos as pessoas mais bem qualificadas para tomar conta do seu beb, porque a Seorita Sofia
e eu tnhamos sido sempre ntimas. Eu fui a sua ama quando era beb, lembra-se?
Sofia acenou. Pensou em Dominique e Antoine a elaborarem o seu plano para mandar Santiguito para a Argentina. No estava ressentida com eles; de facto, tinham-lhe
dado o melhor lar que ele podia ter. O lar que ela tinha perdido, tinha-o ele encontrado. Sorriu amargamente por causa daquela ironia.
 Que vos disse ele?
 Disse-nos que a seorita um dia regressaria, mas que no tinha condies para tomar pessoalmente conta do beb. Eu no fiz perguntas, seorita, no me meti no
assunto. Acreditei no que ele me disse e fiz o que estava ao meu alcance para criar Javier da maneira que a seorita desejaria.  Soledad fungou e a sua voz tremeu.
 Eu sei que fizeste. No estou a censurar-te. S preciso de saber,  tudo  disse Sofia com toda a calma, tranquilizando Soledad com um aperto na sua mo pegajosa.
Soledad respirou fundo e depois continuou.
 Por isso, inventmos uma histria acerca de uma sobrinha de Antonio que tinha morrido, deixando em testamento instrues a Antonio para tomar conta do filho. Ningum
questionou...  o g-
521
nero de coisas que acontecem a todo o momento. Toda a gente ficou felicssima por nossa causa. Durante trinta anos, tnhamos desejado um filho. Deus tinha sido bom.
- A sua voz estava reduzida a um som gutural e uma grande lgrima escorreu-lhe pela bochecha gorda.
 Uma semana depois, o Seor Paco chegou a nossa casa a meio da noite com o pequeno Javier embrulhado numa mantinha. Era belo. Como o Menino Jesus, com grandes olhos
castanhos, como os seus, e uma suave pele morena. Amei-o no momento em que o vi e agradeci a Deus pelo Seu dom. Foi um milagre. Um milagre.
 O meu pai era a nica pessoa que sabia, para alm de ti e de Antonio, no  verdade?
 Sim.
 Nesse caso, como  que ele o trata? Foi difcil para ele?
 No sei, Seorita Sofia, mas ele foi sempre particularmente bondoso com Javier. O menino costumava andar atrs dele pela quinta como um co. Tinham um bom relacionamento.
Mas Javier foi sempre um gacho. Estava mais feliz connosco do que com a sua famlia. No se sentia bem nas casas grandes, sentia-se deslocado. Por isso,  medida
que foi crescendo, criou-se uma distncia natural entre eles. Mas, como disse, o Seor Paco foi sempre especialmente bom para Javier.
 Como foi ele em criana?  Sofia ousou perguntar, embora soubesse que seria doloroso ouvir o que tinha perdido.
 Era descarado. Tinha mudanas de humor como a seorita e o talento do Seor Santiago. Foi sempre o melhor em tudo. O melhor a cavalo, o melhor na escola.
 Eu nunca fui boa na escola  disse Sofia  Isso no herdou de mim.
 Mas  muito senhor do seu nariz, Seorita Sofia - disse Soledad com toda a franqueza.
 Eu sei... j vi. Esperava que ele fosse parecido comigo, que coxeasse como Santi. Esperava que ele tivesse aquela confiana em si mesmo, aquele ar dos Solanas.
Sabes o que quero dizer? Mas  totalmente ele mesmo,  um estranho para mim e, contudo, trouxe-o na barriga durante nove meses e pu-lo no mundo. Depois abandonei-o
 disse, e a sua voz arrastou-se.  Pelo menos, deixarei de me ator-
522
mentar por no saber o que foi feito dele. Sinto-me feliz por ele te ter como me, Soledad. Porque tu tambm foste minha me.
Depois, voltou a chorar, encostada ao peito da criada. Chorou pelo que tinha perdido e chorou pelo que tinha encontrado, sem saber por qual das coisas chorava mais.
Nessa noite, mal conseguiu dormir. Os sonhos pareciam surgir tanto quando estava acordada, como quando mergulhava num sono leve. Sonhava que fazia amor com Santi,
contemplando a sua cara que, de repente, se transformava na cara de Javier. Acordou em pnico, acendeu a luz e esperou que o corao se acalmasse. Sentia-se to
sozinha! Desejava poder falar de Javier a Santi, mas sabia os estragos que provocaria se o fizesse. Perguntava a si mesma se Dominique alguma vez lhe teria contado.
Interrogava-se sobre a razo por que Dominique nunca lhe tinha contado. Gostaria de saber como as coisas teriam mudado se tivesse conseguido falar com ela, naquela
vez que a empregada rabugenta de Dominique a tinha informado de que eles estavam fora do pas.
Ao princpio, tivera medo de contar a Dominique e a Antoine que havia mudado de ideias, porque no suportava que eles soubessem que tinha cometido um erro. Tinham-na
avisado e ela no os escutara. Se tivesse reconhecido o seu arrependimento mais cedo, talvez eles lhe tivessem dito onde ele estava. Talvez ela tivesse voltado e
tivesse ficado a viver na Argentina. Talvez tivesse mesmo construdo o futuro com Santi, quem sabe. Pelo menos de uma coisa tinha a certeza: o seu pai agira por
amor e Sofia estava-lhe grata por isso. Tinha proporcionado a Santiguito um bom lar, uma famlia que o amava. Sem dvida esperara que ela acabasse por regressar
a casa. Claro que agora era demasiado tarde. Demasiado tarde para tudo.

CAPTULO QUARENTA E OITO
Tera-feira, 11 de Novembro de 1997
Na manh seguinte, depois de passar um bocado com Maria, Sofia foi visitar a sepultura do av O'Dwyer. Colocou algumas flores junto da lpide, que estava verde de
musgo e bolor. Calculava que ningum ali fosse com frequncia, pois h anos que a sepultura no era cuidada. Passou as mos pelas palavras gravadas na pedra e pensou
como agora lhe restava pouca coisa em Santa Catalina. Quase ouvia a voz do av vinda do tmulo, dizendo-lhe que a vida era um campo de treino, que o seu objectivo
no era ser fcil, que se destinava a instruir. E era, na verdade, uma dura escola.
Quando se virou para se ir embora, a figura fantasmagrica da me apareceu de detrs das rvores, vestindo umas calas brancas leves e uma blusa branca de tecido
rgido. Trazia o cabelo solto, que lhe caa sobre os ombros em vagos caracis cor de ferrugem. Estava com um aspecto envelhecido.
 Alguma vez vem falar com o av?  perguntou Sofia em ingls quando ela se aproximou. Anna, de mos nos bolsos, avanou devagar e ficou  sombra do eucalipto fustigado
pelas intempries que protegia o tmulo dos elementos.
 De facto, no. Costumava vir  disse, e sorriu com tristeza.  Acho que vais dizer-me que devia cuidar da sepultura.
 No, de modo nenhum  respondeu Sofia.  O av gostava das coisas selvagens e naturais, no gostava?
 Vai gostar das tuas flores  disse ela, baixando-se com dificuldade, para as agarrar e cheirar.
524
 No, no vai  disse Sofia a rir.  Nem sequer vai dar por elas!
 No sei. Sempre foi cheio de surpresas  disse Anna, metendo o nariz nas flores antes de voltar a p-las junto da lpide.  Embora nunca tenha sido grande apreciador
de flores  acrescentou, lembrando-se de que costumava cortar-lhes os botes com a tesoura de podar.
 Tem saudades dele?  perguntou Sofia, cautelosamente.
 Sim, tenho. Tenho saudades dele.  Suspirou e respirou fundo. Olhando para a filha, fez uma pausa, como se estivesse a estudar a melhor maneira de dizer alguma
coisa. Ficou com as mos nos bolsos, de ombros ligeiramente curvados como se estivesse frio.  Lamento muitas coisas, Sofia. Uma delas  a perda da minha famlia
 disse, hesitante.
 Mas o av vivia aqui.
 No, no quero dizer nessa altura. Quero dizer...  Apoiou as mos nas ancas e abanou a cabea.  No, lamento ter fugido deles.
Sofia reparou que a me estava com dificuldade em olhar para ela de frente.
 Fugiu deles?  perguntou, surpreendida. Nunca pensara no casamento da me daquela forma.  Porqu?
 Acho que foi porque queria uma vida melhor que a que eles me tinham dado. Era egosta e mimada. Pensava que merecia melhor. Sabes, o que  engraado, quando envelhecemos,
 que pensamos que, com o tempo, a dor e o sofrimento abrandam, mas o tempo  irrelevante. Sinto o mesmo agora que sentia h quarenta anos. S por fora pareo diferente.
 Quando comeou a arrepender-se?
 Muito pouco depois de tu teres nascido, os meus pais vieram visitar-me.
 Sim, lembro-me de me ter dito.
 Bem, foi ento que compreendi que, se no convivemos com as pessoas, afastamo-nos  deriva. Eu andava  deriva, afastada da minha famlia. Penso que os meus pais
nunca se conformaram. Depois, vi-te a cometer os mesmos erros que eu. Queria tanto impe-
525
dir-te! A estavas tu, a fugir da tua famlia... e pensava eu que era tal como o teu pai!
 Oh, me, eu no quis ficar longe durante tanto tempo - protestou Sofia, chorosa. Como podia explicar o que tinha acontecido, o que sentia? Como podia ela fazer
com que a me compreendesse?
 Eu sei que no, rapariga,  esse teu maldito orgulho, teu e meu!
 Se calhar to m sou eu como a me, no ?
 Arrependi-me de te tratar com tanta dureza.
 Me, no precisa de dizer todas essas coisas  interrompeu Sofia, embaraada por a me estar a mostrar a alma.  No estamos na Confisso.
 No, eu quero dizer. Ests a ver, tu e eu no nos compreendemos uma  outra. Mas isso no  razo para no sermos amigas. Vamos sentar-nos, est bem?
Sofia sentou-se na erva seca diante da me e pensou como era apropriado que o av O'Dwyer estivesse presente naquela conversa.
 Quando eu casei com o teu pai, pensei que seria fcil comear vida nova num belo pas e com o homem que eu amava. Mas estava enganada. As coisas nunca so assim
to simples e, provavelmente, eu era o meu maior inimigo. Agora vejo isso. Acho que, quando envelhecemos, ganhamos um pouco de sensatez; a sensatez da retros-peco.
Essa foi uma coisa que o meu pai me ensinou. Ele tinha razo acerca de muitas coisas, mas a verdade  que no lhe prestei a ateno que devia. Oxal tivesse prestado.
Anna fez uma pausa e abanou a cabea. Tinha tomado a deciso de que ia fazer as pazes com a filha e no podia vacilar agora. Respirou fundo e puxou para trs das
orelhas o cabelo que lhe tinha cado para os olhos.
 Oh, Sofia, no posso esperar que tu compreendas. Uma pessoa nem sempre compreende os seus prprios sentimentos nem de onde eles vm; pior ainda  tentar compreender
os de outra pessoa. Mas a verdade  que eu no pertencia aqui. Este nunca foi o meu lugar. Tentei, mas no estava preparada para esta vida de cavalos e temperamentos
latinos. Achava a sociedade daqui muito implacvel e, por muito que tentasse inserir-me, nunca achei que conseguisse.
526
No queria reconhecer perante mim mesma que sentia a falta daquelas colinas verdes de Glengariff, da cara maldisposta da tia Dorothy e da minha to doce me que
eu tinha, bem, abandonado.
A voz de Anna falhou, mas ela continuou a falar. Os seus olhos estavam fixados algures, na meia distncia, e Sofia sentiu que aquele solilquio era tanto para si
como para a me.
 Espero que a minha mezinha me perdoe no Cu  acrescentou em voz baixa, erguendo os olhos para o cu.
Sofia deixou-se ficar sentada de olhos esbugalhados, temendo que, se os fechasse, o momento se perdesse. Nunca tinha ouvido a me falar daquela maneira. Se tivesse
sido assim aberta quando Sofia estava a crescer, talvez pudessem ter sido amigas verdadeiras. Depois, Anna surpreendeu-se at a si prpria.
 Tinha inveja de ti, Sofia  reconheceu. Mais honesta uma pessoa no podia ser e Sofia sentiu um aperto na garganta.
 Inveja?  disse em voz spera.
 Porque tu fazias com que tudo parecesse to fcil. Queria aparar-te as asas e impedir-te de voar, porque eu no conseguia voar  disse ela, roucamente.
 Mas, me, eu queria que reparasse em mim, por isso me comportava mal. A me s tinha olhos para os meus irmos  disse Sofia, mas a sua voz mais parecia um grito.
 Eu sei. No conseguia ligar-me a ti. Eu tentei.
 Eu queria tanto que fosse minha amiga. Costumava ver Maria com Chiquita e desejava que entre ns fosse assim. Mas nunca fomos ntimas. Quando fui viver para Londres,
queria feri-la. Feri-los aos dois. Sabia que, se no voltasse para casa, ficariam tristes os dois. Queria que sentissem a minha falta. Queria que compreendessem
o muito que me amavam.  A voz de Sofia fracturou-se quando falou em amor. No conseguiu continuar.
 Sofia, vem c. Deixa-me dizer-te quanto te amo. Quanto lamento o passado e como compreendo que esta talvez seja a minha ltima oportunidade de fazer as pazes contigo.
Arrastando os ps, Sofia aproximou-se do stio onde a me estava sentada e ps-se ao p dela; deixou que Anna a abraasse e encostasse a cara  dela. Sentiu as lgrimas
da me nas suas faces.
527
 Eu amo-te, Sofia. s a minha filha.  Riu-se tristemente.  Como podia eu no te amar?
 Eu tambm a amo, me  respondeu Sofia a fungar.
 Sabes que o maior de todos os ensinamentos cristos  o perdo. Tu e eu temos de aprender a perdoar.
 Tentarei  disse Sofia.  E a me tem de tentar perdoar tambm ao pai  arriscou-se a dizer.
 Paco?
 O meu pai  repetiu ela.
Anna puxou a filha mais para junto de si e suspirou.
 Tens razo, Sofia. Tentarei perdoar-lhe tambm.
Mais tarde, Sofia foi dar um passeio a cavalo com Santi e Fernando. Reflectia sobre o que a me tinha dito. Olhando  sua volta, para Santa Catalina, sentiu que
conseguia comear a compreender o sentimento de isolamento de Anna, porque Sofia comeava lentamente a compreender que tambm no pertencia ali. Como era irnico
que o facto de a me invejar o lugar de Sofia em Santa Catalina tivesse sido a razo do azedume entre as duas; agora, o sentimento de isolamento de Sofia era precisamente
a causa do seu entendimento.
Sofia tinha de assistir passivamente quando Santi dava ordens a Javier. Para ele, Javier era como Pablo, um criado, mais nada. Era bondoso mas firme, como o resto
da sua famlia, Fernando era um pouco mais spero, tal como o pai, Miguel; era a sua maneira de ser. Como podiam eles saber que Javier era da sua carne, do seu sangue?
Sofia sorriu-lhe quando ele lhe selou o pnei e lho trouxe para ela montar e Javier correspondeu ao seu sorriso, mas o dele foi um sorriso que no revelava mais
afecto que por qualquer outra pessoa da sua famlia  provavelmente menos, pois mal a conhecia. No via as suas cores reflectidas nas dela, o seu sorriso e a sua
maneira de andar espelhados em Santi; no havia nenhuma ligao subconsciente que os atrasse aos trs, uns para os outros. Sofia tinha sonhado que a natureza lhe
permitiria ver de onde vinha, mas esse sonho no passava de um desejo romntico. Ao crescer, Javier tinha ficado mais parecido com Soledad e Antonio. Sofia interrogava-se
at que ponto ele teria ficado diferente se tivesse crescido com ela e Santi. Nunca saberia.
528
 Que fizeste hoje?  perguntou Maria ao fim do dia, quando ela e Sofia ficaram sozinhas no terrao, depois do jantar. Parecia estar melhor e conseguira comer com
eles  mesa, sob as estrelas. A humidade era opressiva. Todos sentiam a tempestade que abria caminho no horizonte.
 Fui visitar a sepultura do av  respondeu Sofia. Maria sorriu-lhe na escurido. De repente, Sofia desejou no ter recordado a morte  prima.  Como te sentes?
 perguntou, mudando de assunto.
 Na verdade, sinto-me melhor. Pela primeira vez, no me sinto doente. Sinto-me bem de novo. Talvez as vossas velas tenham resultado  disse, referindo-se  visita
deles  igreja, na vspera.
 Seria muito bom. Rezmos com muita f  respondeu Sofia, esperanosamente.
Ficaram sentadas durante um bocado. Sofia tinha plena conscincia de que os outros as tinham deixado sozinhas para conversarem. Ficou grata por aquele momento de
privacidade com a amiga.
 Sofia, que vais fazer?  perguntou Maria com cautela.
 Que queres dizer?  perguntou, fingindo-se inocente. Mas Maria conhecia-a perfeitamente, tal como Santi.
 Sabes o que quero dizer. No fim, tens de ir para casa. Sofia engoliu em seco.
 Eu sei. Mas agora no consigo pensar nisso.
 Tens de pensar. Tens marido e duas filhas. No os amas?
 Amo-os, sim. Amo-os muito. Mas esto to longe!
 Santi tambm tem filhos e mulher que ama muito.
 No como me ama a mim  insistiu ela, na defensiva.
 Mas no pode ter-te. No vs?  impossvel.
Sofia sabia que ela tinha razo, mas no queria enfrentar a verdade. Tudo era to perfeito. Eram to felizes juntos; ela no conseguia imaginar que tudo acabasse.
Maria agarrou-lhe na mo e apertou-lha.
 Sofia  continuou , est tudo muito bem por agora. Esto a dois a viver um sonho. Mas que vo fazer quando eu partir? Santi ter de regressar a Buenos Aires,
tem um negcio para gerir. As coi-
529
sas vo regressar  normalidade e, nessa altura, qual ser a tua situao? Que querem vocs... fugir juntos? Abandonar as vossas famlias?
 No! Sim! No sei  replicou ela, confusa.
 Sofia, concordo que esto bem juntos, mas  demasiado tarde. Amo muito o meu irmo; daria o que fosse preciso para que fossem os dois felizes. Mas no podem destruir
as vidas das pessoas que os rodeiam. Nunca mais seriam capazes de se verem ao espelho. Nenhum poderia respeitar uma pessoa que fosse capaz de abandonar os filhos
dessa maneira. Podem, de facto, construir a vossa felicidade sobre a infelicidade de outras pessoas?
 Eu amo-o, Maria. No quero saber de mais nada. Acordo com ele no meu pensamento e adormeo a sonhar com ele. Respiro-o. Tenho de estar com ele. S no queria viver
sem ele. Sofri tanto quando o deixei, h tantos anos. No sou capaz de passar outra vez pelo mesmo!
 Faz como entenderes  admitiu Maria com bondade.  Mas pensa no que te disse.
Sofia abraou a amiga, to frgil e contudo to corajosa. Sentiu uma grande onda de amor por ela. Quando saiu, as primeiras gotas de chuva caam do cu.

CAPTULO QUARENTA E NOVE
Quarta-feira, 12 de Novembro de 1997
O trovo rugiu como um leo enfurecido a passear nos cus. Sofia desejou correr para casa de Santi e enrolar-se nos seus braos. O dilvio caa em grossos pingos
contra a janela do seu quarto, ressoando furiosamente no vidro. Ficou a olhar l para fora, no escuro. Ainda estava muito calor. De vez em quando, um raio iluminava
o seu quarto com um trmulo resplendor prateado. Sofia no tinha medo, apenas se sentia triste.
As palavras de Maria andavam s voltas no seu esprito e no conseguia libertar-se delas. Seria realmente impossvel ela e Santi ficarem juntos? Tinha tentado adormecer,
mas a trovoada reflectia a perturbao na sua cabea e s rebolou na cama, cheia de angstia. Por fim, saiu para a chuva e deixou que as pesadas gotas cassem sobre
si. No se importou de se molhar; na verdade, sentia-se grata por isso, pois a noite estava hmida e viscosa. Saboreou a paz da escurido, que sempre tinha tido
para ela um estranho fascnio. Perdeu-se nela. Andando pelo ptio, entregou-se  doce melancolia da sua desolao. Amava Santi, mas amava-o o suficiente para o deixar
ir?
Olhou para o relgio  luz que abanava ao vento por cima da porta. Eram trs da manh. Sentiu um arrepio que lhe prostrou momentaneamente o corpo, apesar do calor.
De repente, foi dominada pelo pnico. Pressentiu um terrvel pavor no prprio cerne do seu ser. Alguma coisa estava mal, tinha a certeza.
Deu por si a correr debaixo da chuva e do vento para casa de Chiquita. No sabia o que faria quando l chegasse. Limitava-se
531
a correr. A gua escorria-lhe pela cara abaixo e ensopava a camisa de dormir, de tal maneira que se colava ao seu corpo como ervas daninhas. Todas as vezes que estalava
outro trovo ela corria mais, saltando por cima da erva quando o raio caa. Ao chegar, bateu  porta com fora. Quando a cara de Miguel apareceu, enrugada e ansiosa,
ela caiu nos braos dele.
 Alguma coisa est mal!  gritou sem flego.
Ele olhou-a, confuso, mas antes que conseguisse dizer alguma coisa, ela empurrou-o para passar. Santi apareceu, vindo no se sabe de onde, e de repente toda a casa
estava acordada. Quando entrou no quarto de Maria, os seus temores confirmaram-se. Maria estava morta.
Sofia estava inconsolvel. Miguel e Chiquita abraaram-se um ao outro, como se as suas vidas dependessem do abrao. Panchito e Fernando estavam cados nas cadeiras,
a chorar. Santi ajoelhou-se no cho junto da cama de Maria e acariciava-lhe a mo, com a cara plida de resignao; Eduardo, que tinha estado com ela at ao fim,
olhava pela janela, como se estivesse em transe. Sofia ficou ali parada, enquanto os seus sonhos se desintegravam  sua volta.
Lanou um ltimo olhar  amiga. Maria estava ainda mais bela na morte do que tinha sido em vida. A sua pele parecia porcelana e tinha no rosto uma expresso de paz.
O seu corpo decrpito estava ali, imvel e pesado, e Sofia tinha perfeita conscincia de que no passava de um invlucro, uma casa vazia onde ela tinha vivido, mas
da qual agora estava livre. Estava feliz por ela, que tinha sido finalmente libertada das dores. Sabia que ela estava noutra dimenso, onde a infelicidade e a doena
no podiam alcan-la, mas... e eles?
Miguel beijou a testa da filha e depois saiu com Chiquita, Fernando e Panchito, para deixarem Eduardo sozinho com a esposa. Santi foi ter com Sofia, com a cara macilenta
de desespero. Abraou-a e levou-a para o corredor onde ambos se entregaram ao desgosto. Depois de muito chorarem em silncio, ele segurou-lhe a cara entre as mos
e limpou-lhe as lgrimas com os polegares. Os seus olhos estavam inundados de ternura.
 Para onde vamos a partir daqui?  sussurrou ela, quando conseguiu controlar-se para falar.
532
Ele abanou a cabea e suspirou pesadamente. - No sei, Chofi. No sei mesmo. Mas ela sabia. Maria tinha razo.
Depois disso, os acontecimentos passaram numa mancha indistinta. O funeral foi uma cerimnia pequena e digna, durante a qual Sofia e Santi mal trocaram um olhar.
Claudia e as crianas tinham regressado com os filhos de Eduardo e de Maria. No se ouviam risos. A chuva tinha passado, mas o Sol no conseguia levar satisfao
ao corao de ningum.
Sofia sentou-se com os pais nos assentos desconfortveis da igreja e o padre Juan fez um sermo fluente que os comoveu a todos at s lgrimas. Mais lgrimas. Sofia
notou que os pais estavam de mos dadas e que trocaram olhares ternos uma ou duas vezes. A piedade deles comoveu Sofia, esperanosa de que, com a perda de Maria,
eles conseguissem reencontrar-se. Estavam todos esmagados ao despedirem-se daquela mulher jovem que tinha tantas razes para viver. Sofia mal conseguia olhar para
a famlia de Maria sem sentir uma tristeza indescritvel. Os filhos dela nem sequer se tinham despedido.
Maria foi enterrada no pequeno tmulo que pertencia  famlia, ao lado dos avs e de outros parentes que tinham partido antes dela. Sofia colocou algumas flores
e rezou uma pequena orao por ela. A certa altura, teria olhado para aquele tmulo como o lugar do seu repouso eterno, mas agora compreendia que seria enterrada
muito longe dali e que no seu funeral os rostos presentes seriam outros.
Claudia pestanejou, olhando para Sofia por entre as lgrimas, e ela percebeu o que estava a pensar. Tudo tinha chegado ao fim. J no tinha razo para ficar.
Abraou Chiquita e agradeceu-lhe por lhe ter escrito.
 Estou satisfeita por me ter encontrado. Estou satisfeita por ter vindo  disse, com toda a verdade.
 Tambm estou feliz por teres vindo, Sofia  respondeu ela.  Mas no te mandei nenhuma carta.
Se Chiquita no lhe tinha mandado a carta, quem tinha sido'? Quando se encaminhavam para os automveis, parou um txi de onde saiu um homem que Sofia reconheceu.
Era o seu irmo 
533
Agustin. Foi direito a Chiquita e a Miguel, abraou-os aos dois e disse-lhes que lamentava que Maria tivesse sido levada de junto deles.
 Mas eu voltei  disse alegremente a Paco e a Anna.  Deixei Marianne e as crianas. Regressei a casa.
Quando viu Sofia, cumprimentou-a com a delicadeza de um estranho. Foi ento que Sofia compreendeu tudo o que aqueles longos anos de afastamento lhe tinham roubado.
Tinham-na mudado. J no pertencia ali.
De regresso a Santa Catalina, telefonou a David.
 David, ela partiu  disse tristemente.
 Minha querida, como lamento!  A voz dele era compadecida.
 J nada resta para mim aqui. Vou para casa.
 Diz-me quando chega o teu voo, eu vou buscar-te e levo as meninas.
 Oh, sim, por favor leva as meninas.  De repente, sentiu uma tremenda vaga de saudades de casa.
Sofia fez as malas e preparou-se para a longa viagem de regresso a casa. De repente, Santa Catalina pareceu-lhe longnqua e fria, como se desejasse diminuir a sua
dor por deix-la. As cinco horas, quando as sombras comeam a aproximar-se e a noite se torna mais fresca, o seu carro parou debaixo dos eucaliptos. Ela estava 
sombra deles e despediu-se do pai.
 Isto  tudo muito repentino. Quando te veremos outra vez?
 perguntou ele em tom de resmungo para ocultar a tristeza, mas ela viu na expresso dele que no suportava deix-la partir.
 No sei, pai. Tem de compreender que este j no  o meu lar  respondeu, lutando contra as suas emoes.  Tenho marido e duas filhas que esto  minha espera
em Inglaterra.
 Mas nem sequer te despediste de ningum.
 No tenho foras.  melhor partir discretamente... acho que nunca fiz nada discretamente  ironizou ela, com muito mau gosto.
 Pertences aqui, Sofia  disse ele.
534
 J pertenci. E uma parte de mim estar sempre aqui  respondeu, reparando que os olhos do pai se viravam para os campos de plo  distncia.
 Sim, estar.  Ele acenou e soltou um suspiro profundo.
 Obrigada, pai  disse, e tocou na mo dele. Ele virou-se de frente para ela, sem saber se estava a compreender o que ela tentava dizer-lhe.  Deu um lar ao meu
filho  acrescentou ela.  Que ironia, no ? Ele pertence ao lar que eu perdi.  Os olhos de Paco brilharam enquanto procurava alguma coisa para dizer.  Sei que
o pai fez o que estava certo  disse-lhe apressadamente.  S desejaria ter regressado com ele. Assim, nunca me teria sentido afastada das pessoas que amo.
Ao ouvir estas palavras, Paco tomou a filha nos braos e abraou-a com tanta fora que ela compreendeu que o pai escondia lgrimas que no queria que ela visse.
Nesse momento, Anna apareceu  porta como um espectro. As ltimas vinte e quatro horas estavam marcadas nas suas olheiras negras. Parecia cansada e derrotada.
 Me  exclamou Sofia, surpreendida, afastando-se com relutncia do abrao do pai e limpando as faces com mo trmula.
 Gostaria que ficasses  disse Anna em voz baixa, aproximando-se dela com uma expresso suave no rosto. Passou da sombra para o sol, e estendeu as mos para ela.
Sofia agarrou-as.  Maria est com Deus, agora.
 Eu sei. Est com o av  disse ela, baixinho.
 Telefonas-nos?  perguntou Anna e Sofia notou que o gelo dos seus olhos azuis desaparecia.
 Telefono. Gostaria que um dia conhecessem as minhas filhas.
 Eu gostava  respondeu a me.  O teu quarto estar sempre  tua espera, mas acho que est na altura de o despejar, no achas?
Sofia acenou, sorrindo para esconder a emoo. Nos olhos da me via remorso, como se estivesse a chorar dentro da concha do seu corpo, mas sem conseguir exprimir
fisicamente os seus sentimentos. Sofia pressentiu que a me estava em luta consigo mesma. Instintivamente, deu o primeiro passo para ela. Ps os braos  volta
535
dela e puxou o seu corpo magro para si. Anna no ofereceu resistncia. Quando abraou a me, Sofia sentiu um calor a irradiar dela que h muitos anos no sentia.
Recordou aqueles poucos momentos, quando era criana, em que a me a tinha apertado nos braos e acarinhado. Ainda tinha o mesmo cheiro e esse aroma escancarou a
ltima porta das recordaes de Sofia. Sentiu que o peso vindo dos ressentimentos mantidos durante tanto tempo desaparecia e a libertava. Talvez, como Anna tinha
sugerido, ambas aprendessem a perdoar.
 Estou contente por teres vindo.
Anna sorriu para a filha e de repente Sofia lembrou-se da carta. Se Chiquita no tinha escrito, devia ter sido a me. Afinal, sempre queria que ela viesse. Devia
t-la escrito, assinando-a com o nome da cunhada, com receio de que, se a assinasse com o seu prprio nome, a filha no viesse.
 A carta... foi a me, no foi?  perguntou Sofia, e riu-se.  Muito astuta, me!
 Tambm sou capaz de ser astuta, Sofia  censurou Anna.  Ah, espera um instante, no vs ainda. Tenho uma coisa para ti  disse ela, com uma exploso de entusiasmo
sbito pouco caracterstico.  Uma coisa que j devias ter recebido h muito tempo. Espera, eu vou buscar.
Anna regressou ao interior sombrio da casa. Paco notou um baloiar no seu andar que lhe recordou a Ana Melodia que tinha perdido algures no passado, no se lembrava
quando, e os seus lbios tremeram com a esperana de que talvez conseguisse encontr-la de novo. Quando regressou, trazia um pacote vermelho nas mos. Entregou-o
 filha, que o revirou, curiosa. Comeou a rasgar o papel.
 Abre-o no carro  insistiu Anna, pousando uma mo no pacote, para a impedir de ver o que estava l dentro.   uma coisa para te lembrares de ns.
Sofia olhou para a me a pestanejar, mas a nvoa nos seus olhos s a deixava ver uma mancha.
Paco abraou a filha pela ltima vez, aliviado por partilhar com ela o segredo que tinha guardado durante vinte e trs anos; j no havia mais segredos a separ-los.
Sofia agradecera-lhe por ter dado a Javier o melhor lar que ele podia ter. Pertencia a Santa Catalina.
536
Sofia abraou-o tambm, sabendo que muitas luas passariam at poder abra-lo outra vez. Lanou mais um olhar ao local que fora outrora o seu lar e compreendeu que,
embora tivesse mudado e andado com a sua vida para a frente, aquele lugar viveria no seu corao e na sua memria, sem manchas, como fotografias a spia de outro
tempo mais feliz. Maria tambm estaria ali, com o seu rosto radioso a sorrir por entre os jasmins-azuis e os hibiscos.
Sofia entrou no automvel e acenou uma ltima despedida aos pais que, ao fim de tantos anos de desentendimento, tinham finalmente voltado a conhecer a filha. Rasgou
o papel encarnado com impacincia. Que lhe teria comprado a me? Quando puxou para fora um cinto de couro preto com fivela de prata com as suas iniciais gravadas,
a mancha dos seus olhos transformou-se numa torrente de grandes lgrimas sentimentais.
Quando seguia pela avenida de rvores altas e a casa j comeava a desaparecer nas sombras, disse ao motorista:
 Vire  esquerda, ao fundo. H um ltimo lugar onde quero ir antes de entrarmos na estrada.
E indicou-lhe o ombu.

CAPTULO CINQUENTA
O carro chocalhou pelo trilho de terra batida at onde conseguiu ir. Quando chegaram ao fim, ela pediu ao condutor que esperasse por ela, pois faria o resto do caminho
a p. Agora, depois da tempestade, o ar estava fresco e a erva mais verde graas  chuva de que to desesperadamente precisava. Sofia percorreu com o corao pesado
o caminho por onde tinha passado tantas vezes nos ltimos dias. Sentia-se esgotada de emoes, como se os seus nervos se tivessem simplesmente desligado e se recusassem
a continuar a sentir.
Chegou  rvore que tinha assistido a todas as suas atribulaes. Erguia-se, majestosa e orgulhosa, como um velho e querido amigo, que nunca julgava mas observava
com uma compreenso discreta. Passou a mo pelo tronco com afecto e recordou tempos mais felizes com Santi. Olhando para os campos, viu os gachos que jogavam plo
 distncia, com os seus corpos morenos, sem camisa, ao calor. Javier era um deles. No saberia dizer qual, mas sabia que estava ali. Ali, onde pertencia.
De repente, sentiu a presena de outra pessoa. Virou-se e viu a cara carrancuda de Santi, que ficou com um ar to espantado ao v-la como Sofia ao v-lo.
 Disseram que te tinhas ido embora. No sabia o que havia de fazer comigo  exclamou ele, atormentado, e abraou-a.
 No suportava despedir-me de ti outra vez. No conseguia, simplesmente, faz-lo  murmurou ela, com uma esmagadora sensao de desolao.
538
 Mal acabei de te encontrar outra vez  disse ele, infelicssimo.  No posso deixar-te partir.
  impossvel, no ? Se ao menos...
 No  disse ele, sufocado.  Se seguirmos por esse caminho do se ao menos, destrumo-nos por completo.  Enterrou a cara no cabelo dela, como se quisesse esconder-se
do inevitvel.
 Eu no seria a mulher que amas se fosse capaz de abandonar as minhas filhas  disse ela com tristeza, recordando o conselho de Maria. Pensou em Javier e a dor
de deix-lo ficar, ao fim de todos aqueles anos, continuava a pesar-lhe na conscincia.
 S quero respirar o mesmo ar que tu.
 Mas Maria tinha razo. As nossas vidas so agora to diferentes; cada um de ns tem uma famlia que ama. No podemos destruir todas essas pessoas.
 Eu sei. Mas continuo a tentar encontrar uma maneira de contornar a situao.
 No h maneira. Este j no  o meu lugar.
 O teu lugar  junto de mim. O nosso lugar  juntos, um com o outro.
  um belo sonho, um encantador o que poderia ter sido. Mas  impossvel. Sabes que  impossvel.
Ele acenou e suspirou profundamente, resignado.
 Ento deixa-me fazer o inventrio do teu rosto, para que nunca o esquea  disse ele, solenemente, passando os dedos pelas faces dela. Beijou-lhe os olhos, suaves
e castanhos como acar, disse, depois beijou-lhe o nariz, as tmporas, a testa, a maxila, dizendo-lhe porque amava cada parte que beijava. Depois chegou aos lbios.
 Nunca esquecerei a sensao de tocar-te, Chofi, o teu cheiro.  E saboreou o sal das lgrimas dela, enquanto a beijava.
Abraaram-se. Olhando para os olhos verde-mar de Santi, Sofia sabia que viveria nas suas profundezas secretas e que,  noite, quando fantasia e realidade so uma
s, ela surgiria para o amar mais uma vez. Ela beijou-lhe os lbios pela ltima vez e o sabor dele ficou com ela durante muito tempo depois de se separarem. Olhou
para trs uma vez para ver o seu vulto solitrio sentado junto da rvore deles. Acenou e depois virou-se para a frente e afastou-se. Aquela imagem
539
dele, sentado sozinho debaixo do ombu, surgir-lhe-ia depois, sempre que fechasse os olhos.
Dizem que o ombu no se d em Inglaterra. Mas eu escolhi um stio no nosso jardim em Gloucestershire onde o Sol se pusesse atrs dele e plantei-o. Ele cresceu.


Da mesma autora:
A Virgem Cigana

A publicar:
A ltima Viagem de Valentina


"Uma estreia impressionante. Inteligente e bem documentado. Hampshire Chronick

Muita intriga e paixo. Birmingham Evening Mail

Ambicioso... contm todos os ingredientes de base a uma boa saga.  impossvel no simpatizar com Sofia. Sunday Telegraph

Um primeiro romance brilhante e uma histria clssica. OK Magazine

Todos os ingredientes de um grande livro romntico: mantenha um pacote de lenos de papel  mo. Woman

Uma deliciosa histria de calor, poeira e sensualidade que mantm a tenso at ao final. Daily Mail

As descries da Argentina so fascinantes, h uma pitada de poltica para manter os leitores agarrados  histria e, como sempre, as dificuldades vividas por amantes
trgicos so matria para deliciosos momentos de escapismo. Sunday Times

Sofia Solanas cresce num rancho magnfico em plenas Pampas argentinas, num cenrio de plancies quentes e pores do Sol em tons de fogo. Mimada, orgulhosa e empreendedora,
 adorada por todos  sua volta, mas incompreendida pela me. Anna, de origem irlandesa, no se consegue adaptar  vida na Argentina e castiga a filha pela sua prpria
alienao, privilegiando os outros filhos. Quando Sofia se entrega a uma paixo que s poder trazer vergonha  sua famlia, a me envia-a para a Europa, exilando-a
da terra e do homem que ela ama durante vinte anos. At que uma tragdia chama Sofia de volta a casa.
